quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Tamarindo, laranja e limão

Tenho escrito bastante sobre reforma política neste espaço. E hoje vou me arriscar de novo. E é provável que eu escreva sobre isso muitas e muitas vezes. Funciona como a tabela do Brasileirão: pouca coisa muda após cada rodada, mas eu insisto em olhar várias vezes e fazer projeções que nunca se concretizam. Mas vamos ao ponto: a fundação do Partido Social Democrata (PSD) sob a liderança do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab. Gostaria de mostrar que essa é uma grande prova de que está tudo errado, de que é urgente uma reforma política. Vamos aos fatos.
A Justiça Eleitoral autorizou a criação da legenda poucos dias antes do prazo para que tivesse condições de participar das eleições municipais do ano que vem. Isso depois de impedir porque o número de assinaturas (em torno de 228 mil) foi forjado, constando nomes duplicados e também de pessoas mortas.
Passada essa fase, enfim surge o PSD, que já nasce como o terceiro em representação na Câmara dos Deputados, com 54 parlamentares, atrás apenas de PT e PMDB, e a frente do PSDB. Por que foi tão fácil? Além da maestria de Kassab e seus escudeiros na articulação política, a criação do partido foi uma baita manobra. Como a legislação diz que a pessoa que trocar de sigla por outra já existente perderá o mandato, sobrou apenas o PSD para abrigar os descontentes. Assim, quem não concordava com as diretrizes da sigla anterior, saiu para engrossar o exército kassabista. Por exemplo: o jornalista e ex-deputado federal Celso Russomano, descontente com Maluf e com a falta de espaço no PP, se entrincheirou na esperança de concorrer à prefeitura de São Paulo. Talvez não tenha sido avisado que terá que disputar a preferência com, entre outros, Guilherme Afif Domingos, vice-governador paulista e que deixou o DEM com o mesmo intuito, e com o ex-peemedebista e ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles, que inclusive transferiu o título do Estado de Goiás para a capital paulista. Talvez, ninguém consiga nada, pois o novo partido ainda pode se aliar a Serra, caso este concorra.
Apesar de, teoricamente, ser uma facção do DEM, o PSD já abriga políticos de todos os lados. Alguns deixaram as siglas de oposição do governo para correr para os braços de Dilma e receber dinheiro de emendas parlamentares, cruciais para quem visa a próxima eleição. No RS, o principal líder é Danrlei, que ao que parece utilizou o PTB como barriga de aluguel para chegar ao Congresso Nacional. Liberais, conservadores, esquerda e direita, governistas e oposicionistas desfizeram o beiço que tinham em outros partidos ao encontrar abrigo na barraca do Kassab.
O prefeito de São Paulo disse que a sigla é de centro, e anunciou que os próprios parlamentares poderão escolher entre ser governista ou oposição. “É um partido plural”. Fala em ideologia, mas não diz qual é. Apenas bandeiras vagas, como “a defesa dos interesses nacionais”. Afirma que a prioridade é lutar por uma Assembléia Constituinte para fazer as reformas necessárias, porque julga que os atuais políticos não têm capacidade para tanto (!!!).
Já são 28 siglas na sopa de letrinhas da política brasileira. E ainda há pedidos para a criação de outros 40. Lembra do Chavez, que vendia um suco de tamarindo, com sabor de laranja e cor de limão? O Kassab fez um partido de direita, que diz ser de centro, mas que vai se aliar com a esquerda para se beneficiar dos recursos do governo. É a prova de que os políticos brasileiros não têm ideologia, não são democráticos e que sonham em ser um grande cacique, donos de um a sigla.

14-10-11

Cobrando uma fatia do bolo

Esta semana, depois de percorrer alguns sites de notícias, lembrei de uma música do Raul Seixas. “O comandante não saiu para o quartel, pois sabia que o soldado também não tava lá/ E o soldado não saiu pra ir pra guerra, pois sabia que o inimigo também não tava lá/ E o paciente não saiu pra se tratar, pois sabia que o doutor também não tava lá”, etc...
Claro que a canção, “O dia em que a terra parou”, tem um sentido místico, mas ao ler tanto sobre greves acabei associando a letra com os fatos. Imaginei-me na seguinte situação: vou ao banco para pagar uma conta que chegou atrasada por causa da paralisação dos Correios. Mas os bancos também estão em greve, então não consigo fazer o acerto, que se referia a uma contribuição ao Círculo de Pais e Mestres de uma escola que também está paralisada. E para piorar, acabei assaltado, porque não havia policiais para me proteger. Sim, porque bandido – tirando alguns eleitos pelo voto – não param...
Já mencionei há algumas colunas que considero greve como um modo pouco eficaz de conseguir algo. Isso porque ela tira da zona de conforto as pessoas que necessitam dos serviços cancelados, e com isso conquistam muita antipatia, pouca compreensão e pressão para retomem os serviços antes mesmo das negociações. Mas desta vez não vou criticar. Como não aceitar o argumento de um bancário que pede participação nos lucros, já que a cada balanço há recordes de arrecadação engordando o bolso de acionistas? Como vou exigir um serviço razoável de um policial que recebe menos de mil reais e está sujeito a todos os tipos de suborno e tentação de aceitar bicos para aumentar a renda? E vocês sabem quanto ganham os funcionários dos Correios? Uma vergonha! Bem que aquele dinheiro desviado da estatal para pagar mensalão poderia ser usado como abono para essa classe!
Cansei de ver, em outras ocasiões, greves esvaziadas, que encerravam com nenhum ganho e muitos foguetes para maquilar a derrota. Desta vez, em alguns casos vejo ofertas que outrora seriam muito bem-vindas. Mas os trabalhadores querem mais. Pensa comigo: o cidadão liga a tv e ouve todos os dias que o país está bem, que crise só existe fora de nossas fronteiras, que o Brasil está crescendo. E percebe que os nossos deputados, ministros, governantes, vereadores, magistrados aumentam os vencimentos e vantagens em margens inimagináveis para qualquer classe. É lógico que ele vai querer uma fatia desse bolo. Está feita a bola de neve!
Correios, bancos, professores, policia militar e civil, agentes carcerários, funcionários públicos de todas as esferas. É no Brasil todo! E ainda vem mais. Parece que foi convencionado que chegou a hora de cobrar a conta das farras de certos gabinetes. Diante desses argumentos, como tirar a razão de quem recebe R$ 500,00 todo o mês para se virar com as necessidades básicas da família?
Mas não será fácil. O patronato pensa assim: se dermos tudo o que eles pedem hoje, amanhã vão querer mais. Eu sugiro outra coisa: dêem o exemplo. Gostaria que essas manifestações fossem interpretadas pelas nossas lideranças como recado de que chegou a hora de maneirar. Está em crise? Que se corte na própria carne, reduza gastos e pare de aumentar vencimentos que já são superiores a 15, 20 mil reais.
E os trabalhadores? Devem fiscalizar, usar o poder do voto, pressionar seus representantes. Mas também devem ter bom senso. Se for no setor privado, devem buscar representação no conselho das empresas e unir a categoria para evitar caça as bruxas. Paralisações são ruins. Afetam diretamente a economia. Por isso não pode faltar é bom senso. De nenhuma das partes. Se ninguém pensar no próprio umbigo, por descaso ou peleguismo – e essa é a grande utopia – todos, patronato e trabalhadores saem ganhando.

Essa é do dia 7-10-11

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Voto Distrital

Está em pauta no Brasil o voto distrital. Ah, como eu gostaria de vislumbrar no
horizonte uma reforma política! Entidades como a Fecomércio aos poucos entram em
campo para pressionar o Congresso a favor dessa forma de eleger nossos representantes.
Infelizmente, não creio que a matéria tenha qualquer possibilidade de entrar em vigor. O
motivo: afetaria muitos caciques por esse Brasil a fora.
Vamos pensar um pouco sobre as eleições para deputado, federal ou estadual.
Ganha quem consegue se ramificar mais pelo Estado. Isso exige recursos financeiros,
estrutura e fama. Ou seja: quem já ocupa um cargo, além da visibilidade intrínseca à
atividade, consegue cooptar mais lideranças locais, forma bastante eficiente de captar
votos. E quem é que deve decidir se um projeto de lei com tal teor pudesse vigorar? Os
cidadãos que se beneficiam do atual sistema eleitoral (tenho certeza que usariam o voto
secreto para o veto).
Sou favorável ao voto distrital. Além de deixar a disputa um pouco mais igual,
obriga os parlamentares a estreitar ainda mais os laços com seu “distrito”. É mais fácil
de fiscalizar. É mais difícil de mentir. E isso não impediria o envolvimento dos
deputados com assuntos de interesse do Estado e do país.
Tem mais: as legendas teriam menor força. Por exemplo: se um distrito tem três
vagas, apenas três candidatos por sigla (ou coligação) poderiam concorrer, e a soma dos
votos contaria apenas para o distrito. Talvez diminuiria o número de “celebridades”
envolvidas no pleito para não ameaçar as vagas de “políticos de carreira”.
Abaixo, deixarei para você refletir dados sobre a atual divisão territorial de
nossos deputados eleitos em 2010. Há regiões importantes sem representantes. E outras
com excesso. Para isso, segui alguns critérios. Não inclui os mais votados, mas os
eleitos. Levei em conta os redutos onde os políticos iniciaram a vida pública. Utilizei as
microrregiões como referência. Considerei Porto Alegre como um único “distrito”.
Como tempos 31 deputados federais e 36 microrregiões (37 se destacarmos Porto
Alegre), o provável é que num sistema distrital haja fusão de regiões, e algumas teriam
mais representantes por causa do contingente populacional.
Deputados Federais: Porto Alegre, 7 (Fontana, Marchezan, Manuela, Mendes
Ribeiro, Danrlei, Vieira da Cunha, Onyx); Região Metropolitana, 6 (Canoas: Marco
Maia, Luiz C. Busato; São Leopoldo: Ronaldo Zulke, Alexandre Roso; Cachoeirinha:
Stédile; Sapiranga: Molling); Caxias do Sul, 2 (Pepe Vargas, Assis Mello); Passo
Fundo, 2 (Beto Albuquerque; Ronda Alta: Marcon); Ijui, 2 (Perondi; Santo Augusto:
Goergen); Santa Rosa, 2 (Osmar Terra; Santo Cristo: Bohn Gass); Pelotas (Marroni);
Santa Maria (Pimenta); Santa Cruz do Sul (Sergio Moraes); Campanha Ocidental
(São Borja: Heinze); Frederico Westphalen (Covatti); Osório (Alceu Moreira);
Cachoeira do Sul (José O. Germano); Uruguaiana (Bagé: Afonso Hamm); Soledade
(Cherini); Lajeado (Bacci).
Deputados Estaduais: Porto Alegre, 9 (Raul Pont, Villaverde, Odone, Carlos
Gomes, Juliana Brizola, Mano Changes, Carrion, Paulo Borges, Cassiá); Região
Metropolitana, 11 (Alvorada: Stela Farias; Gravataí: Bordignon, Miki Breier, Marco
Alba; São Leopoldo: Ana Afonso; Canoas: Nelsinho; Sapiranga: Fixinha; Campo Bom:
Giovani Feltes; Novo Hamburgo: Lucas Redecker; Guaíba: Sperotto; Ivoti:
Lauermann); Caxias do Sul, 4 (Marisa Formolo; Maria H. Sartori; Barbosa Velho;
Farroupilha: Álvaro Boessio); Passo Fundo, 4 (Basegio, Capoani, Luciano Azevedo;
Tapejara: Sossela); Pelotas, 3 (Miriam Marroni; Catarina; Canguçu: Pedro Pereira);
Santa Cruz do Sul, 3 (Schuch; Marcelo Moraes; Sobradinho: Adolfo Brito); Rio
Grande, 2 (Lindenmeyer, Adilson Troca); Santa Maria, 2 (Valdeci, Pozzobom);

Carazinho, 2 (Edegar Pretto, Marcio Biolchi); Três Passos, 2 (Zilá; Campo Novo:
Clasmann); Bagé, 2 (Lara; Mainardi); Guaporé (Alexandre Postal); Cachoeira do Sul
(Rio Pardo: Edson Brum); Erechim (Altemir Torteli); Ijuí (Burmann); Santo Ângelo
(Adroaldo Loureiro); Frederico Westphalen (Silvana Covatti); Cruz Alta (Pedro
Westphalen); Uruguaiana (Frederico Antunes); Santiago (Chicão); Osório (Ciro
Simoni); Vacaria (Lagoa Vermelha: Santini).

publicada em 30-09-11

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Filie-se

Ainda falta mais de um ano para a eleição municipal de 2012, mas preciso falar sobre isso hoje. Para quem não sabe, para concorrer é preciso estar filiado a um partido político pelo menos um ano antes da data do pleito (e também ter domicílio eleitoral no município em questão). Como estamos quase em outubro, preciso dar hoje minha contribuição para incentivar novas candidaturas, independentemente da sigla.
Antes, um alerta: só leia as linhas abaixo se você for no mínimo bem-intencionado. Isso é apenas para pessoas de boa índole, comprometidas com as comunidades, que não pensam apenas em usufruir do dinheiro público. Aqueles que já se envolvem com associações, clubes, instituições e não cobram um centavo para isso já têm um bom currículo, suficiente para ocupar uma cadeira no Legislativo.
Bom, eu quero caras novas na disputa. Creio que você possa pensar assim. Então pense no assunto. Não tenha medo de ser motivo de risos, ou de fazer feio. Vou provar que só perde quem não concorre. Tirando alguns reais que precisam ser investidos, claro, pois nada é de graça.
1) Qualquer um que trabalha um pouquinho nos dois meses do período eleitoral consegue juntar alguns votos de amigos e parentes. Se o esforço for um pouco maior, consegue atingir gente antes desconhecida. E ser mais conhecido é um capital que abre portas. As pessoas olham para o candidato, mesmo que não se eleja, com outros olhos. Isso traz convites para participar de grupos que pedem pessoas comprometidas – e como faltam pessoas comprometidas no mundo;
2) Mesmo que não se eleja, os partidos não costumam abandonar seus líderes – pelo menos as siglas mais organizadas. Isso, no mínimo, porque não querem perder os votos conquistados, afinal, todos foram computados para a legenda. E, se a sigla ganhar a prefeitura, haverá trabalhos importantes para desenvolver junto à sociedade diretamente dos órgãos. Ainda pode acontecer o mesmo em âmbito regional, caso haja aproximação com o atual governo estadual ou federal. Que tal uma coordenadoria?
3) Se o partido abandonar o candidato à própria sorte, sempre é possível trocar, já que não há mandato para perder. Obviamente, é preciso o cuidado para não sair direto para o arquirrival, ou para uma sigla com ideologia muito diferente daquilo que você defende. Em tempo de pouca fidelidade e ideologia, buscar uma estrutura melhor não é pecado. Pecado é fazer joguinho político.
4) Em todos os casos, sempre há novo pleito em quatro anos. E a pessoa que já concorreu tem vantagem sobre quem vai pela primeira vez. E ainda carrega o título de trazer a mudança, o que sempre ajuda.
5) Nas eleições para deputado estadual e federal, os candidatos precisam ramificar suas forças por todos os cantos em busca dos eleitores. Mesmo quem não ocupa cargo, mas que tem um bom reduto eleitoral, é lembrado. Isso significa poder de barganha junto aos parlamentares para conquistar benefícios para as comunidades defendidas por você (e em votos).
6) Não preciso falar do que acontece no caso do candidato se eleger. Se manter no cargo é mais fácil do que chegar nele. Mas, por favor, seja diferente e trabalhe, não fique pensando já na próxima eleição.
Enfim, não custa nada se expor. Não há demérito em buscar uma vaga para um cargo, desde que seja com o objetivo de ajudar o seu município. Pior é se omitir e deixar apenas gente de moral duvidosa concorrendo. Pare de reclamar e vá se filiar!

23-09-11

Mais do mesmo sobre educação

O ministro da Educação Fernando Haddad acena com a possibilidade de aumentar de 200 para 220 os dias letivos nas escolas brasileiras. Ou, pelo menos, ampliar a carga horária diária. Atualmente, cada criança passa – ou deveria passar – 800 horas por ano dentro de uma sala de aula. Mas, se depender do que disse o senhor ministro, esse tempo poderá aumentar pelo menos 10%, numa implantação gradativa que levaria quatro anos.
Seria a alegria de muitos pais ter onde deixar as crianças por mais 80 horas num ano. Mas nosso secretário da Educação, José Clovis de Azevedo já afirmou que, embora a favor, será preciso melhorar a infraestrutura das escolas do gaúchas para cumprir essa possível determinação. E isso requer INVESTIMENTO.
É óbvio que o ideal seria deixar os alunos oito e não quatro horas na escola, estudando, brincando, aprendendo atividades esportivas e artísticas, etc. Teoricamente, seria uma forma de melhorar a formação das próximas gerações, além de mantê-las em local seguro e convivendo socialmente. Então tentei me colocar no lugar de Haddad. Segue o mínimo que (acho) seria necessário para que isso se materializar.
1) Como há cada vez menos crianças no mundo – cada vez mais as famílias têm menos filhos, isso quando há família ou quando há filhos – é possível que as estruturas das instituições existentes não precisem ser muito ampliadas. Precisariam sim ser adaptadas para o desenvolvimento de atividades extraclasse. Não dá para oferecer esportes sem quadra, leitura sem biblioteca. E de recursos: não existe banda marcial sem instrumentos, aulas de inglês sem material didático, dança sem equipamento de som.
2) O mesmo vale para os quadros de professores e funcionários. O próprio secretário Azevedo, estima que para mais três horas-aula diárias teriam que ser contratados mais 10% de professores. Pouco, se levarmos em conta que o tempo de aula diário subiria 75%. Mas... e bibliotecária? Instrutor de banda? Professora de dança? Professores de educação física? Monitores de laboratórios de ciência e de computação?
3) E a merenda? Como segurar a gurizada na escola sem dar comida? O sistema de distribuição de alimentos está longe do ideal e faltam profissionais que preparem refeições (sem essa de distribuir bolacha!). Como resolver isso?
4) Já há poucos professores dispostos a assumirem escolas estaduais. Imagina com ampliação de dias letivos e manutenção de salário, além da falta de tempo para desenvolver uma proposta pedagógica. E não adianta falar em piso nacional se os Estados não cumprem...
5) Segurança. As escolas não são mais lugares seguros. Há poucos funcionários para cuidar quem entra e sai das instituições. A polícia vigia praticamente só quando as aulas começam e terminam. Se a tela ao redor da instituição de ensino tiver um único buraco, é um deusnosacuda. Como fazer?
Haddad cogita aumentar o orçamento destinado a Educação. "Estamos prevendo aumentar o investimento de 7% do PIB", disse ao Estado de SP. Eu pago pra ver. Torcerei muito para morder essa minha língua pessimista. Mas eu quero ver se o Governo Federal vai realmente ajudar financeiramente ou se vai jogar tudo no colo dos falidos Estados e municípios. Se for só para segurar as crianças na escola, sem crescimento nos índices de ensino, deixa em casa jogando vídeo game. Porque haja notinhas fiscais para serem coletadas e suprirem o básico que as autoridades sonegam.

publicado em 16-09-11

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Utopia desequilibrada

O 4º Congresso Nacional do PT, ocorrido no último final de semana, trouxe uma
pauta interessante para o debate. Refiro-me à moção aprovada pelos participantes para
que deputados federais e senadores sejam pressionados a promover a regulamentação
das mídias.
Muitos na grande imprensa chamaram essa moção de “controle da mídia”. Digo
de antemão que considero o termo muito forte. Isso porque concordo em dois pontos
do que foi batizado “marco regulatório das comunicações”: a restrição da propriedade
cruzada de meios de comunicação (evitar que um mesmo grupo domine o mercado
de rádio, jornal e televisão) e a proibição de que parlamentares sejam proprietários de
mídias.
Penso que não é saudável que um mesmo grupo domine o mercado de
informações de um país. Acredito que a concorrência é sempre mais saudável,
sobretudo no que se refere à formação de opinião. É preciso saber dos fatos por vários
ângulos. Quanto a políticos serem proprietários de qualquer tipo de mídia, então nem se
fala. É impossível acreditar que um veículo de comunicação será isento sendo ligado a
um político.
O problema que vejo nisso tudo é o da motivação que trouxe a moção à tona.
É público e notório o descontentamento de dirigentes do PT contra alguns veículos,
sobretudo a revista Veja, os jornais Folha de São Paulo e Estado de São Paulo, e a Rede
Globo. Dirigentes petistas vêem nesses veículos uma “conspiração” para derrubar a
presidente Dilma, por exemplo.
Não vou entrar nesse mérito. Tenho a dizer apenas que a Rede Globo sempre foi
governo, sempre será, tem uma relação histórica com o poder (ninguém me convence
de que Lula teria sido presidente se as organizações Roberto Marinho quisessem mesmo
intervir). E quanto ao Estadão, a Folha ou o Grupo Abril (responsável pela Veja), bem,
não tem ligações com outras mídias. A questão aqui é de política editorial. E tentar
intervir em política editorial de qualquer mídia, aí sim, é censura.
Outra questão: conforme afirma o próprio presidente da sigla Rui Falcão, as
medidas – caso passassem pelo Congresso – não mexeriam com o que já existe: nem
parlamentares teriam que optar ou pela concessão de rádio e tv, ou pelo mandato, nem
os grandes grupos teriam que se desfazer de algumas de suas mídias. Serviria apenas
para o que vem pela frente. Mas... não seria contraditório políticos que já detêm mídias
permanecerem com elas e outros não? E porque a Folha do Noroeste não poderá ter uma
rádio e um canal de TV, se a Globo já tem? Que democratização da informação é essa?
Não seria, pelo contrário, uma forma de manter monopólios?
Se é para termos democratização de verdade, a receita é essa: pega os grandes
grupos e esquarteja suas mídias. Retira as concessões de rádio e tv de quem é hoje
parlamentar. Ou não se mexe em nada é continuemos com a utopia.
Esse é o maior problema da nossa política. As motivações para as leis são
pessoais ou partidárias, e não ideológicas. Reconheço que, apesar da maioria dos
partidos se considerarem de centro-esquerda (PT, PMDB, PSDB, PTB, PDT, etc), as
mídias dominantes tem sim um lado puxado para a direita. Não há um equilíbrio, o
que mexe inclusive no comportamento de nossos políticos. Mas acho mais fácil que se
criem canais mais fortes de esquerda do que mexer nesse vespeiro. Até porque, do jeito
que foi exposto, é balela.

Teoricamente, publicada nesse dia 09-09-11 (não tem como prever o futuro)

O segredo do voto secreto

A absolvição da deputada federal Jaqueline Roriz no Plenário da Câmara
ocorrido na noite da última terça-feira trouxe à tona novamente o debate sobre o
voto secreto dos parlamentares. Filha do ex-governador do Distrito Federal, Joaquim
Roriz, Jaqueline se envolveu no chamado “Mensalão do DEM”, esquema de desvio
de dinheiro público ocorrido durante o governo de José Roberto Arruda (que sucedeu
Roriz), e cujas evidências indicam ter começado no governo anterior. Tudo foi
descoberto pela operação “Caixa de Pandora”, da Polícia Federal em novembro de
2009 e se baseou nos depoimentos de Durval Barbosa, que foi secretário de Relações
Institucionais dos governos Roriz e Arruda.
O dinheiro teria pelo menos três finalidades: enriquecimento pessoal,
compra da “conscientização” de deputados candangos para a aprovação de projetos
e financiamento de campanha. A própria Jaqueline admitiu posteriormente que o
dinheiro recebido foi utilizado na campanha que a conduziu à Câmara dos Deputados.
Jaqueline Roriz foi absolvida por 265 votos contra 166. Houve 20 abstenções (outros 61
parlamentares roeram a corda e não compareceram à votação). O argumento principal
é de que Jaqueline não poderia ser cassada porque o fato ocorreu quando ela não
era deputada federal. Resumindo: a corrupção na Assembleia do DF não deveria ser
levada em conta, apesar da parlamentar ter sido eleita graças ao dinheiro desviado. Mas
voltando ao assunto: os parlamentares optaram por salvar a filha de Joaquim Roriz
com voto secreto. O que é muito fácil, já que os eleitores não podem identificar quem
foram os responsáveis por essa barbaridade. Quem assistiu a sessão pela TV Câmara
nota a cara constrangida de alguns deputados ao receberem um afetuoso abraço de
agradecimento de Jaqueline Roriz.
***
Antes de prosseguir, preciso relembrar um outro escândalo, conhecido
como “Violação do Painel eletrônico”. Em 2000, o finado cacique baiano, Antonio
Carlos Magalhães (então presidente do Senado) foi gravado em uma conversa em cujo
teor afirmava ter acesso às informações sobre como cada parlamentar votou no Senado
na sessão que cassou Luiz Estevão (PMDB-DF). Ao lado de ACM estava Arruda
(coincidentemente, o mesmo que governava o DF durante o “Mensalão do DEM”). Para
evitar a cassação, ambos renunciaram aos mandatos e voltaram na eleição subsequente.
O que a dupla queria com as informações? Simples! Coagir os deputados que foram
orientados a absolver Estevão. Mas... na realidade esses senadores temiam o quê?
Teriam o rabo preso?
***
O voto secreto surgiu durante a Ditadura Militar como uma (acanhada)
ferramenta para contrariar os militares. Assim, quem era contra as medidas do governo,
não precisava se expor ao manter uma posição – o que poderia evitar perseguições
políticas. Contudo, mais de 20 anos depois da redemocratização, essa ferramenta não
tem mais uso.
O voto aberto permite saber quais são os congressistas que aumentam
abusivamente os próprios salários; deixa transparente quem foi que absolveu políticos
corruptos; clareia aos eleitores quem é a favor e quem é contra os anseios do povo. Seja
no caso Roriz, seja na violação do painel, é preciso que fique claro como vota cada
parlamentar. É bom para o eleitor, é bom para a democracia. Quem se sente pressionado
pelos colegas, ou teme a opinião pública tem a consciência pesada. Quem se esconde
não merece ser deputado ou senador. Não é conduta de quem se diz representante dos
anseios do povo.

publicada em 02-09-11

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Cegueira política

As exonerações de ministros de Dilma criaram um mal estar muito grande entre os petistas. Isso porque a presidente ganha fama de ser linha dura contra a corrupção. Os elogios que partem da opinião nesse sentido, que deveriam ser louvados, estão ganhando outra interpretação: a de que Dilma está fazendo o que Lula não fez ou, num sentido mais amplo, a de que as faxinas dão a entender de que o governo do ex-presidente era corrupto.
É uma questão de lógica: se os ministros, ou os assessores diretamente ligados a eles, são os mesmos, alguns fatos aconteceram no governo passado. Se levarmos em conta que a presidente assumiu há pouco mais de oito meses, e que as operações que desbarataram esquemas fraudulentos não foram feitas do dia para noite, fica claro que o Governo Lula não foi um símbolo de honestidade, com Lula tendo conhecimento das falcatruas ou não.
Aqui não vai uma crítica diretamente, ou exclusivamente, ao maior ícone petista. Aceito os argumentos de que apenas nos últimos anos órgãos como a Polícia Federal, o Ministério Público e o Tribunal de Contas da União ganharam corpo e maturidade suficiente para fazer operações que não tinham tanta força na época de FHC, Itamar, Collor, Sarney e muito menos durante a Ditadura (queria ver quem teria peito de investigar os generais...). O problema nisso tudo é que vejo não apenas a tentativa de tornar Lula um santo pelas conquistas sociais, mas sim para trazê-lo de volta em 2014.
Leitor, não me entenda mal. Lula sempre será visto como o homem humilde que chegou à presidência e que, bem ou mal, manteve a economia no eixo do crescimento apesar de forte crise, que diminuiu o número de miseráveis do Brasil, que ampliou as vagas nas universidades federais, etc, etc, etc. Mas, infelizmente, é impossível negar que sua gestão alcançou tudo isso a partir do inchaço da máquina pública e de alianças com pessoas de moral duvidosa para manter a tal “governabilidade”, alianças estas bastante heterogêneas, e não ideológicas, que serviram de sustentação para fazer com que ele alcança-se a maior popularidade “nunca antes na história desse país” vista. Lula pagou um preço. Assim como Dilma pagará o inverso se continuar mexendo na posição dessa gente.
***
Uma das coisas que mais me irrita quando converso sobre política é quando o interlocutor é apaixonado o suficiente para não enxergar defeitos naquilo que defende, no caso, em Lula. Eu não agüento esta barreira que se criou ao redor da imagem do ex-presidente, que transforma ele em algo acima de tudo e de todos, como se fosse mais do que humano. É uma defesa cega, de quem aceita que coisas ruins possam ser compensadas por coisas boas e vice-versa. Se você tentar discutir mensalão, dificilmente não será alvejado por uma chuva de argumentos do tipo “ele fez isso, ele fez aquilo, ele é o cara”, etc. É irritante. Tão irritante como discutir futebol com um torcedor do time que está por baixo, pois ele sempre puxará títulos do passado para justificar que seu clube é o melhor.
Entendam: ninguém é perfeito. Essa necessidade de se criar um herói (sobretudo entre alguns militantes xiitas de esquerda, se é que o termo “esquerda” ainda possa ser aplicado) é uma bobagem, é aceitar viver de ilusão, é simpatizar com um assaltante que levou a carteira, mas que deixou os documentos (isto é apenas uma metáfora, não estou chamando Lula de assaltante, apenas criticando aqueles que fecham os olhos para “probleminhas” de sua gestão). É cegueira política!

26-08-11

Rifas e mais rifas

“Tio, tio, quer comprar uma rifa?”. É para ajudar na compra de equipamentos
para o grupo de jovens A, para a cobertura da quadra esportiva da escola municipal B,
para a compra de livros para a escola estadual Y, para mandar fazer os trajes do grupo
de danças TAL, para custear parte da viagem da escolhinha Z. Um real o número, dois
reais, cinco, dez, 20. Concorre a um ferro elétrico, um DVD, um computador, uma
camiseta. Mas um muito obrigado sempre é garantido.
Quem nunca teve que vender uma rifa atire a primeira pedra. Eu perdi as contas
de quantas rifas tive que vender. Foi para a escolhinha de futebol, para o CTG, para a
escola, para o grupo de danças étnicas. E geralmente vendia muito poucos números,
sempre para os mesmos tios e vizinhos. Tinha vergonha. Fazia aquilo sempre porque
os “tios” das entidades mandavam, mesmo sendo beneficiado de alguma forma com
aquilo achava que as pessoas ficariam ofendidas com o oferecimento de um número.
Acabava que mais da metade do bloco ficava para meus pais venderem para alguns
amigos e comprassem o restante. Foram muitos os números comprados por eles, e não
lembro de terem conseguido algum prêmio...
Lembrei de tudo isso nessa semana, em que participei de uma reunião de pais.
Vem mais rifa por aí. Como tantas outras que devem estar circulando na praça. Mas
hoje eu já penso diferente de quando era mais novo. Até porque já não estou mais do
lado daqueles que vendem, e sim daqueles que compram os números. Por mais que às
vezes a vontade seja de dizer não, sou a favor das ações entre amigos.
Claro que há rifas e rifas. As entidades também precisam ter “desconfiômetro”
e não pôr praça bloquinhos por qualquer coisa. Mas eu entendo as dificuldades pelas
quais esses grupos passam. E além do mais, julgo que essas mordidinhas, que nos
incomodam um pouco, somadas a todas as outras mordidas, trazem benefícios. Se for
para cobrir uma quadra, é porque teremos mais uma opção de lazer para os jovens
praticarem esportes. Se for para a confecção de trajes, é porque na próxima promoção
na praça veremos os grupos ainda mais bonitos. E toda essa beleza nos representará
nos municípios fora daqui. O mesmo ocorre com escolhinhas de futebol. Essa gurizada
vai divulgar nossos clubes em outras querências. Além de tudo, vão conhecer lugares
novos, sair da rotina, confraternizar com pessoas de outros cantos. Mas, principalmente,
os trocados usados para comprar um número de rifa vão incentivar a molecada a
manter uma atividade saudável, a conviver socialmente, e afastar em parte o perigo da
criminalidade ou drogadição. E mesmo quando a rifa é coisa de “adulto”, geralmente há
intenções altruístas por trás dos blocos.
Solidariedade, essa é a característica da ação entre amigos. O mesmo vale para
almoços, jantar baile, pedágios, etc. O importante não é levar para o lado da “mordida”
– tente nunca somar tudo o que você já investiu em rifas e não ganhou sequer um
relógio de parede. Pense que você está ajudando a viabilizar atividades saudáveis no seu
município.
Eu mesmo já pensei várias vezes em desviar a rua para fugir da gurizada dos
bloquinhos. Mas mudei de ideia no momento em que percebi porque alguém compra
um bilhete por cinco pila correndo o risco de ganhar uma tábua de passar roupa. É
só olhar nos olhos das crianças que chegam com uma rifa e pronto, não tem saída.
Aqueles “petebês” que estavam perdidos no bolso acham novo dono na hora.

19-08-11

Pobre Dilma

Ando com pena da presidente Dilma. A cada escândalo envolvendo gente de seus ministérios, imagino o que ela deve estar pensando. “Onde é que fui me meter?”, é a frase que acho mais adequada ao momento vivido. Será que não bate um certo arrependimento de ter aceitado ser indicada por Lula como sucessora?
Sabemos que nossa presidente nunca chegaria ao cargo não fossem os esforços e a popularidade de Lula. Há quem diga que ela foi a escolhida justamente para fazer um mandato tampão, para preparar a volta do nosso “bom velhinho”. Só que, independentemente de como Dilma chegou ao governo, o “presente” só trouxe dores de cabeça. Mais ou menos como o netinho que ganha do avô um bonitão e luxuoso Ford Galaxie de mais de 40 anos e que pouco consegue andar porque consome muito combustível e porque está toda hora no conserto, a presidente se vê com uma herança indesejável.
Quando pegou o governo, teve que manter a estrutura do seu antecessor, especialmente para agradar a base aliada e ter “governabilidade”. Mas em menos de um ano à frente do governo, viu que precisará de muito sacrifício para acabar com algumas práticas que vinham sendo adotadas há anos. Não pense você, caro leitor, que são de hoje os problemas nos ministérios dos Transportes, das Cidades, da Agricultura, do Turismo. Apenas estouraram nos últimos dias. E estão mandando também para o espaço a popularidade da presidente. Segundo pesquisa do Ibope (*) divulgada na última quarta-feira, o governo é aprovado por 67% dos eleitores, ante 73% de março. O pior índice é o de desaprovação, que saltou de 12% para 25% em cinco meses. E aqueles que consideram o governo ótimo ou bom caíram de 56% ara 48%. Também devemos levar em conta que os escândalos no Ministério do Turismo ainda não haviam chegado às páginas dos jornais.
Pior é que Dilma se obriga a não desamparar os envolvidos. Para não macular ainda mais o governo, ela já exonerou alguns. Mas quem sai, tenta levar mais gente junto para a fogueira. Para evitar CPIs, o governo manda os envolvidos “espontaneamente” para Congresso. Os partidos, para não arcarem sozinhos com o ônus, incriminam o máximo de dirigentes de outras siglas. Parlamentares que são dos partidos envolvidos, mas que não estão ligados aos escândalos, se voltam contra os colegas para não ficarem queimados junto aos eleitores. É fogo amigo, fogo inimigo, uma briga de foice no escuro entre aqueles que amam o poder e se agarram aos cargos como se fosse um bote no oceano durante um tsunami. Tsunami, é isso mesmo que o governo Dilma está enfrentando.
A “pobre” presidente não pode confiar em ninguém. Dá para notar o embaraço cada vez que se vê obrigada a amainar os fatos. Deve estar se sentindo como o aluno que foi para a secretaria porque estava perto da turma dos bagunceiros. Como não tem cintura política como tinha Lula, e com uma paciência de ralo pavio, imagino Dilma socando diariamente as paredes do recém reformado Palácio do Planalto.
Em defesa da presidente, tenho a dizer que sei que muito não é culpa dela. E que torço para que sua popularidade baixe ainda mais, que todas as falcatruas sejam descobertas, e que ela tenha forças para exonerar ainda mais ministros e assessores de segundo e terceiro escalão. Enfim, que ela troque as peças do Galaxie caindo aos pedaços que ela recebeu e finalmente o coloque para andar.

(*) Pesquisa encomendada pela Confederação Nacional das Indústrias, realizada entre 28 e 31 de julho, com 2.002 eleitores com 16 anos ou mais em 141 municípios de todas as regiões do país. Margem de erro: 2 pontos percentuais para mais ou para menos.

publicada em 12-08-11

Criaturas de hábitos noturno

Há cerca de oito meses, montei um bar em Porto Alegre. Muitos amigos acharam que eu estava ficando louco, outros me diziam que eu estava realizando o sonho deles. Sem dúvida, era uma experiência completamente nova. E um tanto diferente do que eu esperava.
Sempre gostei da noite. E sempre tive a certeza de que as pessoas mais interessantes, inteligentes, cultas, com opinião também gostassem. Esperava isso porque meus principais ídolos, seja da literatura, do jornalismo, da política ou da música, foram (ou são) grandes boêmios. Não é necessário enumera-los, basta pensar no século ou década que se encontram dúzias de grandes personalidades que gostava de um bar. O que não levava em conta é que, infelizmente, para cada pessoa diferenciada que se encontra na noite, há milhares de outras com um “currículo” não tão bom.
Não que não esperasse não conviver com essas “criaturas”. Meu sócio já havia advertido por conhecer a freguesia (na verdade eu mesmo era cliente do antigo bar dele, que ficava na esquina de casa), que ele chama de “diabedo”. Com o tempo, eu também adotei o termo de forma “carinhosa”. Até porque a quantidade de viciados, traficantes, vigaristas, desocupados e corruptos (sobretudo policiais!) que se conhece não é pequena. E todos têm histórias de vida semelhantes de qualquer conhecido seu.
Nesses meses, perdi mais minha inocência do que quando descobri que não tinha sido a cegonha que me trouxe para esse mundo. Não que tenha me envolvido nas práticas escusas de cada uma dessas pessoas. Mas porque, efetivamente, descobri que essas atividades marginais não escolhem cor, idade, classe social, etc. Para quem convivia mais tempo geralmente com pessoas sem essas práticas, foi um choque. Especialmente por causa das drogas: o que antigamente chamava-se de exceções, já virou regra há muito tempo.
E o pior: as pessoas chegam perto de você sem causar medo algum. São sujeitos “boa praça”, de fala mansa, divertidos, que não botam banca, e que são respeitosos. Na rua em que eu morava, e onde montei o estabelecimento, ninguém assaltava, roubava carros ou praticava qualquer crime. Caso acontecesse, os traficantes mostravam poder de polícia. No meu bar mesmo, a ordem era comportamento, porque os traficantes gostavam do ambiente e não queriam problemas, especialmente porque sabiam que nem eu nem meu sócio éramos do “metiê”. Um sujeito que quase chegou às vias de fato com a própria mulher no meu bar foi impedido, não por mim, mas pelos traficantes de freqüentar o local.
Vocês acham que eu iria impedir eles de freqüentar o bar? Só se eu quisesse perder 90% da freguesia. E não era porque era o meu bar: conversando com outros proprietários, inclusive de bares de classe A, o resultado é o mesmo. O uso de drogas, assim como alarma por atingir tanta gente, é silencioso porque quem deve teme. Não há conflitos. E é assim que o tráfico avança. Na “manha”, de cara limpa e com um sorriso no rosto, ocupando os lugares que menos se espera. Foi dessa maneira que se foram os resquícios da minha idéia de que os traficantes e usuários fossem pessoas do mal, como eu pensava quando tinha 15 anos. E acho que, por pensarem da mesma forma de quando eu tinha uma década e meia de vida, que as autoridades não conseguem acabar com essa doença da nossa sociedade. Mas isso é assunto para outra coluna...

05-08-11

Bola pro mato, Dilma!

Está no www.folha.com de quarta-feira, mais especificamente no blog do Josias de Souza. Dirigentes do PMDB e do PT (“os dois sócios majoritários da aliança governista”, segundo o colunista) já começam a dar como certa a volta de Lula em 2014. Dirigentes de ambas as siglas, que pediram para não ter o nome publicado para não se incomodarem, citaram uma série de motivos para isso.
Apesar de Lula negar que vá concorrer e garantir que é a favor de que Dilma concorra à reeleição, ninguém parece levar isso a sério. Alguns apontaram as constantes aparições de Lula (cedo demais, na opinião de alguns), como comportamento de candidato. Um governador petista alega, inclusive, que em 2018 Lula estará 73 anos, e seria melhor antecipar seu retorno ao comando do país. Outro entrevistado apontam que o comportamento de Dilma faz com que os partidos que apóiam o governo exijam Lula, sob a ameaça de trocar de lado.
Este é o ponto: porque estão incomodados com o comportamento da presidente? Como adiantei ainda no ano passado, Dilma está mais para a ex-governadora Yeda Crusius do que para Lula, ou seja, é muito mais técnica do que política. O estilo “zagueirão” como a presidente agiu no escândalo do Ministério dos Transportes, por exemplo, passando o rodo, está sendo criticado por muitos aliados. O medo é que isso volte a acontecer, não afetando apenas o PR. Diferentemente de Lula, que segurou seus ministros o máximo que pode em cada escândalo, Dilma atendeu a opinião pública e fez uma limpa. E já tem gente com medo de que isso volte a se repetir.
Outro fato – isso não está na matéria referida - que vai contra a presidente é que os aliados ainda não digeriram a escolha de Gleisi Hoffman para substituir Palocci na Casa Civil. Isso porque Gleisi também é vista como “cintura dura” devido a sua atuação quando secretaria no Mato Grosso do Sul. Só para constar: como secretária extraordinária da Reforma Administrativa no governo Zeca do PT, no final dos anos 90, Gleisi foi exonerada por ser considerada “sargentão”. Em pouco menos de dois anos, ela cortou 30% dos cargos em comissão (cerca de 1.500 funcionários), extinguiu quatro secretarias (de 15 para 11), extinguiu e fundiu empresas públicas e controlou as despesas do governo. Diga-se de passagem que a situação do Estado exigia pulso firme no controle de gastos. Mas o trabalho desenvolvido, considerado administrativamente como muito bom, foi seu pecado. Mexeu com quem não devia.
No momento, a ministra estaria instruída pela presidente a nem receber os deputados e senadores que passam o pires atrás de emendas para não se dar o trabalho de dizer não. E adivinha: o povo da base não está satisfeito...
***
Pois, se é assim, torço muito para que Dilma fique indignada com os boatos de uma possível volta de Lula e haja com ainda mais firmeza. Que venham mais “faxinas” nos órgãos federais, tanto em Brasília como nos estados. Que ocorra controle nos gastos públicos. Com certeza ela vai perder muitos cabos eleitorais, e pode ser que nem concorra. Mas ficaria grato se ela moralizasse um pouco essa zona. E endossaria meu pensamento de que um bom gestor não consegue se reeleger. Bola pro mato, Dilma!

29-07-11