Acompanhando (de longe, afinal, é época de férias e de Big Brother Brasil) os últimos noticiários, percebi que nimguém no mundo tem as costas tão grande quanto a mãe natureza. Tudo fica ainda mais aflorado porque é uma época com notícias meio escassas, o que permite uma grande exploração do tema após episódios como as destruições no Rio de Janeiro e em Santa Catarina. Repórteres enlouquecidamente buscam culpados, mas de forma rasa, privilegiando muito menos o debate sobre o que fazer em detrimento de lágrimas e de histórias de quem realmente sofreu. No fim das contas, por mais que se cobre do poder público, a culpa fica para a natureza mesmo.
Eu já mudei meu pensamento várias vezes. Comecei achando que era dos nossos eleitos, que sempre empurram para administrações passadas. Depois atribuí à natureza mesmo, já que ninguém pode contra ela. Passei até a achar, em pensamento (porque expressar isso é crueldade), que a culpa era dos mesmos que hoje estão sofrendo, especialmente após presenciar duas histórias. Um exemplo: em Santa Maria, várias famílias moravam em uma área de risco. Todos os anos dava problema. Sempre ocorriam deslizamentos. A Defesa Civil pedia a remoção das famílias que, num ano, reclamavam que agora não tinham mais nada, enquanto no outro ano, queixavam-se de que haviam perdido tudo.
Outra, que também presenciei no coração do Estado: sobre uma área de risco, ergueu-se um bairro relativamente nobre. Durante muito tempo, é verdade, a prefeitura fechou os olhos. Quando foi tomar uma atitude, ouviram impropérios de pessoas com bom poder aquisitivo. Até que uma dessas casas veio abaixo. E o culpa foi única e exclusivamente quem? Do poder público.
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Um aparte para continuar no mesmo assunto. Em 13 de Janeiro, o professor do curso de Comunicação da UFSC (e que mora em Florianópolis há algumas décadas), Nilson Lage, rezumiu sete erros históricos no Twitter (se você ainda não sabe o que é Twitter, não é agora que vou conseguir explicar), que realmente condenam nossos governantes.
1- tolerância solidária ou demagógica com invasão por gente pobre de encostas e vales sujeitos a enxurradas e alagamentos; 2- Discurso contínuo de exaltação de megalópolis como São Paulo e concentração nelas de empregos de baixa qualificação; 3- Excessiva influência da indústria de construção civil na gestão das cidades e busca de soluções para seus problemas; 4- Uso abusivo do poder de elevar gabarito de prédios, gerando excessiva concentração urbana e pressão sobre serviços; 5- Concentração de serviços e centros administrativos em um único lugar, mesmo em cidades com milhões de habitantes; 6- Falta de uma política habitacional que contemplasse a qualidade de vida das pessoas e sua inserção no meio ambiente; 7- Concentração de investimentos em áreas já privilegiadas e não dirigilos para áreas desprovidas ou desocupadas.
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Hoje meu pensamento mudou de novo. A culpa é de quem deixa acontecer, de quem não fiscaliza. Mesmo que as pessoas se apropriem de áreas perigosas, a culpa é de quem deixa. Seja por descuido, por descaso, por incompetência, por cumplicidade, por despreparo, ou por interesse eleitoral (já que são necessárias sempre medidas antipáticas), a corda perante a opinião pública tem que (deve!) estourar nas autoridades eleitas, e não na coitada da natureza.
publicada em 28-01-11
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