Ando com pena da presidente Dilma. A cada escândalo envolvendo gente de seus ministérios, imagino o que ela deve estar pensando. “Onde é que fui me meter?”, é a frase que acho mais adequada ao momento vivido. Será que não bate um certo arrependimento de ter aceitado ser indicada por Lula como sucessora?
Sabemos que nossa presidente nunca chegaria ao cargo não fossem os esforços e a popularidade de Lula. Há quem diga que ela foi a escolhida justamente para fazer um mandato tampão, para preparar a volta do nosso “bom velhinho”. Só que, independentemente de como Dilma chegou ao governo, o “presente” só trouxe dores de cabeça. Mais ou menos como o netinho que ganha do avô um bonitão e luxuoso Ford Galaxie de mais de 40 anos e que pouco consegue andar porque consome muito combustível e porque está toda hora no conserto, a presidente se vê com uma herança indesejável.
Quando pegou o governo, teve que manter a estrutura do seu antecessor, especialmente para agradar a base aliada e ter “governabilidade”. Mas em menos de um ano à frente do governo, viu que precisará de muito sacrifício para acabar com algumas práticas que vinham sendo adotadas há anos. Não pense você, caro leitor, que são de hoje os problemas nos ministérios dos Transportes, das Cidades, da Agricultura, do Turismo. Apenas estouraram nos últimos dias. E estão mandando também para o espaço a popularidade da presidente. Segundo pesquisa do Ibope (*) divulgada na última quarta-feira, o governo é aprovado por 67% dos eleitores, ante 73% de março. O pior índice é o de desaprovação, que saltou de 12% para 25% em cinco meses. E aqueles que consideram o governo ótimo ou bom caíram de 56% ara 48%. Também devemos levar em conta que os escândalos no Ministério do Turismo ainda não haviam chegado às páginas dos jornais.
Pior é que Dilma se obriga a não desamparar os envolvidos. Para não macular ainda mais o governo, ela já exonerou alguns. Mas quem sai, tenta levar mais gente junto para a fogueira. Para evitar CPIs, o governo manda os envolvidos “espontaneamente” para Congresso. Os partidos, para não arcarem sozinhos com o ônus, incriminam o máximo de dirigentes de outras siglas. Parlamentares que são dos partidos envolvidos, mas que não estão ligados aos escândalos, se voltam contra os colegas para não ficarem queimados junto aos eleitores. É fogo amigo, fogo inimigo, uma briga de foice no escuro entre aqueles que amam o poder e se agarram aos cargos como se fosse um bote no oceano durante um tsunami. Tsunami, é isso mesmo que o governo Dilma está enfrentando.
A “pobre” presidente não pode confiar em ninguém. Dá para notar o embaraço cada vez que se vê obrigada a amainar os fatos. Deve estar se sentindo como o aluno que foi para a secretaria porque estava perto da turma dos bagunceiros. Como não tem cintura política como tinha Lula, e com uma paciência de ralo pavio, imagino Dilma socando diariamente as paredes do recém reformado Palácio do Planalto.
Em defesa da presidente, tenho a dizer que sei que muito não é culpa dela. E que torço para que sua popularidade baixe ainda mais, que todas as falcatruas sejam descobertas, e que ela tenha forças para exonerar ainda mais ministros e assessores de segundo e terceiro escalão. Enfim, que ela troque as peças do Galaxie caindo aos pedaços que ela recebeu e finalmente o coloque para andar.
(*) Pesquisa encomendada pela Confederação Nacional das Indústrias, realizada entre 28 e 31 de julho, com 2.002 eleitores com 16 anos ou mais em 141 municípios de todas as regiões do país. Margem de erro: 2 pontos percentuais para mais ou para menos.
publicada em 12-08-11
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