Notícia bombástica no Fantástico: ex-presidente defende legalização da maconha. Na verdade, não tem nada de bombástico: FHC já havia se manifestado a favor da regulamentação do uso da cannabis sativa (que, para quem não sabe, é prima da alface). Mas foi suficiente para levantar pela enésima vez a discussão do assunto. Debater é sempre positivo, e a vantagem é que parece que a argumentação sobre a legalização – ou regulamentação do uso, termo que eu prefiro - do “cigarro do capeta”, como diria alguns mais experientes, está amadurecendo.
Fernando Henrique Cardoso reconhece que a política anti-drogas adotada pelo próprio governo foi errada. Mas o que mais gostei na entrevista foi que, ao ser perguntado “por que meter a mão nesse vespeiro?”, ele respondeu justamente o seguinte: porque é um vespeiro. Não dá para ficar fugindo eternamente de algumas realidades nacionais que nossos agentes públicos tentam enfiar por baixo do tapete. E o que eu quero é justamente isso: que todos metam a mão no vespeiro, que pesem todos argumentos, que se informem, que não se prendam a preconceitos.
Você pode pensar que, pelo que escrevi aqui, sou favorável. Pois revelo desde já minha posição: não sei. Mas quero saber. Não quero que me digam que não dá para legalizar porque é ruim. Nem que a legalização gerará mais impostos e que acabará com o tráfico (duvido, ainda mais em se tratando de Brasil: será impostos demais sobre a erva, e o pessoal vai buscar nos países vizinhos, tal qual é feito com bebidas, cigarros, azeitonas e alfajor).
Eu quero é saber se a maconha faz mais mal do que o tabaco e do que o álcool. Eu quero saber se ela realmente é a dita porta de entrada para o mundo das drogas. Eu quero saber se é verdade que a substância pode ser utilizada com fins terapêuticos, e se é verdade que os tratamentos que usam maconha para curar a dependência do crack têm tido bons resultados. Quero saber um pouco mais sobre a experiência de outros países. E se a reulamentação vai prever áreas para o cultivo legal da prima do alface (porque regulamentar e as compras continuarem ilegais não tem sentido algum).
Sinceramente? Mais de 80% - jogando por baixo - dos meus conhecidos já usaram a substância pelo menos uma vez. E não são cabeludos, que usam roupas pretas ou esfarrapadas e que não gostam de banho. Alguns nem gostam de Bob Marley. E tem mais: muitos dos que usam com uma certa freqüência são pessoas legais, inteligentes, honestas, de boa família e de conduta exemplar (boa índole). Outros indivíduos que conheço, que nunca usaram, que são ferrenhos opositores do pessoal “verde”, têm caráter bastante duvidável. Conheço policiais, médicos, advogados, professores, jornalistas (estes são tão clássicos como músicos e demais artistas), dentistas, engenheiros e até juizes e promotores que volta e meia queimam um bagulho. E não pensem que são apenas jovens e adolescentes. Tem muito quarentão, cinquentão, e terceira idade a dentro que curte “dar um tapa”. Ou seja: proibida ou não, é fato que a “atividade”, existe em qualquer lugar do mundo, seja em Nova Iorque ou em Nova Hartz. E, se está tão disseminada, por que fugirmos do debate?
02-06-11
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