Semana passada fui acordado (pelo telefone) por uma amiga com um convite: fazer a cobertura da primeira visita oficial da presidente Dilma a Porto Alegre. Topei na hora. Não por ser admirador ou eleitor ou tiete. Mas pela mais pura curiosidade de como seria o comportamento da dona Rousseff. Continuaria ela com aquela cara sisuda? Já estaria passando por um “tratamento” que a deixasse um pouco mais “palatável”? Deixaria ela os termos técnicos para utilizar uma linguagem mais popular sem se perder? E, principalmente: atenderia (e de que forma trataria) a imprensa?
Já havia feito cobertura de outras aparições da então ministra ao lado de Lula. Ela passou a fazer discursos praticamente apenas depois de ser escolhida a herdeira do ex-presidente. E o microfone não é um objeto com o qual ela tenha tanta intimidade como ela revela com calculadoras e planilhas. Considero ela tecnicamente muito mais preparada do que Lula. Mas, politicamente, e o grande mérito inegável do senhor Luis Inácio foi o jogo de cintura, tenho a impressão de que se parece muito mais com a ex-governadora Yeda Crusius.
Mas, enfim, vamos aos fatos. Dilma chegou ao local do evento, a sede do Ministério Público do Estado, com 1h35 de atraso. E enganou a imprensa com um drible de Messi. Todas as demais autoridades entraram por uma porta próxima a todos os repórteres (que ficaram enclausurados em uma gaiola nos fundos do salão), logo, as atenções ficaram voltadas para essa passagem. Enquanto o protocolo anunciava a presença da presidente, todos estávamos acotovelados na grade esperando por pelo menos uma declaração, ela apareceu já na primeira fileira do evento depois de entrar por uma porta aos fundos, mesma passagem que utilizou ao final da solenidade.
Sobrou apenas o discurso para que os repórteres pudessem extrair algo. Ok, tudo bem que o evento não ajudava, era uma promoção da Confederação Israelita Brasileira em homenagem às vítimas do holocausto, ou seja, exigia uma certa sobriedade. Mas, fria e sem sorrisos, Dilma formou duas ou três frases além daquilo que estava escrito em seu discurso pela assessoria. Uma delas era a de que estava muito feliz por estar pela primeira vez em Porto Alegre, “minha cidade”. E deu... Aqueles pingos de simpatia que a então ministra revelava haviam evaporado!
No outro dia, Dilma se encontraria no Palácio Piratini com o governador Tarso Genro. Tínhamos expectativa que, de repente, sendo uma sexta-feira pela manhã, sem cansaço por causa das viagens, após uma boa noite de sono na “minha cidade”, ela falasse. Nada! Procurei pelos assessores dela: a prioridade será entrevistas para jornais regionais, menos atrevidos em perguntas, e sempre com a pauta e as questões pré-aprovadas pelo sistema de blindagem que cerca a senhora Rousseff.
Espero que essa experiência tenha sido apenas um fato isolado. Por que eu não consigo conceber democracia sem imprensa livre, e isso significa também acesso às autoridades. Sem contar que ignorar os veículos de comunicação pode ser um tiro no pé. Melhor fazer piadinhas sobre o Corinthians e alusões futebolísticas sem muito sentido do que esconder o jogo. Até porque, com o jogo escondido, os repórteres se obrigam a investigar mais, forçar mais a situação em busca de resposta, descobrir o que verdadeiramente se quer esconder e... Ops! Não tinha me dado conta: sabe que esse isolamento até que pode ser bom?
publicada em 04-02-11
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