As exonerações de ministros de Dilma criaram um mal estar muito grande entre os petistas. Isso porque a presidente ganha fama de ser linha dura contra a corrupção. Os elogios que partem da opinião nesse sentido, que deveriam ser louvados, estão ganhando outra interpretação: a de que Dilma está fazendo o que Lula não fez ou, num sentido mais amplo, a de que as faxinas dão a entender de que o governo do ex-presidente era corrupto.
É uma questão de lógica: se os ministros, ou os assessores diretamente ligados a eles, são os mesmos, alguns fatos aconteceram no governo passado. Se levarmos em conta que a presidente assumiu há pouco mais de oito meses, e que as operações que desbarataram esquemas fraudulentos não foram feitas do dia para noite, fica claro que o Governo Lula não foi um símbolo de honestidade, com Lula tendo conhecimento das falcatruas ou não.
Aqui não vai uma crítica diretamente, ou exclusivamente, ao maior ícone petista. Aceito os argumentos de que apenas nos últimos anos órgãos como a Polícia Federal, o Ministério Público e o Tribunal de Contas da União ganharam corpo e maturidade suficiente para fazer operações que não tinham tanta força na época de FHC, Itamar, Collor, Sarney e muito menos durante a Ditadura (queria ver quem teria peito de investigar os generais...). O problema nisso tudo é que vejo não apenas a tentativa de tornar Lula um santo pelas conquistas sociais, mas sim para trazê-lo de volta em 2014.
Leitor, não me entenda mal. Lula sempre será visto como o homem humilde que chegou à presidência e que, bem ou mal, manteve a economia no eixo do crescimento apesar de forte crise, que diminuiu o número de miseráveis do Brasil, que ampliou as vagas nas universidades federais, etc, etc, etc. Mas, infelizmente, é impossível negar que sua gestão alcançou tudo isso a partir do inchaço da máquina pública e de alianças com pessoas de moral duvidosa para manter a tal “governabilidade”, alianças estas bastante heterogêneas, e não ideológicas, que serviram de sustentação para fazer com que ele alcança-se a maior popularidade “nunca antes na história desse país” vista. Lula pagou um preço. Assim como Dilma pagará o inverso se continuar mexendo na posição dessa gente.
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Uma das coisas que mais me irrita quando converso sobre política é quando o interlocutor é apaixonado o suficiente para não enxergar defeitos naquilo que defende, no caso, em Lula. Eu não agüento esta barreira que se criou ao redor da imagem do ex-presidente, que transforma ele em algo acima de tudo e de todos, como se fosse mais do que humano. É uma defesa cega, de quem aceita que coisas ruins possam ser compensadas por coisas boas e vice-versa. Se você tentar discutir mensalão, dificilmente não será alvejado por uma chuva de argumentos do tipo “ele fez isso, ele fez aquilo, ele é o cara”, etc. É irritante. Tão irritante como discutir futebol com um torcedor do time que está por baixo, pois ele sempre puxará títulos do passado para justificar que seu clube é o melhor.
Entendam: ninguém é perfeito. Essa necessidade de se criar um herói (sobretudo entre alguns militantes xiitas de esquerda, se é que o termo “esquerda” ainda possa ser aplicado) é uma bobagem, é aceitar viver de ilusão, é simpatizar com um assaltante que levou a carteira, mas que deixou os documentos (isto é apenas uma metáfora, não estou chamando Lula de assaltante, apenas criticando aqueles que fecham os olhos para “probleminhas” de sua gestão). É cegueira política!
26-08-11
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