sexta-feira, 30 de julho de 2010

Convites indecentes

Adoro campanhas públicas de conscientização. Na verdade, gosto de analisar os argumentos utilizados nas propagandas das campanhas. É impressionante o que os publicitários brasileiros (classificados entre os melhores do mundo) são capazes de fazer. E também o que nossos repórteres engajados afirmam nas notícias sobre essas campanhas. Por exemplo: vacinação. Tanto os fotógrafos de jornais, como os câmeraman de telejornalismo ou de publicidade buscam a cena perfeita, em que uma pessoa saudável sorri porque está ficando mais saudável ainda ao receber uma picada. Quem dera! Na campanha de vacinação do ano passado, fui escalado para fazer reportagem e fotos de pessoas sendo vacinadas. Uma das imagens deveria ir para a capa do jornal. Passei uma manhã de sábado “cozinhando” numa praça tentando retratar pessoas não faziam caretas. Não achei uma foto para a capa. Mas rendeu uma montagem engraçada de gente apavorada com uma simples agulhinha (está comprovado: os homens reagiam muito pior do que as mulheres). Gotinhas para crianças, então, são o máximo: haja balão, balas, gente fantasiada de bonecos, palhaços, tudo para criar um clima de alegria para fazer os pequenos a tomar aquela coisa azeda.
Mas as campanhas que eu acho mais divertidas são as de recrutamento das Forças Armadas. Imagens de gente pulando de pára-quedas, com um fuzil na mão, no meio do mato, com a cara camuflada, aqueles tanques, jatos, navios, lanchas, cavalos... Nossa! Quantas vezes cheguei a pensar em me alistar para virar o Rambo brasileiro! Daí, na minha vez de fazer os exames, fiquei uma semana no 7º Batalhão de Infantaria Blindada de Santa Maria até ser dispensado. Enquanto ficava em baixo de um toldo, morrendo de calor e com os dedos cruzados para poder começar meu primeiro semestre da faculdade (recém havia passado no vestibular), assistia os recrutas fardados, sob um sol de rachar, em pé durante horas aprendendo a cantar o Hino Nacional, o Hino da Independência, o Hino da Bandeira, o Hino do Rio grande do Sul, o Hino do Exército...
***
Mas o Ministério da Educação, com inveja do Ministério da Defesa, conseguiu se superar. Rambo? Que nada! Olha o slogam: “Seja um Professor!”. Colocam uma menina linda, jovem, com atributos físicos muito interessantes, caminhando radiante até uma escola com alguns livros na mão. Você olha para ela e pensa que ela sim é uma pessoa realizada. Alto salário, segurança, material em abundância para abordar em aula, alunos com sede de saber... É de tirar o fôlego! (sim, vou falar sobre professores de novo!).
Fala sério! Por que o MEC não apresenta o valor dos pisos salariais pagos pelos Estados e Municípios? Ou das perdas salariais adquiridas? E porque não mostra os índices de violência? Nem detalha as “vantagens” dos planos de carreira? E porque não mostra entre as cenas a imagem de uma clínica médica ou psiquiátrica, que é onde esses mestres radiantes vão parar depois de meia dúzia de anos letivos? Ou ao menos gravem uma cena real de uma escola pública num “laboratório”, ou numa “biblioteca”? No mínimo poderiam mostrar a nova proposta da Yeda (mas não como ela está mostrando, em que só aparece a parte “boa”)...
Até porque hoje, ser professor deve ser como tomar a tal injeção: sabe-se que é necessário, que se está fazendo o bem, mas não se consegue evitar uma careta a cada nova medida “a favor” dos professores...

12-11-09

1 comentário:

  1. E que faz o coitado do professor, muitas vezes do interior, que lutou, suou e caminhou quilômetros em chão de cascalho e venceu na vida (o pouco e as vezes mal feito, terceiro grau, infelizmente, ainda é sinônimo de grandeza) almejar pelos cargos das vagas públicas nas imensas faculdades federais, deixando de lado o coitado concursadinho do ensino fundamental mal-amado pela profissão, pseudo-assalariado e ressentido ser chamado de mal-comido. (Resumindo: Quem mais tem, menos faz careta.)

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