sexta-feira, 30 de julho de 2010

Regressão

Sexta-feira em Porto Alegre. Minha fiel escudeira me liga. “Thiago, vamos para onde hoje?”. Com toda a manha de quem conhece (quase) todos ambientes e lugares da capital, ela relata cerca de 20 opções. A relação é completa: preço da entrada, atrações, público-alvo e, principalmente, valor cobrado pelas bebidas. Essa minha amiga esbanja competência mostrando um dossiê completo das baladas. E o resultado desse balanço geralmente apresenta um elevado número de festas “anos 80”, que nada mais são do que eventos decorados com pogobol, fotos do Chaves e do He-Man, meninas vestidas de paquitas, balões, jogos de Atari, etc...
Não há boate no Estado que ainda não tenha feito uma festa “anos 80”. E se não fez, perdeu dinheiro. Mesmo já manjado demais, ainda há um público muito grande que prefere ir nestes eventos retrôs para cantar músicas que lembram a infância (Erasure, Madona, Michael Jackson, Roxette, Ultrage à Rigor, Kid Abelha, Menudos, Xuxa, Paquitas, A-Há, Ritchie). Tento entender porque essas criaturas nascidas entre 1975 e 1989 sentem tantas saudades. Pois, se analisarmos bem, os anos 80 e o início dos 90, com todo o respeito, não tem o peso cultural das décadas de 60 e 70. EU acho que não... Não sei os outros. Falo por mim, um sujeito também nascido nos anos 80. Peguei uma transição muito rápida no mundo, principalmente mas formas de se comunicar: do disco de vinil ao MP3; da máquina de escrever e cartas, ao notebook e o e-mail; do telefone que custava o valor de um carro, até celulares pré-pagos com múltiplas funções. Eu cheguei a assistir TV em preto-e-branco (uma Telefunken!). Ou seja: peguei a tecnologia que existia na infância de meus pais e tenho que me adaptar diariamente à tecnologia das gerações seguintes...
É claro que cada elemento desses que saíram de circulação me lembram da infância. É como um perfume lembra uma ex-namorada: não chega a dar saudades, mas lembra. Eu mesmo tenho boas lembranças (mais da infância do que das ex-namoradas). Só não consigo afirmar de boca cheia que antes era melhor. Era diferente...
Essa nostalgia talvez possa até ser explicada pelas condições mais light de passar a infância (menos violência, mais rua, mais brincadeiras sem brinquedos, menos computador, mais desenhos animados, menos video game). No meu caso, o que mais sinto falta é do que chamo da inocência que eu acho que tinha e que não vejo nas crianças de hoje. E da falta de moralismo gratuito. Cigarros de chocolate eram vendidos sem ser encarados como incentivo ao fumo; novelas com cenas mais picantes, como Pantanal, não eram censuradas sob pretexto de iniciar sexualmente as crianças; as mini-saias das Paquitas ou publicidades como “o primeiro sutiã a gente nunca esquece (do Washington Olivetto, gravado com uma criança de 13 anos) não eram consideradas pedofilia; e era possível ver (como está no youtube) bandas de rock, como Cascavelettes, cantando “Eu quis comer você” no programa da Angélica sem que ninguém se manifestasse contra isso. O que seria do programa do Chacrinha hoje?
O engraçado é que é hoje, com tudo censurado, vivemos em tempos em que os jovens transam cada vez mais cedo, consomem drogas em maior quantidade e passam mais tempo sustentados pelos pais, sem falar nos casos de pedofilia, cada vez mais frequentes. É por essas e por outras que acredito que uma geração inteira descobriu que ainda há prazer em fechar os olhos, achar que está numa máquina do tempo, e cantar bem alto i-lá, i-lá, i-lá-ri-ê....

30-10-09

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