Sabe qual é um dos grandes problemas da nossa política? É a mania de parlamentares em querer ter o poder do Executivo. É um sonho de todos os vereadores, deputados e senadores poder mandar fazer o que (não) fazem prefeitos, governadores ou presidente.
Até acho compreensível, pelo menos por dois motivos. Primeiro porque os eleitores, em muitos casos, acham que seus representantes têm essa prerrogativa. E, pela maior proximidade com eleitos para o Legislativo do que par ao Executivo, é para eles que pedem coisas que deveria ser encaminhado aos órgãos de governo.
Claro que a influência dos parlamentares junto ao Executivo é importante. Mas vem aqui o segundo motivo indicado acima: a publicidade. Afinal, quando os problemas são resolvidos, o reconhecimento geralmente vai para quem?
Vou exemplificar: precisa-se asfaltar uma rua. O povo reclama para o vereador, que vai até a prefeitura. O prefeito diz que não tem dinheiro, e o vereador procura um deputado, que busca recursos nos ministérios (mesmo uma emenda precisa da liberação de recursos via ministério). Aí, o dinheiro, depois de muita insistência, é liberado para a Prefeitura, e a obra é feita. E quem é que leva a fama? Quem inaugura a rua?
***
Falta compreensão sobre quais são as funções do Legislativo. Na antiga disciplina de Moral e Cívica aprendíamos que era fiscalizar as ações do Executivo e propôr leis. Mas fiscalizar não dá muita notoriedade (apenas em CPIs, mais pelos confetes do que pela seriedade do trabalho). Então, para ganhar um pouco de fama, o pessoal do Legislativo acaba apelando ao elaborar leis inúteis. Não tenho uma estatística confiável, mas tenho a sensação de que 93,49% das proposições são bobagens (ok, até acho que é necessário que ruas tenham nomes. Também é importante reconhecer os valores da terra com moções de aplauso, entrega de medalhas, ou o que for. Mas lamento – e muito - quando os trabalhos se limitam a isso).
***
Bom, agora vou explicar o que me levou a escrever essa coluna. Há dois projetos de lei tramitando na Câmara dos Deputados. Um propõe a proibição da realização de festas “Open Bar”, em que os frequentadores pagam um valor de ingresso e pode consumir o que quiser. E o outro, ainda mais absurdo no meu entender, propõe a proibição de venda de bebidas em garrafas de vidro em boates, com a justificativa de que evitaria brigas.
Santa inocência dessas crituras. Como se, acabando com festas “Open Bar”, automaticamente as pessoas beberiam menos, e não dirigiriam embriagados. E evitariam brigar em boates porque não tem garrafas de vidro para agredir os outros (vamos proibir as cadeiras também, segundo esse raciocínio).
Tudo isso não passam de um “moralismo” as avessas. Creio que os autores vão se divulgar como cidadãos preocupados com “a violência causada pelo álcool”, com “a falta de segurança causada pelo álcool”, com “festas que incentivam a ingestão de álcool”, com “as mortes no trânsito causados pelo álcool”. Beleza! Deram o recado. E não resolveram bulhufas.
***
Para concluir: uma pesquisa da Ong Transparência Brasil feita nos seis meses indica que 38% do que foi votado no Senado nos seis anos anteriores ou não tem pé nem cabeça ou não tem a menor utilidade. O portal R7, ao repercutir essa pesquisa em 2009, citou alguns destes projetos: 1) obriga a Aeronáutica a contar tudo sobre extraterrestres; 2) proíbe que bichos de estimação recebam nome de gente; 3) designa o dia 18 de junho para comemorar o dia do Tambor de Crioula (uma dança africana comum no Maranhão). Deve ser divertido elaborar projetos como estes. Acho que é por isso que a fiscalização fica sempre em segundo plano. E deve ser isso o que tanto tranca a pauta das sessões...
(publicado em 26-11-10, sem tpitulo, pq na correria acabei esquecendo)...
Espaço destinado a publicar as colunas que escrevo desde 01-05-09 no jornal Folha do Noroeste, de Frederico Westphalen. E eventualmente para qualquer outra coisa. Sobretudo, para expôr minha visão das coisas, o que na maioria das vezes não quer dizer muita coisa. Ps: São todos textos do Thiago Buzatto.
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
Inversão de valores
Fala-se bastante de preconceito. E preconceito é sempre algo grave. Muito grave! Pois nesta semana tivemos um exemplo de como comentários preconceituosos podem beirar o ridículo. O fato foi protagonizado por um dos baluartes da imprensa catarinense. Contra pessoas pobres.
Se você não acompanhou o caso, explico rapidamente. Melhor será se você acessar o youtube e procurar por Luiz Carlos Prates. Será o primeiro vídeo listado. Veja logo antes que uma liminar retire o vídeo da rede.
O referido ocupa no Jornal do Almoço de Santa Catarina um espaço semelhante ao do Paulo Santana. Nas poucas vezes que acompanhei seus comentários, percebi que não chega aos pés do colega gaúcho. Suas opiniões muitas vezes expressam um reacionarismo de fazer inveja aos mais radicais conservadores. E um comentário feito nesta semana, sobre o trânsito intenso e os acidentes ocorrido no feriadão, comprovou que não é exagero afirmar isso. Segundo esse... ãh... (como é que vou chamá-lo sem usar palavras de baixo calão?) senhor, a culpada é toda “desse governo espúrio, que popularizou pelo crédito fácil o carro para quem nunca tinha lido um livro”.
Ou seja: o discurso do senhor Prates indica que pessoas pobres e com menor grau de instrução são culpados pelos os acidentes de trânsito. Veja este trecho: “o sujeito jamais leu um livro, mora apertado numa gaiola que hoje chamam apartamento, não tem nenhuma qualidade de vida, mas tem um carro na garagem. E este camarada, casado, como não suporta a mulher, nem a mulher suporta ele, sai, vão pra estrada, vão se distrair, vão se divertir. E aí, inconscientemente, o cara quer compensar as suas frustrações com excesso de velocidade”. Segue com outra pérola: “hoje qualquer miserável tem um carro”.
Como se o caos no trânsito não tivesse a participação daquelas pessoas que tem três, quatro carros na garagem para os familiares poderem andar sozinhos; como se o cara que mora a 50 minutos do trabalho também não pudesse querer um veículo para se deslocar com mais conforto, como faz determinadas pessoas que não andam três quadras sem um automóvel; como se adolescentes criados em “berço de ouro” não enchessem a cara e não pegassem o carrão dos pais para testar a potência; como se somente pessoas com alto poder aquisitivo tivesse o direito de pegar a estrada para a praia num feriadão; como se todos os ricos fossem cultos e capazes, e pessoas com menos saúde financeira fosse burra e inaptos a dirigir; etc, etc, etc...
O que dizer? Já vi coisas sendo ditas irresponsavelmente nos meios de comunicação. Mas este é um caso extremo. Não importa se ele vai se desculpar, se vai ser demitido, se vai ficar na geladeira. Para mim, o que importa é que alguém com um raciocínio destes não pode ocupar um lugar de tamanho destaque num grande veículo de comunicação. Colocar a culpa no governo por não ter estradas em condições é uma coisa. Agora, culpar o governo por proporcionar à população acesso à bens de consumo? Acho que há uma inversão grave de valores aí. E é assim que a coisa se espalha...
link do video:
http://www.youtube.com/watch?v=uwh3_tE_VG4
PS: Pior que me deu peso na consciência. Escrevi uma coluna em 10 de setembro falando sobre o assunto. Afirmei que até era favorável que os preços do combustível e dos automóveis fossem elevados, pois não temos infraestrutura suficiente para suportar o trânsito. Mas juro que minha intenção não foi ser elitista (até porque eu não tenho carro e também moro numa gaiola que hoje em dia chamam de apartamento).
Se você não acompanhou o caso, explico rapidamente. Melhor será se você acessar o youtube e procurar por Luiz Carlos Prates. Será o primeiro vídeo listado. Veja logo antes que uma liminar retire o vídeo da rede.
O referido ocupa no Jornal do Almoço de Santa Catarina um espaço semelhante ao do Paulo Santana. Nas poucas vezes que acompanhei seus comentários, percebi que não chega aos pés do colega gaúcho. Suas opiniões muitas vezes expressam um reacionarismo de fazer inveja aos mais radicais conservadores. E um comentário feito nesta semana, sobre o trânsito intenso e os acidentes ocorrido no feriadão, comprovou que não é exagero afirmar isso. Segundo esse... ãh... (como é que vou chamá-lo sem usar palavras de baixo calão?) senhor, a culpada é toda “desse governo espúrio, que popularizou pelo crédito fácil o carro para quem nunca tinha lido um livro”.
Ou seja: o discurso do senhor Prates indica que pessoas pobres e com menor grau de instrução são culpados pelos os acidentes de trânsito. Veja este trecho: “o sujeito jamais leu um livro, mora apertado numa gaiola que hoje chamam apartamento, não tem nenhuma qualidade de vida, mas tem um carro na garagem. E este camarada, casado, como não suporta a mulher, nem a mulher suporta ele, sai, vão pra estrada, vão se distrair, vão se divertir. E aí, inconscientemente, o cara quer compensar as suas frustrações com excesso de velocidade”. Segue com outra pérola: “hoje qualquer miserável tem um carro”.
Como se o caos no trânsito não tivesse a participação daquelas pessoas que tem três, quatro carros na garagem para os familiares poderem andar sozinhos; como se o cara que mora a 50 minutos do trabalho também não pudesse querer um veículo para se deslocar com mais conforto, como faz determinadas pessoas que não andam três quadras sem um automóvel; como se adolescentes criados em “berço de ouro” não enchessem a cara e não pegassem o carrão dos pais para testar a potência; como se somente pessoas com alto poder aquisitivo tivesse o direito de pegar a estrada para a praia num feriadão; como se todos os ricos fossem cultos e capazes, e pessoas com menos saúde financeira fosse burra e inaptos a dirigir; etc, etc, etc...
O que dizer? Já vi coisas sendo ditas irresponsavelmente nos meios de comunicação. Mas este é um caso extremo. Não importa se ele vai se desculpar, se vai ser demitido, se vai ficar na geladeira. Para mim, o que importa é que alguém com um raciocínio destes não pode ocupar um lugar de tamanho destaque num grande veículo de comunicação. Colocar a culpa no governo por não ter estradas em condições é uma coisa. Agora, culpar o governo por proporcionar à população acesso à bens de consumo? Acho que há uma inversão grave de valores aí. E é assim que a coisa se espalha...
link do video:
http://www.youtube.com/watch?v=uwh3_tE_VG4
PS: Pior que me deu peso na consciência. Escrevi uma coluna em 10 de setembro falando sobre o assunto. Afirmei que até era favorável que os preços do combustível e dos automóveis fossem elevados, pois não temos infraestrutura suficiente para suportar o trânsito. Mas juro que minha intenção não foi ser elitista (até porque eu não tenho carro e também moro numa gaiola que hoje em dia chamam de apartamento).
É dia de feira... do livro
Cheguei a começar a escrever um texto sobre o Enem. Comecei a descarregar uma série de “elogios” ao tão aguardado Exame Nacional do Ensino Médio. Resolvi deixar de lado. Nossa educação está tão cambaleante, que prefiro falar um pouco sobre o que resta de bom. Nada mais oportuno do que falar da Feira do Livro. E sobre esse assunto, eu posso falar durante horas.
Num país onde cada pessoa lê em média dois livros por ano (tenho carregado vários nas costas, se a média é realmente esta), as Feiras do Livro são cada vez mais importantes. Não apenas como uma exposição das editoras, mas para a descoberta pelo gosto de ler.
Eu lembro como criei o hábito da leitura. No início das férias de 1993, minha mãe jogou no meu colo “Os pequenos Jangadeiros”, de Aristides Fraga Lima. Foi meu primeiro dos mais de 80 da Série Vaga-Lume que li entre a quarta e a oitava série (competia com amigos para ver quem tinha lido mais exemplares da coleção). Até então, os livros que lia eram pequenos, com temáticas infantis, cheio de figuras. O Menino Maluquinho (o mais clássico de todos), os contos da carochinha, Heide, A Fada que tinha idéias, As aventuras do Cachorrinho Samba, Pollyanna, Tom Sawyer... Tudo isso era legal. Mas eu ainda não tinha sigo pego e jogado dentro de um livro com uma linguagem mais adulta (são obras infanto-juvenis, mas eu achava adultas, na época). E a série Vaga-Lume conquistou mais um de seus milhares de leitores.
Não estou querendo posar de CDF. Nunca fui totalmente dedicado e entregue aos estudos (bem menos do que desejado pelos pais). Na sala de aula, nunca fui do tipo comportado (imagina, era um grande exemplo da espécie hiperativus tagarelus). Tenho até a tese de que aprendi a gostar de ler nos constantes (e merecidos) castigos, trancado no quarto. Sem televisão e sem poder sair de casa, restava estudar ou ler. Daí eu lia...
A Feira do Livro reforçou o “serviço” prestado pela Série Vaga-Lume. Ter contato com um escritor parecia algo tão grandioso... Eu lembro de uma vez que Marcelo Carneiro da Cunha foi palestrar no Roncalli. Falando numa linguagem pré-adolescente, as histórias contadas pelo autor de Codinome Duda e Duda 2 – A Missão fizeram que duas professoras – minha mãe e a dona Simone, mãe do Matheus – comprassem cada uma um dos livros para que nos revezássemos. No mesmo ano, consegui o autógrafo do Sérgio Capparelli, que escreveu Os Meninos da Rua da Praia, livro que tinha em casa e fui correndo ler. Mais tarde, reencontrei os textos de Capparelli, mas na faculdade.
Há dois anos, cobrindo a Feira do Livro de Sapiranga, conheci um dos meus heróis, o Ziraldo. Entrevistei-o. Peguei autógrafo. Caminhei pela praça da cidade conversando com ele. E quando vi, estava de novo com O Menino Maluquinho na cabeça. Moacyr Scliar, Luiz Antonio de Assis Brasil, Armindo Trevisan, Airton Ortiz, Juremir Machado da Silva. As Feiras do Livro me deixaram frente a frente com eles. Em Frederico veio o L.F. Verissimo!
Eu só lamento que o espírito das feiras não seja perene. Que, no outro dia, tudo fique esquecido. Que os livros comprados na maioria das vezes fiquem nas prateleiras. Que nas escolas, a leitura fique posta de lado para que o conteúdo seja concluído. Gostaria que um dia ainda fosse inventada uma fórmula mágica para que todo o dia fosse dia do livro.
publicado em 12 de outubro na Folha
Num país onde cada pessoa lê em média dois livros por ano (tenho carregado vários nas costas, se a média é realmente esta), as Feiras do Livro são cada vez mais importantes. Não apenas como uma exposição das editoras, mas para a descoberta pelo gosto de ler.
Eu lembro como criei o hábito da leitura. No início das férias de 1993, minha mãe jogou no meu colo “Os pequenos Jangadeiros”, de Aristides Fraga Lima. Foi meu primeiro dos mais de 80 da Série Vaga-Lume que li entre a quarta e a oitava série (competia com amigos para ver quem tinha lido mais exemplares da coleção). Até então, os livros que lia eram pequenos, com temáticas infantis, cheio de figuras. O Menino Maluquinho (o mais clássico de todos), os contos da carochinha, Heide, A Fada que tinha idéias, As aventuras do Cachorrinho Samba, Pollyanna, Tom Sawyer... Tudo isso era legal. Mas eu ainda não tinha sigo pego e jogado dentro de um livro com uma linguagem mais adulta (são obras infanto-juvenis, mas eu achava adultas, na época). E a série Vaga-Lume conquistou mais um de seus milhares de leitores.
Não estou querendo posar de CDF. Nunca fui totalmente dedicado e entregue aos estudos (bem menos do que desejado pelos pais). Na sala de aula, nunca fui do tipo comportado (imagina, era um grande exemplo da espécie hiperativus tagarelus). Tenho até a tese de que aprendi a gostar de ler nos constantes (e merecidos) castigos, trancado no quarto. Sem televisão e sem poder sair de casa, restava estudar ou ler. Daí eu lia...
A Feira do Livro reforçou o “serviço” prestado pela Série Vaga-Lume. Ter contato com um escritor parecia algo tão grandioso... Eu lembro de uma vez que Marcelo Carneiro da Cunha foi palestrar no Roncalli. Falando numa linguagem pré-adolescente, as histórias contadas pelo autor de Codinome Duda e Duda 2 – A Missão fizeram que duas professoras – minha mãe e a dona Simone, mãe do Matheus – comprassem cada uma um dos livros para que nos revezássemos. No mesmo ano, consegui o autógrafo do Sérgio Capparelli, que escreveu Os Meninos da Rua da Praia, livro que tinha em casa e fui correndo ler. Mais tarde, reencontrei os textos de Capparelli, mas na faculdade.
Há dois anos, cobrindo a Feira do Livro de Sapiranga, conheci um dos meus heróis, o Ziraldo. Entrevistei-o. Peguei autógrafo. Caminhei pela praça da cidade conversando com ele. E quando vi, estava de novo com O Menino Maluquinho na cabeça. Moacyr Scliar, Luiz Antonio de Assis Brasil, Armindo Trevisan, Airton Ortiz, Juremir Machado da Silva. As Feiras do Livro me deixaram frente a frente com eles. Em Frederico veio o L.F. Verissimo!
Eu só lamento que o espírito das feiras não seja perene. Que, no outro dia, tudo fique esquecido. Que os livros comprados na maioria das vezes fiquem nas prateleiras. Que nas escolas, a leitura fique posta de lado para que o conteúdo seja concluído. Gostaria que um dia ainda fosse inventada uma fórmula mágica para que todo o dia fosse dia do livro.
publicado em 12 de outubro na Folha
sexta-feira, 5 de novembro de 2010
Deixa a mulher trabalhar
Bom, ganhou a Dilma. Será a primeira mulher presidente do Brasil (embora também correto, não gosto do termo presidenta). A única entre os 40 que tivemos até agora. E além do enorme desafio que o cargo já oferece, creio que nossa presidente eleita vá enfrentar ainda mais dificuldades. Explico:
1) Dilma sucederá um governo com mais de 80% de aprovação. Embora tenha sido indicada pelo presidente, Dilma não é Lula, um homem que por sua história está acima do próprio PT. O carisma do presidente é algo ocorrido “nunca antes na história desse país” (frase que o próprio gosta muito de usar). E foi esse mesmo carisma que blindou em parte “o homem” das críticas, das denúncias e de ser envolvido nos escândalos que aconteceram durante o governo. Dilma terá que criar um carisma que não tem para enfrentar situações que Lula driblou com maestria. Precisará do apoio da tropa de choque.
2) Até então, Lula foi o único candidato do PT à presidência. Dilma surgiu por indicação de Lula, não do PT. Na fila, antes dela, havia vários nomes, como José Dirceu, Antônio Palocci, José Geonoíno, Aloísio Mercadante, e até mesmo Tarso Genro. Todos já enfrentaram longas jornadas eleitorais, enquanto Dilma o fez pela primeira vez (como candidata). Creio que uma das dificuldades será lidar com algumas vaidades de pessoas que não enfrentavam Lula (o chamado fogo amigo).
3) O fantasma de Lula. A possibilidade do atual presidente retornar daqui há quatro anos pode pressionar Dilma. Duvido que alguém que coloque a faixa presidencial admita fazer um mandato “tampão”. E também há uma fila bem grande de pessoas interessadas em ser maquinista deste trem verde-amarelo.
4) Lula é um mestre da política. Conseguiu costurar alianças que até assumir o Governo eram impensáveis. Mesmo assim não teve muita facilidade para saciar a sede por cargos desses aliados, sobretudo o PMDB. Aquele que se intitula o maior partido do Brasil não vai arrefecer. O mesmo deve acontecer com as siglas que declararam apoio de última hora ou até mesmo que ficaram em cima do muro. Resta saber qual será o valor da fatura...
5) Dilma perdeu para Serra no Sul e no Centro-Oeste. Ganhou apertado no Sudeste. Para conquistar terreno da metade para baixo do mapa, apenas a política social não bastará. Será preciso tirar vários coelhos da cartola.
6) Copa do Mundo. A quantidade de dinheiro público envolvido pode resultar em fortes dores de cabeça. É um prato cheio para a imprensa. Se a coisa não sair como imaginada, se a conta for muito mais salgada do que o previsto, vai sobrar para o governo. Risco de desgaste.
***
Embora não seja gaúcha, Dilma radicou-se aqui. Pela primeira vez após o Regime Militar, teremos sentada na cadeira mais importante do país alguém umbilicalmente ligado ao nosso Estado (lembrando que três dos cinco generais presidentes eram gaúchos – Costa e Silva, Médici e Geisel). Antes, ainda foram presidentes gaúchos o gabrielense Hermes da Fonseca (1910-1914), Getúlio Vargas (1930-1945, 1951-1954}) e João Goulart (1961-1964). Não deixa de ser irônico: antes os generais, agora a “guerrilheira”. Mas irônico ainda é que Dilma não recebeu a maioria dos votos no Estado onde vota. É o alerta de uma unidade federativa que pede mais atenção. Agora é hora de esperar pelos resultados. É hora de deixar a mulher trabalhar!
1) Dilma sucederá um governo com mais de 80% de aprovação. Embora tenha sido indicada pelo presidente, Dilma não é Lula, um homem que por sua história está acima do próprio PT. O carisma do presidente é algo ocorrido “nunca antes na história desse país” (frase que o próprio gosta muito de usar). E foi esse mesmo carisma que blindou em parte “o homem” das críticas, das denúncias e de ser envolvido nos escândalos que aconteceram durante o governo. Dilma terá que criar um carisma que não tem para enfrentar situações que Lula driblou com maestria. Precisará do apoio da tropa de choque.
2) Até então, Lula foi o único candidato do PT à presidência. Dilma surgiu por indicação de Lula, não do PT. Na fila, antes dela, havia vários nomes, como José Dirceu, Antônio Palocci, José Geonoíno, Aloísio Mercadante, e até mesmo Tarso Genro. Todos já enfrentaram longas jornadas eleitorais, enquanto Dilma o fez pela primeira vez (como candidata). Creio que uma das dificuldades será lidar com algumas vaidades de pessoas que não enfrentavam Lula (o chamado fogo amigo).
3) O fantasma de Lula. A possibilidade do atual presidente retornar daqui há quatro anos pode pressionar Dilma. Duvido que alguém que coloque a faixa presidencial admita fazer um mandato “tampão”. E também há uma fila bem grande de pessoas interessadas em ser maquinista deste trem verde-amarelo.
4) Lula é um mestre da política. Conseguiu costurar alianças que até assumir o Governo eram impensáveis. Mesmo assim não teve muita facilidade para saciar a sede por cargos desses aliados, sobretudo o PMDB. Aquele que se intitula o maior partido do Brasil não vai arrefecer. O mesmo deve acontecer com as siglas que declararam apoio de última hora ou até mesmo que ficaram em cima do muro. Resta saber qual será o valor da fatura...
5) Dilma perdeu para Serra no Sul e no Centro-Oeste. Ganhou apertado no Sudeste. Para conquistar terreno da metade para baixo do mapa, apenas a política social não bastará. Será preciso tirar vários coelhos da cartola.
6) Copa do Mundo. A quantidade de dinheiro público envolvido pode resultar em fortes dores de cabeça. É um prato cheio para a imprensa. Se a coisa não sair como imaginada, se a conta for muito mais salgada do que o previsto, vai sobrar para o governo. Risco de desgaste.
***
Embora não seja gaúcha, Dilma radicou-se aqui. Pela primeira vez após o Regime Militar, teremos sentada na cadeira mais importante do país alguém umbilicalmente ligado ao nosso Estado (lembrando que três dos cinco generais presidentes eram gaúchos – Costa e Silva, Médici e Geisel). Antes, ainda foram presidentes gaúchos o gabrielense Hermes da Fonseca (1910-1914), Getúlio Vargas (1930-1945, 1951-1954}) e João Goulart (1961-1964). Não deixa de ser irônico: antes os generais, agora a “guerrilheira”. Mas irônico ainda é que Dilma não recebeu a maioria dos votos no Estado onde vota. É o alerta de uma unidade federativa que pede mais atenção. Agora é hora de esperar pelos resultados. É hora de deixar a mulher trabalhar!
quarta-feira, 3 de novembro de 2010
Que o ministro Dipp esteja certo
Estava indo para o trabalho, ainda meio dormindo, na manhã desta quarta-feira, quando ouvi a entrevista do ministro do Superior Tribunal de Justiça, Gilson Dipp, em uma das emissoras de rádio. Ele falou sobre a possibilidade de o Tribunal Superior Eleitoral fazer algumas mudanças nas próximas campanhas para valorizar mais o trabalho dos candidatos. Uma das frases mais marcantes dele foi a crítica aos partidos, mais preocupados com os marqueteiros do que com a posição programática e ideológica do candidato. Mas hoje não é esse o assunto.
O ponto alto, para este ouvinte, foi o testemunho sobre a personalidade dos dois presidenciáveis. “Tenho certeza que, quem conhece Dilma e Serra, está surpreso com o comportamento dos dois. Eles não são assim, são pessoas de bem, inteligentíssimos. Quem vencer será um bom presidente”, atestou Dipp, em palavras parecidas com estas... Depois dos últimos episódios, isso pareceu uma luz no fim do túnel.
Comecei a lembrar do que eu pensava de Serra e Dilma antes do pleito. Simpatizava com os dois, embora sempre tenha desconfiado de algumas más companhias. Sempre admirei Serra, por estar há tanto tempo na vida pública e não ter a ficha maculada. Se São Paulo vive há tantos anos sob a administração tucana, muito se deve à credibilidade dele enquanto prefeito e governador. Comecei a acompanhar política mais de perto quando ele era ministro, e acho que ele desempenhou um baita papel.
Não acho válidas as críticas à Dilma por ter sido guerrilheira. Até hoje penso que, se tivesse no lugar dos jovens que passaram pelo período do Regime Militar, possivelmente teria me metido em confronto com a “ordem” que se estabeleceu (vou tomar pedrada por essa até em casa). Até porque, na juventude, nossas atitudes não são tão bem pensadas (ao menos não sob a ótica de pessoas maduras, experientes, vividas, e sobretudo com algo a perder). Não há a visão de que isso poderá ser utilizado contra si um dia (e acho que é esse o pensamento que faz com que as pessoas não façam tudo o que têm vontade). Politicamente, Dilma também sempre demonstrou talento, e embora seja a primeira vez que passe pelas experiência das urnas, e que seja uma herdeira política dos votos de Lula, penso que poderá sim fazer um bom trabalho.
A chave de um bom trabalho são os personagens que darão sustentação ao futuro governo. Embora Dilma e Serra, pelo que se sabe, sejam bastante centralizadores, não vão conseguir dar conta de tudo. E nos dois lados há políticos competentes, e outros nem tanto. E, como sem maioria ninguém consegue governar, vão precisar ceder porque, mesmo quem hoje é companheiro, amanhã pode abandonar o barco. Vão precisar de jogo de cintura, um dos principais ingredientes que também integra o que hoje chamamos de política. A troca de acusações que temos observado é justamente contra outros que (supostamente) comprometeram os trabalhos. Ao proteger os seus, esqueceu-se dos planos de governo. Em meio a toda a fumaça produzida pelo marketing, não conseguimos visualizar a essência de cada candidato. Como num Big Brother, ficamos, em parte, com o lado “mau” deles...
Mas sobrou a lembrança (ou esperança?) de que, longe da campanha, eles são pessoas honestas e trabalhadoras. Dessa vez, vou (ao menos quero) acreditar no ministro Dipp.
publicado na FN em 29-10-10
O ponto alto, para este ouvinte, foi o testemunho sobre a personalidade dos dois presidenciáveis. “Tenho certeza que, quem conhece Dilma e Serra, está surpreso com o comportamento dos dois. Eles não são assim, são pessoas de bem, inteligentíssimos. Quem vencer será um bom presidente”, atestou Dipp, em palavras parecidas com estas... Depois dos últimos episódios, isso pareceu uma luz no fim do túnel.
Comecei a lembrar do que eu pensava de Serra e Dilma antes do pleito. Simpatizava com os dois, embora sempre tenha desconfiado de algumas más companhias. Sempre admirei Serra, por estar há tanto tempo na vida pública e não ter a ficha maculada. Se São Paulo vive há tantos anos sob a administração tucana, muito se deve à credibilidade dele enquanto prefeito e governador. Comecei a acompanhar política mais de perto quando ele era ministro, e acho que ele desempenhou um baita papel.
Não acho válidas as críticas à Dilma por ter sido guerrilheira. Até hoje penso que, se tivesse no lugar dos jovens que passaram pelo período do Regime Militar, possivelmente teria me metido em confronto com a “ordem” que se estabeleceu (vou tomar pedrada por essa até em casa). Até porque, na juventude, nossas atitudes não são tão bem pensadas (ao menos não sob a ótica de pessoas maduras, experientes, vividas, e sobretudo com algo a perder). Não há a visão de que isso poderá ser utilizado contra si um dia (e acho que é esse o pensamento que faz com que as pessoas não façam tudo o que têm vontade). Politicamente, Dilma também sempre demonstrou talento, e embora seja a primeira vez que passe pelas experiência das urnas, e que seja uma herdeira política dos votos de Lula, penso que poderá sim fazer um bom trabalho.
A chave de um bom trabalho são os personagens que darão sustentação ao futuro governo. Embora Dilma e Serra, pelo que se sabe, sejam bastante centralizadores, não vão conseguir dar conta de tudo. E nos dois lados há políticos competentes, e outros nem tanto. E, como sem maioria ninguém consegue governar, vão precisar ceder porque, mesmo quem hoje é companheiro, amanhã pode abandonar o barco. Vão precisar de jogo de cintura, um dos principais ingredientes que também integra o que hoje chamamos de política. A troca de acusações que temos observado é justamente contra outros que (supostamente) comprometeram os trabalhos. Ao proteger os seus, esqueceu-se dos planos de governo. Em meio a toda a fumaça produzida pelo marketing, não conseguimos visualizar a essência de cada candidato. Como num Big Brother, ficamos, em parte, com o lado “mau” deles...
Mas sobrou a lembrança (ou esperança?) de que, longe da campanha, eles são pessoas honestas e trabalhadoras. Dessa vez, vou (ao menos quero) acreditar no ministro Dipp.
publicado na FN em 29-10-10
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