quinta-feira, 28 de outubro de 2010

A religião desviou o debate

O rumo das discussões da campanha neste segundo turno está me dando vertigem. Tanto que vou deixar minha “A eleição que me deu razão (parte três)” para outra hora (enquanto durar o enjôo). Eu esperava que, com apenas dois candidatos, o conteúdo dos debates seria enriquecido. Tinha comigo a certeza de que veríamos em discussão projetos para que nosso país passasse por uma revolução para se tornar a maior potência do mundo! Ok, ironias a parte, eu esperava apenas um pouco menos de picuinhas...
A profusão de baixarias sempre é uma tendência. Mas desta vez, foi aberta a caixa de ferramentas. Até acho que, comprovados, os episódios obscuros envolvendo as siglas e os personagens têm que ser lembrados (infelizmente, boa parte dos esqueletos só saem do armário em época de eleição mesmo). Mas... vai ficar só nisso? Nosso pleito se limitou a uma guerra com três eixos: 1) o que o Lula fez X o que o Serra fez; o que Lula e Dilma não fizeram X o que Serra e FHC deixaram de fazer; 2) escândalos envolvendo a tropa de choque de Dilma X escândalos envolvendo a turma de Serra; 3) muitas promessas vagas e ilusórias que não serão cumpridas por ambas as partes. De zero a dez, o nível oscila entre dois e três. Isso é conteúdo para o programa do Datena...
Para piorar tudo, alguns líderes religiosos entraram em ação: a Igreja Universal do Reino de Deus (e o senador reeleito pelo RJ, Marcelo Crivella (PRB), sobrinho de Edir Macedo) está com Dilma; a Assembleia de Deus (e o ultra-ortodoxo Silas Malafaia), com Serra; em São Paulo, aparecem panfletos supostamente impressos por integrantes da Igreja Católica contra a Dilma. Um dramalhão!
Convenhamos: religião não se mistura com política. Já é complicado ter que aturar a concorrência entre pastores na televisão para arrecadar donativos para as máquinas pentecostais (uma hora dessas entro na discussão do que é neo, iso, pós ou pseudo-pentecostais. Vou generalizar porque o espaço é curto). Agora, ter que aturar também seus principais líderes envolvidos nos programas eleitorais é um desrespeito (golpe baixo). Utilizar-se de instituições religiosas, que tem o poder de “convencer” uma enorme gama de fieis é antidemocrático! Embora digam não obrigar os fieis a votarem em quem apoiam, contrariar os pastores (ou padres, ou bispos, ou pais-de-santo, o que for!) deixa o eleitor com a impressão de estar cometendo pecado (alguns, pelo menos)! Sem contar que o debate fica ainda mais resumido a questões que não expressam o necessário para o desenvolvimento do país (aborto e união civil de homossexuais são assuntos importantes, mas a legalização ou não dificilmente vão tirar o povo da miséria ou aumentar o número de empregos).
Assim como o futebol, religião é um assunto que mexe menos com a razão do que com paixões, cega as pessoas para argumentos plausíveis. Não é à toa que, de uma forma bem mais exacerbada do que acontece por aqui obviamente, a religião é combustível de vários conflitos (sem muito sentido para quem está longe) pelo mundo. Só que tudo tem um começo. Fico imaginando se a rivalidade (que é velada) entre Assembleia de Deus e IURD fosse ampliada, o que seria dos nossos programas de tevê...
Por favor, não me interpretam mal. Acho que, como representantes de instituições numerosas, creio que as autoridades religiosas deveriam, sim, alertar o “rebanho” quanto ao conjunto de ideias de cada candidato, mas nunca se intrometer num pleito. O Brasil é um Estado laico. E os programas de governo não podem deixar de ser avaliados por causa de questões que devem ser resolvidas depois, junto aos deputados. Deixem Ele de fora disso. Porque, uma campanha como essa, nem Ele aguenta!


publicado em 22-10-10

terça-feira, 19 de outubro de 2010

A eleição que me deu razão (parte dois)

PT e PMDB estão juntinhos na eleição para presidente. No Rio Grande do Sul, contudo, os partidos (leia-se, a maioria dos caciques), continuam sendo oposição um ao outro. E, neste round, o PT goleou o PMDB (as outras grandes siglas também). Explicarei o que eu já imaginava que poderia ocorrer antes do pleito.
1) Fritura de líderes: nada mais, nada menos do que as quatro principais lideranças peemedebistas do RS afundaram. Fogaça, que repetiu Tarso há oito anos ao sair da prefeitura de POA no meio do mandato, sequer atingiu o segundo turno; Rigotto, que seria um candidato natural ao governo, por já ter sido chefe do Executivo estadual e por, em tese, ter ficado fora do segundo turno no último pleito por “descuido” dos correligionários (ele também tem parcela de culpa quando decidiu se lançar ao Senado sozinho, sendo que nomes de peso, os deputados federais Eliseu Padilha e Ibsen Pinheiro, poderiam ter contribuído para que o segundo voto dos simpatizantes do PMDB fossem para Ana Amélia e Paim); Eliseu Padilha, detentor de quatro mandatos seguidos como deputado federal, que acabou na primeira suplência para a Câmara; e Pedro Simon, que após os maus resultados do pleito renunciou à presidência da sigla.
2) Murismo: evitar se posicionar entre Serra (favorito da maioria dos caciques gaúchos) e Dilma (PMDB indicou o vice da chapa), deixou os eleitores confusos. Esse posicionamento reflete a crise que o PMDB vive depois de passar tantos anos governando com qualquer sigla, andando em cima do muro como uma lesma consegue andar sobre o fio da navalha sem se cortar. Até o Rigotto atribuiu, após a derrota, o adjetivo “murismo” à sigla.
3) Falta de renovação: esse é um mal que atinge a quase todos os partidos, e será novamente objeto em futuras colunas. Mas, se compararmos esse pleito para o outro, foram perdidas uma cadeira na Câmara dos Deputados e outra na Assembleia. Ibsen e Schirmer, que em 2006 foram o quinto e o sexto mais votados do PMDB, não concorreram. Biolchi pai e outros suplentes com boa votação também não deram as caras. Para ajudar a bancada federal a não fazer feio, Alceu Moreira e Záchia tentaram trocar a AL pela CD. Não adiantou. De cinco deputados, baixou para quatro. Na AL, de nove agora são oito. Além de Moreira e Záchia, Alberto Oliveira desistiu de concorrer porque considerou as campanhas “caras demais”, segundo palavras dele mesmo que ouvi em corredores desta vida. As (nem tão) novidades foram Giovani Feltes e Maria Helena Sartori, ambos com mais de 50 anos.
4) O PT de Tarso não pretende, pelo menos num primeiro momento, convidar o PMDB para participar do Governo. Caso faça, e se a sigla aceitar, poderá manter alguns CC’s trabalhando e contribuindo com a caixinha mensal do partido, mas perderá a identidade. Se ficar na Oposição, e se souber fazer oposição como o PT fez (o que é improvável, porque do centro do país deve vir a ordem para “maneirar” - haverá cargos federais em jogo), terá de fazer à míngua, o que não deixa de ser muito complicado.
5) Daqui a quatro anos, Simon não concorrerá mais. Fogaça, Rigotto e Padilha perderam força. Renovar, desde as lideranças até o eleitorado, é a palavra de ordem. Se o maior partido do Brasil não conseguir aprender com os próprios erros, deixará ainda mais o protagonismo da política nacional. Quem perde, é a base do partido, porque os figurões saberão manter os próprios interesses...

publicada em FN no dia 15 de outubro de 2010

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

A eleição que me deu razão (parte 1)

Adorei a campanha eleitoral deste ano. Ela comprovou muitas ideias que eu tinha sobre nosso sistema eleitoral. Especialmente aquelas que indicam nossa forma de eleger os representantes. Vamos às considerações:
1 - O sistema de quocioente eleitoral (somar os votos válidos e dividir pelo números de cadeiras a serem ocupadas) desrespeita os eleitores. Com os partidos cada vez mais desacreditados, não faz sentido os votos dados a uma legenda serem somados. Por exemplo: 90% dos 480 mil eleitores que elegeram Manuela D’Ávila (PcdoB) nunca ouviram falar em Assis Melo, que fez pouco mais de 20 mil votos, ou mais de 100 mil a menos do que Luciana Genro (PSOL), cuja sigla não atingiu o tal quociente por 13 mil votos. Essa regra é uma das responsáveis por coligações muito estranhas, em que a ideologia está abaixo da “cooperação” na busca da maior quantidade possível de cadeiras nos Legislativos. Sem falar que isso favorece a opção por fenômenos eleitorais como Tiririca, pessoas com pouca afinidade com a Política, mas capazes de angariar “nojeiras” de votos.
Também favorece o desequilíbrio econômico dentro do partido (uma sigla pode apostar fazer a campanha com ênfase muito maior em um candidato e destinar muito mais recursos para um em detrimento dos outros, assim como o tempo de tv, como ocorreu com os dois já citados e também com Beto Albuquerque, do PSB) e a opção por candidatos milionários ou com grande capacidade de buscar investidores (como Paulo Ferreira, tesoureiro do PT, campeão em arrecadação de investidores na própria campanha), justamente porque... deixa que esse é o segundo ponto;
2 – O poder econômico tomou conta desta campanha. Basta dizer que os maiores partidos estimaram gastos máximos para deputados federais, por exemplo, com sete dígitos. Basta dizer que muitos concorrentes à Câmara dos Deputados bancaram postulantes desconhecidos na busca de uma cadeira ao Legislativo, em troca de trabalho por votos. Esta estratégia é muito clara na campanha petista, que elegeu 14 deputados estaduais e ampliou para oito seu time federal. Claro que muito se deve também ao fato de a sigla provocar uma disputa acirrada entre os próprios “companheiros”, quando manteve os sete federais e incentivou outros cinco estaduais a concorrer. O resultado – não acho isso ruim, e foi mérito dos estrategistas petistas, não fosse o alto custo ($$$) para tanto - foi que muitos candidatos desconhecidos garantiram um gabinete na AL;
3 – A eleição de Manuela com um recorde histórico de votos reflete menos o trabalho desenvolvido pela gata e mais o desconhecimento, a despolitização e o desinteresse das pessoas pela Política. A opção por Danrlei, com seus vários títulos pelo Tricolor Gaúcho, segue na mesma linha.
Temos até o final do ano para fazer novas considerações. Deixa a poeira baixar para isso poder ficar mais visível – e também mais digerível.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Seja o que Deus quiser!

Quando você estiver lendo essa coluna, faltarão menos de três dias para que sejam conhecidos quem serão nossos senadores e deputados federais e estaduais. Quiçá, o(a) governador(a) e o(a) presidente (embora eu torça para que isso não aconteça, pura e simplesmente por achar que o segundo turno é a melhor maneira de se decidir quem deve mandar, com três semanas com tempos de publicidade destinados igualitariamente entre os candidatos e debates apenas com a participação dos dois mais votados).

O que isso quer dizer? Mesmo não sendo uma pessoa muito otimista, ainda acho que significa muito. O perfil dos eleitos indica o que podemos esperar da próxima legislatura. Assim, é bom que nossa parte seja feita antes do pleito. Proponho pensar quais são os motivos que nos levam a votar em alguém.

Em primeiro lugar, de uma perspectiva local. Lembro que, quando morava em Santa Maria, algumas entidades empresariais faziam campanha aberta para que os moradores optassem pelos candidatos egressos do município. A intenção era buscar, depois da eleição, o comprometimento destes com o povo local. Pela lógica, quem é da casa, preocupa-se mais com a terrinha, é identificado com ela. E isso é uma atitude dos políticos que eu percebo que realmente acontece. Todos tentam proteger os seus. Os mais entusiastas, buscam o máximo de recursos pela sua região. Já os mais Sarneys, de uma forma politicamente distorcida, buscam um abrigo para a própria família...

Outro ponto de vista está focado nas discussões nacionais. Sempre entrarão em pauta questões como o aumento do salário mínimo, o aumento de repasses para a saúde, para a educação e para os municípios, a união homossexual, a regulamentação do aborto, o endurecimento da lei penal, a preservação dos direitos humanos, a defesa do meio ambiente, etc... É preciso atenção para não escolher um candidato com posições diferentes das tuas. Depois não adianta esbravejar. Este é o perigo de ser desinformado...

Quanto aos candidatos ao Executivo. Quem eleger? Também vejo sob dois pontos de vistas. O primeiro é a liderança, o carisma, a capacidade política de aglutinar forças para desenvolver um projeto nacional. Quero um candidato assistencialista? Populista? Alguém focado no ajuste de contas? Que se preocupa com a política externa? Que busca o continuísmo? Ou alguém que quer virar o Brasil de ponta cabeças? Qual a história dessa pessoa? Esteve metida em escândalos?

Por outro lado, o que considero o principal, reflete aquele velho deitado do tempo da nona. “Diga-me com quem andas, que te direi quem és”. Num país onde a maioria diz “não voto no partido, voto na pessoa”, é preciso buscar saber quem está com quem. Afinal, escolhe-se o presidente, mas não seus ministros e cargos de confianças. E, se isso passar despercebido, teremos que engolir frases como “eu não sabia de nada” bem quietinhos.

***

Acompanhando nas ruas a reação das pessoas durante a campanha, leio o que escrevi acima e caio na real. Senso crítico ainda é algo para poucos. Quase tudo o que se ouve são generalidades. Outro tanto, daqueles que sabem menos ainda do que as generalidades, são facilmente influenciados por pessoas que repetem discursos feitos. Aquilo que considero um dever cívico, a consciência de que se escolheu o melhor, na verdade, é apenas a representação de uma queda de braço ganha por quem tem mais gente na rua pedindo voto. É nessas horas que encho meu peito, olho acima do horizonte e exclamo: “Deus nos acuda”.

(Publicada em 01-10-10)