A enchente de informações jogada sobre todos os brasileiros em relação aos acontecimentos no Complexo do Alemão deixou boiando, pelo menos na minha cabeça, algumas preocupações. Ainda não digeri tudo. Talvez a forte exposição do tema, e a forma como a retomada do morro carioca pela polícia foi tratada pelos meios de comunicação tenha me deixado tonto. Ou paranóico. Mas há muitas perguntas a serem respondidas.
Em primeiro lugar, fiquei preocupado com o nosso jornalismo. Não vi um programa em que a sensação passada pelos repórteres e apresentadores de telejornais – era a de uma criança que pela primeira vez vai para a praia. Muito deslumbramento, pouco senso crítico. As imagens e o tom comovente utilizado fazem parecer que a ordem voltou. Parece que o Estado – leia-se os governos municipal, estadual e federal – finalmente fez a sua parte. E que as apreensões – o que e quanto foi apreendido – dão a ideia de que o tráfico de drogas está quase encerrado.
Sei não. Quantos morros destes ainda precisam ser ocupados pelos agentes de segurança nesse país? Se tudo o que foi achado estava apenas no complexo do Alemão, o que pode haver nos demais? E os traficantes que fugiram? Será que não foram engrossar a turma de algum outro morro para aumentar a resistência? Ou se mudaram para outro local “mais seguro” para “recomeçar a vida”? As facções Comando Vermelho e Amigos dos Amigos vão ficar “quietas”, sem reação? Não farão mais outras ações terroristas e vão simplesmente deixar de lado o “ganha-pão”? Ou esperam que as forças de segurança relaxem? As comunidades estão realmente seguras, ou acabarão ameaçadas, chantageadas, pelos antigos donos dos morros? E em São Paulo? E o Primeiro Comando da Capital? Vão mexer com eles? Ou a prioridade é limpar as praias do belo Rio de Janeiro visando a Copa do Mundo?
Não fique você pensando que sou contra essas operações! Pelo contrário! Não chego a pensar como meu amigo Alexandre que sempre usa a célebre frase “Direitos Humanos para humanos direitos”, mas acho que tolerância não combina muito com as atitudes destes indivíduos. Só estou (paranóico?) conjecturando algo que não ouvi nem nas bodegas da vida...
E tem outra: quais serão as medidas para manter as conquistas e ampliar ainda mais o combate ao tráfico? Vão aumentar o salário dos policiais a um patamar suficiente para que eles não precisem fazer bicos ou aceitar propinas? E serão equipados a um ponto que não passem vergonha diante dos arsenais contrabandeados pelos criminosos? E terão ainda mais treinamento para executar as operações? E teremos, daqui para frente, leis mais rígidas? Mais cadeias, e estruturadas para não se tornem universidades de bandidos? E como ficam as fronteiras que temos com Bolívia, Colômbia e Paraguai? Terão vigilância redobrada?
E os consumidores, que alimentam o tráfico? As imagens mostradas à exaustão sensibilizarão os clientes dos traficantes? Será preciso investir mais em campanhas anti-drogas? Será rediscutida a política de tratamento para dependentes químicos? Ou finalmente será cogitada a possibilidade de se abrir um debate pensando na legalização de (determinados) entorpecentes? Ou tudo isso até agora foi apenas pirotecnia?
A própria polícia do Rio reconhece que apenas uma batalha está ganha, mas a guerra está só começando. Lembro de ter ouvido Bezerra da Silva, conhecedor dos morros cariocas, ter dito que “malandro não pára, malandro dá um tempo”. Até quando a “paz” vai reinar? Qual será o próximo passo?
(03-12-10)
Espaço destinado a publicar as colunas que escrevo desde 01-05-09 no jornal Folha do Noroeste, de Frederico Westphalen. E eventualmente para qualquer outra coisa. Sobretudo, para expôr minha visão das coisas, o que na maioria das vezes não quer dizer muita coisa. Ps: São todos textos do Thiago Buzatto.
segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
Sabe qual é um dos grandes problemas da nossa política? É a mania de parlamentares em querer ter o poder do Executivo. É um sonho de todos os vereadores, deputados e senadores poder mandar fazer o que (não) fazem prefeitos, governadores ou presidente.
Até acho compreensível, pelo menos por dois motivos. Primeiro porque os eleitores, em muitos casos, acham que seus representantes têm essa prerrogativa. E, pela maior proximidade com eleitos para o Legislativo do que par ao Executivo, é para eles que pedem coisas que deveria ser encaminhado aos órgãos de governo.
Claro que a influência dos parlamentares junto ao Executivo é importante. Mas vem aqui o segundo motivo indicado acima: a publicidade. Afinal, quando os problemas são resolvidos, o reconhecimento geralmente vai para quem?
Vou exemplificar: precisa-se asfaltar uma rua. O povo reclama para o vereador, que vai até a prefeitura. O prefeito diz que não tem dinheiro, e o vereador procura um deputado, que busca recursos nos ministérios (mesmo uma emenda precisa da liberação de recursos via ministério). Aí, o dinheiro, depois de muita insistência, é liberado para a Prefeitura, e a obra é feita. E quem é que leva a fama? Quem inaugura a rua?
***
Falta compreensão sobre quais são as funções do Legislativo. Na antiga disciplina de Moral e Cívica aprendíamos que era fiscalizar as ações do Executivo e propôr leis. Mas fiscalizar não dá muita notoriedade (apenas em CPIs, mais pelos confetes do que pela seriedade do trabalho). Então, para ganhar um pouco de fama, o pessoal do Legislativo acaba apelando ao elaborar leis inúteis. Não tenho uma estatística confiável, mas tenho a sensação de que 93,49% das proposições são bobagens (ok, até acho que é necessário que ruas tenham nomes. Também é importante reconhecer os valores da terra com moções de aplauso, entrega de medalhas, ou o que for. Mas lamento – e muito - quando os trabalhos se limitam a isso).
***
Bom, agora vou explicar o que me levou a escrever essa coluna. Há dois projetos de lei tramitando na Câmara dos Deputados. Um propõe a proibição da realização de festas “Open Bar”, em que os frequentadores pagam um valor de ingresso e pode consumir o que quiser. E o outro, ainda mais absurdo no meu entender, propõe a proibição de venda de bebidas em garrafas de vidro em boates, com a justificativa de que evitaria brigas.
Santa inocência dessas crituras. Como se, acabando com festas “Open Bar”, automaticamente as pessoas beberiam menos, e não dirigiriam embriagados. E evitariam brigar em boates porque não tem garrafas de vidro para agredir os outros (vamos proibir as cadeiras também, segundo esse raciocínio).
Tudo isso não passam de um “moralismo” as avessas. Creio que os autores vão se divulgar como cidadãos preocupados com “a violência causada pelo álcool”, com “a falta de segurança causada pelo álcool”, com “festas que incentivam a ingestão de álcool”, com “as mortes no trânsito causados pelo álcool”. Beleza! Deram o recado. E não resolveram bulhufas.
***
Para concluir: uma pesquisa da Ong Transparência Brasil feita nos seis meses indica que 38% do que foi votado no Senado nos seis anos anteriores ou não tem pé nem cabeça ou não tem a menor utilidade. O portal R7, ao repercutir essa pesquisa em 2009, citou alguns destes projetos: 1) obriga a Aeronáutica a contar tudo sobre extraterrestres; 2) proíbe que bichos de estimação recebam nome de gente; 3) designa o dia 18 de junho para comemorar o dia do Tambor de Crioula (uma dança africana comum no Maranhão). Deve ser divertido elaborar projetos como estes. Acho que é por isso que a fiscalização fica sempre em segundo plano. E deve ser isso o que tanto tranca a pauta das sessões...
(publicado em 26-11-10, sem tpitulo, pq na correria acabei esquecendo)...
Até acho compreensível, pelo menos por dois motivos. Primeiro porque os eleitores, em muitos casos, acham que seus representantes têm essa prerrogativa. E, pela maior proximidade com eleitos para o Legislativo do que par ao Executivo, é para eles que pedem coisas que deveria ser encaminhado aos órgãos de governo.
Claro que a influência dos parlamentares junto ao Executivo é importante. Mas vem aqui o segundo motivo indicado acima: a publicidade. Afinal, quando os problemas são resolvidos, o reconhecimento geralmente vai para quem?
Vou exemplificar: precisa-se asfaltar uma rua. O povo reclama para o vereador, que vai até a prefeitura. O prefeito diz que não tem dinheiro, e o vereador procura um deputado, que busca recursos nos ministérios (mesmo uma emenda precisa da liberação de recursos via ministério). Aí, o dinheiro, depois de muita insistência, é liberado para a Prefeitura, e a obra é feita. E quem é que leva a fama? Quem inaugura a rua?
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Falta compreensão sobre quais são as funções do Legislativo. Na antiga disciplina de Moral e Cívica aprendíamos que era fiscalizar as ações do Executivo e propôr leis. Mas fiscalizar não dá muita notoriedade (apenas em CPIs, mais pelos confetes do que pela seriedade do trabalho). Então, para ganhar um pouco de fama, o pessoal do Legislativo acaba apelando ao elaborar leis inúteis. Não tenho uma estatística confiável, mas tenho a sensação de que 93,49% das proposições são bobagens (ok, até acho que é necessário que ruas tenham nomes. Também é importante reconhecer os valores da terra com moções de aplauso, entrega de medalhas, ou o que for. Mas lamento – e muito - quando os trabalhos se limitam a isso).
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Bom, agora vou explicar o que me levou a escrever essa coluna. Há dois projetos de lei tramitando na Câmara dos Deputados. Um propõe a proibição da realização de festas “Open Bar”, em que os frequentadores pagam um valor de ingresso e pode consumir o que quiser. E o outro, ainda mais absurdo no meu entender, propõe a proibição de venda de bebidas em garrafas de vidro em boates, com a justificativa de que evitaria brigas.
Santa inocência dessas crituras. Como se, acabando com festas “Open Bar”, automaticamente as pessoas beberiam menos, e não dirigiriam embriagados. E evitariam brigar em boates porque não tem garrafas de vidro para agredir os outros (vamos proibir as cadeiras também, segundo esse raciocínio).
Tudo isso não passam de um “moralismo” as avessas. Creio que os autores vão se divulgar como cidadãos preocupados com “a violência causada pelo álcool”, com “a falta de segurança causada pelo álcool”, com “festas que incentivam a ingestão de álcool”, com “as mortes no trânsito causados pelo álcool”. Beleza! Deram o recado. E não resolveram bulhufas.
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Para concluir: uma pesquisa da Ong Transparência Brasil feita nos seis meses indica que 38% do que foi votado no Senado nos seis anos anteriores ou não tem pé nem cabeça ou não tem a menor utilidade. O portal R7, ao repercutir essa pesquisa em 2009, citou alguns destes projetos: 1) obriga a Aeronáutica a contar tudo sobre extraterrestres; 2) proíbe que bichos de estimação recebam nome de gente; 3) designa o dia 18 de junho para comemorar o dia do Tambor de Crioula (uma dança africana comum no Maranhão). Deve ser divertido elaborar projetos como estes. Acho que é por isso que a fiscalização fica sempre em segundo plano. E deve ser isso o que tanto tranca a pauta das sessões...
(publicado em 26-11-10, sem tpitulo, pq na correria acabei esquecendo)...
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
Inversão de valores
Fala-se bastante de preconceito. E preconceito é sempre algo grave. Muito grave! Pois nesta semana tivemos um exemplo de como comentários preconceituosos podem beirar o ridículo. O fato foi protagonizado por um dos baluartes da imprensa catarinense. Contra pessoas pobres.
Se você não acompanhou o caso, explico rapidamente. Melhor será se você acessar o youtube e procurar por Luiz Carlos Prates. Será o primeiro vídeo listado. Veja logo antes que uma liminar retire o vídeo da rede.
O referido ocupa no Jornal do Almoço de Santa Catarina um espaço semelhante ao do Paulo Santana. Nas poucas vezes que acompanhei seus comentários, percebi que não chega aos pés do colega gaúcho. Suas opiniões muitas vezes expressam um reacionarismo de fazer inveja aos mais radicais conservadores. E um comentário feito nesta semana, sobre o trânsito intenso e os acidentes ocorrido no feriadão, comprovou que não é exagero afirmar isso. Segundo esse... ãh... (como é que vou chamá-lo sem usar palavras de baixo calão?) senhor, a culpada é toda “desse governo espúrio, que popularizou pelo crédito fácil o carro para quem nunca tinha lido um livro”.
Ou seja: o discurso do senhor Prates indica que pessoas pobres e com menor grau de instrução são culpados pelos os acidentes de trânsito. Veja este trecho: “o sujeito jamais leu um livro, mora apertado numa gaiola que hoje chamam apartamento, não tem nenhuma qualidade de vida, mas tem um carro na garagem. E este camarada, casado, como não suporta a mulher, nem a mulher suporta ele, sai, vão pra estrada, vão se distrair, vão se divertir. E aí, inconscientemente, o cara quer compensar as suas frustrações com excesso de velocidade”. Segue com outra pérola: “hoje qualquer miserável tem um carro”.
Como se o caos no trânsito não tivesse a participação daquelas pessoas que tem três, quatro carros na garagem para os familiares poderem andar sozinhos; como se o cara que mora a 50 minutos do trabalho também não pudesse querer um veículo para se deslocar com mais conforto, como faz determinadas pessoas que não andam três quadras sem um automóvel; como se adolescentes criados em “berço de ouro” não enchessem a cara e não pegassem o carrão dos pais para testar a potência; como se somente pessoas com alto poder aquisitivo tivesse o direito de pegar a estrada para a praia num feriadão; como se todos os ricos fossem cultos e capazes, e pessoas com menos saúde financeira fosse burra e inaptos a dirigir; etc, etc, etc...
O que dizer? Já vi coisas sendo ditas irresponsavelmente nos meios de comunicação. Mas este é um caso extremo. Não importa se ele vai se desculpar, se vai ser demitido, se vai ficar na geladeira. Para mim, o que importa é que alguém com um raciocínio destes não pode ocupar um lugar de tamanho destaque num grande veículo de comunicação. Colocar a culpa no governo por não ter estradas em condições é uma coisa. Agora, culpar o governo por proporcionar à população acesso à bens de consumo? Acho que há uma inversão grave de valores aí. E é assim que a coisa se espalha...
link do video:
http://www.youtube.com/watch?v=uwh3_tE_VG4
PS: Pior que me deu peso na consciência. Escrevi uma coluna em 10 de setembro falando sobre o assunto. Afirmei que até era favorável que os preços do combustível e dos automóveis fossem elevados, pois não temos infraestrutura suficiente para suportar o trânsito. Mas juro que minha intenção não foi ser elitista (até porque eu não tenho carro e também moro numa gaiola que hoje em dia chamam de apartamento).
Se você não acompanhou o caso, explico rapidamente. Melhor será se você acessar o youtube e procurar por Luiz Carlos Prates. Será o primeiro vídeo listado. Veja logo antes que uma liminar retire o vídeo da rede.
O referido ocupa no Jornal do Almoço de Santa Catarina um espaço semelhante ao do Paulo Santana. Nas poucas vezes que acompanhei seus comentários, percebi que não chega aos pés do colega gaúcho. Suas opiniões muitas vezes expressam um reacionarismo de fazer inveja aos mais radicais conservadores. E um comentário feito nesta semana, sobre o trânsito intenso e os acidentes ocorrido no feriadão, comprovou que não é exagero afirmar isso. Segundo esse... ãh... (como é que vou chamá-lo sem usar palavras de baixo calão?) senhor, a culpada é toda “desse governo espúrio, que popularizou pelo crédito fácil o carro para quem nunca tinha lido um livro”.
Ou seja: o discurso do senhor Prates indica que pessoas pobres e com menor grau de instrução são culpados pelos os acidentes de trânsito. Veja este trecho: “o sujeito jamais leu um livro, mora apertado numa gaiola que hoje chamam apartamento, não tem nenhuma qualidade de vida, mas tem um carro na garagem. E este camarada, casado, como não suporta a mulher, nem a mulher suporta ele, sai, vão pra estrada, vão se distrair, vão se divertir. E aí, inconscientemente, o cara quer compensar as suas frustrações com excesso de velocidade”. Segue com outra pérola: “hoje qualquer miserável tem um carro”.
Como se o caos no trânsito não tivesse a participação daquelas pessoas que tem três, quatro carros na garagem para os familiares poderem andar sozinhos; como se o cara que mora a 50 minutos do trabalho também não pudesse querer um veículo para se deslocar com mais conforto, como faz determinadas pessoas que não andam três quadras sem um automóvel; como se adolescentes criados em “berço de ouro” não enchessem a cara e não pegassem o carrão dos pais para testar a potência; como se somente pessoas com alto poder aquisitivo tivesse o direito de pegar a estrada para a praia num feriadão; como se todos os ricos fossem cultos e capazes, e pessoas com menos saúde financeira fosse burra e inaptos a dirigir; etc, etc, etc...
O que dizer? Já vi coisas sendo ditas irresponsavelmente nos meios de comunicação. Mas este é um caso extremo. Não importa se ele vai se desculpar, se vai ser demitido, se vai ficar na geladeira. Para mim, o que importa é que alguém com um raciocínio destes não pode ocupar um lugar de tamanho destaque num grande veículo de comunicação. Colocar a culpa no governo por não ter estradas em condições é uma coisa. Agora, culpar o governo por proporcionar à população acesso à bens de consumo? Acho que há uma inversão grave de valores aí. E é assim que a coisa se espalha...
link do video:
http://www.youtube.com/watch?v=uwh3_tE_VG4
PS: Pior que me deu peso na consciência. Escrevi uma coluna em 10 de setembro falando sobre o assunto. Afirmei que até era favorável que os preços do combustível e dos automóveis fossem elevados, pois não temos infraestrutura suficiente para suportar o trânsito. Mas juro que minha intenção não foi ser elitista (até porque eu não tenho carro e também moro numa gaiola que hoje em dia chamam de apartamento).
É dia de feira... do livro
Cheguei a começar a escrever um texto sobre o Enem. Comecei a descarregar uma série de “elogios” ao tão aguardado Exame Nacional do Ensino Médio. Resolvi deixar de lado. Nossa educação está tão cambaleante, que prefiro falar um pouco sobre o que resta de bom. Nada mais oportuno do que falar da Feira do Livro. E sobre esse assunto, eu posso falar durante horas.
Num país onde cada pessoa lê em média dois livros por ano (tenho carregado vários nas costas, se a média é realmente esta), as Feiras do Livro são cada vez mais importantes. Não apenas como uma exposição das editoras, mas para a descoberta pelo gosto de ler.
Eu lembro como criei o hábito da leitura. No início das férias de 1993, minha mãe jogou no meu colo “Os pequenos Jangadeiros”, de Aristides Fraga Lima. Foi meu primeiro dos mais de 80 da Série Vaga-Lume que li entre a quarta e a oitava série (competia com amigos para ver quem tinha lido mais exemplares da coleção). Até então, os livros que lia eram pequenos, com temáticas infantis, cheio de figuras. O Menino Maluquinho (o mais clássico de todos), os contos da carochinha, Heide, A Fada que tinha idéias, As aventuras do Cachorrinho Samba, Pollyanna, Tom Sawyer... Tudo isso era legal. Mas eu ainda não tinha sigo pego e jogado dentro de um livro com uma linguagem mais adulta (são obras infanto-juvenis, mas eu achava adultas, na época). E a série Vaga-Lume conquistou mais um de seus milhares de leitores.
Não estou querendo posar de CDF. Nunca fui totalmente dedicado e entregue aos estudos (bem menos do que desejado pelos pais). Na sala de aula, nunca fui do tipo comportado (imagina, era um grande exemplo da espécie hiperativus tagarelus). Tenho até a tese de que aprendi a gostar de ler nos constantes (e merecidos) castigos, trancado no quarto. Sem televisão e sem poder sair de casa, restava estudar ou ler. Daí eu lia...
A Feira do Livro reforçou o “serviço” prestado pela Série Vaga-Lume. Ter contato com um escritor parecia algo tão grandioso... Eu lembro de uma vez que Marcelo Carneiro da Cunha foi palestrar no Roncalli. Falando numa linguagem pré-adolescente, as histórias contadas pelo autor de Codinome Duda e Duda 2 – A Missão fizeram que duas professoras – minha mãe e a dona Simone, mãe do Matheus – comprassem cada uma um dos livros para que nos revezássemos. No mesmo ano, consegui o autógrafo do Sérgio Capparelli, que escreveu Os Meninos da Rua da Praia, livro que tinha em casa e fui correndo ler. Mais tarde, reencontrei os textos de Capparelli, mas na faculdade.
Há dois anos, cobrindo a Feira do Livro de Sapiranga, conheci um dos meus heróis, o Ziraldo. Entrevistei-o. Peguei autógrafo. Caminhei pela praça da cidade conversando com ele. E quando vi, estava de novo com O Menino Maluquinho na cabeça. Moacyr Scliar, Luiz Antonio de Assis Brasil, Armindo Trevisan, Airton Ortiz, Juremir Machado da Silva. As Feiras do Livro me deixaram frente a frente com eles. Em Frederico veio o L.F. Verissimo!
Eu só lamento que o espírito das feiras não seja perene. Que, no outro dia, tudo fique esquecido. Que os livros comprados na maioria das vezes fiquem nas prateleiras. Que nas escolas, a leitura fique posta de lado para que o conteúdo seja concluído. Gostaria que um dia ainda fosse inventada uma fórmula mágica para que todo o dia fosse dia do livro.
publicado em 12 de outubro na Folha
Num país onde cada pessoa lê em média dois livros por ano (tenho carregado vários nas costas, se a média é realmente esta), as Feiras do Livro são cada vez mais importantes. Não apenas como uma exposição das editoras, mas para a descoberta pelo gosto de ler.
Eu lembro como criei o hábito da leitura. No início das férias de 1993, minha mãe jogou no meu colo “Os pequenos Jangadeiros”, de Aristides Fraga Lima. Foi meu primeiro dos mais de 80 da Série Vaga-Lume que li entre a quarta e a oitava série (competia com amigos para ver quem tinha lido mais exemplares da coleção). Até então, os livros que lia eram pequenos, com temáticas infantis, cheio de figuras. O Menino Maluquinho (o mais clássico de todos), os contos da carochinha, Heide, A Fada que tinha idéias, As aventuras do Cachorrinho Samba, Pollyanna, Tom Sawyer... Tudo isso era legal. Mas eu ainda não tinha sigo pego e jogado dentro de um livro com uma linguagem mais adulta (são obras infanto-juvenis, mas eu achava adultas, na época). E a série Vaga-Lume conquistou mais um de seus milhares de leitores.
Não estou querendo posar de CDF. Nunca fui totalmente dedicado e entregue aos estudos (bem menos do que desejado pelos pais). Na sala de aula, nunca fui do tipo comportado (imagina, era um grande exemplo da espécie hiperativus tagarelus). Tenho até a tese de que aprendi a gostar de ler nos constantes (e merecidos) castigos, trancado no quarto. Sem televisão e sem poder sair de casa, restava estudar ou ler. Daí eu lia...
A Feira do Livro reforçou o “serviço” prestado pela Série Vaga-Lume. Ter contato com um escritor parecia algo tão grandioso... Eu lembro de uma vez que Marcelo Carneiro da Cunha foi palestrar no Roncalli. Falando numa linguagem pré-adolescente, as histórias contadas pelo autor de Codinome Duda e Duda 2 – A Missão fizeram que duas professoras – minha mãe e a dona Simone, mãe do Matheus – comprassem cada uma um dos livros para que nos revezássemos. No mesmo ano, consegui o autógrafo do Sérgio Capparelli, que escreveu Os Meninos da Rua da Praia, livro que tinha em casa e fui correndo ler. Mais tarde, reencontrei os textos de Capparelli, mas na faculdade.
Há dois anos, cobrindo a Feira do Livro de Sapiranga, conheci um dos meus heróis, o Ziraldo. Entrevistei-o. Peguei autógrafo. Caminhei pela praça da cidade conversando com ele. E quando vi, estava de novo com O Menino Maluquinho na cabeça. Moacyr Scliar, Luiz Antonio de Assis Brasil, Armindo Trevisan, Airton Ortiz, Juremir Machado da Silva. As Feiras do Livro me deixaram frente a frente com eles. Em Frederico veio o L.F. Verissimo!
Eu só lamento que o espírito das feiras não seja perene. Que, no outro dia, tudo fique esquecido. Que os livros comprados na maioria das vezes fiquem nas prateleiras. Que nas escolas, a leitura fique posta de lado para que o conteúdo seja concluído. Gostaria que um dia ainda fosse inventada uma fórmula mágica para que todo o dia fosse dia do livro.
publicado em 12 de outubro na Folha
sexta-feira, 5 de novembro de 2010
Deixa a mulher trabalhar
Bom, ganhou a Dilma. Será a primeira mulher presidente do Brasil (embora também correto, não gosto do termo presidenta). A única entre os 40 que tivemos até agora. E além do enorme desafio que o cargo já oferece, creio que nossa presidente eleita vá enfrentar ainda mais dificuldades. Explico:
1) Dilma sucederá um governo com mais de 80% de aprovação. Embora tenha sido indicada pelo presidente, Dilma não é Lula, um homem que por sua história está acima do próprio PT. O carisma do presidente é algo ocorrido “nunca antes na história desse país” (frase que o próprio gosta muito de usar). E foi esse mesmo carisma que blindou em parte “o homem” das críticas, das denúncias e de ser envolvido nos escândalos que aconteceram durante o governo. Dilma terá que criar um carisma que não tem para enfrentar situações que Lula driblou com maestria. Precisará do apoio da tropa de choque.
2) Até então, Lula foi o único candidato do PT à presidência. Dilma surgiu por indicação de Lula, não do PT. Na fila, antes dela, havia vários nomes, como José Dirceu, Antônio Palocci, José Geonoíno, Aloísio Mercadante, e até mesmo Tarso Genro. Todos já enfrentaram longas jornadas eleitorais, enquanto Dilma o fez pela primeira vez (como candidata). Creio que uma das dificuldades será lidar com algumas vaidades de pessoas que não enfrentavam Lula (o chamado fogo amigo).
3) O fantasma de Lula. A possibilidade do atual presidente retornar daqui há quatro anos pode pressionar Dilma. Duvido que alguém que coloque a faixa presidencial admita fazer um mandato “tampão”. E também há uma fila bem grande de pessoas interessadas em ser maquinista deste trem verde-amarelo.
4) Lula é um mestre da política. Conseguiu costurar alianças que até assumir o Governo eram impensáveis. Mesmo assim não teve muita facilidade para saciar a sede por cargos desses aliados, sobretudo o PMDB. Aquele que se intitula o maior partido do Brasil não vai arrefecer. O mesmo deve acontecer com as siglas que declararam apoio de última hora ou até mesmo que ficaram em cima do muro. Resta saber qual será o valor da fatura...
5) Dilma perdeu para Serra no Sul e no Centro-Oeste. Ganhou apertado no Sudeste. Para conquistar terreno da metade para baixo do mapa, apenas a política social não bastará. Será preciso tirar vários coelhos da cartola.
6) Copa do Mundo. A quantidade de dinheiro público envolvido pode resultar em fortes dores de cabeça. É um prato cheio para a imprensa. Se a coisa não sair como imaginada, se a conta for muito mais salgada do que o previsto, vai sobrar para o governo. Risco de desgaste.
***
Embora não seja gaúcha, Dilma radicou-se aqui. Pela primeira vez após o Regime Militar, teremos sentada na cadeira mais importante do país alguém umbilicalmente ligado ao nosso Estado (lembrando que três dos cinco generais presidentes eram gaúchos – Costa e Silva, Médici e Geisel). Antes, ainda foram presidentes gaúchos o gabrielense Hermes da Fonseca (1910-1914), Getúlio Vargas (1930-1945, 1951-1954}) e João Goulart (1961-1964). Não deixa de ser irônico: antes os generais, agora a “guerrilheira”. Mas irônico ainda é que Dilma não recebeu a maioria dos votos no Estado onde vota. É o alerta de uma unidade federativa que pede mais atenção. Agora é hora de esperar pelos resultados. É hora de deixar a mulher trabalhar!
1) Dilma sucederá um governo com mais de 80% de aprovação. Embora tenha sido indicada pelo presidente, Dilma não é Lula, um homem que por sua história está acima do próprio PT. O carisma do presidente é algo ocorrido “nunca antes na história desse país” (frase que o próprio gosta muito de usar). E foi esse mesmo carisma que blindou em parte “o homem” das críticas, das denúncias e de ser envolvido nos escândalos que aconteceram durante o governo. Dilma terá que criar um carisma que não tem para enfrentar situações que Lula driblou com maestria. Precisará do apoio da tropa de choque.
2) Até então, Lula foi o único candidato do PT à presidência. Dilma surgiu por indicação de Lula, não do PT. Na fila, antes dela, havia vários nomes, como José Dirceu, Antônio Palocci, José Geonoíno, Aloísio Mercadante, e até mesmo Tarso Genro. Todos já enfrentaram longas jornadas eleitorais, enquanto Dilma o fez pela primeira vez (como candidata). Creio que uma das dificuldades será lidar com algumas vaidades de pessoas que não enfrentavam Lula (o chamado fogo amigo).
3) O fantasma de Lula. A possibilidade do atual presidente retornar daqui há quatro anos pode pressionar Dilma. Duvido que alguém que coloque a faixa presidencial admita fazer um mandato “tampão”. E também há uma fila bem grande de pessoas interessadas em ser maquinista deste trem verde-amarelo.
4) Lula é um mestre da política. Conseguiu costurar alianças que até assumir o Governo eram impensáveis. Mesmo assim não teve muita facilidade para saciar a sede por cargos desses aliados, sobretudo o PMDB. Aquele que se intitula o maior partido do Brasil não vai arrefecer. O mesmo deve acontecer com as siglas que declararam apoio de última hora ou até mesmo que ficaram em cima do muro. Resta saber qual será o valor da fatura...
5) Dilma perdeu para Serra no Sul e no Centro-Oeste. Ganhou apertado no Sudeste. Para conquistar terreno da metade para baixo do mapa, apenas a política social não bastará. Será preciso tirar vários coelhos da cartola.
6) Copa do Mundo. A quantidade de dinheiro público envolvido pode resultar em fortes dores de cabeça. É um prato cheio para a imprensa. Se a coisa não sair como imaginada, se a conta for muito mais salgada do que o previsto, vai sobrar para o governo. Risco de desgaste.
***
Embora não seja gaúcha, Dilma radicou-se aqui. Pela primeira vez após o Regime Militar, teremos sentada na cadeira mais importante do país alguém umbilicalmente ligado ao nosso Estado (lembrando que três dos cinco generais presidentes eram gaúchos – Costa e Silva, Médici e Geisel). Antes, ainda foram presidentes gaúchos o gabrielense Hermes da Fonseca (1910-1914), Getúlio Vargas (1930-1945, 1951-1954}) e João Goulart (1961-1964). Não deixa de ser irônico: antes os generais, agora a “guerrilheira”. Mas irônico ainda é que Dilma não recebeu a maioria dos votos no Estado onde vota. É o alerta de uma unidade federativa que pede mais atenção. Agora é hora de esperar pelos resultados. É hora de deixar a mulher trabalhar!
quarta-feira, 3 de novembro de 2010
Que o ministro Dipp esteja certo
Estava indo para o trabalho, ainda meio dormindo, na manhã desta quarta-feira, quando ouvi a entrevista do ministro do Superior Tribunal de Justiça, Gilson Dipp, em uma das emissoras de rádio. Ele falou sobre a possibilidade de o Tribunal Superior Eleitoral fazer algumas mudanças nas próximas campanhas para valorizar mais o trabalho dos candidatos. Uma das frases mais marcantes dele foi a crítica aos partidos, mais preocupados com os marqueteiros do que com a posição programática e ideológica do candidato. Mas hoje não é esse o assunto.
O ponto alto, para este ouvinte, foi o testemunho sobre a personalidade dos dois presidenciáveis. “Tenho certeza que, quem conhece Dilma e Serra, está surpreso com o comportamento dos dois. Eles não são assim, são pessoas de bem, inteligentíssimos. Quem vencer será um bom presidente”, atestou Dipp, em palavras parecidas com estas... Depois dos últimos episódios, isso pareceu uma luz no fim do túnel.
Comecei a lembrar do que eu pensava de Serra e Dilma antes do pleito. Simpatizava com os dois, embora sempre tenha desconfiado de algumas más companhias. Sempre admirei Serra, por estar há tanto tempo na vida pública e não ter a ficha maculada. Se São Paulo vive há tantos anos sob a administração tucana, muito se deve à credibilidade dele enquanto prefeito e governador. Comecei a acompanhar política mais de perto quando ele era ministro, e acho que ele desempenhou um baita papel.
Não acho válidas as críticas à Dilma por ter sido guerrilheira. Até hoje penso que, se tivesse no lugar dos jovens que passaram pelo período do Regime Militar, possivelmente teria me metido em confronto com a “ordem” que se estabeleceu (vou tomar pedrada por essa até em casa). Até porque, na juventude, nossas atitudes não são tão bem pensadas (ao menos não sob a ótica de pessoas maduras, experientes, vividas, e sobretudo com algo a perder). Não há a visão de que isso poderá ser utilizado contra si um dia (e acho que é esse o pensamento que faz com que as pessoas não façam tudo o que têm vontade). Politicamente, Dilma também sempre demonstrou talento, e embora seja a primeira vez que passe pelas experiência das urnas, e que seja uma herdeira política dos votos de Lula, penso que poderá sim fazer um bom trabalho.
A chave de um bom trabalho são os personagens que darão sustentação ao futuro governo. Embora Dilma e Serra, pelo que se sabe, sejam bastante centralizadores, não vão conseguir dar conta de tudo. E nos dois lados há políticos competentes, e outros nem tanto. E, como sem maioria ninguém consegue governar, vão precisar ceder porque, mesmo quem hoje é companheiro, amanhã pode abandonar o barco. Vão precisar de jogo de cintura, um dos principais ingredientes que também integra o que hoje chamamos de política. A troca de acusações que temos observado é justamente contra outros que (supostamente) comprometeram os trabalhos. Ao proteger os seus, esqueceu-se dos planos de governo. Em meio a toda a fumaça produzida pelo marketing, não conseguimos visualizar a essência de cada candidato. Como num Big Brother, ficamos, em parte, com o lado “mau” deles...
Mas sobrou a lembrança (ou esperança?) de que, longe da campanha, eles são pessoas honestas e trabalhadoras. Dessa vez, vou (ao menos quero) acreditar no ministro Dipp.
publicado na FN em 29-10-10
O ponto alto, para este ouvinte, foi o testemunho sobre a personalidade dos dois presidenciáveis. “Tenho certeza que, quem conhece Dilma e Serra, está surpreso com o comportamento dos dois. Eles não são assim, são pessoas de bem, inteligentíssimos. Quem vencer será um bom presidente”, atestou Dipp, em palavras parecidas com estas... Depois dos últimos episódios, isso pareceu uma luz no fim do túnel.
Comecei a lembrar do que eu pensava de Serra e Dilma antes do pleito. Simpatizava com os dois, embora sempre tenha desconfiado de algumas más companhias. Sempre admirei Serra, por estar há tanto tempo na vida pública e não ter a ficha maculada. Se São Paulo vive há tantos anos sob a administração tucana, muito se deve à credibilidade dele enquanto prefeito e governador. Comecei a acompanhar política mais de perto quando ele era ministro, e acho que ele desempenhou um baita papel.
Não acho válidas as críticas à Dilma por ter sido guerrilheira. Até hoje penso que, se tivesse no lugar dos jovens que passaram pelo período do Regime Militar, possivelmente teria me metido em confronto com a “ordem” que se estabeleceu (vou tomar pedrada por essa até em casa). Até porque, na juventude, nossas atitudes não são tão bem pensadas (ao menos não sob a ótica de pessoas maduras, experientes, vividas, e sobretudo com algo a perder). Não há a visão de que isso poderá ser utilizado contra si um dia (e acho que é esse o pensamento que faz com que as pessoas não façam tudo o que têm vontade). Politicamente, Dilma também sempre demonstrou talento, e embora seja a primeira vez que passe pelas experiência das urnas, e que seja uma herdeira política dos votos de Lula, penso que poderá sim fazer um bom trabalho.
A chave de um bom trabalho são os personagens que darão sustentação ao futuro governo. Embora Dilma e Serra, pelo que se sabe, sejam bastante centralizadores, não vão conseguir dar conta de tudo. E nos dois lados há políticos competentes, e outros nem tanto. E, como sem maioria ninguém consegue governar, vão precisar ceder porque, mesmo quem hoje é companheiro, amanhã pode abandonar o barco. Vão precisar de jogo de cintura, um dos principais ingredientes que também integra o que hoje chamamos de política. A troca de acusações que temos observado é justamente contra outros que (supostamente) comprometeram os trabalhos. Ao proteger os seus, esqueceu-se dos planos de governo. Em meio a toda a fumaça produzida pelo marketing, não conseguimos visualizar a essência de cada candidato. Como num Big Brother, ficamos, em parte, com o lado “mau” deles...
Mas sobrou a lembrança (ou esperança?) de que, longe da campanha, eles são pessoas honestas e trabalhadoras. Dessa vez, vou (ao menos quero) acreditar no ministro Dipp.
publicado na FN em 29-10-10
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
A religião desviou o debate
O rumo das discussões da campanha neste segundo turno está me dando vertigem. Tanto que vou deixar minha “A eleição que me deu razão (parte três)” para outra hora (enquanto durar o enjôo). Eu esperava que, com apenas dois candidatos, o conteúdo dos debates seria enriquecido. Tinha comigo a certeza de que veríamos em discussão projetos para que nosso país passasse por uma revolução para se tornar a maior potência do mundo! Ok, ironias a parte, eu esperava apenas um pouco menos de picuinhas...
A profusão de baixarias sempre é uma tendência. Mas desta vez, foi aberta a caixa de ferramentas. Até acho que, comprovados, os episódios obscuros envolvendo as siglas e os personagens têm que ser lembrados (infelizmente, boa parte dos esqueletos só saem do armário em época de eleição mesmo). Mas... vai ficar só nisso? Nosso pleito se limitou a uma guerra com três eixos: 1) o que o Lula fez X o que o Serra fez; o que Lula e Dilma não fizeram X o que Serra e FHC deixaram de fazer; 2) escândalos envolvendo a tropa de choque de Dilma X escândalos envolvendo a turma de Serra; 3) muitas promessas vagas e ilusórias que não serão cumpridas por ambas as partes. De zero a dez, o nível oscila entre dois e três. Isso é conteúdo para o programa do Datena...
Para piorar tudo, alguns líderes religiosos entraram em ação: a Igreja Universal do Reino de Deus (e o senador reeleito pelo RJ, Marcelo Crivella (PRB), sobrinho de Edir Macedo) está com Dilma; a Assembleia de Deus (e o ultra-ortodoxo Silas Malafaia), com Serra; em São Paulo, aparecem panfletos supostamente impressos por integrantes da Igreja Católica contra a Dilma. Um dramalhão!
Convenhamos: religião não se mistura com política. Já é complicado ter que aturar a concorrência entre pastores na televisão para arrecadar donativos para as máquinas pentecostais (uma hora dessas entro na discussão do que é neo, iso, pós ou pseudo-pentecostais. Vou generalizar porque o espaço é curto). Agora, ter que aturar também seus principais líderes envolvidos nos programas eleitorais é um desrespeito (golpe baixo). Utilizar-se de instituições religiosas, que tem o poder de “convencer” uma enorme gama de fieis é antidemocrático! Embora digam não obrigar os fieis a votarem em quem apoiam, contrariar os pastores (ou padres, ou bispos, ou pais-de-santo, o que for!) deixa o eleitor com a impressão de estar cometendo pecado (alguns, pelo menos)! Sem contar que o debate fica ainda mais resumido a questões que não expressam o necessário para o desenvolvimento do país (aborto e união civil de homossexuais são assuntos importantes, mas a legalização ou não dificilmente vão tirar o povo da miséria ou aumentar o número de empregos).
Assim como o futebol, religião é um assunto que mexe menos com a razão do que com paixões, cega as pessoas para argumentos plausíveis. Não é à toa que, de uma forma bem mais exacerbada do que acontece por aqui obviamente, a religião é combustível de vários conflitos (sem muito sentido para quem está longe) pelo mundo. Só que tudo tem um começo. Fico imaginando se a rivalidade (que é velada) entre Assembleia de Deus e IURD fosse ampliada, o que seria dos nossos programas de tevê...
Por favor, não me interpretam mal. Acho que, como representantes de instituições numerosas, creio que as autoridades religiosas deveriam, sim, alertar o “rebanho” quanto ao conjunto de ideias de cada candidato, mas nunca se intrometer num pleito. O Brasil é um Estado laico. E os programas de governo não podem deixar de ser avaliados por causa de questões que devem ser resolvidas depois, junto aos deputados. Deixem Ele de fora disso. Porque, uma campanha como essa, nem Ele aguenta!
publicado em 22-10-10
A profusão de baixarias sempre é uma tendência. Mas desta vez, foi aberta a caixa de ferramentas. Até acho que, comprovados, os episódios obscuros envolvendo as siglas e os personagens têm que ser lembrados (infelizmente, boa parte dos esqueletos só saem do armário em época de eleição mesmo). Mas... vai ficar só nisso? Nosso pleito se limitou a uma guerra com três eixos: 1) o que o Lula fez X o que o Serra fez; o que Lula e Dilma não fizeram X o que Serra e FHC deixaram de fazer; 2) escândalos envolvendo a tropa de choque de Dilma X escândalos envolvendo a turma de Serra; 3) muitas promessas vagas e ilusórias que não serão cumpridas por ambas as partes. De zero a dez, o nível oscila entre dois e três. Isso é conteúdo para o programa do Datena...
Para piorar tudo, alguns líderes religiosos entraram em ação: a Igreja Universal do Reino de Deus (e o senador reeleito pelo RJ, Marcelo Crivella (PRB), sobrinho de Edir Macedo) está com Dilma; a Assembleia de Deus (e o ultra-ortodoxo Silas Malafaia), com Serra; em São Paulo, aparecem panfletos supostamente impressos por integrantes da Igreja Católica contra a Dilma. Um dramalhão!
Convenhamos: religião não se mistura com política. Já é complicado ter que aturar a concorrência entre pastores na televisão para arrecadar donativos para as máquinas pentecostais (uma hora dessas entro na discussão do que é neo, iso, pós ou pseudo-pentecostais. Vou generalizar porque o espaço é curto). Agora, ter que aturar também seus principais líderes envolvidos nos programas eleitorais é um desrespeito (golpe baixo). Utilizar-se de instituições religiosas, que tem o poder de “convencer” uma enorme gama de fieis é antidemocrático! Embora digam não obrigar os fieis a votarem em quem apoiam, contrariar os pastores (ou padres, ou bispos, ou pais-de-santo, o que for!) deixa o eleitor com a impressão de estar cometendo pecado (alguns, pelo menos)! Sem contar que o debate fica ainda mais resumido a questões que não expressam o necessário para o desenvolvimento do país (aborto e união civil de homossexuais são assuntos importantes, mas a legalização ou não dificilmente vão tirar o povo da miséria ou aumentar o número de empregos).
Assim como o futebol, religião é um assunto que mexe menos com a razão do que com paixões, cega as pessoas para argumentos plausíveis. Não é à toa que, de uma forma bem mais exacerbada do que acontece por aqui obviamente, a religião é combustível de vários conflitos (sem muito sentido para quem está longe) pelo mundo. Só que tudo tem um começo. Fico imaginando se a rivalidade (que é velada) entre Assembleia de Deus e IURD fosse ampliada, o que seria dos nossos programas de tevê...
Por favor, não me interpretam mal. Acho que, como representantes de instituições numerosas, creio que as autoridades religiosas deveriam, sim, alertar o “rebanho” quanto ao conjunto de ideias de cada candidato, mas nunca se intrometer num pleito. O Brasil é um Estado laico. E os programas de governo não podem deixar de ser avaliados por causa de questões que devem ser resolvidas depois, junto aos deputados. Deixem Ele de fora disso. Porque, uma campanha como essa, nem Ele aguenta!
publicado em 22-10-10
terça-feira, 19 de outubro de 2010
A eleição que me deu razão (parte dois)
PT e PMDB estão juntinhos na eleição para presidente. No Rio Grande do Sul, contudo, os partidos (leia-se, a maioria dos caciques), continuam sendo oposição um ao outro. E, neste round, o PT goleou o PMDB (as outras grandes siglas também). Explicarei o que eu já imaginava que poderia ocorrer antes do pleito.
1) Fritura de líderes: nada mais, nada menos do que as quatro principais lideranças peemedebistas do RS afundaram. Fogaça, que repetiu Tarso há oito anos ao sair da prefeitura de POA no meio do mandato, sequer atingiu o segundo turno; Rigotto, que seria um candidato natural ao governo, por já ter sido chefe do Executivo estadual e por, em tese, ter ficado fora do segundo turno no último pleito por “descuido” dos correligionários (ele também tem parcela de culpa quando decidiu se lançar ao Senado sozinho, sendo que nomes de peso, os deputados federais Eliseu Padilha e Ibsen Pinheiro, poderiam ter contribuído para que o segundo voto dos simpatizantes do PMDB fossem para Ana Amélia e Paim); Eliseu Padilha, detentor de quatro mandatos seguidos como deputado federal, que acabou na primeira suplência para a Câmara; e Pedro Simon, que após os maus resultados do pleito renunciou à presidência da sigla.
2) Murismo: evitar se posicionar entre Serra (favorito da maioria dos caciques gaúchos) e Dilma (PMDB indicou o vice da chapa), deixou os eleitores confusos. Esse posicionamento reflete a crise que o PMDB vive depois de passar tantos anos governando com qualquer sigla, andando em cima do muro como uma lesma consegue andar sobre o fio da navalha sem se cortar. Até o Rigotto atribuiu, após a derrota, o adjetivo “murismo” à sigla.
3) Falta de renovação: esse é um mal que atinge a quase todos os partidos, e será novamente objeto em futuras colunas. Mas, se compararmos esse pleito para o outro, foram perdidas uma cadeira na Câmara dos Deputados e outra na Assembleia. Ibsen e Schirmer, que em 2006 foram o quinto e o sexto mais votados do PMDB, não concorreram. Biolchi pai e outros suplentes com boa votação também não deram as caras. Para ajudar a bancada federal a não fazer feio, Alceu Moreira e Záchia tentaram trocar a AL pela CD. Não adiantou. De cinco deputados, baixou para quatro. Na AL, de nove agora são oito. Além de Moreira e Záchia, Alberto Oliveira desistiu de concorrer porque considerou as campanhas “caras demais”, segundo palavras dele mesmo que ouvi em corredores desta vida. As (nem tão) novidades foram Giovani Feltes e Maria Helena Sartori, ambos com mais de 50 anos.
4) O PT de Tarso não pretende, pelo menos num primeiro momento, convidar o PMDB para participar do Governo. Caso faça, e se a sigla aceitar, poderá manter alguns CC’s trabalhando e contribuindo com a caixinha mensal do partido, mas perderá a identidade. Se ficar na Oposição, e se souber fazer oposição como o PT fez (o que é improvável, porque do centro do país deve vir a ordem para “maneirar” - haverá cargos federais em jogo), terá de fazer à míngua, o que não deixa de ser muito complicado.
5) Daqui a quatro anos, Simon não concorrerá mais. Fogaça, Rigotto e Padilha perderam força. Renovar, desde as lideranças até o eleitorado, é a palavra de ordem. Se o maior partido do Brasil não conseguir aprender com os próprios erros, deixará ainda mais o protagonismo da política nacional. Quem perde, é a base do partido, porque os figurões saberão manter os próprios interesses...
publicada em FN no dia 15 de outubro de 2010
1) Fritura de líderes: nada mais, nada menos do que as quatro principais lideranças peemedebistas do RS afundaram. Fogaça, que repetiu Tarso há oito anos ao sair da prefeitura de POA no meio do mandato, sequer atingiu o segundo turno; Rigotto, que seria um candidato natural ao governo, por já ter sido chefe do Executivo estadual e por, em tese, ter ficado fora do segundo turno no último pleito por “descuido” dos correligionários (ele também tem parcela de culpa quando decidiu se lançar ao Senado sozinho, sendo que nomes de peso, os deputados federais Eliseu Padilha e Ibsen Pinheiro, poderiam ter contribuído para que o segundo voto dos simpatizantes do PMDB fossem para Ana Amélia e Paim); Eliseu Padilha, detentor de quatro mandatos seguidos como deputado federal, que acabou na primeira suplência para a Câmara; e Pedro Simon, que após os maus resultados do pleito renunciou à presidência da sigla.
2) Murismo: evitar se posicionar entre Serra (favorito da maioria dos caciques gaúchos) e Dilma (PMDB indicou o vice da chapa), deixou os eleitores confusos. Esse posicionamento reflete a crise que o PMDB vive depois de passar tantos anos governando com qualquer sigla, andando em cima do muro como uma lesma consegue andar sobre o fio da navalha sem se cortar. Até o Rigotto atribuiu, após a derrota, o adjetivo “murismo” à sigla.
3) Falta de renovação: esse é um mal que atinge a quase todos os partidos, e será novamente objeto em futuras colunas. Mas, se compararmos esse pleito para o outro, foram perdidas uma cadeira na Câmara dos Deputados e outra na Assembleia. Ibsen e Schirmer, que em 2006 foram o quinto e o sexto mais votados do PMDB, não concorreram. Biolchi pai e outros suplentes com boa votação também não deram as caras. Para ajudar a bancada federal a não fazer feio, Alceu Moreira e Záchia tentaram trocar a AL pela CD. Não adiantou. De cinco deputados, baixou para quatro. Na AL, de nove agora são oito. Além de Moreira e Záchia, Alberto Oliveira desistiu de concorrer porque considerou as campanhas “caras demais”, segundo palavras dele mesmo que ouvi em corredores desta vida. As (nem tão) novidades foram Giovani Feltes e Maria Helena Sartori, ambos com mais de 50 anos.
4) O PT de Tarso não pretende, pelo menos num primeiro momento, convidar o PMDB para participar do Governo. Caso faça, e se a sigla aceitar, poderá manter alguns CC’s trabalhando e contribuindo com a caixinha mensal do partido, mas perderá a identidade. Se ficar na Oposição, e se souber fazer oposição como o PT fez (o que é improvável, porque do centro do país deve vir a ordem para “maneirar” - haverá cargos federais em jogo), terá de fazer à míngua, o que não deixa de ser muito complicado.
5) Daqui a quatro anos, Simon não concorrerá mais. Fogaça, Rigotto e Padilha perderam força. Renovar, desde as lideranças até o eleitorado, é a palavra de ordem. Se o maior partido do Brasil não conseguir aprender com os próprios erros, deixará ainda mais o protagonismo da política nacional. Quem perde, é a base do partido, porque os figurões saberão manter os próprios interesses...
publicada em FN no dia 15 de outubro de 2010
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
A eleição que me deu razão (parte 1)
Adorei a campanha eleitoral deste ano. Ela comprovou muitas ideias que eu tinha sobre nosso sistema eleitoral. Especialmente aquelas que indicam nossa forma de eleger os representantes. Vamos às considerações:
1 - O sistema de quocioente eleitoral (somar os votos válidos e dividir pelo números de cadeiras a serem ocupadas) desrespeita os eleitores. Com os partidos cada vez mais desacreditados, não faz sentido os votos dados a uma legenda serem somados. Por exemplo: 90% dos 480 mil eleitores que elegeram Manuela D’Ávila (PcdoB) nunca ouviram falar em Assis Melo, que fez pouco mais de 20 mil votos, ou mais de 100 mil a menos do que Luciana Genro (PSOL), cuja sigla não atingiu o tal quociente por 13 mil votos. Essa regra é uma das responsáveis por coligações muito estranhas, em que a ideologia está abaixo da “cooperação” na busca da maior quantidade possível de cadeiras nos Legislativos. Sem falar que isso favorece a opção por fenômenos eleitorais como Tiririca, pessoas com pouca afinidade com a Política, mas capazes de angariar “nojeiras” de votos.
Também favorece o desequilíbrio econômico dentro do partido (uma sigla pode apostar fazer a campanha com ênfase muito maior em um candidato e destinar muito mais recursos para um em detrimento dos outros, assim como o tempo de tv, como ocorreu com os dois já citados e também com Beto Albuquerque, do PSB) e a opção por candidatos milionários ou com grande capacidade de buscar investidores (como Paulo Ferreira, tesoureiro do PT, campeão em arrecadação de investidores na própria campanha), justamente porque... deixa que esse é o segundo ponto;
2 – O poder econômico tomou conta desta campanha. Basta dizer que os maiores partidos estimaram gastos máximos para deputados federais, por exemplo, com sete dígitos. Basta dizer que muitos concorrentes à Câmara dos Deputados bancaram postulantes desconhecidos na busca de uma cadeira ao Legislativo, em troca de trabalho por votos. Esta estratégia é muito clara na campanha petista, que elegeu 14 deputados estaduais e ampliou para oito seu time federal. Claro que muito se deve também ao fato de a sigla provocar uma disputa acirrada entre os próprios “companheiros”, quando manteve os sete federais e incentivou outros cinco estaduais a concorrer. O resultado – não acho isso ruim, e foi mérito dos estrategistas petistas, não fosse o alto custo ($$$) para tanto - foi que muitos candidatos desconhecidos garantiram um gabinete na AL;
3 – A eleição de Manuela com um recorde histórico de votos reflete menos o trabalho desenvolvido pela gata e mais o desconhecimento, a despolitização e o desinteresse das pessoas pela Política. A opção por Danrlei, com seus vários títulos pelo Tricolor Gaúcho, segue na mesma linha.
Temos até o final do ano para fazer novas considerações. Deixa a poeira baixar para isso poder ficar mais visível – e também mais digerível.
1 - O sistema de quocioente eleitoral (somar os votos válidos e dividir pelo números de cadeiras a serem ocupadas) desrespeita os eleitores. Com os partidos cada vez mais desacreditados, não faz sentido os votos dados a uma legenda serem somados. Por exemplo: 90% dos 480 mil eleitores que elegeram Manuela D’Ávila (PcdoB) nunca ouviram falar em Assis Melo, que fez pouco mais de 20 mil votos, ou mais de 100 mil a menos do que Luciana Genro (PSOL), cuja sigla não atingiu o tal quociente por 13 mil votos. Essa regra é uma das responsáveis por coligações muito estranhas, em que a ideologia está abaixo da “cooperação” na busca da maior quantidade possível de cadeiras nos Legislativos. Sem falar que isso favorece a opção por fenômenos eleitorais como Tiririca, pessoas com pouca afinidade com a Política, mas capazes de angariar “nojeiras” de votos.
Também favorece o desequilíbrio econômico dentro do partido (uma sigla pode apostar fazer a campanha com ênfase muito maior em um candidato e destinar muito mais recursos para um em detrimento dos outros, assim como o tempo de tv, como ocorreu com os dois já citados e também com Beto Albuquerque, do PSB) e a opção por candidatos milionários ou com grande capacidade de buscar investidores (como Paulo Ferreira, tesoureiro do PT, campeão em arrecadação de investidores na própria campanha), justamente porque... deixa que esse é o segundo ponto;
2 – O poder econômico tomou conta desta campanha. Basta dizer que os maiores partidos estimaram gastos máximos para deputados federais, por exemplo, com sete dígitos. Basta dizer que muitos concorrentes à Câmara dos Deputados bancaram postulantes desconhecidos na busca de uma cadeira ao Legislativo, em troca de trabalho por votos. Esta estratégia é muito clara na campanha petista, que elegeu 14 deputados estaduais e ampliou para oito seu time federal. Claro que muito se deve também ao fato de a sigla provocar uma disputa acirrada entre os próprios “companheiros”, quando manteve os sete federais e incentivou outros cinco estaduais a concorrer. O resultado – não acho isso ruim, e foi mérito dos estrategistas petistas, não fosse o alto custo ($$$) para tanto - foi que muitos candidatos desconhecidos garantiram um gabinete na AL;
3 – A eleição de Manuela com um recorde histórico de votos reflete menos o trabalho desenvolvido pela gata e mais o desconhecimento, a despolitização e o desinteresse das pessoas pela Política. A opção por Danrlei, com seus vários títulos pelo Tricolor Gaúcho, segue na mesma linha.
Temos até o final do ano para fazer novas considerações. Deixa a poeira baixar para isso poder ficar mais visível – e também mais digerível.
quinta-feira, 7 de outubro de 2010
Seja o que Deus quiser!
Quando você estiver lendo essa coluna, faltarão menos de três dias para que sejam conhecidos quem serão nossos senadores e deputados federais e estaduais. Quiçá, o(a) governador(a) e o(a) presidente (embora eu torça para que isso não aconteça, pura e simplesmente por achar que o segundo turno é a melhor maneira de se decidir quem deve mandar, com três semanas com tempos de publicidade destinados igualitariamente entre os candidatos e debates apenas com a participação dos dois mais votados).
O que isso quer dizer? Mesmo não sendo uma pessoa muito otimista, ainda acho que significa muito. O perfil dos eleitos indica o que podemos esperar da próxima legislatura. Assim, é bom que nossa parte seja feita antes do pleito. Proponho pensar quais são os motivos que nos levam a votar em alguém.
Em primeiro lugar, de uma perspectiva local. Lembro que, quando morava em Santa Maria, algumas entidades empresariais faziam campanha aberta para que os moradores optassem pelos candidatos egressos do município. A intenção era buscar, depois da eleição, o comprometimento destes com o povo local. Pela lógica, quem é da casa, preocupa-se mais com a terrinha, é identificado com ela. E isso é uma atitude dos políticos que eu percebo que realmente acontece. Todos tentam proteger os seus. Os mais entusiastas, buscam o máximo de recursos pela sua região. Já os mais Sarneys, de uma forma politicamente distorcida, buscam um abrigo para a própria família...
Outro ponto de vista está focado nas discussões nacionais. Sempre entrarão em pauta questões como o aumento do salário mínimo, o aumento de repasses para a saúde, para a educação e para os municípios, a união homossexual, a regulamentação do aborto, o endurecimento da lei penal, a preservação dos direitos humanos, a defesa do meio ambiente, etc... É preciso atenção para não escolher um candidato com posições diferentes das tuas. Depois não adianta esbravejar. Este é o perigo de ser desinformado...
Quanto aos candidatos ao Executivo. Quem eleger? Também vejo sob dois pontos de vistas. O primeiro é a liderança, o carisma, a capacidade política de aglutinar forças para desenvolver um projeto nacional. Quero um candidato assistencialista? Populista? Alguém focado no ajuste de contas? Que se preocupa com a política externa? Que busca o continuísmo? Ou alguém que quer virar o Brasil de ponta cabeças? Qual a história dessa pessoa? Esteve metida em escândalos?
Por outro lado, o que considero o principal, reflete aquele velho deitado do tempo da nona. “Diga-me com quem andas, que te direi quem és”. Num país onde a maioria diz “não voto no partido, voto na pessoa”, é preciso buscar saber quem está com quem. Afinal, escolhe-se o presidente, mas não seus ministros e cargos de confianças. E, se isso passar despercebido, teremos que engolir frases como “eu não sabia de nada” bem quietinhos.
***
Acompanhando nas ruas a reação das pessoas durante a campanha, leio o que escrevi acima e caio na real. Senso crítico ainda é algo para poucos. Quase tudo o que se ouve são generalidades. Outro tanto, daqueles que sabem menos ainda do que as generalidades, são facilmente influenciados por pessoas que repetem discursos feitos. Aquilo que considero um dever cívico, a consciência de que se escolheu o melhor, na verdade, é apenas a representação de uma queda de braço ganha por quem tem mais gente na rua pedindo voto. É nessas horas que encho meu peito, olho acima do horizonte e exclamo: “Deus nos acuda”.
(Publicada em 01-10-10)
O que isso quer dizer? Mesmo não sendo uma pessoa muito otimista, ainda acho que significa muito. O perfil dos eleitos indica o que podemos esperar da próxima legislatura. Assim, é bom que nossa parte seja feita antes do pleito. Proponho pensar quais são os motivos que nos levam a votar em alguém.
Em primeiro lugar, de uma perspectiva local. Lembro que, quando morava em Santa Maria, algumas entidades empresariais faziam campanha aberta para que os moradores optassem pelos candidatos egressos do município. A intenção era buscar, depois da eleição, o comprometimento destes com o povo local. Pela lógica, quem é da casa, preocupa-se mais com a terrinha, é identificado com ela. E isso é uma atitude dos políticos que eu percebo que realmente acontece. Todos tentam proteger os seus. Os mais entusiastas, buscam o máximo de recursos pela sua região. Já os mais Sarneys, de uma forma politicamente distorcida, buscam um abrigo para a própria família...
Outro ponto de vista está focado nas discussões nacionais. Sempre entrarão em pauta questões como o aumento do salário mínimo, o aumento de repasses para a saúde, para a educação e para os municípios, a união homossexual, a regulamentação do aborto, o endurecimento da lei penal, a preservação dos direitos humanos, a defesa do meio ambiente, etc... É preciso atenção para não escolher um candidato com posições diferentes das tuas. Depois não adianta esbravejar. Este é o perigo de ser desinformado...
Quanto aos candidatos ao Executivo. Quem eleger? Também vejo sob dois pontos de vistas. O primeiro é a liderança, o carisma, a capacidade política de aglutinar forças para desenvolver um projeto nacional. Quero um candidato assistencialista? Populista? Alguém focado no ajuste de contas? Que se preocupa com a política externa? Que busca o continuísmo? Ou alguém que quer virar o Brasil de ponta cabeças? Qual a história dessa pessoa? Esteve metida em escândalos?
Por outro lado, o que considero o principal, reflete aquele velho deitado do tempo da nona. “Diga-me com quem andas, que te direi quem és”. Num país onde a maioria diz “não voto no partido, voto na pessoa”, é preciso buscar saber quem está com quem. Afinal, escolhe-se o presidente, mas não seus ministros e cargos de confianças. E, se isso passar despercebido, teremos que engolir frases como “eu não sabia de nada” bem quietinhos.
***
Acompanhando nas ruas a reação das pessoas durante a campanha, leio o que escrevi acima e caio na real. Senso crítico ainda é algo para poucos. Quase tudo o que se ouve são generalidades. Outro tanto, daqueles que sabem menos ainda do que as generalidades, são facilmente influenciados por pessoas que repetem discursos feitos. Aquilo que considero um dever cívico, a consciência de que se escolheu o melhor, na verdade, é apenas a representação de uma queda de braço ganha por quem tem mais gente na rua pedindo voto. É nessas horas que encho meu peito, olho acima do horizonte e exclamo: “Deus nos acuda”.
(Publicada em 01-10-10)
sexta-feira, 24 de setembro de 2010
Dicas eleitorais
A falta de noção da maior parte dos eleitores sobre as regras eleitorais brasileiras reflete exatamente qual o grau de preocupação das pessoas em relação à política nacional. Enquanto quase todos sabem tudo sobre a fórmula do Brasileirão, raros são os que não têm dúvidas sobre o processo eleitoral. E por mais didáticas que sejam as propagandas do TSE – capazes de instruir crianças de três anos -, o povo ainda não entende alguns detalhes de nosso sistema político. Tentarei ajudar...
1) Senadores: cada estado é representado por três, cujos mandatos são de oito anos. Assim, são eleitos, alternadamente um e dois. Na eleição passada, por exemplo, o Simon foi reeleito. Há oito anos, foram Zambiasi e Paim. Ah, cada eleitor tem direito a votar duas vezes, mas não pode ser duas vezes no mesmo candidato;
2) Deputados Federais: embora eles discutam projetos para o país inteiro e trabalhem em Brasília, são representantes de um Estado. Sendo assim, são eleitos apenas por pessoas com domicílio eleitoral na mesma Unidade Federativa onde eles concorrem. Não adianta alguém daqui fazer campanha em Chapecó! Nestes dois meses, ouvi dezenas de pessoas de outros estados se oferecerem para votar em candidatos gaúchos. Vai ver porque por lá os postulantes são Tiririca, Mulher Pêra, etc...
3) Governo ou Presidência: para não ter segundo turno, um candidato precisa de metade dos votos válidos mais um – descontados brancos e nulos. Ou seja: se alguém não quiser uma vitória do líder das pesquisas já no dia 3 de outubro, não precisa votar no segundo colocado. Votar no Levy Fidelix tem o mesmo valor do que votar no Serra ou na Marina – em se tratando de ter ou não segundo turno, claro.
4) Voto de protesto: é uma baita bobagem, porque como são descontados dos votos válidos os brancos e nulos, mostrar descontentamento com a política dessa maneira apenas “dá uma mão” para o mais bem votado a ganhar em primeiro turno (no caso de Governo e Presidência), ou facilita a vida de alguns candidatos aos cargos parlamentares. Recomendo aos eleitores que deixem de preguiça e escolham alguém – um deles é o menos pior.
5) Pesquisas apontam uma tendência de resultado para a eleição, mas em hipótese alguma refletem com 100% de certeza o resultado final. Essa história de deixar de votar em C, que é em quem você acredita, para escolher B porque está melhor colocado é bobagem. Até porque, em caso em segundo turno, haverá a oportunidade de votar no oponente do determinado candidato A, que você rejeita. E há inúmeros exemplos de pleitos em que os institutos de pesquisa erraram redondamente. Na última eleição ao Governo do Estado, por exemplo, era dado como praticamente certo um segundo turno entre Rigotto e Olívio Dutra. Mas muitos que votariam no peemedebista apostaram em Yeda para evitar que o petista fosse ao segundo turno. O restante da história, todos conhecem...
6) Cuidado com candidatos celebridades. Campeões de votação, eles são um engodo que os partidos apresentam ao eleitor. Estima-se que Tiririca faça, em São Paulo, cerca de um milhão de votos. Com isso, outros sete candidatos do PR ganharão uma vaga na Câmara dos Deputados com número bem menos expressivos. Isso já aconteceu quando Éneas puxou outros cinco candidatos do Prona ao fazer 1,5 milhão de votos.
7) A ideia desta coluna não é ser prepotente, embora pareça. Apenas quero alertar sobre os possíveis efeitos de “brincadeiras” com o voto para os próximos quatro anos.
1) Senadores: cada estado é representado por três, cujos mandatos são de oito anos. Assim, são eleitos, alternadamente um e dois. Na eleição passada, por exemplo, o Simon foi reeleito. Há oito anos, foram Zambiasi e Paim. Ah, cada eleitor tem direito a votar duas vezes, mas não pode ser duas vezes no mesmo candidato;
2) Deputados Federais: embora eles discutam projetos para o país inteiro e trabalhem em Brasília, são representantes de um Estado. Sendo assim, são eleitos apenas por pessoas com domicílio eleitoral na mesma Unidade Federativa onde eles concorrem. Não adianta alguém daqui fazer campanha em Chapecó! Nestes dois meses, ouvi dezenas de pessoas de outros estados se oferecerem para votar em candidatos gaúchos. Vai ver porque por lá os postulantes são Tiririca, Mulher Pêra, etc...
3) Governo ou Presidência: para não ter segundo turno, um candidato precisa de metade dos votos válidos mais um – descontados brancos e nulos. Ou seja: se alguém não quiser uma vitória do líder das pesquisas já no dia 3 de outubro, não precisa votar no segundo colocado. Votar no Levy Fidelix tem o mesmo valor do que votar no Serra ou na Marina – em se tratando de ter ou não segundo turno, claro.
4) Voto de protesto: é uma baita bobagem, porque como são descontados dos votos válidos os brancos e nulos, mostrar descontentamento com a política dessa maneira apenas “dá uma mão” para o mais bem votado a ganhar em primeiro turno (no caso de Governo e Presidência), ou facilita a vida de alguns candidatos aos cargos parlamentares. Recomendo aos eleitores que deixem de preguiça e escolham alguém – um deles é o menos pior.
5) Pesquisas apontam uma tendência de resultado para a eleição, mas em hipótese alguma refletem com 100% de certeza o resultado final. Essa história de deixar de votar em C, que é em quem você acredita, para escolher B porque está melhor colocado é bobagem. Até porque, em caso em segundo turno, haverá a oportunidade de votar no oponente do determinado candidato A, que você rejeita. E há inúmeros exemplos de pleitos em que os institutos de pesquisa erraram redondamente. Na última eleição ao Governo do Estado, por exemplo, era dado como praticamente certo um segundo turno entre Rigotto e Olívio Dutra. Mas muitos que votariam no peemedebista apostaram em Yeda para evitar que o petista fosse ao segundo turno. O restante da história, todos conhecem...
6) Cuidado com candidatos celebridades. Campeões de votação, eles são um engodo que os partidos apresentam ao eleitor. Estima-se que Tiririca faça, em São Paulo, cerca de um milhão de votos. Com isso, outros sete candidatos do PR ganharão uma vaga na Câmara dos Deputados com número bem menos expressivos. Isso já aconteceu quando Éneas puxou outros cinco candidatos do Prona ao fazer 1,5 milhão de votos.
7) A ideia desta coluna não é ser prepotente, embora pareça. Apenas quero alertar sobre os possíveis efeitos de “brincadeiras” com o voto para os próximos quatro anos.
quarta-feira, 15 de setembro de 2010
A falsa dança das cadeiras
Tenho acompanhado o resultado de algumas pesquisas eleitorais com uma certa apreensão. Pelo rumo que tudo está tomando, teremos um Brasil sem oposição nos próximos anos. Explico: na maioria dos Estados, os prováveis vencedores ou são candidatos do PT ou de partidos aliados, todos eles abraçados na figura de “São” Lula. Na disputa para o Senado, a mesma coisa: tudo indica que, se Dilma for nossa próxima presidente, contará com mais de 60% de apoio da parte azul do Congresso Nacional. Na parte verde (Câmara dos Deputados), a tendência é que isso se repita.
Apesar dos mais de 30 partidos políticos existentes no Brasil, estamos num ponto em que se é ou não governo. Há siglas especialistas em estar ao lado do poder. Cito o maior partido do Brasil, o PMDB, que deve ser o maior vitorioso nas eleições governamentais e para o Senado deste pleito, mas que constantemente adota postura de situação para se manter grande, não se expondo a um julgamento no pleito presidencial. O próprio PT abriu mão de concorrer em algumas unidades da federação para privilegiar alianças. O Rio Grande do Sul foi uma exceção, dada rivalidade histórica entre os dois partidos (rivalidade que, diga-se de passagem, está cada vez mais fraca).
Já disse isso em outras colunas, mas não canso de repetir: nosso modelo político leva a isso. Em primeiro lugar, porque o presidente, para se eleger, precisa de tempo de televisão, e as coligações permitem a soma dos minutos de cada partido integrante da base de apoio. Em segundo lugar, para governar é preciso ter base aliada, o que leva a favores e concessões. Em terceiro lugar porque os partidos se financiam em parte por um percentual retirado dos salários de quem ocupa cargos de confiança (mais CCs, mais dinheiro entrando na conta), e ninguém quer ver o orçamento do partido reduzido.
Até mesmo nas doações de campanha Dilma recebeu o dobro do que Serra, dada a probabilidade de vitória. E alguém aí sabe explicar por que uma empresa (grande parte delas são empreiteiras e agências de publicidade) destina parte de seu capital para um candidato? Creio que não seja por ideologia...
No fim das contas, nossa campanha é composta de dois grandes blocos, como ocorre na eleição norte-americana. Os amigos do rei contra seus inimigos. A chamada terceira via, da maneira como é proposta, com um monte de partidos nanicos – com representatividade praticamente nula – não tem chance alguma de prosperar. Ainda mais sem uma divisão mais justa em tempo de televisão, em participação em debates, em recursos para fazer a divulgação de ideias e propostas (como é que Marina vai disputar em igualdade com a Dilma, se a exposição desta é cinco vezes maior?).
Os partidos estão fracos. Viraram iscas da própria pescaria. E resistem a mudanças. A reforma política só não acontece porque os caciques, que se alimentam deste ciclo vicioso, têm medo de perder o lugar. E o povo está entrando na mesma dança. Para agravar o panorama atual, nesta eleição tem o agravante de que, de um lado, está Lula, que conquistou uma popularidade maior do que a do papa, e de outro estão lideranças desnorteadas, tontas, em crise existencial.
Enfim, nossa democracia é falsa. E somos induzidos a pensar que tudo vai bem. Por mais paranóico que possa parecer, eu tenho comparado isso a uma ditadura disfarçada, onde o mesmo bloco de partidos amiguinhos brincam de dança da cadeira, sufocando o aparecimento de novas lideranças, com ideias capazes de reverter essa tendência.
Apesar dos mais de 30 partidos políticos existentes no Brasil, estamos num ponto em que se é ou não governo. Há siglas especialistas em estar ao lado do poder. Cito o maior partido do Brasil, o PMDB, que deve ser o maior vitorioso nas eleições governamentais e para o Senado deste pleito, mas que constantemente adota postura de situação para se manter grande, não se expondo a um julgamento no pleito presidencial. O próprio PT abriu mão de concorrer em algumas unidades da federação para privilegiar alianças. O Rio Grande do Sul foi uma exceção, dada rivalidade histórica entre os dois partidos (rivalidade que, diga-se de passagem, está cada vez mais fraca).
Já disse isso em outras colunas, mas não canso de repetir: nosso modelo político leva a isso. Em primeiro lugar, porque o presidente, para se eleger, precisa de tempo de televisão, e as coligações permitem a soma dos minutos de cada partido integrante da base de apoio. Em segundo lugar, para governar é preciso ter base aliada, o que leva a favores e concessões. Em terceiro lugar porque os partidos se financiam em parte por um percentual retirado dos salários de quem ocupa cargos de confiança (mais CCs, mais dinheiro entrando na conta), e ninguém quer ver o orçamento do partido reduzido.
Até mesmo nas doações de campanha Dilma recebeu o dobro do que Serra, dada a probabilidade de vitória. E alguém aí sabe explicar por que uma empresa (grande parte delas são empreiteiras e agências de publicidade) destina parte de seu capital para um candidato? Creio que não seja por ideologia...
No fim das contas, nossa campanha é composta de dois grandes blocos, como ocorre na eleição norte-americana. Os amigos do rei contra seus inimigos. A chamada terceira via, da maneira como é proposta, com um monte de partidos nanicos – com representatividade praticamente nula – não tem chance alguma de prosperar. Ainda mais sem uma divisão mais justa em tempo de televisão, em participação em debates, em recursos para fazer a divulgação de ideias e propostas (como é que Marina vai disputar em igualdade com a Dilma, se a exposição desta é cinco vezes maior?).
Os partidos estão fracos. Viraram iscas da própria pescaria. E resistem a mudanças. A reforma política só não acontece porque os caciques, que se alimentam deste ciclo vicioso, têm medo de perder o lugar. E o povo está entrando na mesma dança. Para agravar o panorama atual, nesta eleição tem o agravante de que, de um lado, está Lula, que conquistou uma popularidade maior do que a do papa, e de outro estão lideranças desnorteadas, tontas, em crise existencial.
Enfim, nossa democracia é falsa. E somos induzidos a pensar que tudo vai bem. Por mais paranóico que possa parecer, eu tenho comparado isso a uma ditadura disfarçada, onde o mesmo bloco de partidos amiguinhos brincam de dança da cadeira, sufocando o aparecimento de novas lideranças, com ideias capazes de reverter essa tendência.
sexta-feira, 10 de setembro de 2010
Solução para o trânsito é a exploração!
Faz tempo que me ensaio para falar sobre isso, e ainda não sei porque cargas d’água ainda não entrei no assunto. Ocorreu-me entrar no assunto depois de uma conversa que tive na sala de espera do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes. Sobre preço da gasolina e dos veículos. Eu reclamava do preço da gasolina, das estradas esburacadas e do alto preço dos automóveis. O meio ambiente que me desculpe, mas o que eu queria mesmo era comprar um carro bem potente pela metade do preço e abastecer com combustível bem mais barato. Bom, nada diferente do que todos querem. Ainda mais sabendo que na Argentina, o combustível está menos da metade do preço que pagamos. O mesmo vale para os veículos: os hermanos gastam até 50% menos por um mesmo modelo vendido no Brasil. Revoltante!
Mas... Imagina se os preços fossem os mesmos da Argentina? Atingiríamos o caos (foi só o governo baixar o IPI e a frota nacional aumentou em mais de 3 milhões de veículos em 2009).
Mas hoje até não acho tãããão ruim assim esses custos elevados. Por que, se com esse susto no bolso estamos a beira de um colapso no trânsito das regiões metropolitanas, imagina como seria com tudo mais barato? Em São Paulo, já faz anos que foi adotado o rodízio. Dependendo o dia da semana, determinado número da placa não pode trafegar em pontos críticos da cidade. E o que aconteceu? As pessoas compraram um segundo carro. Até em cidades longe de grandes centros como Frederico já têm alguns problemas. Achar uma vaga para estacionar no Centro é difícil. Os fiéis que vão à missa de domingo fazem procissões de duas, três quadras do carro até a Catedral. Já temos uma média de um veículo por menos de três pessoas no município. E boa parte se desloca de uma quadra a outra de carro.
Ah, ainda não levei em consideração que, quanto maior o fluxo de veículos, mais e maiores os buracos. E também não quero nem pensar em redução da idade para obter permissão para dirigir, (nos Estados Unidos é de 16 anos, por exemplo)! Não estamos preparados para isso!
Transporte público seria a solução. Mas quem é que quer andar em ônibus caindo aos pedaços, esperar horas em paradas detonadas, para ser encoxado? Só se sujeita a virar sardinha enlatada em pinga-pinga quem não tem condições para manter um veículo. Bicicleta? Seria ótimo! Mas sem ciclovias e com um trânsito caótico, é preciso ao menos fazer o testamento antes de se arriscar. Vide o percentual de motociclistas envolvidos em acidentes. Investir em novas vias? A maioria das nossas cidades cresceram de forma desordenada, sem planejamento. Frederico mesmo é cheia de ruas tortas, cruzamentos com cinco ruas. Alterações exigem um grande montante para desocupar terrenos – e também de longas batalhas judiciais. Motoristas sozinhos no carro poderiam aceitar caroneiros. Mas esbarramos de novo no problema da segurança.
Também acho que dava para implementar uma política de renovação de frotas. Em primeiro lugar, por causa da segurança: em praticamente todos os acidentes, tem um carro com mais de 20 anos envolvido. Sem contar que, além de mais lerdos, menos seguros e viciados em mecânico, são muito poluentes. Até daria para ser feito um PAC do carro, do tipo “Jogue fora sua lata velha e compre um veículo com desconto”. Mas como seria muito trabalhoso, e também por ser um prato cheio par picaretas, podem esquecer! Resumindo: como por aqui os bons sempre pagam pelos maus, esses preços exorbitantes tem uma certa razão de existir.
Mas... Imagina se os preços fossem os mesmos da Argentina? Atingiríamos o caos (foi só o governo baixar o IPI e a frota nacional aumentou em mais de 3 milhões de veículos em 2009).
Mas hoje até não acho tãããão ruim assim esses custos elevados. Por que, se com esse susto no bolso estamos a beira de um colapso no trânsito das regiões metropolitanas, imagina como seria com tudo mais barato? Em São Paulo, já faz anos que foi adotado o rodízio. Dependendo o dia da semana, determinado número da placa não pode trafegar em pontos críticos da cidade. E o que aconteceu? As pessoas compraram um segundo carro. Até em cidades longe de grandes centros como Frederico já têm alguns problemas. Achar uma vaga para estacionar no Centro é difícil. Os fiéis que vão à missa de domingo fazem procissões de duas, três quadras do carro até a Catedral. Já temos uma média de um veículo por menos de três pessoas no município. E boa parte se desloca de uma quadra a outra de carro.
Ah, ainda não levei em consideração que, quanto maior o fluxo de veículos, mais e maiores os buracos. E também não quero nem pensar em redução da idade para obter permissão para dirigir, (nos Estados Unidos é de 16 anos, por exemplo)! Não estamos preparados para isso!
Transporte público seria a solução. Mas quem é que quer andar em ônibus caindo aos pedaços, esperar horas em paradas detonadas, para ser encoxado? Só se sujeita a virar sardinha enlatada em pinga-pinga quem não tem condições para manter um veículo. Bicicleta? Seria ótimo! Mas sem ciclovias e com um trânsito caótico, é preciso ao menos fazer o testamento antes de se arriscar. Vide o percentual de motociclistas envolvidos em acidentes. Investir em novas vias? A maioria das nossas cidades cresceram de forma desordenada, sem planejamento. Frederico mesmo é cheia de ruas tortas, cruzamentos com cinco ruas. Alterações exigem um grande montante para desocupar terrenos – e também de longas batalhas judiciais. Motoristas sozinhos no carro poderiam aceitar caroneiros. Mas esbarramos de novo no problema da segurança.
Também acho que dava para implementar uma política de renovação de frotas. Em primeiro lugar, por causa da segurança: em praticamente todos os acidentes, tem um carro com mais de 20 anos envolvido. Sem contar que, além de mais lerdos, menos seguros e viciados em mecânico, são muito poluentes. Até daria para ser feito um PAC do carro, do tipo “Jogue fora sua lata velha e compre um veículo com desconto”. Mas como seria muito trabalhoso, e também por ser um prato cheio par picaretas, podem esquecer! Resumindo: como por aqui os bons sempre pagam pelos maus, esses preços exorbitantes tem uma certa razão de existir.
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
Plataforma de governo
Três de setembro. Falta um mês para a “apoteose da democracia”. Só mais 30 dias e novela volta ao horário normal e os meios de comunicação recomeçam a falar em política (e não de agenda de candidatos e de pesquisa). Um doze avos de ano e você não chegará mais em casa e encontrará sua caixa de correio lotada nem um calhamaço de santinhos empurrados para o seu lar pela fresta da porta.
Recuperaremos agora o que vimos nos últimos dois meses: pessoas de quem nunca ouvimos falar afirmando que fizeram muito pela nossa cidade, fofocas sobre a índole de alguns candidatos, acusações sobre se algo foi feito ou não. Muitas promessas, e afirmações de que “sou consciente dos problemas da região”. Pouca coisa baseada em dados reais. Até porque, como nós eleitores praticamente não damos muita bola para isso em quatro anos, qualquer número jogado na nossa frente acaba sendo aceito.
Não vejo muita criatividade nas campanhas. Essa mesmice é a sequência de fórmulas antigas para fazer nomes de candidatos. Mas vou cobrar o quê, se nossos costumes seguem sendo os mesmos? Por isso, montei minha plataforma de campanha, não como candidato, mas como cidadão. Seria mais ou menos assim:
Prometo que darei o exemplo para que as pessoas sejam mais gentis e solidárias, dêem lugar na fila para idosos e gestantes, não furem as filas, doem sangue, separem lixo seco de orgânico, não façam xixi em vias públicas, usem menos sacolas e embalagens plásticas. Comprometo-me a fazer com que os alunos façam os temas e que não matem aulas. Que aqueles que estão de guarda-chuvas deixem as marquises para os que esqueceram o objeto em casa. Que ninguém mais fará ultrapassagens perigosas, nem beberá antes de dirigir. Além disso, garanto que a faixa de segurança será respeitada.
Elaborarei planos que convençam a todos a lerem mais jornais, livros de boa qualidade e que aproveitem o domingo para desligar a televisão e fazer exercícios físicos. Serei um paladino na luta para que as tiazonas que pegam ônibus intermunicipal ou estadual comam antes de seguir viagem, para não incomodar os demais no primeiro minuto de deslocamento com barulho de sacos sendo mexidos, nem com o cheiro de “fedoritos”. Criarei dispositivos para que o povo tenha mais senso crítico, consciência política e vontade de atuar em causas sociais. E que saibam distinguir carisma e capacidade, boa fé e efetividade, promessa e trabalho, público e particular, generosidade e exploração.
Olhando para esse plano de governo, sinto a mesma impotência em não poder cumprir que devem sentir aqueles que prometem (espero que pelo menos isso eles sintam) saneamento básico, educação , saúde, segurança, infraestrutura, distribuição de renda, aumento do salário mínimo a patamares decentes, reforma agrícola, transparência nas contas públicas, enxugamento da máquina pública, etc... A diferença é que estes problemas dependem de quem será votado por nós. E a resolução de minhas promessas, de quem escolhe os representantes. Tenho quase certeza de que uma coisa é reflexo da outra. Não teríamos nós os representantes que merecemos?
Coluna de 03-09-10 (sim, desta vez o blog publicou em primeira mão)
Recuperaremos agora o que vimos nos últimos dois meses: pessoas de quem nunca ouvimos falar afirmando que fizeram muito pela nossa cidade, fofocas sobre a índole de alguns candidatos, acusações sobre se algo foi feito ou não. Muitas promessas, e afirmações de que “sou consciente dos problemas da região”. Pouca coisa baseada em dados reais. Até porque, como nós eleitores praticamente não damos muita bola para isso em quatro anos, qualquer número jogado na nossa frente acaba sendo aceito.
Não vejo muita criatividade nas campanhas. Essa mesmice é a sequência de fórmulas antigas para fazer nomes de candidatos. Mas vou cobrar o quê, se nossos costumes seguem sendo os mesmos? Por isso, montei minha plataforma de campanha, não como candidato, mas como cidadão. Seria mais ou menos assim:
Prometo que darei o exemplo para que as pessoas sejam mais gentis e solidárias, dêem lugar na fila para idosos e gestantes, não furem as filas, doem sangue, separem lixo seco de orgânico, não façam xixi em vias públicas, usem menos sacolas e embalagens plásticas. Comprometo-me a fazer com que os alunos façam os temas e que não matem aulas. Que aqueles que estão de guarda-chuvas deixem as marquises para os que esqueceram o objeto em casa. Que ninguém mais fará ultrapassagens perigosas, nem beberá antes de dirigir. Além disso, garanto que a faixa de segurança será respeitada.
Elaborarei planos que convençam a todos a lerem mais jornais, livros de boa qualidade e que aproveitem o domingo para desligar a televisão e fazer exercícios físicos. Serei um paladino na luta para que as tiazonas que pegam ônibus intermunicipal ou estadual comam antes de seguir viagem, para não incomodar os demais no primeiro minuto de deslocamento com barulho de sacos sendo mexidos, nem com o cheiro de “fedoritos”. Criarei dispositivos para que o povo tenha mais senso crítico, consciência política e vontade de atuar em causas sociais. E que saibam distinguir carisma e capacidade, boa fé e efetividade, promessa e trabalho, público e particular, generosidade e exploração.
Olhando para esse plano de governo, sinto a mesma impotência em não poder cumprir que devem sentir aqueles que prometem (espero que pelo menos isso eles sintam) saneamento básico, educação , saúde, segurança, infraestrutura, distribuição de renda, aumento do salário mínimo a patamares decentes, reforma agrícola, transparência nas contas públicas, enxugamento da máquina pública, etc... A diferença é que estes problemas dependem de quem será votado por nós. E a resolução de minhas promessas, de quem escolhe os representantes. Tenho quase certeza de que uma coisa é reflexo da outra. Não teríamos nós os representantes que merecemos?
Coluna de 03-09-10 (sim, desta vez o blog publicou em primeira mão)
quinta-feira, 26 de agosto de 2010
TSE adverte: humor demais faz mal as eleições
Humoristas do Brasil fizeram um protesto contra a norma do Tribunal Superior Eleitoral que proíbe a veiculação, por rádio ou TV, de entrevistas ou montagens que "degradem ou ridicularizem" candidatos. Quem desobedecer terá que desembolsar até R$ 106.410. Praticamente todos os programas de humor estavam representados. Juntando as pessoas que passavam pelas ruas, deu em torno de 500 pessoas (hoje em dia nem comediantes famosos conseguem mobilizar o povo)...
Bom, puxei esse assunto para entrar em outro: já se perguntaram porquê foi adotado esse critério? Desde já adianto que sou contra qualquer tipo de censura. Assim como sou contra qualquer tipo de publicação irresponsável. Brinco volta e meia com médicos que, se eles podem matar uma pessoa, nós (enquanto jornalistas ou pessoas que lidam com mídias) podemos condenar pessoas ao ostracismo – menos letal, mas muito mais doloroso (Ibsen Pinheiro que o diga). Algumas brincadeiras que são feitas, mesmo sem querer, acabam rotulando determinadas pessoas, sem a preocupação de comprovar o porquê do rótulo. E não recomendo a ridicularização como forma de humor.
Adoro sátiras, ironias, comentários com acidez, irreverência, tiradas inteligentes, seja isso em vídeos, charges, crônicas, stand up comedy, o que for. Acho que é uma forma de levar ao público assuntos indigestos de forma interessante. O mundo seria muito chato sem humor! Mas confesso que não gosto muito de avacalhação, escracho. Isso é para rodas de amigos, não para meios de comunicação. E, diante do que tenho visto, até entendo o porquê desta grita generalizada dos políticos contra algumas piadas. Muitos humoristas atuam como parasitas, ou seja, para fazerem rir, terem audiência e venderem ingressos para shows, necessitam “sugar” os próximos.
Acho válida a manifestação dos humoristas. Apenas lamento que isso tenha servido apenas como uma forma de jogar para a torcida, sem que isso resulte em uma reflexão sobre a própria produção, sobre o tipo de humor que é feito. Há uma linha tênue entre irreverência e falta de respeito. Entre inteligência e idiotice. Linha esta que cada vez mais é ultrapassada, para o deleite do espectador. E, dentro da linha propagada há décadas por Sílvio Santos do “eu dou ao público o que o público quer”, creio que esse aumento de audiência a partir do mau gosto só pode ser reflexo do que grande parte das pessoas também está passando por esta fase de idiotização. Não estou pregando que todos devam desligar a televisão, ou deixar de comprar determinado jornal, ou parar de acessar alguns blogs. Mas um olhar mais crítico é necessário. Até porque, seguindo a linha de raciocínio de que nos dão o que queremos, também parece que temos os políticos, a realidade social, a condição econômica, o nível de educação oferecido pelo Estado, o tipo de segurança pública que queremos... E para que questionar isso, se afinal de contas podemos rir de tudo isso, não é mesmo?
Enfim: essa lei é nociva à democracia, sim. Humor ajuda a formar a opinião dos eleitores, aproxima as notícias do público. Mas também considero nociva a rotulação, a ridicularização, a apelação, o mau gosto, penso que essa censura poderia ter sido evitada com um pingo de “auto-censura”. Mas, claro, isso parece não ter graça...
Bom, puxei esse assunto para entrar em outro: já se perguntaram porquê foi adotado esse critério? Desde já adianto que sou contra qualquer tipo de censura. Assim como sou contra qualquer tipo de publicação irresponsável. Brinco volta e meia com médicos que, se eles podem matar uma pessoa, nós (enquanto jornalistas ou pessoas que lidam com mídias) podemos condenar pessoas ao ostracismo – menos letal, mas muito mais doloroso (Ibsen Pinheiro que o diga). Algumas brincadeiras que são feitas, mesmo sem querer, acabam rotulando determinadas pessoas, sem a preocupação de comprovar o porquê do rótulo. E não recomendo a ridicularização como forma de humor.
Adoro sátiras, ironias, comentários com acidez, irreverência, tiradas inteligentes, seja isso em vídeos, charges, crônicas, stand up comedy, o que for. Acho que é uma forma de levar ao público assuntos indigestos de forma interessante. O mundo seria muito chato sem humor! Mas confesso que não gosto muito de avacalhação, escracho. Isso é para rodas de amigos, não para meios de comunicação. E, diante do que tenho visto, até entendo o porquê desta grita generalizada dos políticos contra algumas piadas. Muitos humoristas atuam como parasitas, ou seja, para fazerem rir, terem audiência e venderem ingressos para shows, necessitam “sugar” os próximos.
Acho válida a manifestação dos humoristas. Apenas lamento que isso tenha servido apenas como uma forma de jogar para a torcida, sem que isso resulte em uma reflexão sobre a própria produção, sobre o tipo de humor que é feito. Há uma linha tênue entre irreverência e falta de respeito. Entre inteligência e idiotice. Linha esta que cada vez mais é ultrapassada, para o deleite do espectador. E, dentro da linha propagada há décadas por Sílvio Santos do “eu dou ao público o que o público quer”, creio que esse aumento de audiência a partir do mau gosto só pode ser reflexo do que grande parte das pessoas também está passando por esta fase de idiotização. Não estou pregando que todos devam desligar a televisão, ou deixar de comprar determinado jornal, ou parar de acessar alguns blogs. Mas um olhar mais crítico é necessário. Até porque, seguindo a linha de raciocínio de que nos dão o que queremos, também parece que temos os políticos, a realidade social, a condição econômica, o nível de educação oferecido pelo Estado, o tipo de segurança pública que queremos... E para que questionar isso, se afinal de contas podemos rir de tudo isso, não é mesmo?
Enfim: essa lei é nociva à democracia, sim. Humor ajuda a formar a opinião dos eleitores, aproxima as notícias do público. Mas também considero nociva a rotulação, a ridicularização, a apelação, o mau gosto, penso que essa censura poderia ter sido evitada com um pingo de “auto-censura”. Mas, claro, isso parece não ter graça...
Atualizado!!!
Finalmente o blog está atualizado. Postei tudo o que tinha de antigo desde o início da coluna Papo de Corredor em Folha do Noroeste (Papo de Corredor... depois que cometi esse nome, fiquei pensando que algum desavisado pode pensar que eu dou dicas de maratona)! Não que seja um patrimônio cultural que precisa ser preservado, mas não deixa de ser um arquivo pessoal (só eu sei o quanto esforço fiz para parir essas "criaturas"). Ou seja: a partir de agora o blog está valendo.
Fica um agradecimento para o pessoal que colaborou até hoje revisando, dando ideias e criticando os textos. A Dani, a Jaque, a Debora, a Fefa, e sobretudo o meu pai, o seu Nelson, que se diz meu leitor número um e divulga a coluna no msn dele para os outros pensarem que ele que escreve e, desta forma, eu ter mais acessos. Também tenho que agradecer aos demais 32 leitores dqa coluna no jornal (pelo menos foram tantos que disseram que leram). Valeu!!!
Fica um agradecimento para o pessoal que colaborou até hoje revisando, dando ideias e criticando os textos. A Dani, a Jaque, a Debora, a Fefa, e sobretudo o meu pai, o seu Nelson, que se diz meu leitor número um e divulga a coluna no msn dele para os outros pensarem que ele que escreve e, desta forma, eu ter mais acessos. Também tenho que agradecer aos demais 32 leitores dqa coluna no jornal (pelo menos foram tantos que disseram que leram). Valeu!!!
terça-feira, 24 de agosto de 2010
Me engana que eu gosto!
Entrou no ar nesta semana um novo programa nas televisões e nos rádios das famílias brasileiras. O Horário Eleitoral Gratuito (ou “Me engana que eu gosto”, como preferir). É a parte mais cara das campanhas, e é a que mais define o eleitor. E, para mim, uma baita enganação. Explicarei: na teoria, essa é a forma mais abrangente para os candidatos apresentarem suas propostas. Num país tão grande, é importante ter um canal direto com o eleitor para mostrar a cara e apresentar projetos. Mas o aproveitamento em termos de conteúdo é uma... Bom, vamos aos fatos:
1) Campanha para deputados estadual e federal: beira o ridículo aquele povo todo tentando passar o recado em 15 segundos. Em primeiro lugar, porque cérebro nenhum consegue distinguir um candidato do outro. Mais improvável ainda decorar os números. “Sou a favor da Educação, vote xx”! A favor da Educação todos somos, mas o que precisa mudar mesmo? “Vou trabalhar por mais segurança, meu nome é Godofredo”! Cada discurso... a ideia que fica é de que parlamentares têm poderes supremos, dotados de magia oculta para acabar com as mazelas do mundo.
2) Disparidade de tempo: como é que vamos eleger um presidente com a convicção de que é o melhor se uns tem menos de dois minutos de programa e outros entre 6 e 10? Como explicitar alguma ideia em tão pouco tempo? Como um candidato de sigla nanica pode concorrer igualitariamente com o poder econômico e o latifúndio de tempo de siglas maiores? Dividir o tempo de exposição de forma proporcional ao número de deputados federais de cada partido foi uma forma “inteligente” de manter sempre os mesmos no poder.
3) Clichês: como não temos mais a disciplina de Educação Moral e Cívica nas escolas, os programas são uma aula de clichês sobre o Brasil e o Rio Grande amado. Bandeiras, hinos, paisagens e pontos turísticos, um pouco de pobreza (para mostrar que os candidatos também sabem das necessidades do povo), musicas chicletes, passeatas e apelos a figuras históricas (Vargas, Tancredo, Brizola e Lula são os mais concorridos; ninguém menciona Médici, Costa e Silva, Geisel, Figueiredo e Castelo Branco). É um 7 de Setembro misturado com carnaval. Como eles vão fazer nossa vida melhorar? Isso fica para depois (quem tentar provocar reflexões mais profundas corre o risco de cair nas pesquisas).
4) Números maquiados: como tudo é relativo, é possível manipular os números da maneira que se imaginar. Por exemplo: nos últimos quatro anos, a taxa de desemprego caiu 10%. Mas está 2% acima do ano anterior. E um patamar muito aquém do que era há 20 anos atrás. Ou seja, a mesma coisa é mostrada sob pontos de vista diferentes, dependendo apenas do interesse do candidato. Um grande vazio travestido de “repleto de significado”.
5) Sorrisos: a simpatia forçada nos programas ainda é facilmente confundida pela população com habilidade administrativa. Fulano é bem legal, logo deve fazer um bom governo. Cicrana se veste bem, logo é “gente séria”.
Enfim, como já me informei e defini meus candidatos, vou aproveitar esse tempinho da tv para ler, lavar a louça, trabalhar mais um pouco (olha a demagogia do colunista!). Assistir, só para ter mais argumentos para pôr defeito. Rezar também é uma boa, para pedir que nossas cabecinhas que só pensam em futebol e novela captem por osmose alguma mensagem subliminar que aponte para os mais preparados. E que tudo isso acabe logo!
20-08-10
1) Campanha para deputados estadual e federal: beira o ridículo aquele povo todo tentando passar o recado em 15 segundos. Em primeiro lugar, porque cérebro nenhum consegue distinguir um candidato do outro. Mais improvável ainda decorar os números. “Sou a favor da Educação, vote xx”! A favor da Educação todos somos, mas o que precisa mudar mesmo? “Vou trabalhar por mais segurança, meu nome é Godofredo”! Cada discurso... a ideia que fica é de que parlamentares têm poderes supremos, dotados de magia oculta para acabar com as mazelas do mundo.
2) Disparidade de tempo: como é que vamos eleger um presidente com a convicção de que é o melhor se uns tem menos de dois minutos de programa e outros entre 6 e 10? Como explicitar alguma ideia em tão pouco tempo? Como um candidato de sigla nanica pode concorrer igualitariamente com o poder econômico e o latifúndio de tempo de siglas maiores? Dividir o tempo de exposição de forma proporcional ao número de deputados federais de cada partido foi uma forma “inteligente” de manter sempre os mesmos no poder.
3) Clichês: como não temos mais a disciplina de Educação Moral e Cívica nas escolas, os programas são uma aula de clichês sobre o Brasil e o Rio Grande amado. Bandeiras, hinos, paisagens e pontos turísticos, um pouco de pobreza (para mostrar que os candidatos também sabem das necessidades do povo), musicas chicletes, passeatas e apelos a figuras históricas (Vargas, Tancredo, Brizola e Lula são os mais concorridos; ninguém menciona Médici, Costa e Silva, Geisel, Figueiredo e Castelo Branco). É um 7 de Setembro misturado com carnaval. Como eles vão fazer nossa vida melhorar? Isso fica para depois (quem tentar provocar reflexões mais profundas corre o risco de cair nas pesquisas).
4) Números maquiados: como tudo é relativo, é possível manipular os números da maneira que se imaginar. Por exemplo: nos últimos quatro anos, a taxa de desemprego caiu 10%. Mas está 2% acima do ano anterior. E um patamar muito aquém do que era há 20 anos atrás. Ou seja, a mesma coisa é mostrada sob pontos de vista diferentes, dependendo apenas do interesse do candidato. Um grande vazio travestido de “repleto de significado”.
5) Sorrisos: a simpatia forçada nos programas ainda é facilmente confundida pela população com habilidade administrativa. Fulano é bem legal, logo deve fazer um bom governo. Cicrana se veste bem, logo é “gente séria”.
Enfim, como já me informei e defini meus candidatos, vou aproveitar esse tempinho da tv para ler, lavar a louça, trabalhar mais um pouco (olha a demagogia do colunista!). Assistir, só para ter mais argumentos para pôr defeito. Rezar também é uma boa, para pedir que nossas cabecinhas que só pensam em futebol e novela captem por osmose alguma mensagem subliminar que aponte para os mais preparados. E que tudo isso acabe logo!
20-08-10
Conviver com a diferença
Na semana passada, fui assistir num bar ao jogo de ida do Grêmio contra o Goiás pela Copa Sul-Americana. Após a partida, viria Inter e São Paulo. Obviamente, minha pretensão era torcer na primeira partida, e secar na segunda. Como a campanha não é boa, fiquei na minha no primeiro jogo. E como estava no meio de um mar vermelho, fiquei na minha também no segundo jogo. Ainda mais depois que o São Paulo abriu o placar e três gremistas apanharam de metade do bar porque comemoraram. O engraçado é que quem bateu foram os mesmos que fizeram a maior zona depois que o Goiás empatou o jogo com o Tricolor.
Não quero falar sobre futebol. Ultimamente prefiro ignorar o tema. Muito menos para condenar uma torcida, sabendo que a recíproca é verdadeira. Vou falar sobre o que pensei enquanto tive que ficar bem quieto no bar, vendo a classificação do adversário. Sem motivos para comemorar, fiquei pensando sobre conviver com diferenças. O que me levou a isso foi a observação que fiz em meio a briga. Os colorados que assistiam a torcida acompanhados de amigos “secadores” não se envolveram no tumulto. Até ajudaram a separar. Por outro lado, aqueles que estavam em mesas “puras” foram os que se comportaram pior. Daí lembrei que as vezes em que me comportei melhor durante os jogos foi quando tinha comigo pessoas “diferentes”.
Sabe que cheguei à conclusão de que isso é assim em outras circunstâncias? Pessoas que têm amigos, ou colegas, ou conhecidos homossexuais, aparentemente são menos homofóbicos; sujeitos que frequentam ambientes com católicos, ateus, pentecostais, judeus, etc... convivem melhor do que aqueles mergulhados apenas entre “iguais” (geralmente são os mais intolerantes); homens que tem mais contato com mulheres, seja na criação, no trabalho ou onde for, aparentemente são menos machistas do que aqueles que convivem apenas em ambientes masculinos.
Falo aparentemente porque essa é apenas uma observação: não empreguei qualquer método científico. E, obviamente, estou generalizando. Mas penso que a diferença leva a uma mudança de comportamento. Coloca um homem no meio de um salão de beleza para ver se a mulherada não pega mais leve nos comentários...
Além disso, os maiores fofoqueiros que conheço são pessoas dotadas de muito preconceito, que não sabem lidar com diferenças, que acham que são os únicos certos e por isso apontam para os outros (que são os errados, segundo esse raciocínio).
Por isso acho que algumas coisas precisam ser revistas nos grupos de “iguais”. Eu defendo a pluralidade. Por mais que a diferença possa parecer agressiva, é a existência dela em uma sociedade que reduz o preconceito e a violência (os países em guerra são exatamente os que não sabem conviver com isso). Acho que só se chega a uma sociedade mais pacífica e consciente por dois caminhos: ou com a igualdade absoluta, ou com o bom convívio entre as diferenças. Eu prefiro a segunda.
Ps: hoje, sexta-feira 13, em pleno agosto. Dia dos canhotos! Parabéns a todos esses renegados obrigados a abrir refrigerante pet girando a garrafa ao invés da tampa...
13-08-10
Não quero falar sobre futebol. Ultimamente prefiro ignorar o tema. Muito menos para condenar uma torcida, sabendo que a recíproca é verdadeira. Vou falar sobre o que pensei enquanto tive que ficar bem quieto no bar, vendo a classificação do adversário. Sem motivos para comemorar, fiquei pensando sobre conviver com diferenças. O que me levou a isso foi a observação que fiz em meio a briga. Os colorados que assistiam a torcida acompanhados de amigos “secadores” não se envolveram no tumulto. Até ajudaram a separar. Por outro lado, aqueles que estavam em mesas “puras” foram os que se comportaram pior. Daí lembrei que as vezes em que me comportei melhor durante os jogos foi quando tinha comigo pessoas “diferentes”.
Sabe que cheguei à conclusão de que isso é assim em outras circunstâncias? Pessoas que têm amigos, ou colegas, ou conhecidos homossexuais, aparentemente são menos homofóbicos; sujeitos que frequentam ambientes com católicos, ateus, pentecostais, judeus, etc... convivem melhor do que aqueles mergulhados apenas entre “iguais” (geralmente são os mais intolerantes); homens que tem mais contato com mulheres, seja na criação, no trabalho ou onde for, aparentemente são menos machistas do que aqueles que convivem apenas em ambientes masculinos.
Falo aparentemente porque essa é apenas uma observação: não empreguei qualquer método científico. E, obviamente, estou generalizando. Mas penso que a diferença leva a uma mudança de comportamento. Coloca um homem no meio de um salão de beleza para ver se a mulherada não pega mais leve nos comentários...
Além disso, os maiores fofoqueiros que conheço são pessoas dotadas de muito preconceito, que não sabem lidar com diferenças, que acham que são os únicos certos e por isso apontam para os outros (que são os errados, segundo esse raciocínio).
Por isso acho que algumas coisas precisam ser revistas nos grupos de “iguais”. Eu defendo a pluralidade. Por mais que a diferença possa parecer agressiva, é a existência dela em uma sociedade que reduz o preconceito e a violência (os países em guerra são exatamente os que não sabem conviver com isso). Acho que só se chega a uma sociedade mais pacífica e consciente por dois caminhos: ou com a igualdade absoluta, ou com o bom convívio entre as diferenças. Eu prefiro a segunda.
Ps: hoje, sexta-feira 13, em pleno agosto. Dia dos canhotos! Parabéns a todos esses renegados obrigados a abrir refrigerante pet girando a garrafa ao invés da tampa...
13-08-10
A campanha que pesa no bolso (ou o bolso em que a campanha pesa)
Um dos assuntos que nós, eleitores, com certeza vamos ouvir falar muito neste período eleitoral é sobre financiamento público de campanha. A grita entre os candidatos está se avolumando ante as dificuldades em conseguir financiadores para encorpar a movimentação das próprias bases. O endurecimento da legislação contra o caixa dois (historicamente, prática utilizada por todos os partidos e candidatos, sem exceção) está dificultando a arrecadação. Nunca foi tão difícil conseguir dinheiro para campanhas. Então, é preciso achar uma forma de alguém pagar por isso, não?
A edição de Zero Hora de ontem (quinta-feira, 5) mostra que os três principais candidatos ao Palácio Piratini declararam, na primeira prestação de contas obrigatória da campanha, um volume arrecadado muito aquém do que pretendiam. O melhor resultado foi o de Tarso Genro, que angariou R$ 1,3 milhão, pouco mais de 10% dos R$ 10 milhões outrora estimados como gastos total.
Ninguém quer se comprometer. Segundo uma reportagem da Folha de São Paulo desta semana, alguns partidos estão usando truques para conseguir recursos mantendo os doadores (especialmente as pessoas jurídicas) no anonimato. Por exemplo, ao invés da doação ser feita diretamente à conta da campanha, em que seria obrigatória a divulgação do doador, o dinheiro tem sido enviado aos fundos partidários, que por conseguinte remetem para a conta dos candidatos. Em menor âmbito, é mais ou menos como aqueles empresários de cidades em que todos se conhecem, que optam por não abrir o voto com medo de retaliações por parte dos eleitores adversários (em Frederico Westphalen isso acontece e muito!).
Por outro lado, as campanhas estão cada vez mais caras. É preciso pagar por material gráfico (adesivos, santinhos, folders), locomoção (gasolina, aluguel de veículos, estadias), pessoas que trabalham na campanha (entregadores de santinhos), empresas que produzem o material gráfico, jingles, aluguel de equipamentos de som, construção de sites, gravação dos vídeos e áudios para o programa eleitoral, etc...
Ou seja: o direito universal de que todos podem concorrer fica cada vez mais no papel, porque o alto investimento é de alto risco, e cada vez menos pode-se contar com a estrutura partidária. Em consequência, teremos candidatos com “menos” qualidade (no sentido de capacidade política). Em contrapartida, seremos atacados por uma elite (no sentido de capacidade de investimento), ou por um bando de celebridades. Os próprios partidos estão apelando por incluir em suas nominatas celebridades, na esperança de que estes sejam puxadores de votos. Daqui uns dias, teremos parlamentos compostos exclusivamente por jogadores de futebol, cantores de músicas populares e ex-BBBs.
Enfim: se vocês ouvirem falar em financiamento público de campanha, apertem os candidatos, perguntem sobre qual a fórmula proposta, de que forma estaremos pagando isso. Por um lado, pode até ser algo positivo. Mas tenho dúvidas: ainda prefiro ver “eles” tirando dinheiro do bolso. Do bolso deles, e não do meu.
06-08-10
A edição de Zero Hora de ontem (quinta-feira, 5) mostra que os três principais candidatos ao Palácio Piratini declararam, na primeira prestação de contas obrigatória da campanha, um volume arrecadado muito aquém do que pretendiam. O melhor resultado foi o de Tarso Genro, que angariou R$ 1,3 milhão, pouco mais de 10% dos R$ 10 milhões outrora estimados como gastos total.
Ninguém quer se comprometer. Segundo uma reportagem da Folha de São Paulo desta semana, alguns partidos estão usando truques para conseguir recursos mantendo os doadores (especialmente as pessoas jurídicas) no anonimato. Por exemplo, ao invés da doação ser feita diretamente à conta da campanha, em que seria obrigatória a divulgação do doador, o dinheiro tem sido enviado aos fundos partidários, que por conseguinte remetem para a conta dos candidatos. Em menor âmbito, é mais ou menos como aqueles empresários de cidades em que todos se conhecem, que optam por não abrir o voto com medo de retaliações por parte dos eleitores adversários (em Frederico Westphalen isso acontece e muito!).
Por outro lado, as campanhas estão cada vez mais caras. É preciso pagar por material gráfico (adesivos, santinhos, folders), locomoção (gasolina, aluguel de veículos, estadias), pessoas que trabalham na campanha (entregadores de santinhos), empresas que produzem o material gráfico, jingles, aluguel de equipamentos de som, construção de sites, gravação dos vídeos e áudios para o programa eleitoral, etc...
Ou seja: o direito universal de que todos podem concorrer fica cada vez mais no papel, porque o alto investimento é de alto risco, e cada vez menos pode-se contar com a estrutura partidária. Em consequência, teremos candidatos com “menos” qualidade (no sentido de capacidade política). Em contrapartida, seremos atacados por uma elite (no sentido de capacidade de investimento), ou por um bando de celebridades. Os próprios partidos estão apelando por incluir em suas nominatas celebridades, na esperança de que estes sejam puxadores de votos. Daqui uns dias, teremos parlamentos compostos exclusivamente por jogadores de futebol, cantores de músicas populares e ex-BBBs.
Enfim: se vocês ouvirem falar em financiamento público de campanha, apertem os candidatos, perguntem sobre qual a fórmula proposta, de que forma estaremos pagando isso. Por um lado, pode até ser algo positivo. Mas tenho dúvidas: ainda prefiro ver “eles” tirando dinheiro do bolso. Do bolso deles, e não do meu.
06-08-10
A ditadura do excesso
No curso de pós-graduação que encerrei há poucos meses, tive a oportunidade de ser aluno e colega de algumas figuras interessantes. Uma delas é músico Richard Serraria (líder da Bataclã F.C. e do projeto Vila Brasil), professor de uma disciplina dedicada à análise de canções de cada época em meio ao contexto social e político. Com um violão e uma pilha de CDs, ouvimos Noel Rosa e Aracy de Almeida, Carmen Miranda, as divas do rádio Emilinha Borba e Marlene, as grandes canções dos festivais da década de 60, dando atenção também ao Tropicalismo, à Bossa Nova e ao Rock dos Anos 80.
Percebemos, nesta disciplina, que a música é bastante ligada ao momento histórico em que é produzida, por mais simples que seja (músicas antigas não dizem ‘to num celular, falando de um bar’, embora bares apareçam em várias canções).E, principalmente, que seu sucesso depende muito dos meios de comunicação à disposição. Também acompanhamos a experiência de Serraria, que aplica no trabalho sua pesquisa de ritmos e instrumentos brasileiros, expressas em letras ricas e, confesso não muito pop. Culturalmente muito bom, mas que enfrentam muitos obstáculos para marcar shows e vender CDs (R$ 5,00).
Para encurtar a história, comparamos o momento musical atual com os anteriores: o contexto político e o acesso aos meios de comunicação. Tivemos algumas conclusões positivas e muitas nem tanto. A boa notícia é de que a internet surgiu como uma espécie de libertação àqueles que antes tinham que se curvar à ditadura das grandes gravadoras (interessadas mais na quantidade de vendas do que na qualidade das músicas e dos artistas), das rádios e dos programas de televisão (tudo pela audiência). Hoje é possível descobrir cantores e bandas de qualquer lugar do mundo sentado na frente do computador. A adesão é cada vez maior de público e de artistas. Hoje temos grandes exemplos de bandas e artistas que conseguem divulgar o trabalho e sobreviver dessa forma. E, pasmem: há ótimos músicos e compositores assim como havia no passado.
Porém, constatamos que liberdade de escolha não significa diversidade de escolha. Assim como uma criança pede sempre sorvete de chocolate entre 40 sabores, o público, em geral, transforma em sucesso apenas canções similares do que já é consumido (eu sei que ninguém tem a obrigação de gostar de algo. Mas poderia experimentar!). Só que considero muito frustrante que, apesar do espaço para aparecer ser bastante amplo, a temática e a riqueza das letras e das melodias só piorem. Há um excesso de rimas do tipo “o amor é uma dor, e meu dia ficou sem cor”, há uma infinidade de músicas falando “vou beber até cair”, “quem cuida da minha vida sou eu”, “ela me abandonoooooou” ou “vou pegar todas” (valores que parecem ser a principal preocupação da sociedade moderna), e a impressão que fica é que no meio de tudo isso se perde o que soa diferente. Como se um diluísse o outro. Ou seja: a dificuldade de que algo novo se sobreponha às mesmas “fórmulas de sucesso” está igual ou pior do que antes. Ficamos com a sensação de que, no meio de tanta diversidade, de tantas possibilidades, tudo está cada vez mais igual. Apenas com rótulos diferentes.
30-07-10
Percebemos, nesta disciplina, que a música é bastante ligada ao momento histórico em que é produzida, por mais simples que seja (músicas antigas não dizem ‘to num celular, falando de um bar’, embora bares apareçam em várias canções).E, principalmente, que seu sucesso depende muito dos meios de comunicação à disposição. Também acompanhamos a experiência de Serraria, que aplica no trabalho sua pesquisa de ritmos e instrumentos brasileiros, expressas em letras ricas e, confesso não muito pop. Culturalmente muito bom, mas que enfrentam muitos obstáculos para marcar shows e vender CDs (R$ 5,00).
Para encurtar a história, comparamos o momento musical atual com os anteriores: o contexto político e o acesso aos meios de comunicação. Tivemos algumas conclusões positivas e muitas nem tanto. A boa notícia é de que a internet surgiu como uma espécie de libertação àqueles que antes tinham que se curvar à ditadura das grandes gravadoras (interessadas mais na quantidade de vendas do que na qualidade das músicas e dos artistas), das rádios e dos programas de televisão (tudo pela audiência). Hoje é possível descobrir cantores e bandas de qualquer lugar do mundo sentado na frente do computador. A adesão é cada vez maior de público e de artistas. Hoje temos grandes exemplos de bandas e artistas que conseguem divulgar o trabalho e sobreviver dessa forma. E, pasmem: há ótimos músicos e compositores assim como havia no passado.
Porém, constatamos que liberdade de escolha não significa diversidade de escolha. Assim como uma criança pede sempre sorvete de chocolate entre 40 sabores, o público, em geral, transforma em sucesso apenas canções similares do que já é consumido (eu sei que ninguém tem a obrigação de gostar de algo. Mas poderia experimentar!). Só que considero muito frustrante que, apesar do espaço para aparecer ser bastante amplo, a temática e a riqueza das letras e das melodias só piorem. Há um excesso de rimas do tipo “o amor é uma dor, e meu dia ficou sem cor”, há uma infinidade de músicas falando “vou beber até cair”, “quem cuida da minha vida sou eu”, “ela me abandonoooooou” ou “vou pegar todas” (valores que parecem ser a principal preocupação da sociedade moderna), e a impressão que fica é que no meio de tudo isso se perde o que soa diferente. Como se um diluísse o outro. Ou seja: a dificuldade de que algo novo se sobreponha às mesmas “fórmulas de sucesso” está igual ou pior do que antes. Ficamos com a sensação de que, no meio de tanta diversidade, de tantas possibilidades, tudo está cada vez mais igual. Apenas com rótulos diferentes.
30-07-10
Inversão de papéis
Gosto de política. Quando decidi fazer o curso de Jornalismo, lá pela sétima série, foi pensando em cobrir este setor. Como se fosse um voyeur com camarote privilegiado das tomadas de decisões, estando muito próximo sem a necessidade de tomar partido, defender bandeiras. Seria uma ótima maneira de evitar ter de tomar partido, de defender uma sigla como se fosse um clube de futebol. De me comprometer com pessoas de índoles discutíveis em nome de um todo.
Não precisei de muito tempo para ver que minha visão era romântica. Por que nem os políticos se comprometem com a sigla de forma sincera. Quem verdadeiramente se compromete, bate no peito, chora, grita, discute, esperneia, ameaça de morte, é a “boiada”, aqueles apoiadores que não estão nem um pouco interessados no que é política em si, mas na farra, na festa, no burburinho, na fofoca. São os que se expõe pela simples paixão por se expor.
Quantos políticos você conhece que pensam em primeiro lugar no partido? Pelo contrário: os maiores adversários políticos estão dentro do mesmo diretório. A disputa pelo poder começa em casa. Vale a máxima de que, se “partido” fosse bom, seria “unido”. Vamos aos exemplos: o PMDB estadual apoia (informalmente) Serra, o federal indicou o vice de Dilma; idem o PP, que apesar de não estar formalmente na coligação da candidata petista, teve parte considerável de seu bloco que declarou apoio à ex-ministra – as mesmas figuras que deram sustentação a Fernando Henrique Cardoso e que, independentemente de quem ganhe as eleições, permanecerão “governistas” no próximo mandato; os progressistas ainda vêem seus candidatos da Capital deixar Yeda de lado para se aproximar de Fogaça; o PDT indicou o vice de Fogaça no Estado, mas o ex-governador Collares está em todas as fotos ao lado de Tarso.
Poucos tomam posição. Pra nós sobram os discursos de que é preciso manter um alto nível de campanha (= pouco debate de ideias), de que não podemos trocar acusações baratas (= não parecer antipático ao eleitor), de que um país, um Estado, deve ser governado por todos (= se eu perder, apoio o governo e mantenho minha cota de cargos).
Esse é um dos motivos pelos quais considero o período eleitoral como a pior parte dos quatro anos dos mandatos. Não se vê trabalho concreto: esta é apenas uma época de promessas. Poeticamente, diríamos que é mais hora de semear (as promessas) do que de colher (o trabalho feito). O eleitor que não acompanhou tudo o que aconteceu se deixa levar por apelos emocionais. É por isso que acho que a culpa não é dos políticos, que precisam atingir o eleitorado de outras formas, já que o trabalho não aparece. É do eleitor (cada povo tem os representantes que elegeu). O descaso com que 90% da população trata a política, sem se envolver nos assuntos do próprio município e do próprio Estado faz com que as regras do jogo permaneçam iguais às de 20, 30 anos atrás. É como futebol: não importa muito como o seu time está jogando; nunca se troca de time.
23-07-10
Não precisei de muito tempo para ver que minha visão era romântica. Por que nem os políticos se comprometem com a sigla de forma sincera. Quem verdadeiramente se compromete, bate no peito, chora, grita, discute, esperneia, ameaça de morte, é a “boiada”, aqueles apoiadores que não estão nem um pouco interessados no que é política em si, mas na farra, na festa, no burburinho, na fofoca. São os que se expõe pela simples paixão por se expor.
Quantos políticos você conhece que pensam em primeiro lugar no partido? Pelo contrário: os maiores adversários políticos estão dentro do mesmo diretório. A disputa pelo poder começa em casa. Vale a máxima de que, se “partido” fosse bom, seria “unido”. Vamos aos exemplos: o PMDB estadual apoia (informalmente) Serra, o federal indicou o vice de Dilma; idem o PP, que apesar de não estar formalmente na coligação da candidata petista, teve parte considerável de seu bloco que declarou apoio à ex-ministra – as mesmas figuras que deram sustentação a Fernando Henrique Cardoso e que, independentemente de quem ganhe as eleições, permanecerão “governistas” no próximo mandato; os progressistas ainda vêem seus candidatos da Capital deixar Yeda de lado para se aproximar de Fogaça; o PDT indicou o vice de Fogaça no Estado, mas o ex-governador Collares está em todas as fotos ao lado de Tarso.
Poucos tomam posição. Pra nós sobram os discursos de que é preciso manter um alto nível de campanha (= pouco debate de ideias), de que não podemos trocar acusações baratas (= não parecer antipático ao eleitor), de que um país, um Estado, deve ser governado por todos (= se eu perder, apoio o governo e mantenho minha cota de cargos).
Esse é um dos motivos pelos quais considero o período eleitoral como a pior parte dos quatro anos dos mandatos. Não se vê trabalho concreto: esta é apenas uma época de promessas. Poeticamente, diríamos que é mais hora de semear (as promessas) do que de colher (o trabalho feito). O eleitor que não acompanhou tudo o que aconteceu se deixa levar por apelos emocionais. É por isso que acho que a culpa não é dos políticos, que precisam atingir o eleitorado de outras formas, já que o trabalho não aparece. É do eleitor (cada povo tem os representantes que elegeu). O descaso com que 90% da população trata a política, sem se envolver nos assuntos do próprio município e do próprio Estado faz com que as regras do jogo permaneçam iguais às de 20, 30 anos atrás. É como futebol: não importa muito como o seu time está jogando; nunca se troca de time.
23-07-10
Palmas ou palmadas para o ECA?
O Estatuto da Criança e do Adolescente fez 20 anos. Eu tinha sete anos quando isso ocorreu. Lembro de ver as pessoas falarem do ECA pela tv, de assistir palestras na escola, até de fazer trabalhinhos sobre o assunto. Claro que não entendia nada do que estava acontecendo. Mas ao menos parecia algo bom, diante da faceirice das profes. Hoje entendo porque elas aplaudiram o Estatuto: o ECA garantiu às crianças e adolescentes tratamento igual entre todos, sem distinção de cor, classe social, ou qualquer forma de discriminação; deu prioridade absoluta na formulação de políticas públicas e destinação privilegiada de recursos nas dotações orçamentárias; prioridade do direito à convivência familiar e comunitária; priorizou as medidas de proteção sobre as socioeducativas, além da integração e da articulação das ações governamentais e não-governamentais na política de atendimento; lembrou a garantia de devido processo legal e da defesa aos menores infratores; municipalização do atendimento; etc. Além das regras, acho que o mais importante foi o fato de promover discussões mais frequentes e amplas sobre os direitos (e deveres) das Crianças e Adolescentes.
Viu quanta coisa legal? Pois este nariz de cera todo foi para introduzir o assunto da semana. Nosso presidente resolveu comemorar os 20 anos do ECA com uma lei. Entre uma festa de promoção a Dilma e outra, na última quarta-feira, Ele enviou ao Congresso um projeto proibindo a prática de castigos físicos aos menores de idade. Palmadas, puxões de orelhas e afins incluem-se em castigos físicos. Fico imaginando como vai ser daqui pra frente: a criança, sabendo que os pais não podem dar palmadas, processará os pais porque eles preferiram dar um puxão de orelhas ao invés de aceitarem quietos uma nota baixa. Ou então, fará chantagens do tipo “vou contar para o Conselho Tutelar que você me deu uma chinelada se eu não ganhar aquela bola”... Ih...
Sinceramente? Acho que a lei não tem pé nem cabeça. Condenações a agressores já estão previstas em lei. Mas ao menos entrou em pauta a discussão sobre como os pais devem educar os filhos. O senso comum diz que a adolescentes e crianças com má conduta faltou laço. Pois eu conheço vários que foram praticamente espancados, que tomaram mais açoitadas do que burro de carga empacado, e que também não são exemplos de boas pessoas. Violência nunca foi solução, mas também penso que muitos pais que nunca levantaram a mão para os filhos podem estar arrependidos de não terem agido com mais firmeza (aquela mão que afagou a cabeça bem que poderia ter dado um cascudo). Não se educa com ameaças. Mas também a relação pai e filho não pode se transformar em um balcão de negociações, um comércio entre a nota alta e o aumento da mesada. Enfim, creio que o bom senso não é algo que se tornará prática na família por meio de uma lei. Talvez tenha faltado laço para o presidente, por ter matado aula e ter ideias como esta.
PS: Será que essa lei também é retroativa? Poderia cobrar do pai e da mãe aquelas chineladas que eles me deram... Pensando bem, uma ou duas vezes eu não merecia apanhar... Em compensação, perdi as contas de quantas vezes merecia e consegui escapar. Hum... o saldo está bem positivo, não vale a pena essa revisão...
16-07-10
Viu quanta coisa legal? Pois este nariz de cera todo foi para introduzir o assunto da semana. Nosso presidente resolveu comemorar os 20 anos do ECA com uma lei. Entre uma festa de promoção a Dilma e outra, na última quarta-feira, Ele enviou ao Congresso um projeto proibindo a prática de castigos físicos aos menores de idade. Palmadas, puxões de orelhas e afins incluem-se em castigos físicos. Fico imaginando como vai ser daqui pra frente: a criança, sabendo que os pais não podem dar palmadas, processará os pais porque eles preferiram dar um puxão de orelhas ao invés de aceitarem quietos uma nota baixa. Ou então, fará chantagens do tipo “vou contar para o Conselho Tutelar que você me deu uma chinelada se eu não ganhar aquela bola”... Ih...
Sinceramente? Acho que a lei não tem pé nem cabeça. Condenações a agressores já estão previstas em lei. Mas ao menos entrou em pauta a discussão sobre como os pais devem educar os filhos. O senso comum diz que a adolescentes e crianças com má conduta faltou laço. Pois eu conheço vários que foram praticamente espancados, que tomaram mais açoitadas do que burro de carga empacado, e que também não são exemplos de boas pessoas. Violência nunca foi solução, mas também penso que muitos pais que nunca levantaram a mão para os filhos podem estar arrependidos de não terem agido com mais firmeza (aquela mão que afagou a cabeça bem que poderia ter dado um cascudo). Não se educa com ameaças. Mas também a relação pai e filho não pode se transformar em um balcão de negociações, um comércio entre a nota alta e o aumento da mesada. Enfim, creio que o bom senso não é algo que se tornará prática na família por meio de uma lei. Talvez tenha faltado laço para o presidente, por ter matado aula e ter ideias como esta.
PS: Será que essa lei também é retroativa? Poderia cobrar do pai e da mãe aquelas chineladas que eles me deram... Pensando bem, uma ou duas vezes eu não merecia apanhar... Em compensação, perdi as contas de quantas vezes merecia e consegui escapar. Hum... o saldo está bem positivo, não vale a pena essa revisão...
16-07-10
Contos da carochinha
Semana passada falei sobre drogas. Ou melhor, sobre como e o quê pais, professores, padres, pastores, prefeitos, comunicadores falam para adolescentes sobre drogas. Como achei que pudesse não ser muito bem compreendido, enviei a coluna para algumas pessoas para tirar uma amostra do que pensam. Sabe o que é mais engraçado? Fui aprovado por todos com menos de 35 anos. Mas não tive tanto sucesso com pessoas acima desta idade. Por quê? Creio que haja um confronto de gerações que tentarei explicar. Do meu jeito, é claro.
Acho que um pouco se deve às transformações que o mundo enfrentou nas últimas décadas. Saímos de um regime militar, em que tudo era mais “controlado” e “ordeiro” (vou pegar leve com a Ditadura porque um nobre leitor já mandou me puxarem a orelha). Tivemos grandes avanços tecnológicos, sobretudo nos meios de comunicação. Ou seja: com mais liberdade para falar, pensar e opinar, e com mais velocidade de informação, a gurizada se adiantou em certas questões em relação aos pais. É um confronto entre o disco de vinil e a geração MP3. Carta x e-mail. Pesquisa em biblioteca x wikipédia, blogs, google, tv a cabo...
Para comparar, vamos aos desenhos animados. Foi-se a era de princesas inocentes e perfeitas, de mocinhos que lutavam pelo bem. Coloca uma criança de dez anos para ver a Bela Adormecida para ver o que ela vai dizer. Vão preferir o fracassado Homer Simpson ou o ogro cheio de maus modos Shrek, ambos desenhos com piadas por vezes maliciosas – alguns dizem que são desenhos para adultos.
Os programas de tv faturam sempre sobre o mesmo trio: esportes, sexo e violência. A exploração da realidade de forma exacerbada tira a crença de qualquer um de que o mundo é bonitinho. E chega-se a conclusão de que não se deve esperar para receber uma bala perdida, sofrer um assalto, ser atropelado por um motorista bêbado, pensar daqui a 30 anos sem saber como será o dia de amanhã. O importante é o momento! E por isso que vejo as drogas se popularizarem tanto. Não adiantam propagandas e campanhas contrárias – não da forma como são feitas. Não adiantou colocar fotos de pessoas morrendo nos maços de cigarro: o percentual de jovens que fumam aumentou mesmo assim. Por quê? A ideia é de que os efeitos vão demorar anos para serem sentidos pelo corpo, e talvez eu nem esteja mais por aí para saber.
É por isso que eu acho que as cartas devem ser colocadas sempre na mesa. Os diálogos devem ser francos. E para isso, os pais precisam estar atentos ao que acontece no mundo, no dia-a-dia da cidade, dos jovens, para não apenas dizer isso pode, isso não pode, mas argumentando o porquê de preferirem que os filhos não tomem determinadas atitudes. Os jovens não devem ser poupados, devem sentir nas mãos a responsabilidade sobre os próprios atos. E isso envolve o álcool, as drogas, a maneira de dirigir, a maneira de conviver em sociedade. Isso envolve sempre a verdade.
09-07-10
Acho que um pouco se deve às transformações que o mundo enfrentou nas últimas décadas. Saímos de um regime militar, em que tudo era mais “controlado” e “ordeiro” (vou pegar leve com a Ditadura porque um nobre leitor já mandou me puxarem a orelha). Tivemos grandes avanços tecnológicos, sobretudo nos meios de comunicação. Ou seja: com mais liberdade para falar, pensar e opinar, e com mais velocidade de informação, a gurizada se adiantou em certas questões em relação aos pais. É um confronto entre o disco de vinil e a geração MP3. Carta x e-mail. Pesquisa em biblioteca x wikipédia, blogs, google, tv a cabo...
Para comparar, vamos aos desenhos animados. Foi-se a era de princesas inocentes e perfeitas, de mocinhos que lutavam pelo bem. Coloca uma criança de dez anos para ver a Bela Adormecida para ver o que ela vai dizer. Vão preferir o fracassado Homer Simpson ou o ogro cheio de maus modos Shrek, ambos desenhos com piadas por vezes maliciosas – alguns dizem que são desenhos para adultos.
Os programas de tv faturam sempre sobre o mesmo trio: esportes, sexo e violência. A exploração da realidade de forma exacerbada tira a crença de qualquer um de que o mundo é bonitinho. E chega-se a conclusão de que não se deve esperar para receber uma bala perdida, sofrer um assalto, ser atropelado por um motorista bêbado, pensar daqui a 30 anos sem saber como será o dia de amanhã. O importante é o momento! E por isso que vejo as drogas se popularizarem tanto. Não adiantam propagandas e campanhas contrárias – não da forma como são feitas. Não adiantou colocar fotos de pessoas morrendo nos maços de cigarro: o percentual de jovens que fumam aumentou mesmo assim. Por quê? A ideia é de que os efeitos vão demorar anos para serem sentidos pelo corpo, e talvez eu nem esteja mais por aí para saber.
É por isso que eu acho que as cartas devem ser colocadas sempre na mesa. Os diálogos devem ser francos. E para isso, os pais precisam estar atentos ao que acontece no mundo, no dia-a-dia da cidade, dos jovens, para não apenas dizer isso pode, isso não pode, mas argumentando o porquê de preferirem que os filhos não tomem determinadas atitudes. Os jovens não devem ser poupados, devem sentir nas mãos a responsabilidade sobre os próprios atos. E isso envolve o álcool, as drogas, a maneira de dirigir, a maneira de conviver em sociedade. Isso envolve sempre a verdade.
09-07-10
Abrindo o jogo
Falar sobre drogas é difícil, ainda mais quando se foge um pouco do consenso do que se pensa sobre o assunto. Mas como não tomei meus “remedinhos” hoje, vou arriscar. Lá vai.
Uma pesquisa feita pela Brigada Militar em Porto Alegre com 1,8 mil estudantes dos ensinos Fundamental e Médio constataram que a maioria dos adolescentes sabem pouco ou quase nada sobre drogas. Surpresa? Diria que é uma obviedade. Quer tirar a prova? Então responda você: quais são os efeitos de maconha, cocaína, crack, heroína, LSD e êxtase? E quais são as consequências provocadas pelo uso contínuo destas substâncias? Conseguiu? Não? Hum...
A droga ainda hoje parece ser um assunto proibido. Os ensinamentos mais profundos que partem da família, da igreja, dos meios de comunicação, das escolas é de que não se deve usar porque é ruim. Ruim, cara pálida? Garanto que, se usado uma única vez provocasse vômitos de ogro, dores incontroláveis, corrosão do nariz, queda das unhas, ninguém usaria. Como não é bem isso, faço minhas as palavras o que uma psicóloga do Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Droga de Novo Hamburgo me disse uma vez. “Se fosse ruim, eles (os adolescentes) não usavam”.
Forte a expressão dela, né? Na hora eu também achei. Mas daí, didaticamente, ela me explicou que os usuários, em geral, acham que não faz mal porque num primeiro momento os efeitos são “bons” – ou como diz a magrinhagem, “dá um barato”. Para eles, não importa o que isso vai acarretar com o uso frequente – até porque “é só esta vez”. Não admitem que ficarão dependentes, até porque raramente tiveram contato com pessoas que enfrentaram a dependência, que sabem o que é se colocar em situação extremas como roubar e matar para conseguir alguns trocados e manter o vício.
Pelamordedeus, não me interpretem como entusiastas das drogas. Pelo contrário. É por estar cheio de ver amigos meus fazendo bobagens devido ao uso de substâncias ilícitas que acho que a maneira como minha geração aprendeu a não entrar nessa é errada. Ao invés de mostrarem que a dependência é uma doença, aprendemos que não se deve falar com estranhos, que quem usa entorpecentes é mal-encarado, é bandido. Daí, enquanto pensávamos que os drogaditos eram da turma do Velho do Saco, nos deparamos com meninos e meninas que são populares, bonitinhos, de boa família, oferecendo um “bagulho”. E vai tudo por água abaixo. E pensam: “não é bem assim”, “ele (a) usa drogas, mas é legal”, “é exagero dos pais” - ainda mais nessa fase em que eles crêem que os pais não sabem de nada. Fica a impressão de que é o mesmo discurso de que “se não comer, não vai crescer”.
Neste mundo em que as informações chegam rapidamente e em grande escala nos domicílios por meio da internet (e são consumidas especialmente pelos mais jovens), é imprescindível “abrir o jogo”. Uma conversa mais franca, mais de igual para igual, sem contos da carochinha, com certeza terá mais eficácia para evitar que os entorpecentes façam parte de sua família, de sua escola. Creio que combater as drogas começa por acabar com as lendas sobre as drogas.
02-07-10
Uma pesquisa feita pela Brigada Militar em Porto Alegre com 1,8 mil estudantes dos ensinos Fundamental e Médio constataram que a maioria dos adolescentes sabem pouco ou quase nada sobre drogas. Surpresa? Diria que é uma obviedade. Quer tirar a prova? Então responda você: quais são os efeitos de maconha, cocaína, crack, heroína, LSD e êxtase? E quais são as consequências provocadas pelo uso contínuo destas substâncias? Conseguiu? Não? Hum...
A droga ainda hoje parece ser um assunto proibido. Os ensinamentos mais profundos que partem da família, da igreja, dos meios de comunicação, das escolas é de que não se deve usar porque é ruim. Ruim, cara pálida? Garanto que, se usado uma única vez provocasse vômitos de ogro, dores incontroláveis, corrosão do nariz, queda das unhas, ninguém usaria. Como não é bem isso, faço minhas as palavras o que uma psicóloga do Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Droga de Novo Hamburgo me disse uma vez. “Se fosse ruim, eles (os adolescentes) não usavam”.
Forte a expressão dela, né? Na hora eu também achei. Mas daí, didaticamente, ela me explicou que os usuários, em geral, acham que não faz mal porque num primeiro momento os efeitos são “bons” – ou como diz a magrinhagem, “dá um barato”. Para eles, não importa o que isso vai acarretar com o uso frequente – até porque “é só esta vez”. Não admitem que ficarão dependentes, até porque raramente tiveram contato com pessoas que enfrentaram a dependência, que sabem o que é se colocar em situação extremas como roubar e matar para conseguir alguns trocados e manter o vício.
Pelamordedeus, não me interpretem como entusiastas das drogas. Pelo contrário. É por estar cheio de ver amigos meus fazendo bobagens devido ao uso de substâncias ilícitas que acho que a maneira como minha geração aprendeu a não entrar nessa é errada. Ao invés de mostrarem que a dependência é uma doença, aprendemos que não se deve falar com estranhos, que quem usa entorpecentes é mal-encarado, é bandido. Daí, enquanto pensávamos que os drogaditos eram da turma do Velho do Saco, nos deparamos com meninos e meninas que são populares, bonitinhos, de boa família, oferecendo um “bagulho”. E vai tudo por água abaixo. E pensam: “não é bem assim”, “ele (a) usa drogas, mas é legal”, “é exagero dos pais” - ainda mais nessa fase em que eles crêem que os pais não sabem de nada. Fica a impressão de que é o mesmo discurso de que “se não comer, não vai crescer”.
Neste mundo em que as informações chegam rapidamente e em grande escala nos domicílios por meio da internet (e são consumidas especialmente pelos mais jovens), é imprescindível “abrir o jogo”. Uma conversa mais franca, mais de igual para igual, sem contos da carochinha, com certeza terá mais eficácia para evitar que os entorpecentes façam parte de sua família, de sua escola. Creio que combater as drogas começa por acabar com as lendas sobre as drogas.
02-07-10
A bola do desenvolvimento
Ainda em overdose graças a essa Copa do Mundo, estou adotando as mesmas estratégias dos maiores veículos de comunicação do país (pretensioso, não?), para falar sobre Copa não falando. Esta é uma estratégia bem recorrente, especialmente daqueles que não detém os direitos de transmissão dos jogos. Falam sobre a cultura do continente africano, que está em voga graças à competição; dos problemas sociais dos países; do que mudou na África do Sul por causa da presença das seleções. Inclusive, tenho achado essas pautas mais interessantes do que propriamente os jogos (bate aquela sensação “esperava bem mais” ao ver cada partida).
Pois, se a maior competição do mundo não passa em branco nem mesmo em nações que não têm no futebol a principal referência esportiva, não poderia deixar de ser diferente nesse Brasil em que a bola é prioridade até mesmo em relação ao prato de comida de cada dia. E com a próxima Copa do Mundo sendo realizada aqui na Terra de Santa Cruz, o disco só será virado lá por 2015.
Não é exagero. Na campanha eleitoral deste ano, vão falar de obras para a Copa. Daqui a dois anos, os maiores municípios, que contam com canal de tv e transmitem a campanha deles para nossos lares (quando eu era pequeno, sabia mais da eleição de Passo Fundo do que de Frederico) também serão pautados por isso. Durante o Campeonato Brasileiro, serão observados os Estádios. Qualquer empreendimento a ser construído, será pensando na Copa. Nas escolas, as profes, emocionadas, ensinarão hinos e modos diferentes de fazer pompons. Talvez até inventem vuvuzelas com garrafas pet (por que fui dar a ideia?). E como uma coisa puxa a outra, as coisas vão evoluir até todos estarem vestidos de verde e amarelo, em ambientes verde e amarelo, comendo comida verde e amarela (vi no jornal que “inventaram” uma abobrinha nessas cores)...
Mas, como tudo, também tem a parte boa. O jornal O Estado de São Paulo de março noticiou que, só na área de Segurança, serão abertos 35 mil empregos (e todos terão que passar por qualificação). A construção civil, que antigamente era onde desaguava toda a mão-de-obra qualificada, já sofre com falta de funcionários qualificados e se vê obrigada a investir não apenas no aperfeiçoamento de pessoal, mas também em salários mais dignos. Levantamento do Ministério do Esporte destaca que sediar o evento vai gerar R$ 183 bilhões na economia nacional entre 2010 e 2019, distribuídos em infraestrutura, turismo, empregos, impostos, consumo, etc... Quem passa pela Grande Porto Alegre já consegue visualizar uma série de obras voltadas à Copa tupiniquim.
Tudo muito bonito. Mas, não sei se é por falta de esclarecimento, ou se é porque o pré-sal vai salvar a todos, preocupo-me com os municípios menores. Temo que as sedes e subsedes da competição sejam muito mais privilegiadas do que se imagina, e que o restante fique de lado. E, além disso, com a dita falta de mão-de-obra, temo que haja uma diáspora rumo aos grandes centros, atrapalhando o desenvolvimento dos pequenos...
25-06-10
Pois, se a maior competição do mundo não passa em branco nem mesmo em nações que não têm no futebol a principal referência esportiva, não poderia deixar de ser diferente nesse Brasil em que a bola é prioridade até mesmo em relação ao prato de comida de cada dia. E com a próxima Copa do Mundo sendo realizada aqui na Terra de Santa Cruz, o disco só será virado lá por 2015.
Não é exagero. Na campanha eleitoral deste ano, vão falar de obras para a Copa. Daqui a dois anos, os maiores municípios, que contam com canal de tv e transmitem a campanha deles para nossos lares (quando eu era pequeno, sabia mais da eleição de Passo Fundo do que de Frederico) também serão pautados por isso. Durante o Campeonato Brasileiro, serão observados os Estádios. Qualquer empreendimento a ser construído, será pensando na Copa. Nas escolas, as profes, emocionadas, ensinarão hinos e modos diferentes de fazer pompons. Talvez até inventem vuvuzelas com garrafas pet (por que fui dar a ideia?). E como uma coisa puxa a outra, as coisas vão evoluir até todos estarem vestidos de verde e amarelo, em ambientes verde e amarelo, comendo comida verde e amarela (vi no jornal que “inventaram” uma abobrinha nessas cores)...
Mas, como tudo, também tem a parte boa. O jornal O Estado de São Paulo de março noticiou que, só na área de Segurança, serão abertos 35 mil empregos (e todos terão que passar por qualificação). A construção civil, que antigamente era onde desaguava toda a mão-de-obra qualificada, já sofre com falta de funcionários qualificados e se vê obrigada a investir não apenas no aperfeiçoamento de pessoal, mas também em salários mais dignos. Levantamento do Ministério do Esporte destaca que sediar o evento vai gerar R$ 183 bilhões na economia nacional entre 2010 e 2019, distribuídos em infraestrutura, turismo, empregos, impostos, consumo, etc... Quem passa pela Grande Porto Alegre já consegue visualizar uma série de obras voltadas à Copa tupiniquim.
Tudo muito bonito. Mas, não sei se é por falta de esclarecimento, ou se é porque o pré-sal vai salvar a todos, preocupo-me com os municípios menores. Temo que as sedes e subsedes da competição sejam muito mais privilegiadas do que se imagina, e que o restante fique de lado. E, além disso, com a dita falta de mão-de-obra, temo que haja uma diáspora rumo aos grandes centros, atrapalhando o desenvolvimento dos pequenos...
25-06-10
Tentativa de falar algo que não seja sobre a Copa
Nesta quinta, bateu o desespero. Em meio a esta overdose de Copa do Mundo, sobre o que mais eu poderia escrever? Até há coisas importantes acontecendo, mas essas informações se perdem diante dos jornais com cadernos especiais da Copa e programas televisivos repetindo lances, gols e comentários de pessoas com um QI altíssimo, como é o caso de Edmundo, Vampeta, Neto, Casagrande, etc... Eu chego a ficar abobado com as demonstrações férteis dos raciocínios deles. Me bate uma coisa assim no peito... Algo do tipo: “porque fui perder tempo estudando, por cinco anos – quatro de faculdade mais um de cursinho, sem contar o ensino médio e séries anteriores que 90% desses jogadores que ganham 50 mil, 80 mil vezes mais do que eu não completaram, se quem vai para a tv são esses @%&*”. Não que eu quisesse estar na tv. Até já me aventurei por esse meio. Não é a minha. O certo é que eu devia ter escutado o professor Ricardo Denti e me esforçado mais na escolinha do Ipiranga, sem matar os exercícios, sem abusar do refrigerante, sem preguiça para treinar...
Do que eu estava falando mesmo? Ah, da Copa. É incrível o que acontece. No elevador, só se fala nisso. Durante as sessões plenárias da Câmara, do Senado e da Assembleia também. Enquanto um bobo discursa para ninguém ouvir, passa alguém propondo a realização de um bolão. Durante o atendimento de um acidente de trânsito em Porto Alegre, um policial que fazia a ocorrência perguntava sobre resultado de Eslováquia e Nova Zelândia (será que ele sabe em que parte do globo ficam essas nações?).
Desculpem o mau humor. Estou descontando na Copa – e em vocês – a falta de assunto. O cérebro está atrofiado até a final para questões importantes, como a votação do novo Código Florestal, o veto do Lula à queda do fator previdenciário, o aumento de 7,7% confirmado pelo presidente como compensação à queda do fator previdenciário, a morte do ex-deputado Bernardo de Souza, a aprovação no Senado do parcelamento de multas de trânsito em até seis vezes no cartão, a opção do PP por entregar o cargo de vice na chapa de Yeda ao PPS, o impasse do PMDB gaúcho entre apoiar ou não apoiar Serra/Dilma, a venda ou não do terreno da Fase (antiga Febem) de Porto Alegre em troca da construção de novas unidades.
Diante disso, consigo apenas fazer algumas constatações: 1) as pessoas que mais gostam de assistir aos jogos da Copa são aquelas que normalmente não acompanham futebol; 2) a renovação de narradores e comentaristas esportivos tem que acontecer logo (chega de Galvão e Milton Neves); 3) ex-jogadores não podem ser comentaristas, sob pena de emburrecer ainda mais a nação; 4) filmes são ótimas opções aos canais de tv aberta para quem já está de saco cheio ainda na primeira rodada; 5) vou incentivar meu filho a estudar menos e a jogar mais futebol...
18-06-10
Do que eu estava falando mesmo? Ah, da Copa. É incrível o que acontece. No elevador, só se fala nisso. Durante as sessões plenárias da Câmara, do Senado e da Assembleia também. Enquanto um bobo discursa para ninguém ouvir, passa alguém propondo a realização de um bolão. Durante o atendimento de um acidente de trânsito em Porto Alegre, um policial que fazia a ocorrência perguntava sobre resultado de Eslováquia e Nova Zelândia (será que ele sabe em que parte do globo ficam essas nações?).
Desculpem o mau humor. Estou descontando na Copa – e em vocês – a falta de assunto. O cérebro está atrofiado até a final para questões importantes, como a votação do novo Código Florestal, o veto do Lula à queda do fator previdenciário, o aumento de 7,7% confirmado pelo presidente como compensação à queda do fator previdenciário, a morte do ex-deputado Bernardo de Souza, a aprovação no Senado do parcelamento de multas de trânsito em até seis vezes no cartão, a opção do PP por entregar o cargo de vice na chapa de Yeda ao PPS, o impasse do PMDB gaúcho entre apoiar ou não apoiar Serra/Dilma, a venda ou não do terreno da Fase (antiga Febem) de Porto Alegre em troca da construção de novas unidades.
Diante disso, consigo apenas fazer algumas constatações: 1) as pessoas que mais gostam de assistir aos jogos da Copa são aquelas que normalmente não acompanham futebol; 2) a renovação de narradores e comentaristas esportivos tem que acontecer logo (chega de Galvão e Milton Neves); 3) ex-jogadores não podem ser comentaristas, sob pena de emburrecer ainda mais a nação; 4) filmes são ótimas opções aos canais de tv aberta para quem já está de saco cheio ainda na primeira rodada; 5) vou incentivar meu filho a estudar menos e a jogar mais futebol...
18-06-10
Cinema e Política
"Mantenha seus amigos perto, e seus inimigos mais perto ainda." O lema é de Dom Vito Corleone, personagem do livro de Mario Puzo, “The Godfather”, traduzido no Brasil como “O Poderoso Chefão”, transformado nos anos 70 em um dos mais cultuados filmes da história do cinema pelo diretor Francis Ford Coppolla. O personagem é dono de outras frases marcantes. Eu gosto de várias. São os melhores ensinamentos para quem quer transitar na política depois de “A Arte da Guerra”, de Sun Tzu.
Máfia, depois de O Poderoso Chefão, virou quase um gênero do cinema, especialmente o americano. Além da ação, dos tiroteios, assassinatos, também apresenta dramas vividos pelos personagens. Pois eu sugiro lançar um novo subgênero do cinema nacional. Depois de pornochanchadas, filmes das favelas cariocas, e os históricos sobre as “batalhas” e “glórias” nacionais, acho que seria interessante lançar filmes políticos. Enredos não faltam: o mensalão poderia fazer tanto sucesso quanto o filme sobre o “watergate”. A morte de Celso Daniel poderia ter o título de “Queima de Arquivo”. O mesmo vale para o assassinato de PC Farias e Eliseu Santos. Pedro Collor, que entregou o irmão, poderia render uma película cheia de traições.
Voltando a “O Poderoso Chefão”. É impressionante a força de algumas frases que o autor destinou ao personagem. Simples, na maioria das vezes sem expressar pensamentos muito profundos, mas que quando enunciadas provocam impacto. E o que são grandes líderes senão ótimos frasistas? Alguns presidentes também são. Selecionei os enunciados mais marcantes do personagem e fiquei pensando como poderiam ser utilizados na política nacional. Por exemplo: a frase citada na primeira linha deste texto poderia ser atribuída à governadora Yeda Crusius, quando optou por manter nos cargos do governo lideranças de partidos que apresentaram ou apoiarão outros candidatos à corrida pelo Piratini.
Outro exemplo: o ensinamento “dói mais ter algo e perdê-lo, do que nunca tê-lo” poderia facilmente ter saído da boca do ex-governador do Distrito Federal, que obrigou-se a renunciar para não ser impechado depois de todos os flagrantes de dinheiro nas meias e orações da propina.
Mais um: “Nunca odeie seus inimigos, isso afeta seu julgamento”. Quer frase mais Roberto Jefferson do que esta? O cara que “tirou a roupa do rei” José Dirceu, ao denunciar o suposto mensalão (do qual participava) foi também um dos defensores de Lula, sob a alegação de que ele não sabia de nada.
“Se você tivesse se cercado com um muro de amigos, isto não estaria acontecendo”. Essa frase poderia ter sido direcionada à governadora Yeda pelo presidente Lula durante o episódio das investigações do Detran. (Lula, diga-se de passagem, poderia também ser garoto propaganda de panelas de teflon, em oposição a alguns que são culpados inclusive pelos erros de colegas).
“Homens realmente grandes não nascem grandes, tornam-se grandes”. Essa frase poderia ser utilizada pelo Duda Mendonça nas campanhas do Lula (não foi isso que o filme-publicidade Lula – O Filho do Brasil tentou mostrar?). E nem precisarei comentar sobre aquela: “vou fazer-lhe uma oferta que não poderá recusar”.
Pois é por essas e por outras que acho que esse seria um filão para o cinema nacional. Podem sair disto filmes melhores do que “Cidade de Deus” e “Tropa de Elite”. O único ponto delicado seria incluir na trama umas mulheres um pouco mais atraentes do que as nossas atuais líderes. Se bem que sempre há uma que outra amante por aí...
11-06-10
Máfia, depois de O Poderoso Chefão, virou quase um gênero do cinema, especialmente o americano. Além da ação, dos tiroteios, assassinatos, também apresenta dramas vividos pelos personagens. Pois eu sugiro lançar um novo subgênero do cinema nacional. Depois de pornochanchadas, filmes das favelas cariocas, e os históricos sobre as “batalhas” e “glórias” nacionais, acho que seria interessante lançar filmes políticos. Enredos não faltam: o mensalão poderia fazer tanto sucesso quanto o filme sobre o “watergate”. A morte de Celso Daniel poderia ter o título de “Queima de Arquivo”. O mesmo vale para o assassinato de PC Farias e Eliseu Santos. Pedro Collor, que entregou o irmão, poderia render uma película cheia de traições.
Voltando a “O Poderoso Chefão”. É impressionante a força de algumas frases que o autor destinou ao personagem. Simples, na maioria das vezes sem expressar pensamentos muito profundos, mas que quando enunciadas provocam impacto. E o que são grandes líderes senão ótimos frasistas? Alguns presidentes também são. Selecionei os enunciados mais marcantes do personagem e fiquei pensando como poderiam ser utilizados na política nacional. Por exemplo: a frase citada na primeira linha deste texto poderia ser atribuída à governadora Yeda Crusius, quando optou por manter nos cargos do governo lideranças de partidos que apresentaram ou apoiarão outros candidatos à corrida pelo Piratini.
Outro exemplo: o ensinamento “dói mais ter algo e perdê-lo, do que nunca tê-lo” poderia facilmente ter saído da boca do ex-governador do Distrito Federal, que obrigou-se a renunciar para não ser impechado depois de todos os flagrantes de dinheiro nas meias e orações da propina.
Mais um: “Nunca odeie seus inimigos, isso afeta seu julgamento”. Quer frase mais Roberto Jefferson do que esta? O cara que “tirou a roupa do rei” José Dirceu, ao denunciar o suposto mensalão (do qual participava) foi também um dos defensores de Lula, sob a alegação de que ele não sabia de nada.
“Se você tivesse se cercado com um muro de amigos, isto não estaria acontecendo”. Essa frase poderia ter sido direcionada à governadora Yeda pelo presidente Lula durante o episódio das investigações do Detran. (Lula, diga-se de passagem, poderia também ser garoto propaganda de panelas de teflon, em oposição a alguns que são culpados inclusive pelos erros de colegas).
“Homens realmente grandes não nascem grandes, tornam-se grandes”. Essa frase poderia ser utilizada pelo Duda Mendonça nas campanhas do Lula (não foi isso que o filme-publicidade Lula – O Filho do Brasil tentou mostrar?). E nem precisarei comentar sobre aquela: “vou fazer-lhe uma oferta que não poderá recusar”.
Pois é por essas e por outras que acho que esse seria um filão para o cinema nacional. Podem sair disto filmes melhores do que “Cidade de Deus” e “Tropa de Elite”. O único ponto delicado seria incluir na trama umas mulheres um pouco mais atraentes do que as nossas atuais líderes. Se bem que sempre há uma que outra amante por aí...
11-06-10
Que tal uma nova constituinte?
Já há algum tempo que ouço, como desculpa de lideranças políticas, que é preciso fazer uma nova constituinte para que reformas importantes (política, tributária, previdenciária, penal) sejam feitas. (A propósito: assembleia constituinte é um organismo colegiado que tem como função redigir ou reformar a constituição de um Estado, sendo para isso dotado de plenos poderes ou poder constituinte, ao qual devem submeter-se todas as instituições públicas. Obrigado, Google!). Os argumentos, dentro da realidade política, são válidos. O governo não envia uma reforma porque isso é um “tiro no pé”, já que para atender a demanda da sociedade poderá ter que adotar medidas impopulares. E os deputados sabem que o que prevalecerá, nas discussões feitas no Congresso, são medidas em causa própria, ou seja, para manter benefícios aos próprios deputados e seu eleitorado (leia sobre a polêmica da votação do Projeto Ficha Limpa).
Mas, o que diferenciaria novos congressistas dos atuais? Não teriam eles também ambições políticas, e por isso tomariam decisões apenas simpáticas a seus eleitores? Baseados nestes argumentos que normalmente quem propõe a realização de uma constituinte nos microfones da imprensa coloca uma série de condições para que a reforma seja profunda: 1) os deputados constituintes não poderiam se candidatar a um cargo público durante alguns anos; 2) também não poderiam usufruir de uma estrutura muito grande, como a dos atuais parlamentares, leia-se muitos funcionários e recursos para impressão de materiais gráficos; 3) Sem emendas destinando recursos para municípios, nem contato com os ministérios para este fim; 4) o mandato seria de dois anos, e não de quatro. É claro que as condições acima citadas variam de uma pessoa para outra, e por isso levei em consideração o que disse a maioria em cada caso. Mas acho que isso já permite fazer uma leitura inicial do que impede discussões sérias em nosso parlamento. Os próprios deputados reconhecem que do jeito que está não dá.
Vamos às medidas. Não poder se candidatar em seguida ao mandato constituinte daria tranquilidade para não ouvir pressões externas, nem de adotar a prática atual, que é buscar mais votos e discutir menos os reais problemas brasileiros? Sei não... Esses mesmos “constituintes”, para se eleger, precisariam do apoio de candidatos. Ou sejam, teriam que retribuir a ajuda, aprovando alguns pontos não tão “ideais”. O mesmo vale para a redução de tempo de mandato e de recursos: é uma maneira de não permitir que “cobras” novas se criem (e não se transformem em concorrentes). Também evitaria a superexposição na mídia durante muito tempo de novos personagens, pessoas que ganhariam notoriedade pela importância do trabalho. Só que estas criaturas, desde que engessadas, poderiam ser bons cabos eleitorais junto a entidades e instituições que participariam dos debates de uma nova Constituição.
Chegamos a um ponto no país em que nem mais se finge que nosso Congresso é capaz de votar reformas que atendam o desejo do povo, sem deixar brechas para a retórica de advogados que defendem sujeitos de conduta (e índole) escusa. Reformas são necessárias. Porém não vejo garantia de que não seria apenas dinheiro jogado pela janela.
04-06-10
Mas, o que diferenciaria novos congressistas dos atuais? Não teriam eles também ambições políticas, e por isso tomariam decisões apenas simpáticas a seus eleitores? Baseados nestes argumentos que normalmente quem propõe a realização de uma constituinte nos microfones da imprensa coloca uma série de condições para que a reforma seja profunda: 1) os deputados constituintes não poderiam se candidatar a um cargo público durante alguns anos; 2) também não poderiam usufruir de uma estrutura muito grande, como a dos atuais parlamentares, leia-se muitos funcionários e recursos para impressão de materiais gráficos; 3) Sem emendas destinando recursos para municípios, nem contato com os ministérios para este fim; 4) o mandato seria de dois anos, e não de quatro. É claro que as condições acima citadas variam de uma pessoa para outra, e por isso levei em consideração o que disse a maioria em cada caso. Mas acho que isso já permite fazer uma leitura inicial do que impede discussões sérias em nosso parlamento. Os próprios deputados reconhecem que do jeito que está não dá.
Vamos às medidas. Não poder se candidatar em seguida ao mandato constituinte daria tranquilidade para não ouvir pressões externas, nem de adotar a prática atual, que é buscar mais votos e discutir menos os reais problemas brasileiros? Sei não... Esses mesmos “constituintes”, para se eleger, precisariam do apoio de candidatos. Ou sejam, teriam que retribuir a ajuda, aprovando alguns pontos não tão “ideais”. O mesmo vale para a redução de tempo de mandato e de recursos: é uma maneira de não permitir que “cobras” novas se criem (e não se transformem em concorrentes). Também evitaria a superexposição na mídia durante muito tempo de novos personagens, pessoas que ganhariam notoriedade pela importância do trabalho. Só que estas criaturas, desde que engessadas, poderiam ser bons cabos eleitorais junto a entidades e instituições que participariam dos debates de uma nova Constituição.
Chegamos a um ponto no país em que nem mais se finge que nosso Congresso é capaz de votar reformas que atendam o desejo do povo, sem deixar brechas para a retórica de advogados que defendem sujeitos de conduta (e índole) escusa. Reformas são necessárias. Porém não vejo garantia de que não seria apenas dinheiro jogado pela janela.
04-06-10
Entre belos e (feios) famosos
“As feias que me desculpem, mas beleza é fundamental”. A frase, já um jargão, é atribuída ao poeta Vinícius de Moraes. Embora nada simpática e um tanto quanto politicamente incorreta, ainda é uma realidade. O mundo valoriza os mais belos. Em praticamente todas as áreas. Na rua, carros conduzidos por homens param apenas quando uma moça bem fornida tenta passar para o outro lado. Há um aumento gradativo de homens metrossexuais. Não vejo esforço tão grande por parte dos indivíduos – generalizadamente falando, claro – em parecer tão bons trabalhadores quanto belos.
Tenho uma historinha para ilustrar um pouco isso. Certa feita um empresário conhecido meu, dono de um comércio em Santa Maria, disse-me que “boa aparência” era um diferencial. “As vezes é melhor investir em uma pessoa um pouco menos eficiente, mas mais apresentável", atestou. Reparei melhor nas meninas contratadas pela empresa. E entendi que “boa aparência” tinha menos a ver com simpatia e muito mais com atributos físicos.
Pensa comigo: as academias recebem cada vez mais clientes. Dificilmente alguém vê um salão de beleza às moscas. Nunca a indústria de cosméticos arrecadou tanto. Há filas de clientes em busca de espaço na agenda dos médicos para fazerem cirurgias plásticas. Cada vez mais meninas, com menos de 20 anos, sonham ir para uma sala de cirurgias para implantes de silicone ou lipoaspiração. Uma amiga minha, de 25 anos, por exemplo, que tem sérios problemas de fechar a boca, já passou por inacreditáveis três lipos. Chegamos ao ponto em que não existe mulher feia, mas sim mulher pobre.
Mas... acho que este valor, está ficando um pouco de lado para a emergência de outro. A fama.Com o desenvolvimento em progressão geométrica de novas tecnologias de comunicação, uma grande parcela das pessoas estão fazendo de tudo para serem conhecidas. Basta acessar o Youtube que você vai entender do que estou falando. Os vídeos mais visitados de “anônimos” são aqueles em que personagens mostram dentes tortos, fazem dancinhas ridículas, vestem roupas, digo, pequenos paninhos, para chamar a atenção. Descobriu-se que existe um grande filão pelo ridículo, pelo horrível, pelo mau gosto.
Semanas atrás assisti ao “Pânico na TV”, programa dominical exibido pela Rede TV. Não vou comentar a qualidade do programa. Seria demagogia minha dizer que não assisto ou que não acho graça de muitas das bobagens. Mas mesmo assim acho de baixo nível (porém à altura de tudo que passa no mesmo horário na tv aberta). Neste dia, a superinteligente apresentadora Sabrina Sato propôs que Gorete, uma personagem que ganhou notoriedade pelo seu sorriso, desprovido de dentes, a largar a imagem de Gata Borralheira para virar a princesa, mas para isso teria que deixar de aparecer no programa. O que era mais importante? Ficar bonita, com direito a dentes novos, e outros reparos no corpo avariado, e voltar ao anonimato, ou então continuar feia mas fazendo participações na tv?
Gorete chorou ao ter que escolher. Disse que gostava de ser famosa. Que não queria perder aquilo, mesmo que seu papel fosse humilhar-se. Por fim, escolheu ficar bonita, pois assim, quem sabe, conseguiria um emprego. Como recompensa, conseguiu mais alguns minutos de fama, já que todo o processo de “chapeação” da moça foi midiatizado. Mas daqui uns dias esqueceremos ela. Agora, pergunto a você: o que você faria no lugar dela?
29-05-10
Tenho uma historinha para ilustrar um pouco isso. Certa feita um empresário conhecido meu, dono de um comércio em Santa Maria, disse-me que “boa aparência” era um diferencial. “As vezes é melhor investir em uma pessoa um pouco menos eficiente, mas mais apresentável", atestou. Reparei melhor nas meninas contratadas pela empresa. E entendi que “boa aparência” tinha menos a ver com simpatia e muito mais com atributos físicos.
Pensa comigo: as academias recebem cada vez mais clientes. Dificilmente alguém vê um salão de beleza às moscas. Nunca a indústria de cosméticos arrecadou tanto. Há filas de clientes em busca de espaço na agenda dos médicos para fazerem cirurgias plásticas. Cada vez mais meninas, com menos de 20 anos, sonham ir para uma sala de cirurgias para implantes de silicone ou lipoaspiração. Uma amiga minha, de 25 anos, por exemplo, que tem sérios problemas de fechar a boca, já passou por inacreditáveis três lipos. Chegamos ao ponto em que não existe mulher feia, mas sim mulher pobre.
Mas... acho que este valor, está ficando um pouco de lado para a emergência de outro. A fama.Com o desenvolvimento em progressão geométrica de novas tecnologias de comunicação, uma grande parcela das pessoas estão fazendo de tudo para serem conhecidas. Basta acessar o Youtube que você vai entender do que estou falando. Os vídeos mais visitados de “anônimos” são aqueles em que personagens mostram dentes tortos, fazem dancinhas ridículas, vestem roupas, digo, pequenos paninhos, para chamar a atenção. Descobriu-se que existe um grande filão pelo ridículo, pelo horrível, pelo mau gosto.
Semanas atrás assisti ao “Pânico na TV”, programa dominical exibido pela Rede TV. Não vou comentar a qualidade do programa. Seria demagogia minha dizer que não assisto ou que não acho graça de muitas das bobagens. Mas mesmo assim acho de baixo nível (porém à altura de tudo que passa no mesmo horário na tv aberta). Neste dia, a superinteligente apresentadora Sabrina Sato propôs que Gorete, uma personagem que ganhou notoriedade pelo seu sorriso, desprovido de dentes, a largar a imagem de Gata Borralheira para virar a princesa, mas para isso teria que deixar de aparecer no programa. O que era mais importante? Ficar bonita, com direito a dentes novos, e outros reparos no corpo avariado, e voltar ao anonimato, ou então continuar feia mas fazendo participações na tv?
Gorete chorou ao ter que escolher. Disse que gostava de ser famosa. Que não queria perder aquilo, mesmo que seu papel fosse humilhar-se. Por fim, escolheu ficar bonita, pois assim, quem sabe, conseguiria um emprego. Como recompensa, conseguiu mais alguns minutos de fama, já que todo o processo de “chapeação” da moça foi midiatizado. Mas daqui uns dias esqueceremos ela. Agora, pergunto a você: o que você faria no lugar dela?
29-05-10
sábado, 21 de agosto de 2010
Prefeitos querem fim das emendas individuais dos parlamentares (???)
Esta foi mais uma semana de marcha de prefeitos em Brasília. Neste ano não estive lá. Mas tenho certeza de que a cena foi a mesma do ano passado: corredores lotados com os chefes dos Executivos municipais dividindo-se entre as reuniões e os gabinetes, gabinetes entupidos com filas gigantescas de pessoas com “pires na mão” esperando por alguns minutos de conversa com parlamentares para conseguir emendas para pequenas obras. Discursos fortes em reuniões de grupos de trabalhos nem sempre cheias, porque os prefeitos estão nos gabinetes. Propostas vindas de todos os cantos do Brasil bonitas no papel mas que, sabemos, permanecerão apenas no papel.
Uma destas propostas me surpreendeu: prefeitos pedem o fim das emendas individuais dos deputados e senadores. Confesso que de certa forma cheguei a concordar com o pedido. Mas refletindo melhor, acho que, no modelo político atual, essas emendas ainda são necessárias.
Concordo com o argumento daqueles que afirmam que parlamentares são Legisladores, e não parte do Executivo, que é o único poder que realmente ordena despesas com obras. Acho que há fundamento nas acusações dos opositores que bradam – quando não estão no poder, diga-se de passagem – que as emendas são uma forma de aprovar as propostas do Governo praticamente sem discussão. Acredito que as emendas, como funcionam hoje, são sim uma forma de os deputados e senadores “prenderem” lideranças municipais a si, entregando as documentações necessárias em troca de apoio na eleição. E também me parece que muitas das viagens das lideranças municipais à Brasília poderiam ser evitadas, caso não houvesse tanta burocracia para projetos serem aprovados diretamente nos ministérios.
Porém, peço licença para fazer algumas observações: é do interesse dos prefeitos e vereadores receber as emendas, porque assim podem ir aos jornais e rádios para anunciar obras como sendo partes do próprio trabalho (o que não deixa de ser mesmo). Sem contar que ganham um grande cabo eleitoral para o pleito municipal seguinte. Por mais que se diga na marcha que evitariam as viagens à capital federal, juro que nunca ouvi nenhuma reclamação – ao contrário, já ouvi alguém dizer que acha essas viagens divertidas.
Mas como tudo tem um contudo, eu posso afirmar o seguinte: 1) o desejo expressado na marcha não é unânime. 2) os municípios menores serão muito prejudicados, já que recebem por ano em emendas um valor significativo comparado com o próprio PIB. 3) dependendo do governo, municípios com índices intermediários de educação, saúde, habitação, podem ser preteridos por ser opção de um presidente (isto é hipotético, ok?!) em investir apenas naquelas que estão pior colocadas. 4) etc (é demais para esse espaço)...
Deve-se levar em consideração que para eleger um Governador ou um presidente, o número de eleitores de pequenos municípios é desprezível em relação à diferença que faz para candidatos ao Legislativo os poucos votos de unidades como André da Rocha, município com 1086 eleitores. Para se ter uma ideia, a diferença entre o último deputado federal eleito pelo PMDB, Ibsen Pinheiro, foi de apenas 1474 votos a mais do que o primeiro suplente, Cezar Schirmer.
Assim sendo: só se houver uma reforma política. Que os deputados teriam que aprovar...
21-05-10
Uma destas propostas me surpreendeu: prefeitos pedem o fim das emendas individuais dos deputados e senadores. Confesso que de certa forma cheguei a concordar com o pedido. Mas refletindo melhor, acho que, no modelo político atual, essas emendas ainda são necessárias.
Concordo com o argumento daqueles que afirmam que parlamentares são Legisladores, e não parte do Executivo, que é o único poder que realmente ordena despesas com obras. Acho que há fundamento nas acusações dos opositores que bradam – quando não estão no poder, diga-se de passagem – que as emendas são uma forma de aprovar as propostas do Governo praticamente sem discussão. Acredito que as emendas, como funcionam hoje, são sim uma forma de os deputados e senadores “prenderem” lideranças municipais a si, entregando as documentações necessárias em troca de apoio na eleição. E também me parece que muitas das viagens das lideranças municipais à Brasília poderiam ser evitadas, caso não houvesse tanta burocracia para projetos serem aprovados diretamente nos ministérios.
Porém, peço licença para fazer algumas observações: é do interesse dos prefeitos e vereadores receber as emendas, porque assim podem ir aos jornais e rádios para anunciar obras como sendo partes do próprio trabalho (o que não deixa de ser mesmo). Sem contar que ganham um grande cabo eleitoral para o pleito municipal seguinte. Por mais que se diga na marcha que evitariam as viagens à capital federal, juro que nunca ouvi nenhuma reclamação – ao contrário, já ouvi alguém dizer que acha essas viagens divertidas.
Mas como tudo tem um contudo, eu posso afirmar o seguinte: 1) o desejo expressado na marcha não é unânime. 2) os municípios menores serão muito prejudicados, já que recebem por ano em emendas um valor significativo comparado com o próprio PIB. 3) dependendo do governo, municípios com índices intermediários de educação, saúde, habitação, podem ser preteridos por ser opção de um presidente (isto é hipotético, ok?!) em investir apenas naquelas que estão pior colocadas. 4) etc (é demais para esse espaço)...
Deve-se levar em consideração que para eleger um Governador ou um presidente, o número de eleitores de pequenos municípios é desprezível em relação à diferença que faz para candidatos ao Legislativo os poucos votos de unidades como André da Rocha, município com 1086 eleitores. Para se ter uma ideia, a diferença entre o último deputado federal eleito pelo PMDB, Ibsen Pinheiro, foi de apenas 1474 votos a mais do que o primeiro suplente, Cezar Schirmer.
Assim sendo: só se houver uma reforma política. Que os deputados teriam que aprovar...
21-05-10
Vácuo político
Na coluna da semana passada, falei sobre a falta de opções que teremos nas eleições presidenciais deste ano. Relevantes (em termos de votação), apenas três postulantes ao cargo eletivo máximo tupiniquim: Serra (PSDB) e Dilma (PT), que polarizam segundo os índices feitos pelas pesquisas, com Marina Silva (PV) correndo por fora. Duvido que alguém aposte uma embalagem vazia de leite barriga mole que o Ey-Ey-Eymael (o democrata cristão– que é gaúcho, por sinal), o extrema esquerda Zé Maria, do PSTU, ou o “quem bate cartão não vota em patrão” Rui Costa Pimenta conseguirão somar, juntos, mais de 0,5% dos votos válidos.
Refletindo sobre isso, dei-me conta de outra coisa. Apesar de fatores muito importantes, não são apenas o poder econômico ou o carguismo que têm feito com que os partidos se isentem de apresentar candidatura própria. Falta o principal: novas lideranças.
Quando há um líder, alguém que consiga conciliar os interesses do partido, que tenha carisma, conhecimento de causa, a candidatura passa por cima destes “obstáculos”. Cristovam Buarque se lançou pelo PDT mesmo sem coligação, em 2006. Heloísa Helena (PSOL) tinha apenas os minúsculos PSTU e PCB no mesmo ano. Ciro Gomes, que foi candidato em 2002 pelo PPS, quase conseguiu impor sua candidatura ao PSB, que não é uma sigla lá muito ramificada pelos quatro cantos do país.
Quem deixa muito a desejar são os grandes partidos. O maior de todos, o PMDB, não lança candidato próprio desde 1994, quando Orestes Quercia concorreu sem ter o apoio de boa parte dos companheiros. Desde então, afunda qualquer iniciativa de colegas do partido em concorrer para garantir uma coligação com a tendência de ficar no poder. O PP, quinto maior, segue a mesma tendência: a última vez que lançou candidato próprio foi em 1994, com Esperidião Amin (na época a sigla chamava-se PPR). Pior é o DEM (ex-PFL), quarto maior partido do país, que desde 1994 vem a reboque do PSDB, contentando-se em ter candidato a vice. Gente, 1994 foi há 16 anos. Quatro eleições. Foi recém a segunda eleição direta após a abertura política!
Agora, vejamos: quem são os líderes de hoje? Quando foram forjados? Numa pequena pesquisa entre o Google e minha memória, não consegui achar nomes que não sejam egressos do período de Ditadura Militar ou ainda anteriores. Nos anos de chumbo, Dilma foi guerrilheira; o padrinho Lula, líder sindical. Serra foi presidente da UNE nos anos 60 e posteriormente exilado pelos militares. Desafio você, caro leitor, a apresentar nomes do quilate (aqui compreendido apenas como representatividade, sem julgamento sobre ser honesto ou não, entre outros adjetivos) de Roberto Freire, Paulo Maluf, Fernando Henrique Cardoso, Cezar Maia. Podemos avaliar partido por partido: os caciques ainda são os mesmos de 30 anos atrás (tirando os falecidos Leonel Brizola, Ulysses Guimarães, Antônio Carlos Magalhães, Franco Montoro e Mário Covas, que deixaram representantes não tão importantes como os próprios, mas da mesma época, em seus lugar).
Ainda estamos refém de uma geração. Parece, salvo exceções, que há um vácuo entre as lideranças (contra ou a favor) dos anos de chumbo e as novas gerações. E pior: esse hiato não significará ruptura. Mas isso é assunto para outra coluna.
14-05-10
Refletindo sobre isso, dei-me conta de outra coisa. Apesar de fatores muito importantes, não são apenas o poder econômico ou o carguismo que têm feito com que os partidos se isentem de apresentar candidatura própria. Falta o principal: novas lideranças.
Quando há um líder, alguém que consiga conciliar os interesses do partido, que tenha carisma, conhecimento de causa, a candidatura passa por cima destes “obstáculos”. Cristovam Buarque se lançou pelo PDT mesmo sem coligação, em 2006. Heloísa Helena (PSOL) tinha apenas os minúsculos PSTU e PCB no mesmo ano. Ciro Gomes, que foi candidato em 2002 pelo PPS, quase conseguiu impor sua candidatura ao PSB, que não é uma sigla lá muito ramificada pelos quatro cantos do país.
Quem deixa muito a desejar são os grandes partidos. O maior de todos, o PMDB, não lança candidato próprio desde 1994, quando Orestes Quercia concorreu sem ter o apoio de boa parte dos companheiros. Desde então, afunda qualquer iniciativa de colegas do partido em concorrer para garantir uma coligação com a tendência de ficar no poder. O PP, quinto maior, segue a mesma tendência: a última vez que lançou candidato próprio foi em 1994, com Esperidião Amin (na época a sigla chamava-se PPR). Pior é o DEM (ex-PFL), quarto maior partido do país, que desde 1994 vem a reboque do PSDB, contentando-se em ter candidato a vice. Gente, 1994 foi há 16 anos. Quatro eleições. Foi recém a segunda eleição direta após a abertura política!
Agora, vejamos: quem são os líderes de hoje? Quando foram forjados? Numa pequena pesquisa entre o Google e minha memória, não consegui achar nomes que não sejam egressos do período de Ditadura Militar ou ainda anteriores. Nos anos de chumbo, Dilma foi guerrilheira; o padrinho Lula, líder sindical. Serra foi presidente da UNE nos anos 60 e posteriormente exilado pelos militares. Desafio você, caro leitor, a apresentar nomes do quilate (aqui compreendido apenas como representatividade, sem julgamento sobre ser honesto ou não, entre outros adjetivos) de Roberto Freire, Paulo Maluf, Fernando Henrique Cardoso, Cezar Maia. Podemos avaliar partido por partido: os caciques ainda são os mesmos de 30 anos atrás (tirando os falecidos Leonel Brizola, Ulysses Guimarães, Antônio Carlos Magalhães, Franco Montoro e Mário Covas, que deixaram representantes não tão importantes como os próprios, mas da mesma época, em seus lugar).
Ainda estamos refém de uma geração. Parece, salvo exceções, que há um vácuo entre as lideranças (contra ou a favor) dos anos de chumbo e as novas gerações. E pior: esse hiato não significará ruptura. Mas isso é assunto para outra coluna.
14-05-10
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