sexta-feira, 30 de julho de 2010

Entre diplomas e cozinheiros

Tinha pensado em começar essa coluna com vários assuntos, mas depois de ler sobre a ironia cuspida pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes de que jornalista é como cozinheiro (nada contra os cozinheiros, pelo contrário), de que não precisa de faculdade, daí não consegui me concentrar mais em outra coisa...Pois é... Não é mais obrigatório o diploma de bacharel em Jornalismo para a prática da profissão... Oito dos nove ministros atenderam o pedido do Sindicato Empresas de Rádio e Televisão de São Paulo e acabaram com 40 anos da obrigatoriedade (sempre “furada” por liminares).A quem isso interessa? Aos leitores? Tenho certeza de que não. Acho que beneficia apenas as empresas, que não precisarão contratar um profissional diplomado, cujo piso salarial é estabelecido e fiscalizado pelo Ministério do Trabalho.Poderia entrar em vários pontos da discussão, mas queria apenas acabar com o mito que, aparentemente, embasou a opinião de nossos digníssimos ministros. Jornalista não é alguém que sabe escrever ou falar. Esses são apenas pré-requisitos para todos os acadêmicos dispostos a sentar nos bancos da faculdade e ter o mínimo êxito na profissão. As disciplinas técnicas disponibilizadas na faculdade muito mais refletem sobre o exercício do jornalismo do que ensina como se postar diante de uma câmera. Na UFSM, frequentei cadeiras de Lógica, Sociologia, Desenvolvimento Econômico, Psicologia Social, Fundamentos do Jornalismo, Estética e Cultura de Massa, Semiótica, Ética... Lembro, inclusive, que para fazer estágio, era preciso pedir permissão aos professores, que acompanhavam o desenvolvimento extra-classe dos estudantes. Esse conhecimento não se adquire apenas atuando no mercado. E não venham dizer que a grita é por reserva de mercado porque isso não existe, jáq que temos 18 instituições somente no Rio Grande do Sul botando pelo ladrão centenas de bachareis todos os anos. O diploma é a garantia de utilização consciente dos meios de comunicação. Tenho pena de ouvintes e jornais do interior, onde são poucos os proprietários jornais e rádios preocupados em bem informar, e não apenas em lucrar... ***Ah, senhor Gilmar Mendes, e dizer que a queda do diploma garante a liberdade de expressão não pega, ok?! Parece que o senhor não lê jornais, não ouve rádio, para saber que também há espaço nesses veículos para isso, como nas sessões de cartas e de artigos, nas colunas... A questão que fica é: todos são aptos a produzir conteúdos jornalísticos, sem distorções? Usando a internet como exemplo: dá para confiar em tudo o que é lançado no ciberespaço? Ou a garantia de credibilidade está nos sites mais tradicionais, que reconhecidamente investem em profissionais capacitados para tanto?Pois é, deixo essas palavras para reflexão. Quanto aos bachareis – e futuros bachareis - em Jornalismo, resta olhar para o canudo e pensar em quanto dinheiro poderia ter sido economizado em mensalidades e calcular quanto poderia ter sido faturado nestes quatro de dedicação caso fossem empregados diretamente no mercado de trabalho...
Presídios
A possibilidade de parcerias público-privadas na construção e gestão de presídios não tem a rejeição que eu imaginava – pelo menos, é bem menor do que a implantação de pedágios ou de qualquer outro tipo de privatização... Meu termômetro para fazer essa afirmação foi as conversas com assessores de deputados de diferentes partidos, entre um café e outro, nos corredores da Assembleia Legislativa. Até mesmo militantes de esquerda, tradicionalmente contrários a medidas como essa, não adotam posturas radicais.A única explicação plausível para essa atitude, ao meu entender, é a sensação de falta de segurança cada vez maior. A criminalidade está crescendo desenfreadamente. E o grande culpado é a disponibilização em larga escala do crack, que causa dependência rapidamente e induz os usuários ao crime para conseguir manter o vício.Já não é o mais importante saber se o Estado vai gastar mais ou não com isso (estima-se que um preso que custa hoje R$ 600 por mês, passaria a custar entre R$ 1,5 mil e R$ 2,5 mil). O fato é que os presos não podem mais ficar empilhados nas instituições que hoje são verdadeiras faculdades do crime; tampouco nas ruas, cumprindo as penas em liberdade porque a Justiça não sabe mais onde colocar tantos bandidos. Mas, nessa história, ainda há muito sabugo para debulhar...

publicado em FN no dia 19-06-09

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