segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Qual será o próximo passo?

A enchente de informações jogada sobre todos os brasileiros em relação aos acontecimentos no Complexo do Alemão deixou boiando, pelo menos na minha cabeça, algumas preocupações. Ainda não digeri tudo. Talvez a forte exposição do tema, e a forma como a retomada do morro carioca pela polícia foi tratada pelos meios de comunicação tenha me deixado tonto. Ou paranóico. Mas há muitas perguntas a serem respondidas.
Em primeiro lugar, fiquei preocupado com o nosso jornalismo. Não vi um programa em que a sensação passada pelos repórteres e apresentadores de telejornais – era a de uma criança que pela primeira vez vai para a praia. Muito deslumbramento, pouco senso crítico. As imagens e o tom comovente utilizado fazem parecer que a ordem voltou. Parece que o Estado – leia-se os governos municipal, estadual e federal – finalmente fez a sua parte. E que as apreensões – o que e quanto foi apreendido – dão a ideia de que o tráfico de drogas está quase encerrado.
Sei não. Quantos morros destes ainda precisam ser ocupados pelos agentes de segurança nesse país? Se tudo o que foi achado estava apenas no complexo do Alemão, o que pode haver nos demais? E os traficantes que fugiram? Será que não foram engrossar a turma de algum outro morro para aumentar a resistência? Ou se mudaram para outro local “mais seguro” para “recomeçar a vida”? As facções Comando Vermelho e Amigos dos Amigos vão ficar “quietas”, sem reação? Não farão mais outras ações terroristas e vão simplesmente deixar de lado o “ganha-pão”? Ou esperam que as forças de segurança relaxem? As comunidades estão realmente seguras, ou acabarão ameaçadas, chantageadas, pelos antigos donos dos morros? E em São Paulo? E o Primeiro Comando da Capital? Vão mexer com eles? Ou a prioridade é limpar as praias do belo Rio de Janeiro visando a Copa do Mundo?
Não fique você pensando que sou contra essas operações! Pelo contrário! Não chego a pensar como meu amigo Alexandre que sempre usa a célebre frase “Direitos Humanos para humanos direitos”, mas acho que tolerância não combina muito com as atitudes destes indivíduos. Só estou (paranóico?) conjecturando algo que não ouvi nem nas bodegas da vida...
E tem outra: quais serão as medidas para manter as conquistas e ampliar ainda mais o combate ao tráfico? Vão aumentar o salário dos policiais a um patamar suficiente para que eles não precisem fazer bicos ou aceitar propinas? E serão equipados a um ponto que não passem vergonha diante dos arsenais contrabandeados pelos criminosos? E terão ainda mais treinamento para executar as operações? E teremos, daqui para frente, leis mais rígidas? Mais cadeias, e estruturadas para não se tornem universidades de bandidos? E como ficam as fronteiras que temos com Bolívia, Colômbia e Paraguai? Terão vigilância redobrada?
E os consumidores, que alimentam o tráfico? As imagens mostradas à exaustão sensibilizarão os clientes dos traficantes? Será preciso investir mais em campanhas anti-drogas? Será rediscutida a política de tratamento para dependentes químicos? Ou finalmente será cogitada a possibilidade de se abrir um debate pensando na legalização de (determinados) entorpecentes? Ou tudo isso até agora foi apenas pirotecnia?
A própria polícia do Rio reconhece que apenas uma batalha está ganha, mas a guerra está só começando. Lembro de ter ouvido Bezerra da Silva, conhecedor dos morros cariocas, ter dito que “malandro não pára, malandro dá um tempo”. Até quando a “paz” vai reinar? Qual será o próximo passo?


(03-12-10)