sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Deixa a mulher trabalhar

Bom, ganhou a Dilma. Será a primeira mulher presidente do Brasil (embora também correto, não gosto do termo presidenta). A única entre os 40 que tivemos até agora. E além do enorme desafio que o cargo já oferece, creio que nossa presidente eleita vá enfrentar ainda mais dificuldades. Explico:
1) Dilma sucederá um governo com mais de 80% de aprovação. Embora tenha sido indicada pelo presidente, Dilma não é Lula, um homem que por sua história está acima do próprio PT. O carisma do presidente é algo ocorrido “nunca antes na história desse país” (frase que o próprio gosta muito de usar). E foi esse mesmo carisma que blindou em parte “o homem” das críticas, das denúncias e de ser envolvido nos escândalos que aconteceram durante o governo. Dilma terá que criar um carisma que não tem para enfrentar situações que Lula driblou com maestria. Precisará do apoio da tropa de choque.
2) Até então, Lula foi o único candidato do PT à presidência. Dilma surgiu por indicação de Lula, não do PT. Na fila, antes dela, havia vários nomes, como José Dirceu, Antônio Palocci, José Geonoíno, Aloísio Mercadante, e até mesmo Tarso Genro. Todos já enfrentaram longas jornadas eleitorais, enquanto Dilma o fez pela primeira vez (como candidata). Creio que uma das dificuldades será lidar com algumas vaidades de pessoas que não enfrentavam Lula (o chamado fogo amigo).
3) O fantasma de Lula. A possibilidade do atual presidente retornar daqui há quatro anos pode pressionar Dilma. Duvido que alguém que coloque a faixa presidencial admita fazer um mandato “tampão”. E também há uma fila bem grande de pessoas interessadas em ser maquinista deste trem verde-amarelo.
4) Lula é um mestre da política. Conseguiu costurar alianças que até assumir o Governo eram impensáveis. Mesmo assim não teve muita facilidade para saciar a sede por cargos desses aliados, sobretudo o PMDB. Aquele que se intitula o maior partido do Brasil não vai arrefecer. O mesmo deve acontecer com as siglas que declararam apoio de última hora ou até mesmo que ficaram em cima do muro. Resta saber qual será o valor da fatura...
5) Dilma perdeu para Serra no Sul e no Centro-Oeste. Ganhou apertado no Sudeste. Para conquistar terreno da metade para baixo do mapa, apenas a política social não bastará. Será preciso tirar vários coelhos da cartola.
6) Copa do Mundo. A quantidade de dinheiro público envolvido pode resultar em fortes dores de cabeça. É um prato cheio para a imprensa. Se a coisa não sair como imaginada, se a conta for muito mais salgada do que o previsto, vai sobrar para o governo. Risco de desgaste.
***
Embora não seja gaúcha, Dilma radicou-se aqui. Pela primeira vez após o Regime Militar, teremos sentada na cadeira mais importante do país alguém umbilicalmente ligado ao nosso Estado (lembrando que três dos cinco generais presidentes eram gaúchos – Costa e Silva, Médici e Geisel). Antes, ainda foram presidentes gaúchos o gabrielense Hermes da Fonseca (1910-1914), Getúlio Vargas (1930-1945, 1951-1954}) e João Goulart (1961-1964). Não deixa de ser irônico: antes os generais, agora a “guerrilheira”. Mas irônico ainda é que Dilma não recebeu a maioria dos votos no Estado onde vota. É o alerta de uma unidade federativa que pede mais atenção. Agora é hora de esperar pelos resultados. É hora de deixar a mulher trabalhar!

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