sexta-feira, 30 de julho de 2010

Convites indecentes

Adoro campanhas públicas de conscientização. Na verdade, gosto de analisar os argumentos utilizados nas propagandas das campanhas. É impressionante o que os publicitários brasileiros (classificados entre os melhores do mundo) são capazes de fazer. E também o que nossos repórteres engajados afirmam nas notícias sobre essas campanhas. Por exemplo: vacinação. Tanto os fotógrafos de jornais, como os câmeraman de telejornalismo ou de publicidade buscam a cena perfeita, em que uma pessoa saudável sorri porque está ficando mais saudável ainda ao receber uma picada. Quem dera! Na campanha de vacinação do ano passado, fui escalado para fazer reportagem e fotos de pessoas sendo vacinadas. Uma das imagens deveria ir para a capa do jornal. Passei uma manhã de sábado “cozinhando” numa praça tentando retratar pessoas não faziam caretas. Não achei uma foto para a capa. Mas rendeu uma montagem engraçada de gente apavorada com uma simples agulhinha (está comprovado: os homens reagiam muito pior do que as mulheres). Gotinhas para crianças, então, são o máximo: haja balão, balas, gente fantasiada de bonecos, palhaços, tudo para criar um clima de alegria para fazer os pequenos a tomar aquela coisa azeda.
Mas as campanhas que eu acho mais divertidas são as de recrutamento das Forças Armadas. Imagens de gente pulando de pára-quedas, com um fuzil na mão, no meio do mato, com a cara camuflada, aqueles tanques, jatos, navios, lanchas, cavalos... Nossa! Quantas vezes cheguei a pensar em me alistar para virar o Rambo brasileiro! Daí, na minha vez de fazer os exames, fiquei uma semana no 7º Batalhão de Infantaria Blindada de Santa Maria até ser dispensado. Enquanto ficava em baixo de um toldo, morrendo de calor e com os dedos cruzados para poder começar meu primeiro semestre da faculdade (recém havia passado no vestibular), assistia os recrutas fardados, sob um sol de rachar, em pé durante horas aprendendo a cantar o Hino Nacional, o Hino da Independência, o Hino da Bandeira, o Hino do Rio grande do Sul, o Hino do Exército...
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Mas o Ministério da Educação, com inveja do Ministério da Defesa, conseguiu se superar. Rambo? Que nada! Olha o slogam: “Seja um Professor!”. Colocam uma menina linda, jovem, com atributos físicos muito interessantes, caminhando radiante até uma escola com alguns livros na mão. Você olha para ela e pensa que ela sim é uma pessoa realizada. Alto salário, segurança, material em abundância para abordar em aula, alunos com sede de saber... É de tirar o fôlego! (sim, vou falar sobre professores de novo!).
Fala sério! Por que o MEC não apresenta o valor dos pisos salariais pagos pelos Estados e Municípios? Ou das perdas salariais adquiridas? E porque não mostra os índices de violência? Nem detalha as “vantagens” dos planos de carreira? E porque não mostra entre as cenas a imagem de uma clínica médica ou psiquiátrica, que é onde esses mestres radiantes vão parar depois de meia dúzia de anos letivos? Ou ao menos gravem uma cena real de uma escola pública num “laboratório”, ou numa “biblioteca”? No mínimo poderiam mostrar a nova proposta da Yeda (mas não como ela está mostrando, em que só aparece a parte “boa”)...
Até porque hoje, ser professor deve ser como tomar a tal injeção: sabe-se que é necessário, que se está fazendo o bem, mas não se consegue evitar uma careta a cada nova medida “a favor” dos professores...

12-11-09

Lições do seu Feijó

No Grupo Sinos, em Novo Hamburgo, tive a oportunidade de conhecer o seu Feijó. Uma lenda da fotografia gaúcha. Já cobriu Copas do Mundo, trabalhou em veículos como o Correio do Povo e o Jornal NH, acompanhou de perto toda a ascensão e queda do setor calçadista, esteve perto de inúmeros presidentes da República – inclusive Vargas. Enfim, nos seus mais de 80 anos, tem muita história para contar. Sempre é entrevistado como fonte nas pesquisas históricas sobre a cidade – ele tem praticamente a mesma idade da emancipação do município. Mesmo aposentado, entre as 16h e as 18h ele ocupa a sua cadeira com os colegas da fotografia. Numa época de máquina digital, ele repassa ensinamentos de uma época em que se trabalhava com filme e fotos em preto e branco.
O melhor de ter seu Feijó por perto é observar a lucidez e a disposição que ele mantém com mais de oito décadas de vida. Depois do jornal, ele vai para um shopping tomar um cafezinho. Todos os dias. Sempre com pessoas muito influentes da cidade. Seu Feijó é respeitadíssimo. Mas, conversando com ele, certa vez, entendi um pouco desse comportamento. Ele enfrenta um drama: os amigos que ainda restaram, já não contam com a mesma lucidez que ele. As pessoas com quem ele se relaciona não têm a mesma idade, muito menos a mesma vivência. Não presenciaram os momentos que o seu Feijó presenciou. Hoje ele é uma pessoa muito respeitada e admirada. Mas já não conta com os amigos que o cercavam outrora.
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Sexta de noite, em Frederico, dois amigos me contam: tu “ficou” sabendo do Profeta? Morreu faz um tempo já. Acidente de carro...
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Sábado de manhã, véspera da Páscoa, recebo a seguinte mensagem da Luísa no meu celular, colega de faculdade e de Jornal NH: “Não sei se tu já sabe, mas o Ceratti faleceu hoje, pescando no Uruguai e morreu afogado”.
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Num sábado de manhã, já há quatro anos, meu primo me acorda com a seguinte notícia: cara, a Munique morreu essa madrugada”
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Há uns cinco anos, meu irmão me liga numa sexta-feira de tarde, enquanto eu estava no meio de uma aula de Metodologia de Pesquisa em Comunicação, fazendo trabalho em grupo: “Thiago, o Cris morreu”.
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Já faz cerca de 10 anos. Num domingo, por volta das 23h, o Daniel liga dizendo: “cara, o Simpson foi encontrado morto”. Isso logo depois de eu conversar com o irmão dele enquanto esperava um xis.
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Não visitei nenhum deles no Dia dos Finados. Estava próximo da maioria. Mas não fui. Até porque não lembro deles apenas no dia 2 de novembro. Prefiro ir ao Cemitério quando não tem mais ninguém. Volta e meia, uma situação faz com que um deles e de tantos outros conhecidos que não chegaram aos 30 anos mas já partiram apareça na memória. E deixo escapar um sorriso. Porque ainda não caiu a ficha! Lidar com a morte é o maior drama dos seres humanos. Cada um busca uma forma de alento. Eu, por exemplo, prefiro pensar que todos se mudaram para o Acre, onde provavelmente, estão estudando, trabalhando ou constituíram família. E que estão felizes.
Pensando nisso, me sinto um pouco como o seu Feijó. Posso contar o que aconteceu, mas os “cúmplices” de cada situação já não estão mais aí. “Pensar nisso só prova que ainda estou vivendo”, ensina o grande fotógrafo.

05-11-09

PS: passado quase um ano desta coluna, tenho pelo menos mais quatro amigos que poderia acrescentar e que foram. Um câncer no cérebro (grande Valton!), outro de infarto (Gê), dois de acidente de trânsito (Maicon e Jeferson). E o professor Véscio. Saudades de todos!
Regressão

Sexta-feira em Porto Alegre. Minha fiel escudeira me liga. “Thiago, vamos para onde hoje?”. Com toda a manha de quem conhece (quase) todos ambientes e lugares da capital, ela relata cerca de 20 opções. A relação é completa: preço da entrada, atrações, público-alvo e, principalmente, valor cobrado pelas bebidas. Essa minha amiga esbanja competência mostrando um dossiê completo das baladas. E o resultado desse balanço geralmente apresenta um elevado número de festas “anos 80”, que nada mais são do que eventos decorados com pogobol, fotos do Chaves e do He-Man, meninas vestidas de paquitas, balões, jogos de Atari, etc...
Não há boate no Estado que ainda não tenha feito uma festa “anos 80”. E se não fez, perdeu dinheiro. Mesmo já manjado demais, ainda há um público muito grande que prefere ir nestes eventos retrôs para cantar músicas que lembram a infância (Erasure, Madona, Michael Jackson, Roxette, Ultrage à Rigor, Kid Abelha, Menudos, Xuxa, Paquitas, A-Há, Ritchie). Tento entender porque essas criaturas nascidas entre 1975 e 1989 sentem tantas saudades. Pois, se analisarmos bem, os anos 80 e o início dos 90, com todo o respeito, não tem o peso cultural das décadas de 60 e 70. EU acho que não... Não sei os outros. Falo por mim, um sujeito também nascido nos anos 80. Peguei uma transição muito rápida no mundo, principalmente mas formas de se comunicar: do disco de vinil ao MP3; da máquina de escrever e cartas, ao notebook e o e-mail; do telefone que custava o valor de um carro, até celulares pré-pagos com múltiplas funções. Eu cheguei a assistir TV em preto-e-branco (uma Telefunken!). Ou seja: peguei a tecnologia que existia na infância de meus pais e tenho que me adaptar diariamente à tecnologia das gerações seguintes...
É claro que cada elemento desses que saíram de circulação me lembram da infância. É como um perfume lembra uma ex-namorada: não chega a dar saudades, mas lembra. Eu mesmo tenho boas lembranças (mais da infância do que das ex-namoradas). Só não consigo afirmar de boca cheia que antes era melhor. Era diferente...
Essa nostalgia talvez possa até ser explicada pelas condições mais light de passar a infância (menos violência, mais rua, mais brincadeiras sem brinquedos, menos computador, mais desenhos animados, menos video game). No meu caso, o que mais sinto falta é do que chamo da inocência que eu acho que tinha e que não vejo nas crianças de hoje. E da falta de moralismo gratuito. Cigarros de chocolate eram vendidos sem ser encarados como incentivo ao fumo; novelas com cenas mais picantes, como Pantanal, não eram censuradas sob pretexto de iniciar sexualmente as crianças; as mini-saias das Paquitas ou publicidades como “o primeiro sutiã a gente nunca esquece (do Washington Olivetto, gravado com uma criança de 13 anos) não eram consideradas pedofilia; e era possível ver (como está no youtube) bandas de rock, como Cascavelettes, cantando “Eu quis comer você” no programa da Angélica sem que ninguém se manifestasse contra isso. O que seria do programa do Chacrinha hoje?
O engraçado é que é hoje, com tudo censurado, vivemos em tempos em que os jovens transam cada vez mais cedo, consomem drogas em maior quantidade e passam mais tempo sustentados pelos pais, sem falar nos casos de pedofilia, cada vez mais frequentes. É por essas e por outras que acredito que uma geração inteira descobriu que ainda há prazer em fechar os olhos, achar que está numa máquina do tempo, e cantar bem alto i-lá, i-lá, i-lá-ri-ê....

30-10-09

TPM coletiva?

“Eu até sou favorável a esse tal de feminismo. Desde que não atrapalhe o trabalho da nega véia em casa”, diria o xiru tão grosso (e machista) quanto um parafuso de patrola. A piadinha é batida, mas é oportuna. Pelo menos eu achei oportuna. Não por concordar com ela, mas por ter achado a provocação do gaudério válida depois de ler uns artigos em revistas e pela internet, que dizem que homens nunca foram tão satisfeitos como agora.
Pois isso é o que aponta uma pesquisa que é realizada desde 1972 nos Estados Unidos. O nível de felicidade masculino só cresceu desde então. Por outro lado, assim como uma gangorra, a satisfação feminina trocou de ponta. A pesquisa diz que antes eram mais felizes que os homens. Hoje já não são mais. A tal pesquisa não leva em consideração classes sociais ou estado civil, carreiras bem sucedidas ou desemprego, existência de filhos ou não. Nem indica a possibilidade de ser uma TPM coletiva. Mas talvez seja, motivada não por hormônios, mas pelo momento histórico vivido pelo sexo frágil.
Digamos que o berço disso tudo tenha sido os anos 60, mais especificamente 1968 e a chamada revolução sexual. Elas não imaginavam que a luta por “liberdade”, “igualdade de gêneros” e por aí vai – valores que foram potencializados pelos meios de comunicação, ainda mais, no caso do Brasil, depois do fim da censura do Regime Militar - causaria tantos transtornos.
Pelo que parece, depois da intensidade dos anos 70 e 80, quando a mulherada se atirou de cabeça no mercado de trabalho e conseguiu, de certa forma, libertar-se socialmente, ficou uma sensação de vazio nessas adoráveis criaturas. Hoje, elas não têm mais uma prioridade, mas trocentas. Não é a toa que reclamamos que elas são umas insatisfeitas (a pesquisa está aí para comprovar!). O que é que elas querem?
Cito o que diz a reportagem da revista Época desta semana, que mostra o que elas querem: “maternidade - quer ter cuidado, atenção e intimidade com os filhos; casa - detém a responsabilidade última por organização, compras, refeições e administração das empregadas domésticas; trabalho - quer mostrar eficiência e igualar-se aos homens no que diz respeito a salário e dedicação; marido - luta por relacionamento emocionalmente equilibrado e divisão das tarefas domésticas; sexo: busca a sedução e o prazer, quantidade e qualidade; beleza - está tomada pelos ideais de juventude e beleza”.
Pois uma avaliação feita agora não lembro por quem que consta no livro “1968: o que fizemos de nós”, de Zuenir Ventura, pode levar a reflexão. A sede por ruptura com os antigos valores (que colocavam elas em segundo plano) foi tão radical, que os bons valores foram deixados para trás. Na tentativa de provar para os homens que são capaz, acabaram se sujeitando a uma certa masculinização. E os homens, por sua vez, cederam território, mas não competiram para ocupar o espaço que antes era delas...
Mas, como a história da evolução humana, tudo sempre está sujeito à mudanças. A chave para isso é entender que os dois sexos não são concorrentes, que cada um tem um tipo de necessidade, que há diferenças entre proteção e conservadorismo. Isso me lembra do comentário feito por uma amiga sempre que está estressada: “se eu descubro quem foi a desgraçada que resolveu fazer essa revolução”... Revolução que nada mais, nada menos, foi uma vitória, ao que parece, masculina...

24-10-09

As “boas novas” da política brasileira

Atenção, atenção: falta menos de um ano para a próxima eleição. Isso significa que só poderá concorrer quem está filiado, e no partido em que está filiado. Por isso que, no final de setembro, fomos presenteados com notícias capazes de arrancarem uma lágrima de orgulho de nosso país (ou como diria um parente: é para chorar em polaco!). Comecemos pela manchete: “Goleiro Danrlei buscará uma vaga no congresso nacional pelo PTB” (inclusive, é figurinha fácil em eventos políticos, além, é claro, de discotecar em boates de Porto Alegre. Acho que está seguindo mais uma vez os passos de Mazaropi, que foi vereador em Porto Alegre). Dirigentes partidários colorado snão poderiam ficar atrás e tiveram a ideia “original” de lançar ninguém, ninguém menos, do que Clemer! O arqueiro colorado conquistou minha admiração ao recusar a oferta...
Mas poderia ser pior. Olha quem vai pedir votos Brasil a fora: a dupla de bad boys Romário e Edmundo! . O “baixinho” (ex-filiado no PP) entrou no PSB e disse ser um orgulho estar num partido grande como o PSDB. Concorrerá a deputado federal pelo Rio de Janeiro. Enquanto isso, o “animal” (pessoa angelical, com bons hábitos como dirigir alcoolizado e sair no tapa com todo mundo) fará dobradinha pelo PP com o dirigente esportivo mais “limpo” do país, o Eurico Miranda. Acha que acabou por aí? Marcelinho Carioca assinou ficha no PDT paulista para ser deputado federal. A melhor notícia disso tudo? É que todos esses jogadores tem “reconhecida idoneidade moral e conduta ilibada”... Ops, já ia me esquecendo de Acelino Popó de Freitas, campeão mundial de boxe (e suspeito de mandar matar o namorado da sobrinha), que disputará uma vaga no Congresso Nacional pelo PRB, sigla composta basicamente de pastores.
Alias, o PRB demonstra mesmo vocação para descobrir talentos políticos: lançará Mara Maravilha (que hoje não é mais apresentadora infantil, mas [adivinhem!],cantora gospel) e Mirla (aquela ex-BBB, alguém lembra?). Se Mara pode, Simony (aquela do Balão Mágico) também pode, e vai em busca de votos para o PSB.
Mas o melhor sempre deixamos para o final. Tenho a honra de anunciar quem bateu o recorde. “And the Oscar go to”... PTB, que lançará o cérebro mais privilegiado já relevado em uma edição do Big Brother Brasil! Um cara que já contracenou com Didi Mocó! Exímio dançarino de música baiana (não é o Jacaré)! Um cara que já lançou um CD com suas músicas preferidas! Ele é Kléber Bam Bam!!!!
***
Desculpem, estou comovido! Realmente não consegui terminar esse texto sem que a emoção tomasse conta de mim (raiva também é uma emoção, né?!). Mas é compreensível: num sistema político que privilegia o voto em legenda, é preciso ter puxadores de votos (e é bem mais fácil apostar em uma estrela burra do que em um desconhecido realmente preparado). Tudo pela sobrevivência! Pode parecer preconceito, talvez até algum das personalidades acima citadas possam fazer um bom trabalho. Mas não deixa de ser uma manobra para conquistar mais votos, e ter mais cargos para distribuir entre os gabinetes. Essa é a explicação para, ficando no exemplo apenas da “pauliceia desvairada”, termos personagens do quilate do deputado Netinho “Tanajura” de Paula (o do Negritude Júnior e “apresentador”); deputado Frank Aguiar (intérprete da poética “Morango do Nordeste”); deputado Agnaldo Timóteo ( o cantor de “A casa de Irene”), e o finado Clodovil, entre outros. Dá ou não dá aquele orgulho?

10-10-09

Luta pela audiência ou por uma vaguinha ao lado do Senhor?

Semana passada caiu em minhas mãos uma edição especial do jornal Folha Universal. Sim, é aquele impresso disfarçado de jornal que também pertence à igreja do Edir “chutador de santa” Macedo (a Igreja Universal do Reino de Deus). Praticamente todo o conteúdo do “manifesto” era destinado a atacar a Rede Globo. As acusações eram as
mesmas feitas à emissora desde que o grupo Time Life investiu no projeto de Roberto Marinho (o que não era permitido, mas foi feito vista grossa porque, dizem, foi a Globo que deu sustentação ao Regime Militar): o apoio explícito a Collor nas eleições de 1989 (o famoso caso da veiculação do debate gravado (e editado) entre os dois candidatos, em que teriam sido escolhidas as melhores partes do que
Collor falou e as piores do “companheiro”, sem contar com a vantagenzinha de mais de 1 minuto para o posteriormente “impechado” – o que em televisão é demais); o descaso com as manifestações do movimento “Diretas Já”, em 1984; de ter, tentado fraudar a eleição em que Leonel Brizola foi eleito legitimamente ao governo do Rio de
Janeiro em 1982; e das falcatruas na versão global da TeleSena, o Papa Tudo, entre outros casos de corar santo de barro.
Enfim: a publicação foi um show de notícias que todos já conhecem, há anos, por meio de livros como “A hitsória secreta da Rede Globo”, de Daniel Hertz, escrito nos anos 70, ou o documentário “Muito além do Cidadão Kane”, feito em 1993 pelo inglês Simon Hartog e que foi censurado no Brasil (hoje os direitos de divulgação no Brasil
pertencem a um certo bispo. Quem não viu, basta acessar o youtube). Pois foi essa uma das maneiras que a Record encontrou para se defender das acusações divulgadas amplamente pela Rede Globo em agosto do indiciamento de Edir Macedo e outros nove pessoas ligadas à Igreja Universal por formação de quadrilha e lavagem de dinheiro (a
reportagem durou 11 minutos!). Sabe qual foi a outra? Afirmar que a IURD não valoriza o capitalismo, mas o socialismo, a distribuição de renda e por aí vai... Já estou achando que a Heloísa Helena vai fazer dobradinha com o Gugu aos domingos...
Pois o mais engraçado é que não vi nenhuma linha contestando as acusações. Nadinha de nada. A vista foi tão grossa quanto a que a Globo fez ao lançar o livro dos 40 anos do Jornal Nacional “reconhecendo” (diria eu “maquiando”) certas falhas com um “mea culpa” meloso.
Bom, depois disso, pesquisando na internet, achei o que me faltava: entra em cena o bispo da Assembleia de Deus, Silas Malafaia, usando parte de seu programa na Band para condenar as atitudes dos “irmãos” da IURD. Também está no youtube, é imperdível! Malafaia (um orador capaz de vender cabelos para donos de restaurantes temperar sopas) acusa Macedo e cia de estarem se “desviando” do caminho ao aceitar
propagandas de bebidas para financiar a televisão, ao colocar cenas insinuando sexo nas novelas e por aí vai. Mas sabem qual foi o maior problema detectado pelo bispo da Assembleia de Deus? Que essa disputa pela liderança de audiência “encareceu” (!!!) o horário para as outras igrejas conseguirem “transmitir a palavra”...
Assim eu fico em crise existencial: entrei na faculdade para ser o substituto do Bonner, aprendi com os professores a detestar a Globo e o Big Brother, e agora já estou achando que é o Roberto Marinho, e não o Edir Macedo ou o Malafaia, que vai (se já não está!) tocar harpa com os anjinhos no céu. Até porque, ele ao menos não empenhou a palavra Dele na venda de terrenos de frente para a cruz de Jesus Cristo...

02-10-09

Momento Dinah: comícios com os dias contados

Converso com pessoas mais experientes, antigos “esquerdistas” (seja
lá o que isso signifique): todos estão decepcionados com a apatia dos
movimentos sociais, principalmente do Movimento Estudantil. Entendo o
que querem dizer: durante a graduação, no Diretório Acadêmico e no DCE
discutíamos maneiras para seduzir os colegas a participar de nossas
causas estudantis. A cada reunião, menos pessoas compareciam (“é perda
de tempo!”). Nós, ao invés de compreender os motivos do esvaziamento,
reagíamos chamando os demais colegas de “alienados”.
A verdade é que não percebemos, naquele momento, que não estávamos em
68 ou 92. A resposta para “por que não havia interesse em participar?”
parecia encontrar resposta numa velha tese do ME, que atribui esse
“descaso” a falta de um “inimigo” em comum. Segundo esse raciocínio, o
ME só teve força nos momentos em que a “conjuntura” era percebida
diretamente pelos estudantes (falta de liberdade de expressão durante
o Regime Militar, por exemplo).
Hoje, discordo desse pensamento. Em 1968 a televisão no Brasil era em
preto-e-branco, com parcos recursos técnicos e ainda por cima não era
acessível a todos! Video Game e Internet então, nem pensar! Por outro
lado, acho que a juventude quer sim se manifestar, tenho convicção de
que é uma necessidade. A diferença é que hoje o palco da disputa
ideológica não é a rua, mas a Internet. Principalmente os sites de
relacionamentos, como Orkut, Facebook e Twitter. Os velhos panfletos
deram lugar para as correntes de e-mails com arquivos .pps (slides) ou
.wma (audio e vídeo), geralmente com teor satírico, “denunciando”
Bush, Chavez, Lula, Sarney, Serra, FHC, Josés Dirceu e Genoíno, Maluf,
Yeda, Brito, Tarso, Olívio e Rigotto.
Em alguns casos, uma bolinha de neve vira avalanche: as análises de
especialistas, charges políticas, crônicas bem-humoradas, e
infográficos animados são enviados pelos próprios produtores do
conteúdo aos contatos, que repassam, e assim por diante.
Pois veja o que aconteceu recentemente, no auge das denúncias contra
Sarney e os atos secretos: mais de um milhão de pessoas escreveram no
microblog a frase “Fora Sarney”. O fenômeno foi divulgado nos maiores
veículos de comunicação do Brasil. E essa movimentação empolgou um
grupo de pessoas, que resolveu organizar uma manifestação nas ruas do
Rio de Janeiro. E o que aconteceu? Não apareceram dez pessoas...
Ninguém mais quer sair de casa para protestar. Muito menos para falar
sobre política. Estamos em um tempo em que a hierarquia de valores foi
modificada, o prazer e o entretenimento estão acima de tudo, em que ao
mesmo tempo em que todos estão conectados, há menos coesão de grupo e
mais percepção do individual. Esses mesmos jovens podem até parecer
sem objetivos claros (não sabem o que querem! diria uma tia), mas têm
noção do que não querem.
Talvez a próxima eleição ainda não seja toda decidida via rede
mundial, como foi no último pleito norte-americano (a assessoria de
comunicação de Obama deu um show on-line), mas tenho certeza de que,
logo ali na frente, só serão eleitos para cargos públicos pessoas
conhecidas também virtualmente. E, queira Bill Gates, será o fim dos
comícios!

25-09-09

Precisamos de freiras na política!

“Política não é para freirinha”, disse-me um deputado federal do PT no intervalo de um debate numa grande rádio de Porto Alegre, depois de sair do estúdio um tanto alterado para pegar uma água e respirar. De fato precisava respirar: o parlamentar foi sufocado por perguntas cabeludas de ouvintes e do apresentador. Os demais políticos que participavam do debate – um de partido tradicionalmente aliado ao PT, outros dois de Oposição (oposição no Estado, já que em Brasília estão juntos por ora) - não precisaram se esforçar para ver a figura perdendo a linha.
Fiquei pensando o que se passava na cabeça deste senhor, um dos maiores nomes do partido no Estado, vinculado à sigla há 20 anos, ex-prefeito de uma grande cidade gaúcha (já dei muitas pistas, vamos parar por aqui). A primeira coisa que notei foi constrangimento: como explicar o pedido de impeachment de Yeda por supostos desvios de dinheiro público e ao mesmo tempo apoiar Sarney e sua rica família? Como achar coerência nisso?
Ele poderia estar pensando: “o Lula mete a gente em cada uma... Quer que apoiemos o PMDB no Rio Grande do Sul para eleger a Dilma. Mantém na base Paulo Maluf e Fernando Collor (tudo indica que este terá o apoio do presidente no pleito ao governo do Alagoas). Faz a gente engolir o Sarney depois de tudo o que falamos contra ele quando estávamos na oposição (ele não era um dos 300 picaretas, presidente?)”... Ou então: “Quanto tempo será que vou ter que responder porque o partido quer investigar o Detran, mas faz de tudo para não deixar passar a CPI da Petrobrás? Por que cada vez que eu dou entrevista eu tenho que explicar assuntos relacionados ao Celso Daniel, ao Mensalão, às mentiras do currículo da Dilma?” Juro que, quando o parlamentar suspirou, imaginei ele enchendo a boca para falar: “Ah, que saudades de ser oposição”...
Não sei se ele pensou isso. Mas acho que é a única coisa que justifica o estresse do parlamentar de um deputado que só conseguia justificar as perguntas com “é preciso fazer concessões para mantermos governabilidade”...
Mas me caiu a ficha rapidinho: que ingenuidade da minha parte! Como é que nosso protagonista, que foi um dos defensores mais ferrenhos do projeto que possibilitava um terceiro mandato para o presidente (o que, num lampejo de decência, foi barrado no congresso), poderia estar preocupado com outra coisa que não fosse as eleições do ano que vem?
Nossas instituições estão em crise. Principalmente os governos estadual e federal. Sinceramente, considero dois bons governos (pelo menos acima da média). Vão me jogar pedra e me chamar de otimista, burro, cego, o que for, mas é o que penso: administrativamente as coisas vão relativamente bem. O problema é o que acontece no plano político: o confronto de interesses, a queda de braço por benefícios, a necessidade de ter votos necessários para aprovar propostas e a briga por visibilidade é muito forte tanto lá quanto cá! É por isso que a afirmação desse deputado soou desprovida de hipocrisia, quase como um sincero desabafo do que ele realmente pensa sobre política: que ela está acima da constituição, do bem e do mal, que imunidade parlamentar é um passaporte divino para toda a família aos cofres públicos... Realmente, nada a ver com “freirinhas”...

18-09-09

Patriotismo às avessas

Sete de Setembro. Data alegre. Um feriado de prestar homenagens à pátria! Desfile. Atraso para começar o desfile. Professores enlouquecidos com os preparativos. Crianças esperando por duas horas sob o sol até chegar a vez de desfilar. Banda marcial. Integrantes da banda com roupas pesadas sob o sol. Pais e parentes das crianças que vão desfilar no Centro. Sob o sol. Marchinhas ufanistas a lá Médici e o Regime Militar (se um dia eu montar uma banda de rock, será chamada de “Medi C e os Mil Icos”). Professores mandam as crianças ficar em fila. Alguma alma bondosa aparece com uma garrafa pet cheia de água (morna). Não tem para todos. Procura-se uma torneira. As crianças saíram da fila. Alguém da banda não sabe onde deixou o instrumento. Rasgou uma parte da fantasia do aluno que ia interpretar o Tiradentes. Alguém aí tem linha e agulha? Vem uma profe e dá uma bronca nas crianças porque saíram da fila e foram para a sombra. Começa o desfile. Todo mundo começa marchando. Após cinco passos, já não há mais ritmo na marcha. Antes da metade do desfile, ninguém mais marcha. Bronca da profe porque já não existe alinhamento. A mãe ultrapassa o limite do cordão de isolamento para dar tchauzinho e gritar o nome do filho. O filho não sabe onde enfiar a cara de tanta vergonha. O pai já fica por ali, além do cordão, para ver a filha que desfila umas 18 escolas depois. A tiazona grita o nome da coitada da criança, que não sabe onde enfiar a cara de novo. Demora de horas para chegar duma ponta à outra da avenida. Depois que chega ao fim do trajeto, começa o martírio da volta (sempre há quem insista em fazer trocentas vezes o trajeto). As profes mandam as crianças para a fila de novo e ameaçam tirar pontos. A criança anda com a cabeça baixa e quase enterrada entre os ombros para se esconder de mais uma tiazona que com certeza vai gritar o nome e abanar para ela...
É por essas e por outras que sempre gostei de 7 de Setembro. Com chuva...
Os: tenho a sensação que vou ser massacrado pelas profes...
***
CPI. Oposição protocola requerimento para chamar “pessoas chaves” para ouvir o que todo mundo já ouviu. A bancada governista vota contra. A bancada governista quer chamar um membro da oposição para oitiva. Presidente da CPI, que é da Oposição, não coloca em votação. Bancada governista se retira da sessão para não ter quórum e não ocorrer a votação proposta pela Oposição. Presidente procura brechas no regimento para conseguir fazer alguma coisa sem depender de convencer a maioria dos integrantes, que são governistas. Começam os ataques pessoais. Sobre para o Lula. Sobra para os caças do Lula. Sobra para o Fernando Henrique. Para o Ministério Público. Para o vice-governador, que anda bem quietinho. Para a mãe do badanha. Cada palavra é contestada. Oposição tenta sangrar a dona Yeda. Governistas tentam fazer com que o sangue respingue nos bigodes do Olívio. “Questão de ordem”, grita um. “O senhor está aqui para atrapalhar os trabalhos”, retruca outro.
É por essas e por outras que adoro CPI. Pela TV, com pipoca e cerveja...


FN - 10-09-09

Mantendo critérios

Sempre ouvi das pessoas mais velhas que é preciso ser coerente. E que para ser coerente, é preciso de critérios. E cheguei a conclusão que ser coerente não é sinônimo de ser, por exemplo, politicamente correto... Por exemplo: sou a favor do combate à fome. Acho ainda que é um dever do Estado dar o básico às pessoas. Mas sou contra o Fome Zero porque considero que este programa se trata de assistencialismo com fins eleitoreiro, o que sou totalmente contra. Assim, vou ser coerente com aquilo que me interessa (usarei em meu discurso os argumentos que me interessam para expôr meu apoio ou meu repúdio ao atual governo).Estudei em uma universidade federal bem na época em que se discutia a questão de cotas. O assunto dividiu muita gente. Embora todos concordassem que era preciso dar acesso à educação a todos, principalmente aos estudantes de classe mais baixa, os critérios que foram adotados receberam muitas críticas. Simplesmente pegar o senso do IBGE e dizer que no vestibular deveriam passar tantos por cento de negros, de índios, de pobres, tantos por cento de alunos egressos do ensino público, de certa forma, não convenceu a maioria (principalmente aqueles que conquistariam a vaga não fosse a reserva de vagas) nunca pareceu um bom critério... Daí veio o pró-Uni, cujo programa previa a “compra” de vagas nas universidades particulares pelo MEC (diga-se de passagem que muitas instituições livraram-se da falência por causa da iniciativa), que estabeleceu uma faixa de renda mensal familiar definindo quem poderia ser beneficiado ou não (conheci gente que, por receber alguns reais a mais ficou de fora e acabou desistindo de fazer, naquele momento, um curso superior. Foi a primeira vez que vi alguém querendo ter um salário menor)... Para andar de ônibus de graça é preciso ter mais de 60. Não adianta ter 59 anos e 11 meses, que não dá. É preferível um senhor de meia idade, com recursos, não pagar a passagem e ter acento preferencial, do que um outro, um pouco mais jovem e sem condições financeiras... E assim por diante: carteira de motorista, só para maiores de 18 anos (e ai de quem tentar fazer as aulas práticas uma semana antes de atingir a maioridade). Passar no exame do colégio com 6,9 não dá, apenas com 7 (nada mais “justo” para medir o grau de conhecimento dos estudantes). Prender um adolescente que matou duas pessoas a sangue frio um dia antes de fazer 18 anos em uma cela com presos comuns, então, é um escândalo! Sem falar na quantidade de adolescentes que ficaram contando as horas para fazer 18 anos e poder locar vídeos adultos sem serem censurados (quer maior rito de passagem para um jovem do que esse?)...Uma das polêmicas da semana (em se tratando de projetos, não de acusações de corrupção) agora envolve a alteração para cima de critérios para definir o índice de produtividade de propriedades rurais (com mais de 15 hectares, diga-se de passagem). Quem estiver abaixo do índice (que varia de acordo com a cultura e a região em que é produzida), pode ver seu terreno desapropriado para reforma agrária. Resolvido! Tão simples como um agricultor descapitalizado receber a terra e conseguir ampliar o índice. Só posso classificar isso como genial! Quem fez isso nem precisou pensar muito: preguiçosamente, adotou um critério qualquer para usar como desculpa para resolver um outro problema...As vezes penso que estamos ficando, a cada geração, mais burros... Cada vez mais, as coisas são transformadas em matemática (nunca fui muito amigo dessa disciplina mesmo). As questões estão sendo resolvida apesar de diferença de grãos, quilos, dias, decimais. Estamos mergulhados no simplismo. Inclusive esse texto buscou ser, preguiçosamente, o mais simplista possível, para não fugir dos critérios de tempo e espaço para fechar a página...

FN - acho que foi em agosto de 2009

Coisas da publicidade!

Hoje, 21 de agosto, comemora-se os 20 anos de morte do Elvis Presley Brasileiro, Raul Seixas. Bom, nada a declarar sobre o fenomenal (e maluco) artista, um dos únicos cantores nacionais a popularizar em solo nacional o rock and roll, manifestação cultural mundialmente comparada apenas com o futebol. Já vi pagodeiro, sertanejo, modernotes tunti-tunti, gaudérios, enfim gente de todas as tribos cantar os estrofes de “Gitá”, “Eu nasci a dez mil anos atrás” e da comportada “Rock das Aranhas”. O que não entendo é porque se comemora com toda a pompa da morte de alguém (de Jesus, por exemplo, comemoramos a ressurreição, é diferente). Ainda se fosse o aniversário da morte de Sarneys, Malufs e outros acusados de detonar com nosso erário, ou de “santos” como os Fernandinhos Beira Mar soltos por aí... Coisas da publicidade para vender mais CDs, livros, DVDs, pôsteres, revistas...
Você já reparou que alguns frigoríficos adotaram como mascote o mesmo animal que oferecem para a venda? Uma marca que vende frangos e perus, por exemplo, usa a animação de uma ave que sempre está feliz ao lado de outras aves prontas para serem servidas. Há outros inúmeros exemplos também... Isso me lembra os livros de história, que ensinam que, há alguns séculos, algumas tribos africanas capturavam integrantes de tribos rivais e entregavam para os navegadores europeus em troca de uns espelhinhos e garrafas de cachaças... Aí pensamos: “olha que bonitinho, vamos devorá-lo?!” Coisas da publicidade...
Uma propaganda de chinelo chama o povo de burro, e o povo acha o máximo. Essa é minha interpretação de uma peça que é veiculada há vários meses... Amigos cantam um sambinha quando chega uma mulher (tratada no vídeo como lunática) falando sobre a crise, que milhões de pessoas perdiam empregos, enfim, criticando a turma que não parecia nada preocupada com o que acontecia no mundo... Daí o galã da publicidade faz uma cara de comovido e diz “tristeza”... E daí recomeça o samba... Eu adoraria ter criado essa peça publicitária: estaria chamando o povo de desinformado, despreocupado, bitolado, alienado e os telespectadores achando o máximo o “espírito brasileiro” de não se incomodar com nada divulgado pela publicidade de um chinelo (símbolo máximo da folga, das férias, do final de semana...de tudo que não envolva trabalho)... Coisas da publicidade...A nova moda entre os bebedores de cerveja é ser idiota e rir da vida. É o que penso quando vejo algumas publicidades. E me ofendo, como bom bebedor de cerveja. Até houve uma promoção em que o vencedor – aquele que mandasse um vídeo idiota mostrando amigos idiotas – ganharia uma geladeira com propagandas de cervejas... E o pior que a promoção teve milhares de adeptos... Coisas da publicidade...


Para não passar batido - Na semana passada, mais especificamente no dia 13, uma importantíssima data passou em branco nesse espaço. Fiquei de cara comigo por ter esquecido de tão importante ocasião. Afinal, o dia 13 de agosto (cabalístico, não?) é uma data muito especial para 10% da população mundial. De pessoas que, na Idade Média, era considerados magos, bruxas ou seguidores do diabo – e por isso acabaram na fogueira. Pessoas que são obrigadas a recortar, abrir latas, trocar marchas, usar as setas do teclado e o mouse com a mão direita.É uma data para lembrar pessoas importantes como Joanna D’Arc, Leonardo Da Vinci, Ayrton Senna, Paul McCartney, Barak Obama, Angelina Jolie, Alexandre O Grande, Albert Einstein, Bill Gates, Fidel Castro (!!!), Kurt Cobain, Ludwig Van Beethoven, Machado de Assis, Mahatma Gandhi, Napoleão Bonaparte e Pelé (canhoto de mão). E outras nem tão ilustres assim, como esse pseudo-colunista aqui. Um bem atrasado, então, mas não menos sincero, feliz dia dos canhotos a todos (os canhotos).

FN - 21-08-09

Voyerismo às avessas

Se eu pudesse voltar atrás e escolher uma profissão, não teriadúvidas: viraria araponga! Sim, araponga, desses que fazem escutastelefônicas... Se eu tivesse pensado nisso antes, quando fiz adisciplina de tecnologias de informação, talvez até teria trocado afaculdade imediatamente... Embora eu não saiba de faculdade nenhumaque ensine isso... Sei lá, acho que tentaria entrar na Polícia Federalmesmo. Tudo para aproveitar esse mercado em ascensão...Meu raciocínio é o seguinte: com o desenvolvimento alucinante dastecnologia da informação, deve estar faltando gente preparada parafazer escutas. Até porque vivemos numa época dominada por realityshows, em um tempo em que tudo é gravado, documentado... Somosgravados em bancos, farmácias, supermercados, lojas, nas ruas, nasBRs, entramos na internet com a webcam ligada, gravamos vídeos paramandar para o Fantástico... Deve estar faltando profissionaispreparados inclusive para interpretar o que está sendo falado (atéporque está provado que, enquanto estiverem de meias, os envolvidosnegam)...Enfim, acredito que ser araponga é ser contemporâneo! Não foi atelevisão ou os computadores que nos colocaram em uma nova era. Alinha divisória entre passado e presente está, sim, no advento dasmodernas práticas de vigilância. A importância é tão grande que estácriando novas línguas: hoje, na política e nos presídios, já hápessoas desenvolvendo novos códigos, alterando o significados depalavras, na tentativa de burlar nossos heróis, os arapongas.Ser araponga ainda daria vazão para aquele lado que sempre tentamosesconder, aquele pecaminoso lado voyer (nem venha achar que isso éfeio, porque todo mundo é um pouco voyer!). Iria me divertir ouvindoos outros (outros não, só pessoas importantes) contando “causos” notelefone. Imagina só aquela autoridade vista por nós, reles mortais,como se estivesse sobre um pedestal, falando sobre os tapas que aMelissa deu na Yvone na novelas? Ou do momento em que o Abel viu aNorminha se agarrando com outro, e depois jogou as roupas dela forasob aplausos da vizinhança? Ou melhor, deputados e secretários fazendofofocas sobre o ambiente de trabalho (gente importante trabalha comgente importante)? Ou falando de coisas ainda mais íntimas, comocercas puladas, testes do sofá, filhos não reconhecidos, empregos paraparentes e outras tantas barbaridades que só ficamos sabendo viaContigo, Quem e Caras? Trabalhar com isso iria ser muito melhor do queassistir ao Leão Lobo!!!

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Recomendo a todos que ainda não leram as 1,2 mil e poucas páginas dadenúncia do Ministério Público Federal contra Yeda e sua turma,baseada em mais de três mil horas de escutas telefônicas (isso é maisdo que minhas colegas de faculdade juntas conseguem falar em um mêspelo telefone!!!). Bom, eu também não li tudo, apenas as partes mais“picantes” recomendadas pela rádio corredor. Mas já é suficiente pararecomendar para vocês. Para quem gosta de tramas do gênero “rir paranão chorar”, é um prato cheio!Se vai servir ou não para desvendar esquemas de caixa dois eimprobidades administrativas, eu não sei. Até porque, honestamente,não acho que o conteúdo revelado até agora seja mais escandaloso doque mensalão, Sarney, caso Celso Daniel... (o jornalista PolíbioBraga, que foi o primeiro a abrir para o público em geral o conteúdodas gravações, classificou as denúncias com a seguinte frase: amontanha pariu um rato...). Mas está servindo, com toda a certeza,para a diversão (quase um carnaval) daqueles que gostam de ver o circopegar fogo. As escutas revelam pessoas falando muito mal de deputados,tem palavrões que eu nunca tinha ouvido, há comentários sobre a boasaúde física de uma procuradora do Estado (chamaram ela de gostosamesmo!)... Nem as piadas do Ary Toledo são tão bagaceiras... No fimdas contas, acho que foi por isso que pediram segredo de Justiça paraeste conteúdo: para poupar o povo de baixarias com o dinheiro público,mas principalmente baixarias provocadas pelo comportamento de quemdeveria dar o exemplo! Cheguei até a ouvir, durante um cafezinho,alguém mais antigo suspirando um “ah, que saudades da época em quegrampos eram aqueles que as mulheres usavam nos cabelos”...

FN - 14-08-09

Fome de cultura

“A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”.Esta frase é fragmento da música “Comida” composta por ArnaldoAntunes, Marcelo Fromer e Sérgio Britto e que consta no quarto álbumda banda Titãs “Jesus não tem dentes no país dos banguelas” de 1987(melhor período vivido pela banda e pelo Rock nacional). Desde então,esse é um jargão usado sempre quando as discussões tratam do tema“Cultura” (considerando o significado dessa palavra o atribuído pelosenso comum, sem nenhum debate antropológico, por favor).Volta e meia esse assunto entra em pauta, geralmente em discussõesentre a elite mais letrada. Por que? Boa pergunta! Até porqueconsidero que esta é uma das áreas mais importantes, junto comEducação e Saúde. Isso porque penso que, para conseguir passar poresse mundo sem apertos, é preciso ter saúde e acesso a conhecimento –e a arte é sim conhecimento (a propósito: arte significa técnica,habilidade).Peças de teatro, telas de pintura, esculturas, filmes, livros, músicas(no meu conceito de música estão descartadas todas e quaisquer bandasque não fazem outra coisa senão chorar as pitangas de tanta dor decorno), tudo isso instiga a pensar, ativam o raciocínio, informam. Adança, além de proporcionar beleza para quem assiste, faz um bemimenso ao corpo de quem pratica... Enfim, acredito que quanto maisacesso as pessoas têm a cultura (do ver ao fazer), mais inteligenteselas ficam.Bom, se faço esse discurso favorável a arte, devo defender tambémpolíticas públicas que possibilite a todos a ter acesso a isso. Porém,temo pela eficácia dessas medidas. As mais conhecidas são Lei Rouanete a LIC (Lei de Incentivo à Cultura), por exemplo. Elas permitem queempresas destinem parte de seus impostos para organização defestivais, feiras, oficinas. Mas o processo é tão burocrático, que épreciso ser um profissional muito preparado para conseguir, emprimeiro lugar, aprovar o projeto e, num segundo momento, captar osrecursos. Assim, acaba acontecendo que apenas grandes produtoras – degrandes centros - acessem os recursos (alguém aí da região sabe dizerquantos desses projetos foram destinados pelos municípios da região?).Sem contar que as grandes produtoras são empresas, e como tal têm fimlucrativo, e todos sabemos que o “bem de todos” só vem antes de bolsono dicionário (há previsão de mudanças nas regras, mas não se sabepara quando).Agora uma nova – e polêmica – medida está sendo adotada pelo nossopresidente: o bolsa-cultura (como gosta de bolsas esse nosso guia).Pois a proposta deste novo programa é dar 50 pila por mês para ocidadão gastar em espetáculos, cinema, livros, etc... Em primeirolugar, julgo que é preciso muita coragem estipular bolsa atrás debolsa como o Lula faz. Não é à toa que a massa (especialmente asclasses D e E) ovacionam o barbudinho. Por outro lado, é possível verum sorriso largo nos rostos de donos de livrarias, artistas eproprietários de casas de espetáculos e/ou cinemas..

Mas daí eu pergunto: para o povo do interior, como que fica? Porque hámunicípios que não tem sequer uma banca de revistas, imagina entãoespetáculos... Frederico Westphalen é um dos poucos municípios commenos de 30 mil habitantes que tem local adequado (o Salão de Atos daURI) e que, mesmo que com frequência muito pequena, é roteiro detournês de artistas.

Creio que a questão mais central não é a validade desse tipo deincentivo, fruto de uma política assistencialista jamais vista (esta éapenas uma entre tantas bolsas). É difícil julgar o quão eleitoreira éessa proposta, e também ficam dúvidas para avaliar se essa é a melhormaneira de tornar o que se chama de cultura mais acessível àqueles quegeralmente ficam do lado de fora da porta catando/vendendo latas debebidas. E também é difícil saber se vai receber esse benefíciorealmente as pessoas que não tem condições (a aplicação das outrasbolsas demonstram que há muitas imperfeições a serem corrigidas nessemodelo).Portando, eu pelo menos estou dividido. Quero muito que se “banalize”a (boa) cultura. Mas não queria ver isso tendo cunho eleitoral, gentese aproveitando de recursos públicos e, pior, ver se espalhar aindamais essa prática de oferecer as coisas de mão beijada. Mas comotambém não tenho uma solução genial na ponta da língua, cruzo os dedospara que isso, ao menos, mate um pouco da nossa fome de cultura.

FN - 31-07-09

Politizando

Imagine a situação: seu filho, criado com todo amor possível, chega para você e revela: quero trabalhar em política!!! Sim! Aquela criança que recebeu tudo de bom e do melhor, a quem nunca faltou nada, resolve entrar num mundo que te enche de medo. A impressão que se tem é de que o rebento está anunciando que está entrando para o crime organizado. Você tenta dissuadir, oferece outras opções menos perigosas, como vacinador de tubarões, limpador de vidros externos de edifícios com mais de 20 andares, ou então professor de escola estadual. Mas não dá certo, ele está decidido: estará nos bastidores da política ou, até mesmo, concorrerá a um cargo eletivo...Infelizmente, essa reação (exagerei um pouquinho, eu sei) é a que 11 entre 10 pais de amigos meus teriam. A política, hoje, está tão atolada na lama que as pessoas preferem nem saber o que está acontecendo... É mais ou menos aquela sensação que se tem um dia após a derrota do seu clube num Gre-Nal: evita-se ler, ouvir ou ver qualquer coisa que lembre do caso.Porém, tentar esquecer nunca resolveu nada. E desacreditar pessoas dispostas a se envolver com a tomada de decisões no município, estado ou país é um desserviço à renovação, um empecilho à formação de líderes mais adequados ao tempo em que se vive e com menos daqueles vícios que se adquire ao longo dos anos. Não se pode subestimar a capacidade da gurizada. Se eles (e me incluo nesse grupo) deixam a desejar nesse aspecto, é porque a sociedade mesmo não incentiva, impõe resistências e preconceitos.Faltam pessoas qualificadas e com disposição para trabalhar na política (técnicos administrativos, secretários, assessores) e também para concorrer. Creio que é preciso estimular o envolvimento dos mais novos, seja em grêmios estudantis, diretórios acadêmicos, juventudes partidárias, clubes como o Interact e Leo Club, até movimentos religiosos (que também deve assumir o papel de construtores de opiniões). Na escola mesmo os professores poderiam falar um pouco mais sobre o processo democrático (pelamordedeus, não façam como nas aulas de Educação Moral e Cívica e de O.S.P.B., que para quem não sabe é Organização Social e Política Brasileira, disciplinas impostas durante o regime militar). (Uma hora dessas escrevo mais sobre isso, mas defendo que a participação nestes movimentos e fazer trabalho voluntário deveria ser critério para classificação em vestibular).É justamente pela capacidade de indignação e reação dos jovens em oposição do conformismo daqueles que pensam que “é assim mesmo”, que “nunca vai mudar” que acho que estamos perdendo tempo ocultando as “verdades” da vida dos inocentes olhos dessas criaturinhas que amamos. É sim responsabilidade de pais e professores fazer aflorar a preocupação com as decisões, sob pena de termos que aturar Sarneys por mais de 30 anos sugando a máquina pública “secretamente”.

publicado em FN no dia 24-07-09

As vantagens do horário político

Quando era pequeno, lembro que uma das coisas que menos gostava era do Horário Eleitoral Gratuito. Além de não entender bulhufas do que aqueles personagens cômicos diziam, odiava o fato de passar o dia cantando aquelas musiquinhas extremamente criativas e que grudam no cérebro (de “Lulalá”, a “juntos chegaremos lá, fé no Brasil, com Afif juntos chegaremos lá” até “dois patinhos na lagoa”, aquela do hoje extinto PL...). Veja só: passados praticamente 21 anos da eleição de 1988 – eu tinha cinco na época – e eu ainda lembro dessas grandes pérolas da MPB (Música Publicitária Brasileira)...Bom, voltando ao assunto: eu tinha pavor do horário político. E também das inserções que enchiam a grade da programação nos intervalos de qualquer programa. Isso sempre atrasava a novela (hoje, por ironia, divirto-me mais com as propagandas de candidatos do que com os enredos da Rede Globo. É terapêutico!). A vantagem disso, pelo menos, é que aquelas meia-horas depois do meio-dia e no meio da noite era o tempo que eu tirava para fazer os temas (não na campanha de 88, que eu estava na pré-escola, mas nas posteriores). Na época, os meus colegas diziam fazer o mesmo...Pois atenção pais: nestes novos tempos, em que as crianças substituíram a TV e as demais atividades pela internet, nossos sábios políticos resolveram ajudar vocês. Na verdade, pensando em se ajudar, acabaram ajudando vocês. Isso porque foi aprovado na Câmara dos Deputados, na última quarta-feira (9), uma lei que libera o uso da internet campanha eleitoral. O que isso significa? Tranquilidade! Explico: garanto que, pelo menos por três meses, vossos rebentos fugirão da internet por não aguentar a acintosidade das mensagens. Duvidam? Vale uma caixa de ovos brancos! Embora ainda não tenham inventado horário político obrigatório nem A Voz do Brasil para transmissão na internet, o uso que imagino que os candidatos farão via sites próprios e por orkut, msn, twitter, facebook, blogs, e-mails – que é aquilo que os adolescentes usam – será de enlouquecer de tanta carinha sorridente e de números (ou seriam código de barras).***Em tempo: nossos queridos parlamentares ainda tomaram outra atitude benéfica para todos: proibiu o aluguel de muros para a campanha – sem contar que os out-doors também já estava proibido. Assim, jogamos a sujeira visual para as telas de computador (vai ser um pandemônio!) e deixamos a cidade menos suja. Pois bem: como sei que os marqueteiros não têm noção do que significa a palavra excesso, estou apostando que, no período eleitoral, a gurizada vai, no mínimo, reduzir as horas passadas na internet. Daí vai ficar fácil: é só “danificar” o vídeo game, que é capaz de eles até acharem mais interessante dialogar com a família! Um viva a quem inventou essa lei, independentemente se o bem causado foi intencional ou não!***Novela à gaúcha
Estava saindo da Assembleia Legislativa na quarta, quando vejo uma senhora até que bonita dando entrevista para uma emissora local. Reconheci na hora: era a Magda Koenigkan, empresária brasiliense que entrou para a história gaúcha por ser a esposa do falecido ex-assessor da Yeda, Marcelo Cavalcante. Estava feito o alvoroço em torno dela! As mulheres colocaram defeito na roupa, nas plásticas, nos sapatos e disseram que ela veio achar um marido. Os homens, disfarçando, perguntavam-se se ela iria realmente falar o que prometeu (fatos novos sobre falcatruas da campanha ao Governo do Estado) ou não.Infelizmente, tenho que terminar essa coluna antes de saber o que vai acontecer até o final dessa quinta-feira (senão o Adelar vai ter um infarto esperando a coluna). Assim, deixo minha aposta: mesmo tendo prometido falar, acho que a dona Magda vai ficar quieta (ok, a constatação não é minha, é do Guerreiro, com a qual eu concordo). A rádio corredor da AL está anunciando que o advogado que ela contratou na quarta-feira teria dito para que evitasse apagar incêndio com gasolina. Isso porque ela pretende processar Yeda Crusius, então era melhor tomar cuidado para não pisar na própria língua.No fim das contas, essa história cujo protagonista é o lobista Lair Ferst, virou um diz que me disse, em que nada se confirma, e em que todos os que começam pilhando tiram o seu da reta. São tantos flashes que virou joguinho de celebridades. Já estou achando que Magda e Yeda vão acbar amigas íntimas. Assim, é certo que as próximas denúncias não partirão da Veja, mas da Caras. Já imaginou? Governadora, acompanhada de sua “amiga de infância”, abre as portas de sua polêmica casa com exclusividade e garante: o Lair não é tão mau assim”... Vai saber...

publicado em FN no dia 10-07-09

Brasil–zil-zil-zil

O Brasil deu um show na Copa das Confederações! Venceu todas, com direito a goleada na Itália e virada espetacular sobre os Estados Unidos. Embora sem a mesma intensidade de ânimos registrados em jogos da dupla Gre-Nal, ouviu-se um foguete aqui e outro ali denunciando a alegria do torcedor que ficou sentadinho na frente da TV durante uma produtiva tarde de domingo.São diante das vitórias que aflora o nacionalismo dos tupiniquins. Uma medalha no vôlei cá, um pulinho da Daiane dos Santos acolá... Pois, para aumentar o orgulho desses honrosos cidadãos que amam a pátria, quero anunciar que estamos na frente de norte-americanos, italianos, alemães, franceses, ingleses, mexicanos e chilenos também em outro quesito: nossos congressistas são os que MAIS PESAM NO BOLSO DO CONTRIBUINTE! É é é é é... é do Brasil-zil-zil-zil (não adianta, o Jornal Nacional tinha que ser apresentado pelo Galvão Bueno, e não por aquele mórbido Willian Bonner no Jornal Nacional. Já pensou?).Pois para os incrédulos – ou desavisados, desinformados, o que seja – há um estudo publicado no site www.transparecia.org.br. Basta acessar que, garanto, sentirás nas faces correr uma lágrima diante das informações... Sugiro, inclusive, que seja lido ao som do Hino Nacional. Fosse como na Copa do Mundo, este seriam os placares: Brasil 3x0 Chile (um senador verde-amarelo custa em termos reais mais de três vezes o que custa um chileno); Brasil 8x0 França (nossos representantes do Senado saem 8,4 vezes mais caro do que os respectivos políticos da terra da Torre Eiffel); Brasil 2x0 EUA (cada deputado brasileiro custa aos cidadãos o dobro do que seu correspondente norte-americano); Brasil 5x0 Alemanha (deputados tupiniquins pesam 5,5 a mais nos bolsos dos contribuintes em relação aos alemães); Brasil 6x0 França (outra goleada sobre os sujeitos que falam fazendo biquinho, desta vez falando sobre deputados); Brasil 6x0 Grã-Bretanha (Inglaterra, País de Gales e Escócia) (idem explicação anterior). Resultado: é campeão! Ganhamos de lavada! Ninguém pode com a gente! Penso nisso e tenho vontade de ouvir uma banda marcial tocar “A taça do mundo é nossa!”...É um feito fora de parâmetros, deve estar no Guinness Book. Para se ter uma noção, os custos diretos por ano para bancar cada senador brasileiro correspondem a mais de oitenta vezes a riqueza média produzida por cada habitante do país ao longo de doze meses. Os deputados saem um pouquinho mais barato: “só” setenta vezes o PIB per capita.Não é de se orgulhar? Proponho uma passeata, com o Sarney desfilando sobre um caminhão de bombeiros, e todos nós acenando bandeirinhas... Até porque, brasileiros de verdade – refiro-me aos nacionalistas – gostam mesmo é de festa!***Sabe o que é mais engraçado? É que a velha máxima de que, para aprender, só mexendo no bolso, não funciona quando falamos de política. Até porque, um povo tão politizado realmente precisa pagar caro por políticos tããããããããão atuantes. E não deixamos por menos: além do maior salário de parlamentares comparados ao Produto Interno Bruto per capita (12,7 vezes mais do que caberia a cada um de nós), ainda sustentamos assessores que, no Senado, corresponde a quase 55 vezes a riqueza gerada por cada brasileiro ao longo de um ano. Só não ganhamos no item verba de representação (gastos com escritório, auxílio moradia, etc..) porque os norte-americanos não aceitam perder facilmente e, pelo menos nesse item, ultrapassam a pátria verde-amarela. Mas pelo menos ficamos num honroso segundo lugar...***Assim, penso: poderíamos comprar uns parlamentares franceses, o que vocês acham? Tão na promoção! De repente, pela diferença de desenvolvimento dos dois países, acho que eles topariam o desafio. Dá até para oferecer um pouquinho a mais do que ganham os coitados. Tá aí: dava para privatizar o Congresso...Sei lá... Essas notícias sempre me deixam com a mente fértil. Imagina que pensei esses dias atrás em contratar o Bin Laden para jogar um aviãozinho no Senado? Vê se pode? Ainda bem que depois de viajar um pouco caio na real e até penso em pedir perdão ao Sarney por tanta injustiça...

publicado em FN no dia 02-07-09

Movimento dos Sem-Guarda-Chuvas

Exatamente no dia em que precisava ir aos bancos inadiavelmente – para variar, sempre na última hora, São Pedro abriu as comportas. Sabe aquela chuva mais ou menos fraca, mas que não dá trégua durante o dia inteiro? Pois é... E adivinha se o gringo aqui gastou que fossem R$ 5 em um guarda-chuvas (defendo a tese que guarda-chuvas foi feito para perder, assim como canetas)...Bom, os compromissos eram inadiáveis, e como sei que água da chuva não me faria encolher, enfrentei a intempérie. Não sem antes fazer todo um estudo sobre o trajeto, as condições das calçadas (lisas, esburacadas, com pedras soltas) e, principalmente, de avaliar qual trajeto tem mais marquises para evitar que as meias molhassem muito (sabe que estou ficando experiente nisso?).Pois bem, as marquises... Não consegui me meter embaixo de nenhuma até chegar ao banco... Quer dizer, até consegui, mas inacreditavelmente ainda tem gente que deixa para ver vitrines em dia de chuva, e o trânsito sob a proteção dos prédios ficou tão rápido como a Rua do Comércio em comemorações de títulos de futebol. Sem contar que, sob as marquises, me senti como um estranho, pois parecia que o espaço estava reservado apenas para pessoas com guarda-chuvas... Era ameaçar me acomodar sob uma dessas estruturas, e aquelas pontas já vinham ameaçando ferir meus olhos... Daí pensei: antes molhado do que cego e atrasado...Nestes devaneios que se tem nas filas bancárias (ainda passei por mais essa, e todo molhado) cheguei a uma conclusão genial: de que o mundo seria bem melhor se as pessoas de guarda-chuvas dessem passagem sob as marquises para sujeitos atrasados e molhados. Eu sei que não é por mal, é uma questão de instinto, de manter-se seco no molhado, mas isso fere os sentimentos daqueles que não usam guarda-chuvas...Pois bem, foi nesta situação, durante uma das meia-horas que perdi na maldita fila do banco, vendo as notícias na TV que é ligada para acalmar os clientes, que fiz uma daquelas analogias que nem o álcool é capaz de provocar. É ouvi falar do Senado e do nosso ilustre ex-presidente, eterno ocupante de cargos públicos e membro da Academia Brasileira de Letras (!!!) José Sarney. E fiquei pensando: não seriam os senadores como as pessoas que, portando guarda-chuvas do tamanho de guarda-sóis, vão cantarolando pelas ruas em dis de temporal, com o restante da família ocupando as marquises? Sei lá... Antes que esses distúrbios fiquem mais graves, é melhor eu comprar meu próprio guarda-chuvas. Mais um deles. E amarrá-lo no pescoço, para não perder. Ah, e depois dessa, juro que deixarei as marquises para os outros...

publicado em FN no dia 26-06-09

Entre diplomas e cozinheiros

Tinha pensado em começar essa coluna com vários assuntos, mas depois de ler sobre a ironia cuspida pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes de que jornalista é como cozinheiro (nada contra os cozinheiros, pelo contrário), de que não precisa de faculdade, daí não consegui me concentrar mais em outra coisa...Pois é... Não é mais obrigatório o diploma de bacharel em Jornalismo para a prática da profissão... Oito dos nove ministros atenderam o pedido do Sindicato Empresas de Rádio e Televisão de São Paulo e acabaram com 40 anos da obrigatoriedade (sempre “furada” por liminares).A quem isso interessa? Aos leitores? Tenho certeza de que não. Acho que beneficia apenas as empresas, que não precisarão contratar um profissional diplomado, cujo piso salarial é estabelecido e fiscalizado pelo Ministério do Trabalho.Poderia entrar em vários pontos da discussão, mas queria apenas acabar com o mito que, aparentemente, embasou a opinião de nossos digníssimos ministros. Jornalista não é alguém que sabe escrever ou falar. Esses são apenas pré-requisitos para todos os acadêmicos dispostos a sentar nos bancos da faculdade e ter o mínimo êxito na profissão. As disciplinas técnicas disponibilizadas na faculdade muito mais refletem sobre o exercício do jornalismo do que ensina como se postar diante de uma câmera. Na UFSM, frequentei cadeiras de Lógica, Sociologia, Desenvolvimento Econômico, Psicologia Social, Fundamentos do Jornalismo, Estética e Cultura de Massa, Semiótica, Ética... Lembro, inclusive, que para fazer estágio, era preciso pedir permissão aos professores, que acompanhavam o desenvolvimento extra-classe dos estudantes. Esse conhecimento não se adquire apenas atuando no mercado. E não venham dizer que a grita é por reserva de mercado porque isso não existe, jáq que temos 18 instituições somente no Rio Grande do Sul botando pelo ladrão centenas de bachareis todos os anos. O diploma é a garantia de utilização consciente dos meios de comunicação. Tenho pena de ouvintes e jornais do interior, onde são poucos os proprietários jornais e rádios preocupados em bem informar, e não apenas em lucrar... ***Ah, senhor Gilmar Mendes, e dizer que a queda do diploma garante a liberdade de expressão não pega, ok?! Parece que o senhor não lê jornais, não ouve rádio, para saber que também há espaço nesses veículos para isso, como nas sessões de cartas e de artigos, nas colunas... A questão que fica é: todos são aptos a produzir conteúdos jornalísticos, sem distorções? Usando a internet como exemplo: dá para confiar em tudo o que é lançado no ciberespaço? Ou a garantia de credibilidade está nos sites mais tradicionais, que reconhecidamente investem em profissionais capacitados para tanto?Pois é, deixo essas palavras para reflexão. Quanto aos bachareis – e futuros bachareis - em Jornalismo, resta olhar para o canudo e pensar em quanto dinheiro poderia ter sido economizado em mensalidades e calcular quanto poderia ter sido faturado nestes quatro de dedicação caso fossem empregados diretamente no mercado de trabalho...
Presídios
A possibilidade de parcerias público-privadas na construção e gestão de presídios não tem a rejeição que eu imaginava – pelo menos, é bem menor do que a implantação de pedágios ou de qualquer outro tipo de privatização... Meu termômetro para fazer essa afirmação foi as conversas com assessores de deputados de diferentes partidos, entre um café e outro, nos corredores da Assembleia Legislativa. Até mesmo militantes de esquerda, tradicionalmente contrários a medidas como essa, não adotam posturas radicais.A única explicação plausível para essa atitude, ao meu entender, é a sensação de falta de segurança cada vez maior. A criminalidade está crescendo desenfreadamente. E o grande culpado é a disponibilização em larga escala do crack, que causa dependência rapidamente e induz os usuários ao crime para conseguir manter o vício.Já não é o mais importante saber se o Estado vai gastar mais ou não com isso (estima-se que um preso que custa hoje R$ 600 por mês, passaria a custar entre R$ 1,5 mil e R$ 2,5 mil). O fato é que os presos não podem mais ficar empilhados nas instituições que hoje são verdadeiras faculdades do crime; tampouco nas ruas, cumprindo as penas em liberdade porque a Justiça não sabe mais onde colocar tantos bandidos. Mas, nessa história, ainda há muito sabugo para debulhar...

publicado em FN no dia 19-06-09

Tecnologia x nostalgia

Tenho um professor no curso de pós-graduação em História, Comunicaçãoe Memória do Brasil Contemporâneo que é uma figura. O Maronese. É asegunda disciplina que ele ministra no curso. Na primeira, falavasobre crônicas como um objeto para estudo da História. Na atual, elefala sobre as cidades, de como estão sendo afetadas pelodesenvolvimento das tecnologias de comunicação.Nesta disciplina, o Maronese divide as aulas com o Max. E para falardo Maronese, antes tenho que falar do Max. Formado em Publicidade, temuns 30 poucos anos, e se caracteriza por ser uma extensão docomputador. Extremamente tecnológico! Foi o fundador do curso dedesenvolvimento de games da Feevale. É um apaixonado pelo mundovirtual! De tal forma, que ata a esposa ele achou pela internet. O Maxaguarda ansiosamente por cada lançamento de produtos no mercado, egeralmente compra estes objetos antes mesmo de serem comercializadosno Brasil. Compras todas feitas pela internet, claro... Na aula,depois de uma empolgada apresentação que fez desse mundo virtual, oMax conseguiu provocar calafrios em todos, mas principalmente nos meuscolegas mais velhos.Já o Maronese é o oposto. Cada site de relacionamento novo que élançado é capaz de provocar tremedeiras no professor, um cara pacatoque já beira os 50 anos. Ele olha algo novo e exclama: onde é que omundo vai parar? Bastante nostálgico, evita ao máximo se aprofundar naárea. Claro que ele tem e-mail, mas não quer saber de orkut. Temcelular, mas acha o MSN um saco. Aulas por vídeo-conferência? Porenquanto ele garante que nunca vai participar ou ministrar algo usandoessa tecnologia... Mas embora possam pensar isso, o Maronese não é umsujeito ranzinza, pelo contrário. Em poucos minutos de conversa, eleganha a simpatia de qualquer pessoa. E provoca risos quando, do nada,no meio de uma partida de sinuca, exclama coisas como “que saudades dotempo em que não se usava celular”, “por que as pessoas não se visitammais do que antigamente?”, “já não conheço tão bem a cidade em quemoro”, “será que todos terão acesso a essas novas ferramentas”...É interessante conviver com esses dois extremos, ouvindo a empolgaçãodo Max e os receios do Maronese. Mas, em pelo menos uma questão, elesconcordam: que estamos num contexto histórico muito mais parecido como de 100 anos, do que o que teremos nos próximos 20. “As coisasacontecem em progressão geométrica”, ouço.Concordo com a afirmação. Porque, agora, o que está em jogo não éapenas as facilidades que o advento das máquinas trouxeram. É amudança na relação entre os humanos, que invariavelmente optam pelosfrios teclados de um computador do que por uma relação mais quenteproporcionada por uma visita amistosa a um amigo; abrem mão de umacaminhada um pouco mais longa que permite olhar a paisagem e sentir ocalor do sol numa manhã de inverno, para chegar mais rápido em carroscom películas tão escuras que não deixam ninguém do lado de fora saberquem está dentro do veículo.
***
Bom, a comparação entre os dois não é o que mais interessa aqui. Masfoi por pensar nesse estranhamento entre Max e Maronese que acabeipensando em algo que foge um pouco do assunto. Que a tecnologia,embora cada vez mais avançada, assim como resolveu problemas, trouxeoutros. O telemarketing e os spans que entopem a caixa de entrada dose-mails são pequenos exemplos. E essa mesma tecnologia não resolveuoutros problemas, como o tempo perdido em filas de banco (nem tudo dápara fazer via internet ou por meio do caixa eletrônico), no tempogasto para alugar um apartamento (a quantidade de documentos egarantias pedidas são absurdas!), enfim, em todo e qualquer processoburocrático. As formas de relacionamento estão mudando, são cada vezmais superficiais. E está cada vez mais fácil se passar por outraspessoas. Assim, a confiança que antigamente as pessoas tinham nasoutras pessoas também mudou, mas para pior. Qualquer cadastramentohoje pode ser confundido com uma entrevista de cunho biográfico. E,lembrem-se, a falta de confiança trazida por estes novos tempos,embora pareça um problema simples, causou a maior crise mundial depoisde 1929... É, talvez o Maronese tenha sim uma certa razão...

Coluna publicada em Folha do Noroeste no dia 12-06-09

E se as siglas disputassem o Brasileirão?

Esta é minha quinta coluna, e não é a primeira vez que comparo política com futebol. Pelo menos no sentido de mexer com paixões e atiçar os ânimos daqueles que se declaram favoráveis a este ou àquele lado. Com o início do Brasileirão, e por trabalhar em ambiente político, acabei misturando as duas coisas.Então, de tanto pensar nisso, fiz uma comparação um tanto pretensiosa entre as atuais 28 siglas presentes no Brasil (segundo site da Câmara dos Deputados) e alguns clubes brasileiros. Como sou um maluco moderado, não incluí a dupla Gre-Nal para não dizerem que estou puxando para um ou outro partido, ou um ou outro clube. Também, deixo claro que isso é apenas uma brincadeira a partir de constatações sem aprofundamento – não fiquei revirando documentos, a não ser as listas com números de deputados estaduais, federais, senadores e governadores (a lista de presidentes brasileiros sei de cor) dos últimos mandatos.Bom, caso alguém não concorde, podem mandar uma reclamação autenticada e em três vias para o e-mail colocado no final desta página.Vamos lá: começo a lista pelo PMDB, que é a maior sigla do Brasil. Pois considero que o PMDB está para o cenário eleitoral brasileiro como o Flamengo está para o futebol. Tem a maior torcida (ou pelo menos o maior número de filiados), mas há anos o time não disputa o título nacional (leia-se, a presidência da República).Já o PP classifiquei como Atlético Mineiro. É grande, tem torcida (filiados), mas é um clube com apelo regionalizado. Sem contar, que o último título nacional foi durante o Regime Militar.Para mim, o PT é o Corinthians. Internamente, é uma bagunça, mas se alguém de fora tenta falar mal, os integrantes se unem e partem para a agressão. Eleitoralmente, entre uma derrota e outra, sempre surge forte.Comparo o PSDB ao São Paulo: invariavelmente entra como um dos favoritos, tem no histórico recente grandes conquistas, mas a torcida se limita a determinados pontos do mapa. Assim como acho que o ex-PFL e atual DEM é o Palmeiras: tem tradição, algumas conquistas, mas vive à sombra do São Paulo (no caso, do PSDB).Os defensores do trabalhismo, PDT e PTB, me lembram Botafogo e Santos. Um, vive lembrando dos tempos de Mané Garrincha (ou do Brizola). Outro, não esquece os tempos de Pelé (e de Getúlio Vargas).Já o PSOL é como o Goiás. Não tem o mesmo tamanho dos outros, ninguém espera que chegue às cabeças, mas sempre tenta engrossar o caldo. Sigo a lista comPSB, PPS e PCdoB e seus equivalente Santo André, Barueri e Avaí: meros figurantes entre os partidos grandes. Nas últimas rodadas (ou segundo turno) normalmente recebem a mala branca (ou promessas de cargos na composição do governo) para auxiliar terceiros.PHS, PCO, PAM, PSDC, PCB, PR, PV, PSTU, PMN, PRTB, PSC, PSL, PTN, PV, PTdoB, PRP, PTC – Santa Cruz, Juventude, Paraná, Fortaleza, Guarani, Ponte Preta, Vila Nova, América-RN, Ipatinga, Brasiliense, Atlético-GO, Operário, Marília, Bangu, Americano, Caxias, Criciúma... Precisa explicar?
Está caro dirigir
Carteiras de motoristas: a polêmica da semana na Assembléia Legislativa foi a votação do projeto que reduz R$ 24 no preço das carteiras de habilitação. O projeto foi retirado porque boa parte dos deputados acreditam que o “desconto” pode chegar a R$ 70. Hoje, uma carteira custa R$ 985. Praticamente dois salários mínimos regionais! E a maioria dos CFC’s do RS exigem pagamento integral adiantado, sem parcelamento.Sendo um documento importante, que pode assegurar o emprego das pessoas (já que saber dirigir muitas vezes é pré-requisito em entrevistas de emprego - eu mesmo passei em seleções de emprego por ter permissão para dirigir), é inadmissível que o preço seja tão alto. Virou artigo de luxo. Sinceramente? Não acho que o preço deveria ultrapassar os R$ 500. Nem que houvesse subsídio do governo para chegar a esse patamar. Como está, é um estímulo às pessoas se aventurarem a dirigir sem permissão. A solução? Que tal estabelecer um teto máximo de preço e acabar com esse cartel que se tornou a indústria de habilitações? Encerrar o monopólio e abrir espaço para que outras empresas entrem para concorrer no mercado?

Publicado na Folha do Nororeste em 04-06-09

A (Des)Proporção de Brasília

Durante uma caminhada pelos corredores subterrâneos da Câmara dos Deputados, deparo-me com um grupo de vereadores discutindo acaloradamente sobre a fundação da capital federal. “Brasília foi construída pelos nordestinos, e não por essa elite que acha que manda aqui. Fomos nós que fundamos realmente esta cidade, com nossa força de trabalho, nós que povoamos o distrito federal todo”, discursava inflamadamente um parlamentar, defendendo todos os trabalhadores de Pernambuco, Piauí, Bahia, Maranhão, que buscaram uma oportunidade no território onde então seria a capital federal. As afirmações, no entanto, logo sofreram contestações. “Juscelino Kubitschek, que peitou esse desafio de tirar os poderes do Rio de Janeiro, nasceu em que Estado mesmo?”, argumentou um mineiro. Um goiano não se segurou: “Peraí! Dentro de qual Estado foi construído isso aqui? Isso tudo é Goiás, um Estado tão próspero quando aqueles do Sul. Nossa agricultura é de exportação, tem tecnologia de ponta!”, completou... Pensei comigo: para isso virar piada, só falta um gaúcho. Pois não demorou dois segundos após esse pensamento até que um gaudério entrasse no meio da roda em apoio ao goiano. “É verdade! Isso tudo aqui é Goiás. E, como todo mundo sabe, Goiás é uma terra de gaúchos. Fomos nós do Rio Grande que colocamos isso aqui no mapa”... Parecia que torcedores de futebol protagonizam em bares – esse é outro assunto muito recorrente também aqui. Mas, ânimos exaltados à parte, Brasília é um campo que pode ser considerado neutro. Aqui todos estão representados: homens, mulheres, heterossexuais, homossexuais, brancos, pretos, pardos, amarelos, nordestinos, manauaras, paulistas, gaúchos, gremistas, colorados, são-paulinos, (muitos) flamenguistas, baianos... É o principal lugar de tomada de decisões desse extenso Brasil, onde se faz necessária a presença de cidadãos de todos os cantos.
O menor lugar onde pode ser ver com clareza essa variedade (esse zoológico, diria um outro) de cultura e sotaques do Brasil é o plenário da Câmara dos Deputados. Claro que não existe uma proporcionalidade de homens equivalentes aos números indicados pelo IBGE – senão, teríamos mais deputadas do que deputados. O mesmo vale para raça, orientação sexual, torcida de futebol e (principalmente) classe social. A única proporcionalidade levemente respeitada é o de número de habitantes de cada unidade da federação, dado que determina (ou melhor, que é referência) para o número de parlamentares por Estado. Isso na Câmara. Já no Senado, todos são tratados igualmente -são três para cada Estado. Porém, para nós, gaúchos, essas as duas formas de representação se revela como um problema. Nossa bancada é menor do que a paulista, a carioca, a mineira – três Estados do Sudeste brasileiro – e a baiana. No Senado, temos nove eleitos pelos três Estados do Sul, diante de 27 do Nordeste e 24 da região Norte. Assim, todo e qualquer projeto –pegamos o Programa de Aceleração do Crescimento como exemplo – acaba não beneficiando tanto nosso território. Explico: quando liberado tantos milhões para a construção de casas populares, independentemente de onde o projeto original esteja prevendo a destinação de recursos, quando é apreciado na Câmara, recebe emendas e emendas dos deputados de todas as regiões, cada um puxando a brasa para o seu assado. Na hora da votação, prevalecem as negociações das maiores bancadas estaduais. Aí, já todo remendado, o projeto chega no Senado, onde recebe mais emendas, que no fim das contas acaba beneficiando a articulação entre os representantes das regiões com mais unidades federativas. Conversando com o assessor de um deputado sergipano durante um almoço no bandejão da Casa, aprecio a seguinte avaliação: “Temos poucos deputados (oito), mas sempre negociamos com aqueles que têm mais, e oferecemos nosso apoio para qualquer necessidade. Não importa o>> >> partido. Essa coisa de brigas entre partidos, de um não votar no que o outro fez é mais uma mania aí do Sul (para eles sul é tudo o que está abaixo da Bahia no mapa)”. Acho que isso explica muitas coisas: a começar pelos investimentos abaixo do ideal no RS, até, por fim, o surgimento da “amizade” entre os deputados, as negociatas, a falta de identidade partidária... Tudo sob a justificativa de defender os interesses dos eleitores. Mas isso é para outro papo de corredor...

(Publicado na Folha do Noroeste em 28-05-09

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Yeda, CPI, reeleição...

Poucas coisas no mundo geram tanto debate quanto futebol. Ainda mais em um Estado onde dois times polarizam as preferências. Em épocas de campanha, principalmente para prefeito e vereador, a política chega próximo. Hoje, há mais de um ano do próximo pleito, entretanto, o assunto está efervescendo. Houve desvio ou não dos recursos doados na campanha da governadora? Ela comprou uma casa com dinheiro de doações não contabilizadas na campanha? E o melhor: vai ter ou não CPI?
Não se fala em outra coisa nos arredores da Praça Marechal Deodoro além da chegada do Paulo Autuori, do Colorado na Copa do Brasil e do dilema entre formação ou não da CPI. É possível ouvir no fumódromo da AL, nos restaurantes e bares da redondeza apostas sobre a formação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito.
Cada um tem suas motivações: a oposição - leia-se PT, PCdoB e PSOL (este sem representação de bancada) – quer desgastar a imagem da governadora e faz o possível para conseguir as assinaturas de 19 parlamentares, mas estão amarrados pelo tecido político. Até que não pareçam evidências mais fortes do que diz o contraditório vice-governador, a base aliada não vai querer deixar o governo e correr o risco de perder alguns cargos de confiança distribuídos em estatais e secretarias. Alguns até tem vontade de investigar, mas temem que o produto, depois de jogado no ventilador, acerte muito mais pessoas do que apenas a governadora.
E fica a pergunta: qual CPI formada até hoje apresentou algum resultado eficaz, além de colocar a oposição na mídia? Alguém lembra quantos deputados foram “condenados” no Congresso nacional pela CPMI Mensalão? (ouvi um apoiador da governadora dizendo que, mesmo que seja verdade as acusações, a Yeda é uma trombadinha comparada ao que já houve).
Não sei se vai sair essa CPI. Embora seja um mecanismo previsto em lei que dá aos deputados o direito de investigar irregularidades. E uma coisa é conseguir um terço das assinaturas para montar a comissão; outra, bem diferente, é fazer com que mais da metade dos parlamentares envolvidos na investigação aprovem as diligências, audiências externas e convocações de depoimentos.
Penso que o ideal para esclarecer isso de uma vez é que o Ministério Público Federal encerre o silêncio e torne público as provas que suspeita-se que existam.

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Um funcionário do Piratini me contou: enquanto isso, encerrada em seu gabinete, fugindo dos jornalistas, a governadora faz as contas para saber se vai ou não concorrer à reeleição. Os números em si são animadores: pagou as consultas populares deixadas para trás por Rigotto, ampliou o montante a ser distribuído neste ano, acabou com o déficit do Estado – o que conseguiu por meio de políticas não muito simpáticas, diga-se de passagem. Porém, o sacrifício hoje está contando pontos, já que está conseguindo investir nos tais projetos reestruturantes. Além disso, está distribuindo viaturas para a Brigada Militar, anunciou a contratação de três mil soldados militares para este ano e está fazendo dúzias de acessos asfálticos nos municípios menores. Não fosse o descontentamento do Cpers com a enturmação, com a tentativa de modificação no plano de carreira e agora com o agrupamento de disciplinas em áreas afins, as manifestações em frente ao Palácio seriam bem mais brandas. Ou seja: não tivesse o jogo de cintura de um zagueiro central, nem uma oposição decidida desde o início do mandato a sangrar o governo, Yeda estaria mais tranquila.

(Parte da coluna publicada no dia 22-05-10 na Folha do Nororeste)

Reforma política urgente

Reforma política em pauta – de Brasília aos corredores mais distantes do solo nacional. Há mais de uma década tida como essencial por dez em cada dez intelectuais brasileiro, começa de uma forma que considero errada: discutida em partes – da maneira que está parece que o projeto passou por um açougue.
Nesta primeira fatia, começa a esquentar as discussões em torno da mudança nas candidaturas – de nominal para voto em lista - e na arrecadação de recursos – com financiamento público de campanha.

O voto em lista permite a redução do número de candidatos. Há quem garanta que o número de partidos do país – mais de 30 – também diminuirá. O principal argumento dos defensores – entre eles do ministro Tarso Genro - é de que os partidos se fortalecem, e a política ficaria menos personalista.

Mas cabem as perguntas: quem vai decidir quais os nomes e em que ordem serão colocados na bendita lista? Serão os integrantes das executivas? Os caciques? O grupo do presidente do partido? Os filiados? E o povo? Por que é que, para eleger o Pedrinho, tenho que eleger o Asdrúbal que está antes dele na lista? (não me digam que o chamado voto de legenda de hoje em dia é a mesma coisa que não é, porque nesta pelo menos são privilegiados os mais votados pelo povo). Outro ponto ainda mais importante: e a renovação? E a representatividade dos municípios menores? Estarão garantidas?

Tenho dúvidas ainda sobre a eficácia do financiamento público de campanha. Dizem que reduzirá os vultuosos montantes empregados nas campanhas, dando chances (quase) iguais entre pessoas de maior e menor poder aquisitivo. Creio que só se justifica esse financiamento se isso impedir que empresas doem dinheiro aos candidatos. Mas... não colocará o uso de caixa 2 ainda mais na moda?

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(Apenas um aparte: em Santa Maria, lembro que uma empresa de transporte público doou o mesmo valor para os três candidatos com chances de eleição. No período eleitoral, todos os candidatos falaram diversas vezes que iriam reduzir o preço das passagens de ônibus. Mas, estranhamente, a partir do momento em que o eleito assumiu, passou a considerar que os preços das passagens estavam defasados, e não majorados, e o reajuste colocou os passes de ônibus a um patamar próximo ao de Porto Alegre).

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Minha opinião? Se, e somente se, os partidos brasileiros fossem mais bem estruturados, mais homogêneos ideologicamente, com filiados mais participativos – e com mais chances de participar -, que sejam presididos por líderes e não por caciques – no caso do financiamento público – não houvesse possibilidade nenhuma de empresas prestarem ajuda financeira às siglas, que os órgãos fiscalizadores e a sociedade combatam o caixa 2 como se estivessem lidando com o tráfico de drogas (que ainda assim, só cresce), se os estatutos e a forma de atuar dos partidos passarem por uma reforma rigorosa... Enfim, se houver alguma maneira de o jeitinho brasileiro ficar de lado, acho que, tanto o voto em lista quanto o financiamento público de campanha são medidas importantes para termos um sistema eleitoral ainda mais democrático. Temo, contudo, que tenha que nascer de novo para essas condições se efetivarem...

(coluna do dia 15-05-10, publicada na Folha do Noroeste)

Revolução (?) na Educação

Revolução (?) na Educação

Uma das melhores entrevistas que já fiz foi quando trabalhava no Jornal NH, de Novo Hamburgo. Fui enviado para cobrir a Feira do Livro de Sapiranga, cujo patrono era nada menos do que o escritor Ziraldo. Ou seja: era a oportunidade de conhecer um de meus herói, nada menos que o cara que escreveu O Menino Maluquinho, as historinhas do Bichinho da Maçã e que era um dos mentores de O Pasquim.
Cheguei mais de uma hora antes da coletiva, para fazer uma ambiental da feira. Falei com as crianças que buscavam autógrafos do escritor e, sem querer querendo, aproximei-me dele antes da coletiva. Por falha da organização – e por vontade do próprio autor, que queria ficar mais próximo dos pequenos leitores – ele ficou “solto” pela praça, sem ninguém acompanhando. Ninguém menos eu, que fui pego pelo braço por Ziraldo e tive o privilégio de ouvir suas exclamações sobre a feira e comentários variados.
Uma das coisas mais marcantes do encontro foi a seguinte declaração quando ele disse em alto e bom som: “meu sonho era ser ministro da Educação”. Ao ver meus olhos arregalados, brincou: “falo isso também porque ninguém teria peito de me colocar lá”. Não consegui argumentar. Ele emendou: “ia acabar com esse modelo de ensino fundamental. Não teria mais disciplinas. Essas crianças iriam ficar da pré-escola até a oitava série aprendendo a sonhar”.
Enquanto ele empolgava-se com o próprio discurso, eu ficava maravilhado com o que ele dizia. Para Ziraldo, os primeiros nove anos escolares devem ser destinados apenas para se aprender a ler, escrever e fazer as “cinco” operações fundamentais – adição, subtração, multiplicação, divisão e “regra de três”. “Elas têm que fazer isso com a mesma naturalidade com que andam, com que respiram. Quando fizerem isso, vão ser capazes de aprender qualquer coisa, vão ser melhores que o Einsten, e depois vão se especializar, aprender Gramática, Trigonometria, no Ensino Médio, porque isso são especialidades”.
Já sabia que esse mineiro sempre foi revolucionário - tanto que fazia graça do governo em plena ditadura militar -, mas não acahava que cehegava a tanto. Saí de Sapiranga depois de quase duas horas próximos a Ziraldo, e ainda mais fã. E concordando com o autor. Não sei se ele foi convincente o bastante, ou se eu é que não me atrevi a constrariar meu ídolo. Ainda mais porque já observei tanta gente que não consegue interpretar textos fáceis, ou que tremem ao tentar expressar seus pensamentos diante de uma folha de papel em branco, então para mim o raciocínio dele era válido. Não perguntei como isso poderia ser implantado, até porque acho até ele mesmo considera utópica uma mudanças dessas.

* parte da Coluna publicana na Folha do Noroeste de 08-01-09

Pelos corredores

Quando estudava no Roncalli e no Cañellas, sempre tentava fugir por alguns minutos da aula para perambular no corredor. No meio das atividades, pedia para ir ao banheiro, mas na verdade só queria ver quem estava também se algo havia acontecido. “Quanto tu tirou na prova?”, “É verdade que o João gosta da Maria?”. “Tu viu como está bonita a irmã do Paulo?”. “Tu sabia que o Carlos, a Cris e o Pedro foram para a secretaria?”. Sempre tinha novidades.
Na faculdade, em Santa Maria, a história se repetiu. Em poucos minutos era possível fazer graça para as veteranas e bixos, saber das fofocas das festas, especular sobre a possibilidade de greve e reclamar do preço das passagens de ônibus. Foi assim, nos corredores, que aprendi uma das mais importantes atividades do jornalismo, que é a de conseguir fontes, de ter acesso a informações que de outra forma não chegariam a mim. Conversas aparentemente inocentes, a maioria iniciadas por meio dos resultados da dupla Gre-Nal, renderam valiosas notícias. Hoje, como assessor de imprensa, não é diferente. Basta entrar no elevador da Assembleia Legislativa e fazer um comentário sobre o tempo, que alguém chega com um “tu viu” e a conversa evolui até pautas mais interessantes.
Assim como na vida colegial, o papo de corredor permanece sendo um fator importante de informação, que vai dos comentários estéticos (tu viu a morena que trabalha no terceiro andar?), a assuntos de economia e política. Esta é mais ou menos a linha desta coluna, que passo a assinar a partir desta edição. A premissa é comentar um pouco do que ouço nos corredores por onde passo. Mais ou menos como fazia, nos tempo do colégio, ao voltar do “banheiro”, com uma novidade na ponta da língua para distribuir entre os colegas.

* parte da coluna de 01-05-09 (a primeira publicada na Folha do Noroeste)