As exonerações de ministros de Dilma criaram um mal estar muito grande entre os petistas. Isso porque a presidente ganha fama de ser linha dura contra a corrupção. Os elogios que partem da opinião nesse sentido, que deveriam ser louvados, estão ganhando outra interpretação: a de que Dilma está fazendo o que Lula não fez ou, num sentido mais amplo, a de que as faxinas dão a entender de que o governo do ex-presidente era corrupto.
É uma questão de lógica: se os ministros, ou os assessores diretamente ligados a eles, são os mesmos, alguns fatos aconteceram no governo passado. Se levarmos em conta que a presidente assumiu há pouco mais de oito meses, e que as operações que desbarataram esquemas fraudulentos não foram feitas do dia para noite, fica claro que o Governo Lula não foi um símbolo de honestidade, com Lula tendo conhecimento das falcatruas ou não.
Aqui não vai uma crítica diretamente, ou exclusivamente, ao maior ícone petista. Aceito os argumentos de que apenas nos últimos anos órgãos como a Polícia Federal, o Ministério Público e o Tribunal de Contas da União ganharam corpo e maturidade suficiente para fazer operações que não tinham tanta força na época de FHC, Itamar, Collor, Sarney e muito menos durante a Ditadura (queria ver quem teria peito de investigar os generais...). O problema nisso tudo é que vejo não apenas a tentativa de tornar Lula um santo pelas conquistas sociais, mas sim para trazê-lo de volta em 2014.
Leitor, não me entenda mal. Lula sempre será visto como o homem humilde que chegou à presidência e que, bem ou mal, manteve a economia no eixo do crescimento apesar de forte crise, que diminuiu o número de miseráveis do Brasil, que ampliou as vagas nas universidades federais, etc, etc, etc. Mas, infelizmente, é impossível negar que sua gestão alcançou tudo isso a partir do inchaço da máquina pública e de alianças com pessoas de moral duvidosa para manter a tal “governabilidade”, alianças estas bastante heterogêneas, e não ideológicas, que serviram de sustentação para fazer com que ele alcança-se a maior popularidade “nunca antes na história desse país” vista. Lula pagou um preço. Assim como Dilma pagará o inverso se continuar mexendo na posição dessa gente.
***
Uma das coisas que mais me irrita quando converso sobre política é quando o interlocutor é apaixonado o suficiente para não enxergar defeitos naquilo que defende, no caso, em Lula. Eu não agüento esta barreira que se criou ao redor da imagem do ex-presidente, que transforma ele em algo acima de tudo e de todos, como se fosse mais do que humano. É uma defesa cega, de quem aceita que coisas ruins possam ser compensadas por coisas boas e vice-versa. Se você tentar discutir mensalão, dificilmente não será alvejado por uma chuva de argumentos do tipo “ele fez isso, ele fez aquilo, ele é o cara”, etc. É irritante. Tão irritante como discutir futebol com um torcedor do time que está por baixo, pois ele sempre puxará títulos do passado para justificar que seu clube é o melhor.
Entendam: ninguém é perfeito. Essa necessidade de se criar um herói (sobretudo entre alguns militantes xiitas de esquerda, se é que o termo “esquerda” ainda possa ser aplicado) é uma bobagem, é aceitar viver de ilusão, é simpatizar com um assaltante que levou a carteira, mas que deixou os documentos (isto é apenas uma metáfora, não estou chamando Lula de assaltante, apenas criticando aqueles que fecham os olhos para “probleminhas” de sua gestão). É cegueira política!
26-08-11
Espaço destinado a publicar as colunas que escrevo desde 01-05-09 no jornal Folha do Noroeste, de Frederico Westphalen. E eventualmente para qualquer outra coisa. Sobretudo, para expôr minha visão das coisas, o que na maioria das vezes não quer dizer muita coisa. Ps: São todos textos do Thiago Buzatto.
terça-feira, 30 de agosto de 2011
Rifas e mais rifas
“Tio, tio, quer comprar uma rifa?”. É para ajudar na compra de equipamentos
para o grupo de jovens A, para a cobertura da quadra esportiva da escola municipal B,
para a compra de livros para a escola estadual Y, para mandar fazer os trajes do grupo
de danças TAL, para custear parte da viagem da escolhinha Z. Um real o número, dois
reais, cinco, dez, 20. Concorre a um ferro elétrico, um DVD, um computador, uma
camiseta. Mas um muito obrigado sempre é garantido.
Quem nunca teve que vender uma rifa atire a primeira pedra. Eu perdi as contas
de quantas rifas tive que vender. Foi para a escolhinha de futebol, para o CTG, para a
escola, para o grupo de danças étnicas. E geralmente vendia muito poucos números,
sempre para os mesmos tios e vizinhos. Tinha vergonha. Fazia aquilo sempre porque
os “tios” das entidades mandavam, mesmo sendo beneficiado de alguma forma com
aquilo achava que as pessoas ficariam ofendidas com o oferecimento de um número.
Acabava que mais da metade do bloco ficava para meus pais venderem para alguns
amigos e comprassem o restante. Foram muitos os números comprados por eles, e não
lembro de terem conseguido algum prêmio...
Lembrei de tudo isso nessa semana, em que participei de uma reunião de pais.
Vem mais rifa por aí. Como tantas outras que devem estar circulando na praça. Mas
hoje eu já penso diferente de quando era mais novo. Até porque já não estou mais do
lado daqueles que vendem, e sim daqueles que compram os números. Por mais que às
vezes a vontade seja de dizer não, sou a favor das ações entre amigos.
Claro que há rifas e rifas. As entidades também precisam ter “desconfiômetro”
e não pôr praça bloquinhos por qualquer coisa. Mas eu entendo as dificuldades pelas
quais esses grupos passam. E além do mais, julgo que essas mordidinhas, que nos
incomodam um pouco, somadas a todas as outras mordidas, trazem benefícios. Se for
para cobrir uma quadra, é porque teremos mais uma opção de lazer para os jovens
praticarem esportes. Se for para a confecção de trajes, é porque na próxima promoção
na praça veremos os grupos ainda mais bonitos. E toda essa beleza nos representará
nos municípios fora daqui. O mesmo ocorre com escolhinhas de futebol. Essa gurizada
vai divulgar nossos clubes em outras querências. Além de tudo, vão conhecer lugares
novos, sair da rotina, confraternizar com pessoas de outros cantos. Mas, principalmente,
os trocados usados para comprar um número de rifa vão incentivar a molecada a
manter uma atividade saudável, a conviver socialmente, e afastar em parte o perigo da
criminalidade ou drogadição. E mesmo quando a rifa é coisa de “adulto”, geralmente há
intenções altruístas por trás dos blocos.
Solidariedade, essa é a característica da ação entre amigos. O mesmo vale para
almoços, jantar baile, pedágios, etc. O importante não é levar para o lado da “mordida”
– tente nunca somar tudo o que você já investiu em rifas e não ganhou sequer um
relógio de parede. Pense que você está ajudando a viabilizar atividades saudáveis no seu
município.
Eu mesmo já pensei várias vezes em desviar a rua para fugir da gurizada dos
bloquinhos. Mas mudei de ideia no momento em que percebi porque alguém compra
um bilhete por cinco pila correndo o risco de ganhar uma tábua de passar roupa. É
só olhar nos olhos das crianças que chegam com uma rifa e pronto, não tem saída.
Aqueles “petebês” que estavam perdidos no bolso acham novo dono na hora.
19-08-11
para o grupo de jovens A, para a cobertura da quadra esportiva da escola municipal B,
para a compra de livros para a escola estadual Y, para mandar fazer os trajes do grupo
de danças TAL, para custear parte da viagem da escolhinha Z. Um real o número, dois
reais, cinco, dez, 20. Concorre a um ferro elétrico, um DVD, um computador, uma
camiseta. Mas um muito obrigado sempre é garantido.
Quem nunca teve que vender uma rifa atire a primeira pedra. Eu perdi as contas
de quantas rifas tive que vender. Foi para a escolhinha de futebol, para o CTG, para a
escola, para o grupo de danças étnicas. E geralmente vendia muito poucos números,
sempre para os mesmos tios e vizinhos. Tinha vergonha. Fazia aquilo sempre porque
os “tios” das entidades mandavam, mesmo sendo beneficiado de alguma forma com
aquilo achava que as pessoas ficariam ofendidas com o oferecimento de um número.
Acabava que mais da metade do bloco ficava para meus pais venderem para alguns
amigos e comprassem o restante. Foram muitos os números comprados por eles, e não
lembro de terem conseguido algum prêmio...
Lembrei de tudo isso nessa semana, em que participei de uma reunião de pais.
Vem mais rifa por aí. Como tantas outras que devem estar circulando na praça. Mas
hoje eu já penso diferente de quando era mais novo. Até porque já não estou mais do
lado daqueles que vendem, e sim daqueles que compram os números. Por mais que às
vezes a vontade seja de dizer não, sou a favor das ações entre amigos.
Claro que há rifas e rifas. As entidades também precisam ter “desconfiômetro”
e não pôr praça bloquinhos por qualquer coisa. Mas eu entendo as dificuldades pelas
quais esses grupos passam. E além do mais, julgo que essas mordidinhas, que nos
incomodam um pouco, somadas a todas as outras mordidas, trazem benefícios. Se for
para cobrir uma quadra, é porque teremos mais uma opção de lazer para os jovens
praticarem esportes. Se for para a confecção de trajes, é porque na próxima promoção
na praça veremos os grupos ainda mais bonitos. E toda essa beleza nos representará
nos municípios fora daqui. O mesmo ocorre com escolhinhas de futebol. Essa gurizada
vai divulgar nossos clubes em outras querências. Além de tudo, vão conhecer lugares
novos, sair da rotina, confraternizar com pessoas de outros cantos. Mas, principalmente,
os trocados usados para comprar um número de rifa vão incentivar a molecada a
manter uma atividade saudável, a conviver socialmente, e afastar em parte o perigo da
criminalidade ou drogadição. E mesmo quando a rifa é coisa de “adulto”, geralmente há
intenções altruístas por trás dos blocos.
Solidariedade, essa é a característica da ação entre amigos. O mesmo vale para
almoços, jantar baile, pedágios, etc. O importante não é levar para o lado da “mordida”
– tente nunca somar tudo o que você já investiu em rifas e não ganhou sequer um
relógio de parede. Pense que você está ajudando a viabilizar atividades saudáveis no seu
município.
Eu mesmo já pensei várias vezes em desviar a rua para fugir da gurizada dos
bloquinhos. Mas mudei de ideia no momento em que percebi porque alguém compra
um bilhete por cinco pila correndo o risco de ganhar uma tábua de passar roupa. É
só olhar nos olhos das crianças que chegam com uma rifa e pronto, não tem saída.
Aqueles “petebês” que estavam perdidos no bolso acham novo dono na hora.
19-08-11
Pobre Dilma
Ando com pena da presidente Dilma. A cada escândalo envolvendo gente de seus ministérios, imagino o que ela deve estar pensando. “Onde é que fui me meter?”, é a frase que acho mais adequada ao momento vivido. Será que não bate um certo arrependimento de ter aceitado ser indicada por Lula como sucessora?
Sabemos que nossa presidente nunca chegaria ao cargo não fossem os esforços e a popularidade de Lula. Há quem diga que ela foi a escolhida justamente para fazer um mandato tampão, para preparar a volta do nosso “bom velhinho”. Só que, independentemente de como Dilma chegou ao governo, o “presente” só trouxe dores de cabeça. Mais ou menos como o netinho que ganha do avô um bonitão e luxuoso Ford Galaxie de mais de 40 anos e que pouco consegue andar porque consome muito combustível e porque está toda hora no conserto, a presidente se vê com uma herança indesejável.
Quando pegou o governo, teve que manter a estrutura do seu antecessor, especialmente para agradar a base aliada e ter “governabilidade”. Mas em menos de um ano à frente do governo, viu que precisará de muito sacrifício para acabar com algumas práticas que vinham sendo adotadas há anos. Não pense você, caro leitor, que são de hoje os problemas nos ministérios dos Transportes, das Cidades, da Agricultura, do Turismo. Apenas estouraram nos últimos dias. E estão mandando também para o espaço a popularidade da presidente. Segundo pesquisa do Ibope (*) divulgada na última quarta-feira, o governo é aprovado por 67% dos eleitores, ante 73% de março. O pior índice é o de desaprovação, que saltou de 12% para 25% em cinco meses. E aqueles que consideram o governo ótimo ou bom caíram de 56% ara 48%. Também devemos levar em conta que os escândalos no Ministério do Turismo ainda não haviam chegado às páginas dos jornais.
Pior é que Dilma se obriga a não desamparar os envolvidos. Para não macular ainda mais o governo, ela já exonerou alguns. Mas quem sai, tenta levar mais gente junto para a fogueira. Para evitar CPIs, o governo manda os envolvidos “espontaneamente” para Congresso. Os partidos, para não arcarem sozinhos com o ônus, incriminam o máximo de dirigentes de outras siglas. Parlamentares que são dos partidos envolvidos, mas que não estão ligados aos escândalos, se voltam contra os colegas para não ficarem queimados junto aos eleitores. É fogo amigo, fogo inimigo, uma briga de foice no escuro entre aqueles que amam o poder e se agarram aos cargos como se fosse um bote no oceano durante um tsunami. Tsunami, é isso mesmo que o governo Dilma está enfrentando.
A “pobre” presidente não pode confiar em ninguém. Dá para notar o embaraço cada vez que se vê obrigada a amainar os fatos. Deve estar se sentindo como o aluno que foi para a secretaria porque estava perto da turma dos bagunceiros. Como não tem cintura política como tinha Lula, e com uma paciência de ralo pavio, imagino Dilma socando diariamente as paredes do recém reformado Palácio do Planalto.
Em defesa da presidente, tenho a dizer que sei que muito não é culpa dela. E que torço para que sua popularidade baixe ainda mais, que todas as falcatruas sejam descobertas, e que ela tenha forças para exonerar ainda mais ministros e assessores de segundo e terceiro escalão. Enfim, que ela troque as peças do Galaxie caindo aos pedaços que ela recebeu e finalmente o coloque para andar.
(*) Pesquisa encomendada pela Confederação Nacional das Indústrias, realizada entre 28 e 31 de julho, com 2.002 eleitores com 16 anos ou mais em 141 municípios de todas as regiões do país. Margem de erro: 2 pontos percentuais para mais ou para menos.
publicada em 12-08-11
Sabemos que nossa presidente nunca chegaria ao cargo não fossem os esforços e a popularidade de Lula. Há quem diga que ela foi a escolhida justamente para fazer um mandato tampão, para preparar a volta do nosso “bom velhinho”. Só que, independentemente de como Dilma chegou ao governo, o “presente” só trouxe dores de cabeça. Mais ou menos como o netinho que ganha do avô um bonitão e luxuoso Ford Galaxie de mais de 40 anos e que pouco consegue andar porque consome muito combustível e porque está toda hora no conserto, a presidente se vê com uma herança indesejável.
Quando pegou o governo, teve que manter a estrutura do seu antecessor, especialmente para agradar a base aliada e ter “governabilidade”. Mas em menos de um ano à frente do governo, viu que precisará de muito sacrifício para acabar com algumas práticas que vinham sendo adotadas há anos. Não pense você, caro leitor, que são de hoje os problemas nos ministérios dos Transportes, das Cidades, da Agricultura, do Turismo. Apenas estouraram nos últimos dias. E estão mandando também para o espaço a popularidade da presidente. Segundo pesquisa do Ibope (*) divulgada na última quarta-feira, o governo é aprovado por 67% dos eleitores, ante 73% de março. O pior índice é o de desaprovação, que saltou de 12% para 25% em cinco meses. E aqueles que consideram o governo ótimo ou bom caíram de 56% ara 48%. Também devemos levar em conta que os escândalos no Ministério do Turismo ainda não haviam chegado às páginas dos jornais.
Pior é que Dilma se obriga a não desamparar os envolvidos. Para não macular ainda mais o governo, ela já exonerou alguns. Mas quem sai, tenta levar mais gente junto para a fogueira. Para evitar CPIs, o governo manda os envolvidos “espontaneamente” para Congresso. Os partidos, para não arcarem sozinhos com o ônus, incriminam o máximo de dirigentes de outras siglas. Parlamentares que são dos partidos envolvidos, mas que não estão ligados aos escândalos, se voltam contra os colegas para não ficarem queimados junto aos eleitores. É fogo amigo, fogo inimigo, uma briga de foice no escuro entre aqueles que amam o poder e se agarram aos cargos como se fosse um bote no oceano durante um tsunami. Tsunami, é isso mesmo que o governo Dilma está enfrentando.
A “pobre” presidente não pode confiar em ninguém. Dá para notar o embaraço cada vez que se vê obrigada a amainar os fatos. Deve estar se sentindo como o aluno que foi para a secretaria porque estava perto da turma dos bagunceiros. Como não tem cintura política como tinha Lula, e com uma paciência de ralo pavio, imagino Dilma socando diariamente as paredes do recém reformado Palácio do Planalto.
Em defesa da presidente, tenho a dizer que sei que muito não é culpa dela. E que torço para que sua popularidade baixe ainda mais, que todas as falcatruas sejam descobertas, e que ela tenha forças para exonerar ainda mais ministros e assessores de segundo e terceiro escalão. Enfim, que ela troque as peças do Galaxie caindo aos pedaços que ela recebeu e finalmente o coloque para andar.
(*) Pesquisa encomendada pela Confederação Nacional das Indústrias, realizada entre 28 e 31 de julho, com 2.002 eleitores com 16 anos ou mais em 141 municípios de todas as regiões do país. Margem de erro: 2 pontos percentuais para mais ou para menos.
publicada em 12-08-11
Criaturas de hábitos noturno
Há cerca de oito meses, montei um bar em Porto Alegre. Muitos amigos acharam que eu estava ficando louco, outros me diziam que eu estava realizando o sonho deles. Sem dúvida, era uma experiência completamente nova. E um tanto diferente do que eu esperava.
Sempre gostei da noite. E sempre tive a certeza de que as pessoas mais interessantes, inteligentes, cultas, com opinião também gostassem. Esperava isso porque meus principais ídolos, seja da literatura, do jornalismo, da política ou da música, foram (ou são) grandes boêmios. Não é necessário enumera-los, basta pensar no século ou década que se encontram dúzias de grandes personalidades que gostava de um bar. O que não levava em conta é que, infelizmente, para cada pessoa diferenciada que se encontra na noite, há milhares de outras com um “currículo” não tão bom.
Não que não esperasse não conviver com essas “criaturas”. Meu sócio já havia advertido por conhecer a freguesia (na verdade eu mesmo era cliente do antigo bar dele, que ficava na esquina de casa), que ele chama de “diabedo”. Com o tempo, eu também adotei o termo de forma “carinhosa”. Até porque a quantidade de viciados, traficantes, vigaristas, desocupados e corruptos (sobretudo policiais!) que se conhece não é pequena. E todos têm histórias de vida semelhantes de qualquer conhecido seu.
Nesses meses, perdi mais minha inocência do que quando descobri que não tinha sido a cegonha que me trouxe para esse mundo. Não que tenha me envolvido nas práticas escusas de cada uma dessas pessoas. Mas porque, efetivamente, descobri que essas atividades marginais não escolhem cor, idade, classe social, etc. Para quem convivia mais tempo geralmente com pessoas sem essas práticas, foi um choque. Especialmente por causa das drogas: o que antigamente chamava-se de exceções, já virou regra há muito tempo.
E o pior: as pessoas chegam perto de você sem causar medo algum. São sujeitos “boa praça”, de fala mansa, divertidos, que não botam banca, e que são respeitosos. Na rua em que eu morava, e onde montei o estabelecimento, ninguém assaltava, roubava carros ou praticava qualquer crime. Caso acontecesse, os traficantes mostravam poder de polícia. No meu bar mesmo, a ordem era comportamento, porque os traficantes gostavam do ambiente e não queriam problemas, especialmente porque sabiam que nem eu nem meu sócio éramos do “metiê”. Um sujeito que quase chegou às vias de fato com a própria mulher no meu bar foi impedido, não por mim, mas pelos traficantes de freqüentar o local.
Vocês acham que eu iria impedir eles de freqüentar o bar? Só se eu quisesse perder 90% da freguesia. E não era porque era o meu bar: conversando com outros proprietários, inclusive de bares de classe A, o resultado é o mesmo. O uso de drogas, assim como alarma por atingir tanta gente, é silencioso porque quem deve teme. Não há conflitos. E é assim que o tráfico avança. Na “manha”, de cara limpa e com um sorriso no rosto, ocupando os lugares que menos se espera. Foi dessa maneira que se foram os resquícios da minha idéia de que os traficantes e usuários fossem pessoas do mal, como eu pensava quando tinha 15 anos. E acho que, por pensarem da mesma forma de quando eu tinha uma década e meia de vida, que as autoridades não conseguem acabar com essa doença da nossa sociedade. Mas isso é assunto para outra coluna...
05-08-11
Sempre gostei da noite. E sempre tive a certeza de que as pessoas mais interessantes, inteligentes, cultas, com opinião também gostassem. Esperava isso porque meus principais ídolos, seja da literatura, do jornalismo, da política ou da música, foram (ou são) grandes boêmios. Não é necessário enumera-los, basta pensar no século ou década que se encontram dúzias de grandes personalidades que gostava de um bar. O que não levava em conta é que, infelizmente, para cada pessoa diferenciada que se encontra na noite, há milhares de outras com um “currículo” não tão bom.
Não que não esperasse não conviver com essas “criaturas”. Meu sócio já havia advertido por conhecer a freguesia (na verdade eu mesmo era cliente do antigo bar dele, que ficava na esquina de casa), que ele chama de “diabedo”. Com o tempo, eu também adotei o termo de forma “carinhosa”. Até porque a quantidade de viciados, traficantes, vigaristas, desocupados e corruptos (sobretudo policiais!) que se conhece não é pequena. E todos têm histórias de vida semelhantes de qualquer conhecido seu.
Nesses meses, perdi mais minha inocência do que quando descobri que não tinha sido a cegonha que me trouxe para esse mundo. Não que tenha me envolvido nas práticas escusas de cada uma dessas pessoas. Mas porque, efetivamente, descobri que essas atividades marginais não escolhem cor, idade, classe social, etc. Para quem convivia mais tempo geralmente com pessoas sem essas práticas, foi um choque. Especialmente por causa das drogas: o que antigamente chamava-se de exceções, já virou regra há muito tempo.
E o pior: as pessoas chegam perto de você sem causar medo algum. São sujeitos “boa praça”, de fala mansa, divertidos, que não botam banca, e que são respeitosos. Na rua em que eu morava, e onde montei o estabelecimento, ninguém assaltava, roubava carros ou praticava qualquer crime. Caso acontecesse, os traficantes mostravam poder de polícia. No meu bar mesmo, a ordem era comportamento, porque os traficantes gostavam do ambiente e não queriam problemas, especialmente porque sabiam que nem eu nem meu sócio éramos do “metiê”. Um sujeito que quase chegou às vias de fato com a própria mulher no meu bar foi impedido, não por mim, mas pelos traficantes de freqüentar o local.
Vocês acham que eu iria impedir eles de freqüentar o bar? Só se eu quisesse perder 90% da freguesia. E não era porque era o meu bar: conversando com outros proprietários, inclusive de bares de classe A, o resultado é o mesmo. O uso de drogas, assim como alarma por atingir tanta gente, é silencioso porque quem deve teme. Não há conflitos. E é assim que o tráfico avança. Na “manha”, de cara limpa e com um sorriso no rosto, ocupando os lugares que menos se espera. Foi dessa maneira que se foram os resquícios da minha idéia de que os traficantes e usuários fossem pessoas do mal, como eu pensava quando tinha 15 anos. E acho que, por pensarem da mesma forma de quando eu tinha uma década e meia de vida, que as autoridades não conseguem acabar com essa doença da nossa sociedade. Mas isso é assunto para outra coluna...
05-08-11
Bola pro mato, Dilma!
Está no www.folha.com de quarta-feira, mais especificamente no blog do Josias de Souza. Dirigentes do PMDB e do PT (“os dois sócios majoritários da aliança governista”, segundo o colunista) já começam a dar como certa a volta de Lula em 2014. Dirigentes de ambas as siglas, que pediram para não ter o nome publicado para não se incomodarem, citaram uma série de motivos para isso.
Apesar de Lula negar que vá concorrer e garantir que é a favor de que Dilma concorra à reeleição, ninguém parece levar isso a sério. Alguns apontaram as constantes aparições de Lula (cedo demais, na opinião de alguns), como comportamento de candidato. Um governador petista alega, inclusive, que em 2018 Lula estará 73 anos, e seria melhor antecipar seu retorno ao comando do país. Outro entrevistado apontam que o comportamento de Dilma faz com que os partidos que apóiam o governo exijam Lula, sob a ameaça de trocar de lado.
Este é o ponto: porque estão incomodados com o comportamento da presidente? Como adiantei ainda no ano passado, Dilma está mais para a ex-governadora Yeda Crusius do que para Lula, ou seja, é muito mais técnica do que política. O estilo “zagueirão” como a presidente agiu no escândalo do Ministério dos Transportes, por exemplo, passando o rodo, está sendo criticado por muitos aliados. O medo é que isso volte a acontecer, não afetando apenas o PR. Diferentemente de Lula, que segurou seus ministros o máximo que pode em cada escândalo, Dilma atendeu a opinião pública e fez uma limpa. E já tem gente com medo de que isso volte a se repetir.
Outro fato – isso não está na matéria referida - que vai contra a presidente é que os aliados ainda não digeriram a escolha de Gleisi Hoffman para substituir Palocci na Casa Civil. Isso porque Gleisi também é vista como “cintura dura” devido a sua atuação quando secretaria no Mato Grosso do Sul. Só para constar: como secretária extraordinária da Reforma Administrativa no governo Zeca do PT, no final dos anos 90, Gleisi foi exonerada por ser considerada “sargentão”. Em pouco menos de dois anos, ela cortou 30% dos cargos em comissão (cerca de 1.500 funcionários), extinguiu quatro secretarias (de 15 para 11), extinguiu e fundiu empresas públicas e controlou as despesas do governo. Diga-se de passagem que a situação do Estado exigia pulso firme no controle de gastos. Mas o trabalho desenvolvido, considerado administrativamente como muito bom, foi seu pecado. Mexeu com quem não devia.
No momento, a ministra estaria instruída pela presidente a nem receber os deputados e senadores que passam o pires atrás de emendas para não se dar o trabalho de dizer não. E adivinha: o povo da base não está satisfeito...
***
Pois, se é assim, torço muito para que Dilma fique indignada com os boatos de uma possível volta de Lula e haja com ainda mais firmeza. Que venham mais “faxinas” nos órgãos federais, tanto em Brasília como nos estados. Que ocorra controle nos gastos públicos. Com certeza ela vai perder muitos cabos eleitorais, e pode ser que nem concorra. Mas ficaria grato se ela moralizasse um pouco essa zona. E endossaria meu pensamento de que um bom gestor não consegue se reeleger. Bola pro mato, Dilma!
29-07-11
Apesar de Lula negar que vá concorrer e garantir que é a favor de que Dilma concorra à reeleição, ninguém parece levar isso a sério. Alguns apontaram as constantes aparições de Lula (cedo demais, na opinião de alguns), como comportamento de candidato. Um governador petista alega, inclusive, que em 2018 Lula estará 73 anos, e seria melhor antecipar seu retorno ao comando do país. Outro entrevistado apontam que o comportamento de Dilma faz com que os partidos que apóiam o governo exijam Lula, sob a ameaça de trocar de lado.
Este é o ponto: porque estão incomodados com o comportamento da presidente? Como adiantei ainda no ano passado, Dilma está mais para a ex-governadora Yeda Crusius do que para Lula, ou seja, é muito mais técnica do que política. O estilo “zagueirão” como a presidente agiu no escândalo do Ministério dos Transportes, por exemplo, passando o rodo, está sendo criticado por muitos aliados. O medo é que isso volte a acontecer, não afetando apenas o PR. Diferentemente de Lula, que segurou seus ministros o máximo que pode em cada escândalo, Dilma atendeu a opinião pública e fez uma limpa. E já tem gente com medo de que isso volte a se repetir.
Outro fato – isso não está na matéria referida - que vai contra a presidente é que os aliados ainda não digeriram a escolha de Gleisi Hoffman para substituir Palocci na Casa Civil. Isso porque Gleisi também é vista como “cintura dura” devido a sua atuação quando secretaria no Mato Grosso do Sul. Só para constar: como secretária extraordinária da Reforma Administrativa no governo Zeca do PT, no final dos anos 90, Gleisi foi exonerada por ser considerada “sargentão”. Em pouco menos de dois anos, ela cortou 30% dos cargos em comissão (cerca de 1.500 funcionários), extinguiu quatro secretarias (de 15 para 11), extinguiu e fundiu empresas públicas e controlou as despesas do governo. Diga-se de passagem que a situação do Estado exigia pulso firme no controle de gastos. Mas o trabalho desenvolvido, considerado administrativamente como muito bom, foi seu pecado. Mexeu com quem não devia.
No momento, a ministra estaria instruída pela presidente a nem receber os deputados e senadores que passam o pires atrás de emendas para não se dar o trabalho de dizer não. E adivinha: o povo da base não está satisfeito...
***
Pois, se é assim, torço muito para que Dilma fique indignada com os boatos de uma possível volta de Lula e haja com ainda mais firmeza. Que venham mais “faxinas” nos órgãos federais, tanto em Brasília como nos estados. Que ocorra controle nos gastos públicos. Com certeza ela vai perder muitos cabos eleitorais, e pode ser que nem concorra. Mas ficaria grato se ela moralizasse um pouco essa zona. E endossaria meu pensamento de que um bom gestor não consegue se reeleger. Bola pro mato, Dilma!
29-07-11
Muito além dos pênaltis
Já ouvi mais de um articulista falando que, se o brasileiro se preocupasse com política como se preocupa com futebol, o país seria a maior potência do mundo. Pois isso não é verdade. A preocupação do brasileiro em relação ao futebol é bem semelhante a que tem com a política.
Não basta ficar irritado com os quatro pênaltis perdidos pela seleção no último domingo, ou xingar Mano Menezes, Ganso, Pato e a Granja Comary toda. Essa é a parte “menos pior” do que ocorre no futebol brasileiro, sobretudo envolvendo a CBF. Perdoem-me a generalização, mas bons entendedores sabem do que estou falando. O mundo do futebol consegue ser tanto quanto ou mais corrupto que o da política (se é que existe mais ou menos corrupto; corrupção é corrupção). A massa se preocupa com os três pontos conquistados ou perdidos no campo, com troca de técnico, não quer nem saber do que há por trás disso tudo (falo com a autoridade de quem, em dias de jogos, enquadra-se nessa turma: esqueço dos bastidores e corro para o Olímpico). Assim como na política: de dois em dois anos, os cidadãos lembram que são eleitores e, na hora de votar, preferem não saber o que ocorreu durante tudo o que aconteceu durante o mandato.
O que já se sabia ficou ainda mais evidente com a declaração de guerra por parte da TV Record contra a CBF e seu presidente vitalício, Ricardo Teixeira. Insatisfeitos por serem preteridos pela entidade, que desde sempre protegeria e seria protegida pela Globo, os diretores da emissora da Universal resolveram descarregar a metralhadora. O que estava mascarado por uma fina cortina quase transparente, foi noticiado de maneira clara e cheia de comprovações. Quem ainda não viu as reportagens, divulgadas há mais de um mês, pode procurar no youtube.
Não vai caber tudo nestes 3 mil caracteres. Mas há denúncias de corrupção para mais de metro, em nível tupiniquim e em nível Fifa; há ameaças e demonstrações de arrogância, prepotência e certeza de impunidade por parte do ex-genro de João Havelange que eu achava incapaz de caber numa pessoa só.
Agora, porque a Record está divulgando tudo isso? Embora tente fazer parecer que é por “puro jornalismo”, sabe-se que o furo é mais embaixo. Mesmo oferecendo mais dinheiro do que a Globo, a emissora não consegue se incluir no grupo de amiguinhos de Teixeira. Tentou ganhar os direitos de transmissão do Brasileirão. Não fez proposta, pois sabia que ira perder. Apenas a RedeTV participou da “licitação” do Clube dos 13. A CBF contornou, e os clubes, um por um, venderam os direitos de transmissão para a Globo, fragilizando a entidade liderada por Fábio Koff. O mesmo ocorreu na disputa pela Copa do Mundo e pelos jogos da Seleção. Só deu Globo. A Record vai transmitir o Pan-Americano, mas a CBF decidiu colocar em campo, ao invés da seleção pré-olímpica com estrelas como Neymar, apenas o selecionado sub-17.
Quando se pensa nisso, dá vontade de jogar vôlei! Pior ainda é saber que a verdade vem à tona não porque a Record é boazinha, mas apenas porque está de beiço com a CBF; e que a Globo e as outras emissoras não fazem nada porque senão perdem as regalias. Tem muita coisa no armário que não é exposta porque queimaria muita, mas muita gente mesmo. É tudo bem mais feio do que a cobrança do Elano...
22-07-11
Não basta ficar irritado com os quatro pênaltis perdidos pela seleção no último domingo, ou xingar Mano Menezes, Ganso, Pato e a Granja Comary toda. Essa é a parte “menos pior” do que ocorre no futebol brasileiro, sobretudo envolvendo a CBF. Perdoem-me a generalização, mas bons entendedores sabem do que estou falando. O mundo do futebol consegue ser tanto quanto ou mais corrupto que o da política (se é que existe mais ou menos corrupto; corrupção é corrupção). A massa se preocupa com os três pontos conquistados ou perdidos no campo, com troca de técnico, não quer nem saber do que há por trás disso tudo (falo com a autoridade de quem, em dias de jogos, enquadra-se nessa turma: esqueço dos bastidores e corro para o Olímpico). Assim como na política: de dois em dois anos, os cidadãos lembram que são eleitores e, na hora de votar, preferem não saber o que ocorreu durante tudo o que aconteceu durante o mandato.
O que já se sabia ficou ainda mais evidente com a declaração de guerra por parte da TV Record contra a CBF e seu presidente vitalício, Ricardo Teixeira. Insatisfeitos por serem preteridos pela entidade, que desde sempre protegeria e seria protegida pela Globo, os diretores da emissora da Universal resolveram descarregar a metralhadora. O que estava mascarado por uma fina cortina quase transparente, foi noticiado de maneira clara e cheia de comprovações. Quem ainda não viu as reportagens, divulgadas há mais de um mês, pode procurar no youtube.
Não vai caber tudo nestes 3 mil caracteres. Mas há denúncias de corrupção para mais de metro, em nível tupiniquim e em nível Fifa; há ameaças e demonstrações de arrogância, prepotência e certeza de impunidade por parte do ex-genro de João Havelange que eu achava incapaz de caber numa pessoa só.
Agora, porque a Record está divulgando tudo isso? Embora tente fazer parecer que é por “puro jornalismo”, sabe-se que o furo é mais embaixo. Mesmo oferecendo mais dinheiro do que a Globo, a emissora não consegue se incluir no grupo de amiguinhos de Teixeira. Tentou ganhar os direitos de transmissão do Brasileirão. Não fez proposta, pois sabia que ira perder. Apenas a RedeTV participou da “licitação” do Clube dos 13. A CBF contornou, e os clubes, um por um, venderam os direitos de transmissão para a Globo, fragilizando a entidade liderada por Fábio Koff. O mesmo ocorreu na disputa pela Copa do Mundo e pelos jogos da Seleção. Só deu Globo. A Record vai transmitir o Pan-Americano, mas a CBF decidiu colocar em campo, ao invés da seleção pré-olímpica com estrelas como Neymar, apenas o selecionado sub-17.
Quando se pensa nisso, dá vontade de jogar vôlei! Pior ainda é saber que a verdade vem à tona não porque a Record é boazinha, mas apenas porque está de beiço com a CBF; e que a Globo e as outras emissoras não fazem nada porque senão perdem as regalias. Tem muita coisa no armário que não é exposta porque queimaria muita, mas muita gente mesmo. É tudo bem mais feio do que a cobrança do Elano...
22-07-11
O lado B da TV
Nos últimos tempos, contrai a mania de zapear com o controle remoto pelos canais mais obscuros da televisão. Mesmo não tendo tv a cabo, em Porto Alegre há uma gama de canais dos quais nunca havia ouvido falar (quem tem Parabólica pode fazer o mesmo em qualquer lugar). E descobri que, tirando o futebol, gosto mais desses pequenos canais.
Sem recursos para fazer novelas ou para adquirir direitos de transmissão de jogos ou de blockbusters, a programação geralmente oferece longas entrevistas com especialistas em todas as áreas (sobretudo professores universitários) e documentários que nunca serão mostrados em nenhum dos cinco poderosos canais. Graças a esse zapear, já aprendi desde o ciclo de vida da vespa até as grandes construções do mundo antigo, de como funciona o esôfago até as causas da apnéia, acompanhei discussões sobre aquecimento global e sobre a geração pós-moderna, etc... Na minha opinião (talvez não conte muito, porque já perdi horas assistindo as sessões das tvs Senado, Câmara, Assembleia e Justiça), tudo isso é bem mais interessante do que novelas ou fofocas de celebridades.
E tem também a sucateada TVE, que luta firmemente para ter uma programação de qualidade. Embora mantida pelo Estado, creio que por não ter tanta audiência, a emissora é de certa forma independente. E, de quebra, ainda retransmite os melhores programas da TV Cultura.
***
E foi numa dessas que, no último domingo, acabei assistindo a uma entrevista com o ex-governador Germano Rigotto. Era a reprise do programa da quinta-feira anterior (essas reprises são outra vantagem desses canais com menor audiência). Confesso que nunca fui um grande admirador do governo Rigotto, mas tive que dar o braço a torcer e reconhecer que o ex-chefe do Piratini deu um banho de conhecimento e inteligência política.
Sem ocupar cargos públicos, Rigotto atualmente ministra palestras e é membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República. Ele deu explicações muito convincentes dos motivos pelos quais as reformas mais urgentes do país não saem do chão (Tributária, da Previdência, Política). “Sem a reforma política, nenhuma das outras vai acontecer”. Por quê? Porque há uma série de questões externas (como por exemplo a forma de arrecadação de verbas para campanha) que criam choque de interesses. Outro ponto interessante: Rigotto afirma que a Justiça toma decisões pelos parlamentares em vários casos, e citou o casamento entre homossexuais. “A Justiça acaba decidindo sobre o que o Congresso não dá conta por interesses políticos. A regulamentação de leis é responsabilidade de quem faz leis”, acrescenta.
***
A entrevista do ex-governador foi uma das tantas gratas surpresas que tive zapeando por vários outros canais. E cheguei a uma conclusão (ou fiz uma descoberta que para mim é grandiosa, por mais óbvia que pareça): essas pequenas emissoras informam mais do que as grandes redes. Você pode tirar a prova disso: assista no mesmo dia todos os principais telejornais de cada uma das emissoras e compare. As notícias são as mesmas, seja com o Boris, com o Willian ou com a Ana. Para as pessoas que gostam de estar bem informadas, fica essa dica.
publicada em 15-07-11
Sem recursos para fazer novelas ou para adquirir direitos de transmissão de jogos ou de blockbusters, a programação geralmente oferece longas entrevistas com especialistas em todas as áreas (sobretudo professores universitários) e documentários que nunca serão mostrados em nenhum dos cinco poderosos canais. Graças a esse zapear, já aprendi desde o ciclo de vida da vespa até as grandes construções do mundo antigo, de como funciona o esôfago até as causas da apnéia, acompanhei discussões sobre aquecimento global e sobre a geração pós-moderna, etc... Na minha opinião (talvez não conte muito, porque já perdi horas assistindo as sessões das tvs Senado, Câmara, Assembleia e Justiça), tudo isso é bem mais interessante do que novelas ou fofocas de celebridades.
E tem também a sucateada TVE, que luta firmemente para ter uma programação de qualidade. Embora mantida pelo Estado, creio que por não ter tanta audiência, a emissora é de certa forma independente. E, de quebra, ainda retransmite os melhores programas da TV Cultura.
***
E foi numa dessas que, no último domingo, acabei assistindo a uma entrevista com o ex-governador Germano Rigotto. Era a reprise do programa da quinta-feira anterior (essas reprises são outra vantagem desses canais com menor audiência). Confesso que nunca fui um grande admirador do governo Rigotto, mas tive que dar o braço a torcer e reconhecer que o ex-chefe do Piratini deu um banho de conhecimento e inteligência política.
Sem ocupar cargos públicos, Rigotto atualmente ministra palestras e é membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República. Ele deu explicações muito convincentes dos motivos pelos quais as reformas mais urgentes do país não saem do chão (Tributária, da Previdência, Política). “Sem a reforma política, nenhuma das outras vai acontecer”. Por quê? Porque há uma série de questões externas (como por exemplo a forma de arrecadação de verbas para campanha) que criam choque de interesses. Outro ponto interessante: Rigotto afirma que a Justiça toma decisões pelos parlamentares em vários casos, e citou o casamento entre homossexuais. “A Justiça acaba decidindo sobre o que o Congresso não dá conta por interesses políticos. A regulamentação de leis é responsabilidade de quem faz leis”, acrescenta.
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A entrevista do ex-governador foi uma das tantas gratas surpresas que tive zapeando por vários outros canais. E cheguei a uma conclusão (ou fiz uma descoberta que para mim é grandiosa, por mais óbvia que pareça): essas pequenas emissoras informam mais do que as grandes redes. Você pode tirar a prova disso: assista no mesmo dia todos os principais telejornais de cada uma das emissoras e compare. As notícias são as mesmas, seja com o Boris, com o Willian ou com a Ana. Para as pessoas que gostam de estar bem informadas, fica essa dica.
publicada em 15-07-11
A “morte” de Nascimento
Gostaria de ser psicanalista e atender algumas figuras de nossa política nacional. Sobretudo aquelas que se agarram ao poder como se fosse o último recurso. O que faz alguns seres humanos, que vêem tudo a sua volta afundar, agarrarem-se com todas as forças ao cargo, ao status, a medirem forças com o óbvio? Fazendo uma metáfora, o que faz com que, ao invés de pegar um bote e sumir, essas pessoas prefiram se agarrar ao barco e tentar tirar a água do convés com um copo furado, afogando o resto da tripulação?
Entro nesse assunto para entender a atitude do ministro dos Transportes, Alfredo Nascimento. Pois, segundo reportagem da revista Veja, o digníssimo ministro é acusado de envolvimento em um suposto esquema de corrupção, baseado na cobrança de propinas de 4% das empreiteiras e de 5% das empresas de consultoria que elaboram os projetos de obras em rodovias e ferrovias. Como é moda, Nascimento garantiu desde o início não saber de nada.
A presidente Dilma relutou em afastar o ministro. Até esta quarta-feira, ele permanecia no cargo. Caíram apenas o chefe de gabinete do ministro, um assessor, o diretor-geral do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), Luiz Antônio Pagot (que saiu de férias, ao invés de ser exonerado) e o presidente da Valec Engenharia (estatal ferroviária), José Francisco das Neves.
Nascimento poderia ter pedido o boné. Mas não queria sair pela porta dos fundos. Preferiu defender o posto, talvez para mostrar que nada o atingiria. Até que o jornal O Globo fez uma denúncia que fez o prédio do ministério tremer. A empresa do filho de Nascimento, que em 2005 foi aberta com um capital de R$ 60 mil, teria hoje um capital de R$ 52 milhões. Crescimento de módicos 86.500%. Cabe lembrar que Nascimento já era ministro no mandato de Lula, e só saiu para concorrer a deputado federal (sim, ele foi eleito).
Se o barco do ministro afundou, pode ter certeza de que mais gente ainda irá se afogar. Primeiro, divisão na própria base do governo, já que dirigentes do PMDB e do PT já fazem campanha nos corredores em busca da vaga que hoje é ocupada pelo PR. A coisa é tão óbvia, que até o Senado (cuja base governista é amplamente majoritária) aprovou requerimento para que Nascimento vá ao Congresso dar explicações (nem o requerimento convocando Palocci foi aprovado). Uma CPI no DNIT também está prestes a ser aprovada no Senado (faltam poucas assinaturas para confirmar a investigação parlamentar).
Disposto a “esclarecer” tudo, e mostrar “transparência”, ao invés do ministro se afastar até que tudo se esclareça, preferiu mandar suspender licitações de projetos, obras e serviços de sua pasta por 30 dias. E aí, adivinha quem é que toma (ops!), digo, quem paga o pato? Dou um naco de pão com banha para quem acertar. Uma pista: só no RS, no mínimo sete obras importantes terão o trâmite atrasado, inclusive parte de nossa pobre BR 386.
O amor ao poder de Nascimento, que poderia ter voltado para o Congresso Nacional, derrubou até o filho, causou complicações ao próprio partido e ao governo atual e ao anterior. Ele construiu o próprio túmulo. Diante de tudo, a presidente resolveu demitir o ministro. O que devia ter feito bem antes. Evitando se desgastar com um dos partidos da base, a presidente comprometeu o próprio governo. Que, diga-se de passagem, coleciona escândalos semelhantes. Mas isso é pra outra coluna.
08-07-11
Entro nesse assunto para entender a atitude do ministro dos Transportes, Alfredo Nascimento. Pois, segundo reportagem da revista Veja, o digníssimo ministro é acusado de envolvimento em um suposto esquema de corrupção, baseado na cobrança de propinas de 4% das empreiteiras e de 5% das empresas de consultoria que elaboram os projetos de obras em rodovias e ferrovias. Como é moda, Nascimento garantiu desde o início não saber de nada.
A presidente Dilma relutou em afastar o ministro. Até esta quarta-feira, ele permanecia no cargo. Caíram apenas o chefe de gabinete do ministro, um assessor, o diretor-geral do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), Luiz Antônio Pagot (que saiu de férias, ao invés de ser exonerado) e o presidente da Valec Engenharia (estatal ferroviária), José Francisco das Neves.
Nascimento poderia ter pedido o boné. Mas não queria sair pela porta dos fundos. Preferiu defender o posto, talvez para mostrar que nada o atingiria. Até que o jornal O Globo fez uma denúncia que fez o prédio do ministério tremer. A empresa do filho de Nascimento, que em 2005 foi aberta com um capital de R$ 60 mil, teria hoje um capital de R$ 52 milhões. Crescimento de módicos 86.500%. Cabe lembrar que Nascimento já era ministro no mandato de Lula, e só saiu para concorrer a deputado federal (sim, ele foi eleito).
Se o barco do ministro afundou, pode ter certeza de que mais gente ainda irá se afogar. Primeiro, divisão na própria base do governo, já que dirigentes do PMDB e do PT já fazem campanha nos corredores em busca da vaga que hoje é ocupada pelo PR. A coisa é tão óbvia, que até o Senado (cuja base governista é amplamente majoritária) aprovou requerimento para que Nascimento vá ao Congresso dar explicações (nem o requerimento convocando Palocci foi aprovado). Uma CPI no DNIT também está prestes a ser aprovada no Senado (faltam poucas assinaturas para confirmar a investigação parlamentar).
Disposto a “esclarecer” tudo, e mostrar “transparência”, ao invés do ministro se afastar até que tudo se esclareça, preferiu mandar suspender licitações de projetos, obras e serviços de sua pasta por 30 dias. E aí, adivinha quem é que toma (ops!), digo, quem paga o pato? Dou um naco de pão com banha para quem acertar. Uma pista: só no RS, no mínimo sete obras importantes terão o trâmite atrasado, inclusive parte de nossa pobre BR 386.
O amor ao poder de Nascimento, que poderia ter voltado para o Congresso Nacional, derrubou até o filho, causou complicações ao próprio partido e ao governo atual e ao anterior. Ele construiu o próprio túmulo. Diante de tudo, a presidente resolveu demitir o ministro. O que devia ter feito bem antes. Evitando se desgastar com um dos partidos da base, a presidente comprometeu o próprio governo. Que, diga-se de passagem, coleciona escândalos semelhantes. Mas isso é pra outra coluna.
08-07-11
Irreverência sem cabimento
Tive que ir ao meu mal-tratado dicionário buscar o real significado da palavra irreverência antes de começar a escrever essa coluna. Eu sempre gostei do termo, mas por um minuto me perguntei se sabia exatamente o significado dele.
Sempre associei “irreverência” aos Mamonas Assassinas. Um pouco porque a primeira vez que ouvi a palavra foi assistindo a uma apresentação da finada banda no Faustão. “Ô loco, os maiores sucessos da banda mais irreverente do Brasil”... Também associava o termo a humoristas em geral, achava que irreverência era pura e simplesmente fazer graça de fatos sérios, principalmente quando se tratava de paródias.
Mas o significado de “irreverência” me decepcionou um pouco. Quer dizer “falta de respeito, ato desrespeitoso, desacato, falta de reverência” (reverência para mim sempre foi o ato de beijar o anel do bispo, que os atores encenavam em filmes e novelas). Fiquei duplamente decepcionado. Mas por outro lado, fiquei satisfeito em ter achado uma palavra para o assunto que quero abordar, que é a atitude do Partido da República em colocar o deputado Francisco Everardo Oliveira Silva fantasiado do personagem Tiririca para fazer graça nas inserções gratuitas que o partido tem direito.
Acho que é a primeira vez que utilizo essa palavra como forma denotativa. Eu sempre achava o máximo alguém ser “irreverente”. Mas o que o PR está fazendo não pode levar um só adjetivo bom (o PR sim, pois a responsabilidade por este fenômeno se deve ao lema “crescer a qualquer custo”, entoado por dirigentes do partido). Vejamos: não contente por ter explorado a figura do palhaço Tiririca na campanha eleitoral para deputado federal, que fizeram dele o parlamentar mais votado do país – e que foi suficiente para “puxar” para Brasília outros quatro candidatos da sigla que não se elegeriam pelo própria votação – o PR agora recoloca a figura, desta vez em rede nacional, para fazer mais piadas. Para quem não viu, ao contar o que já aprendeu nestes seis meses de Câmara dos Deputados (clara referência à campanha), Tiririca diz: “Um deputado federal não pode empregar sua família. Por isso, pai continue catando latinha. Mãe, continue lavando roupa para fora”.
Vamos piorar um pouco a falta de respeito. Tiririca, que suspeitava-se ser analfabeto, hoje integra a Comissão de Educação e Cultura. Seus assessores com maiores salários ( R$ 8 mil) são dois humoristas de “A praça é nossa”, que não cumprem expediente nem em Brasília, nem em São Paulo.
Enfim, acho que os eleitores e o povo em geral, precisam é de reverência, de respeito, precisam ter a sensação de que suas reivindicações sejam tratadas de maneira séria. Criticar de forma humorística as atitudes de nossos políticos é válido, e alguns não merecem outra coisa senão serem alvos de piadas. Se alguns eleitores “irreverentes” elegeram políticos sem vocação, para dizer o mínimo, não vejo mérito em debochar de todos os demais. Posso parecer injusto, mas não vejo motivos para que todos os políticos não paguem por um mau elemento. Até porque eles têm recursos legais para punir os próprios colegas. Eu, infelizmente, não posso fazer nada contra aqueles que expressaram o próprio direito de votar “irreverentemente”. Na menos pior das hipóteses, é um castigo “irrevente” aos que defendem o “voto de protesto”.
01-07-11
Sempre associei “irreverência” aos Mamonas Assassinas. Um pouco porque a primeira vez que ouvi a palavra foi assistindo a uma apresentação da finada banda no Faustão. “Ô loco, os maiores sucessos da banda mais irreverente do Brasil”... Também associava o termo a humoristas em geral, achava que irreverência era pura e simplesmente fazer graça de fatos sérios, principalmente quando se tratava de paródias.
Mas o significado de “irreverência” me decepcionou um pouco. Quer dizer “falta de respeito, ato desrespeitoso, desacato, falta de reverência” (reverência para mim sempre foi o ato de beijar o anel do bispo, que os atores encenavam em filmes e novelas). Fiquei duplamente decepcionado. Mas por outro lado, fiquei satisfeito em ter achado uma palavra para o assunto que quero abordar, que é a atitude do Partido da República em colocar o deputado Francisco Everardo Oliveira Silva fantasiado do personagem Tiririca para fazer graça nas inserções gratuitas que o partido tem direito.
Acho que é a primeira vez que utilizo essa palavra como forma denotativa. Eu sempre achava o máximo alguém ser “irreverente”. Mas o que o PR está fazendo não pode levar um só adjetivo bom (o PR sim, pois a responsabilidade por este fenômeno se deve ao lema “crescer a qualquer custo”, entoado por dirigentes do partido). Vejamos: não contente por ter explorado a figura do palhaço Tiririca na campanha eleitoral para deputado federal, que fizeram dele o parlamentar mais votado do país – e que foi suficiente para “puxar” para Brasília outros quatro candidatos da sigla que não se elegeriam pelo própria votação – o PR agora recoloca a figura, desta vez em rede nacional, para fazer mais piadas. Para quem não viu, ao contar o que já aprendeu nestes seis meses de Câmara dos Deputados (clara referência à campanha), Tiririca diz: “Um deputado federal não pode empregar sua família. Por isso, pai continue catando latinha. Mãe, continue lavando roupa para fora”.
Vamos piorar um pouco a falta de respeito. Tiririca, que suspeitava-se ser analfabeto, hoje integra a Comissão de Educação e Cultura. Seus assessores com maiores salários ( R$ 8 mil) são dois humoristas de “A praça é nossa”, que não cumprem expediente nem em Brasília, nem em São Paulo.
Enfim, acho que os eleitores e o povo em geral, precisam é de reverência, de respeito, precisam ter a sensação de que suas reivindicações sejam tratadas de maneira séria. Criticar de forma humorística as atitudes de nossos políticos é válido, e alguns não merecem outra coisa senão serem alvos de piadas. Se alguns eleitores “irreverentes” elegeram políticos sem vocação, para dizer o mínimo, não vejo mérito em debochar de todos os demais. Posso parecer injusto, mas não vejo motivos para que todos os políticos não paguem por um mau elemento. Até porque eles têm recursos legais para punir os próprios colegas. Eu, infelizmente, não posso fazer nada contra aqueles que expressaram o próprio direito de votar “irreverentemente”. Na menos pior das hipóteses, é um castigo “irrevente” aos que defendem o “voto de protesto”.
01-07-11
Falta ventilador
É chato bater na mesma tecla, repetir o assunto e até certas frases. Mas, ao acompanhar o que aconteceu no PTB gaúcho no último final de semana, fiquei muito tentado a discorrer novamente sobre o tema. Tem a ver com tudo aquilo que causa repugnância na política: o fisiologismo, popularmente chamado de carguismo.
Durante um seminário da sigla, o deputado federal Sérgio “to melixando para a opinião pública” Moraes fez um discurso criticando o sistema de divisão de cargos que o PTB ocupa no governo do Estado (uma “recompensa” por fazer parte da base de Tarso Genro). A reclamação não foi no sentido de que isso é errado, mas sim porque um grupo estava sendo privilegiado. O deputado estadual, Ronaldo Santini, por sua vez, rebateu. Depois disso, as informações dão conta que Moraes acertou o colega com uma bofetada.
Enfim, foi um barraco dos grandes, e que acabou com o ex-prefeito de Santa Cruz do Sul atirando todo aquele produto não muito nobre no ventilador. E chegou à imprensa alguns dados interessantes. Moraes teria dito que o total de cargos de confiança do PTB no governo ganhariam juntos por mês cerca de R$ 2 milhões (digamos que, por baixo, cada CC contribua com 10% para o partido e podemos ter idéia do caixa que é feito já visando as próximas eleições). Santini, por sua vez, teria deixado escapar que, por deputado, a soma dos salários dos indicados por cada parlamentar não poderiam ultrapassar R$ 80 mil. Moraes completou depois dizendo que os cargos vão para uma “listinha de amigos”, e não para técnicos. O presidente estadual da sigla, Luis Augusto Lara (com quem Moraes teria realmente problemas) deu entrevistas que o que foi mencionado pelos parlamentares são critérios, que dito daquela maneira parecia errado, mas não era bem assim. Pouca água para apagar o tamanho do fogo.
Na segunda-feira, todos os caciques do PTB gaúcho se reuniram (quase todos, na verdade) e decidiram colocar os cargos à disposição de Tarso Genro, para não constranger o governo, mas isso não foi aceito pelo petista (eu entendi que Tarso lavou as mãos para não perder a base).
Legal é que nessas horas aparecem as verdadeiras preocupações dos políticos. Moraes criticou a sigla por se vender por meia dúzia de cargos, mas exigia que fosse melhor dividido. Jogou todos na frigideira porque sentiu que foi passado para trás. Ideologia, que é bom, está em último lugar na lista de prioridades. Alguém diria que Vargas se remexeu no caixão. Um circo! E pior é que não dá pra deixar escapar a piada de que os petebistas realmente se preocupam com o trabalhismo (dos CC`s).
Antes de terminar, peço que o pessoal do PTB na fiquem bravos comigo, porque isso acontece em todas as siglas, e amanhã ou depois será a vez dos demais. É apenas uma questão de sobrevivência na política atual, que infelizmente pouquíssimas vezes chegam ao nosso conhecimento. Afinal, política é a arte de contentar a todos, e por isso ser impossível, é uma arte imperfeita. E aí, haja ventilador...
publicado em 23-06-11
Durante um seminário da sigla, o deputado federal Sérgio “to melixando para a opinião pública” Moraes fez um discurso criticando o sistema de divisão de cargos que o PTB ocupa no governo do Estado (uma “recompensa” por fazer parte da base de Tarso Genro). A reclamação não foi no sentido de que isso é errado, mas sim porque um grupo estava sendo privilegiado. O deputado estadual, Ronaldo Santini, por sua vez, rebateu. Depois disso, as informações dão conta que Moraes acertou o colega com uma bofetada.
Enfim, foi um barraco dos grandes, e que acabou com o ex-prefeito de Santa Cruz do Sul atirando todo aquele produto não muito nobre no ventilador. E chegou à imprensa alguns dados interessantes. Moraes teria dito que o total de cargos de confiança do PTB no governo ganhariam juntos por mês cerca de R$ 2 milhões (digamos que, por baixo, cada CC contribua com 10% para o partido e podemos ter idéia do caixa que é feito já visando as próximas eleições). Santini, por sua vez, teria deixado escapar que, por deputado, a soma dos salários dos indicados por cada parlamentar não poderiam ultrapassar R$ 80 mil. Moraes completou depois dizendo que os cargos vão para uma “listinha de amigos”, e não para técnicos. O presidente estadual da sigla, Luis Augusto Lara (com quem Moraes teria realmente problemas) deu entrevistas que o que foi mencionado pelos parlamentares são critérios, que dito daquela maneira parecia errado, mas não era bem assim. Pouca água para apagar o tamanho do fogo.
Na segunda-feira, todos os caciques do PTB gaúcho se reuniram (quase todos, na verdade) e decidiram colocar os cargos à disposição de Tarso Genro, para não constranger o governo, mas isso não foi aceito pelo petista (eu entendi que Tarso lavou as mãos para não perder a base).
Legal é que nessas horas aparecem as verdadeiras preocupações dos políticos. Moraes criticou a sigla por se vender por meia dúzia de cargos, mas exigia que fosse melhor dividido. Jogou todos na frigideira porque sentiu que foi passado para trás. Ideologia, que é bom, está em último lugar na lista de prioridades. Alguém diria que Vargas se remexeu no caixão. Um circo! E pior é que não dá pra deixar escapar a piada de que os petebistas realmente se preocupam com o trabalhismo (dos CC`s).
Antes de terminar, peço que o pessoal do PTB na fiquem bravos comigo, porque isso acontece em todas as siglas, e amanhã ou depois será a vez dos demais. É apenas uma questão de sobrevivência na política atual, que infelizmente pouquíssimas vezes chegam ao nosso conhecimento. Afinal, política é a arte de contentar a todos, e por isso ser impossível, é uma arte imperfeita. E aí, haja ventilador...
publicado em 23-06-11
Demo(ni)cracia
Uma das frases que mais me fizeram refletir nos últimos anos foi dita não me lembro por quem (no google há muitas referências sobre a frase, mas poucas sobre um possível autor), mas basicamente é a seguinte: a democracia é ruim, mas ainda assim é o melhor sistema democrático. Sempre concordei. Porém, quando acontecem algumas situações, fico na dúvida se é isso mesmo.
Vejamos as últimas notícias. As informações dão conta que a nossa presidente Dilma, para não perder a base, já acena com liberação de emendas parlamentares e nomeações para órgãos federais nos estados. Esta é a maior reivindicação de partidos que teoricamente estão na base do seu governo. Parlamentares de PMDB, PP e PR, insatisfeitos, já começam a cobrar o voto nos projetos de governo de uma forma peculiar: ajude-me a encaixar minhas melancias no caminhão, que eu te deixo governar.
A presidente fica de mãos amarradas, e isso não é uma defesa a ela. Basta perguntar para qualquer prefeito da nossa região para saber o tamanho da pressão para encaixar “colegas” em cargos de confiança na prefeitura. É um dos defeitos da nossa democracia. O que de forma alguma absolve nossa presidente, afinal, quem fez essas alianças heterogêneas, para dizer o mínimo (quem imaginou o PP, da finada Arena, de mãos dadas com o PT?), para se eleger foi ela e seus colegas de partido.
Por mais que nossa presidente relute, não há outra saída. Depois de passar um boi, passa uma. E no fim das contas, penalizados somos nós (eu não canso de bater nessa tecla): se por acaso a nossa guia bater o pé, nada será aprovado no Congresso, e azar o nosso. E se ela for dobrada, azar o nosso também, que teremos de agüentar pessoas incompetentes (a indicação é sempre política, quase nunca por mérito) em cargos de importância, além de ver o dinheiro de nossos impostos ser usado para pagar o salário e as mordomias desses “cidadãos”. O que sai mais caro?
***
Fica muito mais fácil encobrir esse jogo sujo graças a pífia oposição ao governo, que além de ser minoria (a maioria prefere ter como sustentar as próprias bases por meio de cargos e emendas), não consegue promover um discurso que seduza nem os eleitores a se manifestarem, nem a pescar para si parlamentares que se “venderam”ao outro lado.
Sem poder indicar correligionários para cargos nem receber emendas, os parlamentares da oposição ficam obrigados a aparecer na mídia batendo no governo, já que oposição responsável não dá voto. Pior é escutar uma entrevista do senador e ex-governador do Paraná, Álvaro Dias (PSDB), em que diz que o papel da oposição não é propor medidas de governo, porque isso faz parte do projeto da chapa vencedora, mas sim, aprovar o que é importante e discutir o que é polêmico. Em linhas gerais: se a medida é simpática a todos, não se pode ir contra para não perder eleitores; e se é antipática, mas necessária, é a hora de aparecer bastante na mídia demonizando que propôs. Acho que isso explica um pouco porque o PSDB perdeu três eleições presidenciais seguidas. Além de não poder aproveitar a máquina do governo, os líderes tucanos aceitam o papel de antagonistas de forma passiva, como se fosse algo imutável. Tão imutável como são os defeitos da nossa democracia.
publicado em 16-06-11
Vejamos as últimas notícias. As informações dão conta que a nossa presidente Dilma, para não perder a base, já acena com liberação de emendas parlamentares e nomeações para órgãos federais nos estados. Esta é a maior reivindicação de partidos que teoricamente estão na base do seu governo. Parlamentares de PMDB, PP e PR, insatisfeitos, já começam a cobrar o voto nos projetos de governo de uma forma peculiar: ajude-me a encaixar minhas melancias no caminhão, que eu te deixo governar.
A presidente fica de mãos amarradas, e isso não é uma defesa a ela. Basta perguntar para qualquer prefeito da nossa região para saber o tamanho da pressão para encaixar “colegas” em cargos de confiança na prefeitura. É um dos defeitos da nossa democracia. O que de forma alguma absolve nossa presidente, afinal, quem fez essas alianças heterogêneas, para dizer o mínimo (quem imaginou o PP, da finada Arena, de mãos dadas com o PT?), para se eleger foi ela e seus colegas de partido.
Por mais que nossa presidente relute, não há outra saída. Depois de passar um boi, passa uma. E no fim das contas, penalizados somos nós (eu não canso de bater nessa tecla): se por acaso a nossa guia bater o pé, nada será aprovado no Congresso, e azar o nosso. E se ela for dobrada, azar o nosso também, que teremos de agüentar pessoas incompetentes (a indicação é sempre política, quase nunca por mérito) em cargos de importância, além de ver o dinheiro de nossos impostos ser usado para pagar o salário e as mordomias desses “cidadãos”. O que sai mais caro?
***
Fica muito mais fácil encobrir esse jogo sujo graças a pífia oposição ao governo, que além de ser minoria (a maioria prefere ter como sustentar as próprias bases por meio de cargos e emendas), não consegue promover um discurso que seduza nem os eleitores a se manifestarem, nem a pescar para si parlamentares que se “venderam”ao outro lado.
Sem poder indicar correligionários para cargos nem receber emendas, os parlamentares da oposição ficam obrigados a aparecer na mídia batendo no governo, já que oposição responsável não dá voto. Pior é escutar uma entrevista do senador e ex-governador do Paraná, Álvaro Dias (PSDB), em que diz que o papel da oposição não é propor medidas de governo, porque isso faz parte do projeto da chapa vencedora, mas sim, aprovar o que é importante e discutir o que é polêmico. Em linhas gerais: se a medida é simpática a todos, não se pode ir contra para não perder eleitores; e se é antipática, mas necessária, é a hora de aparecer bastante na mídia demonizando que propôs. Acho que isso explica um pouco porque o PSDB perdeu três eleições presidenciais seguidas. Além de não poder aproveitar a máquina do governo, os líderes tucanos aceitam o papel de antagonistas de forma passiva, como se fosse algo imutável. Tão imutável como são os defeitos da nossa democracia.
publicado em 16-06-11
“Lei de Puzo”
Estou finalizando a leitura de um livro do Mario Puzo, o mesmo autor de “O poderoso chefão”. O título, em português, é “Os tolos morrem antes”. Apesar de ser uma obra publicada em 1978, é bastante atual. A história trata de um órfão, que sonha ser um escritor famoso e que descobre que, para subir na vida é preciso ser vigarista. A história se passa entre Nova Iorque, Las Vegas e Hollywood, ambientada especialmente na parte “podre” do serviço público, da política, dos cassinos e da indústria de filmes. Não vou falar mais sobre o enredo. Vá para a biblioteca, a livraria ou o computador mais perto.
O que quero abordar é a clareza com que Puzo expõe certas idéias. A premissa que mais chama a atenção é a de que ninguém consegue enriquecer sem “favores”, sem desviar dinheiro, sem sonegar impostos, sem tirar do caminho alguém que possa atrapalhar determinados planos. A impressão que fica é de que nossa sociedade é sistematizada para privilegiar os vigaristas. Mas não um simples vigarista, daqueles que passa a perna nas pessoas uma só vez. Pelo contrário: segundo o autor, bom vigarista é aquele que consegue ganhar nas costas da mesma pessoa durante a vida inteira. Aqueles que aceitam suborno, aqueles que fazem o trabalho sujo para os mais poderosos, e que parecem sempre estarem prestando auxílios (favores) de forma sem interesse é que são os bons vigaristas.
É um ótimo romance (gênero romance, e não história de amor, apesar de conter muitas passagens sobre relações entre homens e mulheres, e algumas entre mulheres e mulheres, ou homens e homens). O livro provoca mesmo uma reflexão sobre a sociedade, sobre a natureza humana em querer se dar bem (ser virtuoso exige mais esforços e privações), e me faz pensar se vale a pena mesmo ser bonzinho, pagar impostos, ser um bom cidadão, se quem consegue aproveitar os confortos materiais são aqueles de conduta inadequada.
Por outro lado, a obra já adverte no título que não é qualquer um que pode se dar bem o tempo todo. “Os tolos morrem antes”. É um jogo perigoso. E é aqui que eu quero chegar. Vejamos nossa política. Dificilmente algum dos nossos representantes eleitos pelo voto escapa ileso de alguma denúncia. Alguns são mais hábeis do que outros na hora de dar a volta nas suspeitas. Ainda hoje, a maioria escapa. Mas nunca sem ter o currículo manchado. O último grande exemplo que prova que Puzo tinha razão, é o já ex-ministro da Casa Civil, Antonio Palocci. Por mais blindado que tenha sido pelos colegas da base aliada, por mais que o procurador-geral da República tenha arquivado os pedidos de investigação, o estranho aumento de patrimônio em 20 vezes em apenas quatro anos derrubou o ministro. Mesmo que a desculpa do próprio para a saída de um dos mais importantes cargos do país tenha sido a de não prejudicar o governo. Talvez, a intenção tenha sido a de não repetir um ex-ocupante da pasta, o senhor José Dirceu. Talvez, tenha é medo de que saia mais esqueletos do armário. Mas, no fim das contas, o resultado é o mesmo da “Lei de Puzo” (eu quero acreditar que essa lei procede), quase um auto (com fim moralizante): mais cedo ou mais tarde, mesmo que metaforicamente, os tolos morrem antes.
09-06-11
O que quero abordar é a clareza com que Puzo expõe certas idéias. A premissa que mais chama a atenção é a de que ninguém consegue enriquecer sem “favores”, sem desviar dinheiro, sem sonegar impostos, sem tirar do caminho alguém que possa atrapalhar determinados planos. A impressão que fica é de que nossa sociedade é sistematizada para privilegiar os vigaristas. Mas não um simples vigarista, daqueles que passa a perna nas pessoas uma só vez. Pelo contrário: segundo o autor, bom vigarista é aquele que consegue ganhar nas costas da mesma pessoa durante a vida inteira. Aqueles que aceitam suborno, aqueles que fazem o trabalho sujo para os mais poderosos, e que parecem sempre estarem prestando auxílios (favores) de forma sem interesse é que são os bons vigaristas.
É um ótimo romance (gênero romance, e não história de amor, apesar de conter muitas passagens sobre relações entre homens e mulheres, e algumas entre mulheres e mulheres, ou homens e homens). O livro provoca mesmo uma reflexão sobre a sociedade, sobre a natureza humana em querer se dar bem (ser virtuoso exige mais esforços e privações), e me faz pensar se vale a pena mesmo ser bonzinho, pagar impostos, ser um bom cidadão, se quem consegue aproveitar os confortos materiais são aqueles de conduta inadequada.
Por outro lado, a obra já adverte no título que não é qualquer um que pode se dar bem o tempo todo. “Os tolos morrem antes”. É um jogo perigoso. E é aqui que eu quero chegar. Vejamos nossa política. Dificilmente algum dos nossos representantes eleitos pelo voto escapa ileso de alguma denúncia. Alguns são mais hábeis do que outros na hora de dar a volta nas suspeitas. Ainda hoje, a maioria escapa. Mas nunca sem ter o currículo manchado. O último grande exemplo que prova que Puzo tinha razão, é o já ex-ministro da Casa Civil, Antonio Palocci. Por mais blindado que tenha sido pelos colegas da base aliada, por mais que o procurador-geral da República tenha arquivado os pedidos de investigação, o estranho aumento de patrimônio em 20 vezes em apenas quatro anos derrubou o ministro. Mesmo que a desculpa do próprio para a saída de um dos mais importantes cargos do país tenha sido a de não prejudicar o governo. Talvez, a intenção tenha sido a de não repetir um ex-ocupante da pasta, o senhor José Dirceu. Talvez, tenha é medo de que saia mais esqueletos do armário. Mas, no fim das contas, o resultado é o mesmo da “Lei de Puzo” (eu quero acreditar que essa lei procede), quase um auto (com fim moralizante): mais cedo ou mais tarde, mesmo que metaforicamente, os tolos morrem antes.
09-06-11
Mexendo no vespeiro
Notícia bombástica no Fantástico: ex-presidente defende legalização da maconha. Na verdade, não tem nada de bombástico: FHC já havia se manifestado a favor da regulamentação do uso da cannabis sativa (que, para quem não sabe, é prima da alface). Mas foi suficiente para levantar pela enésima vez a discussão do assunto. Debater é sempre positivo, e a vantagem é que parece que a argumentação sobre a legalização – ou regulamentação do uso, termo que eu prefiro - do “cigarro do capeta”, como diria alguns mais experientes, está amadurecendo.
Fernando Henrique Cardoso reconhece que a política anti-drogas adotada pelo próprio governo foi errada. Mas o que mais gostei na entrevista foi que, ao ser perguntado “por que meter a mão nesse vespeiro?”, ele respondeu justamente o seguinte: porque é um vespeiro. Não dá para ficar fugindo eternamente de algumas realidades nacionais que nossos agentes públicos tentam enfiar por baixo do tapete. E o que eu quero é justamente isso: que todos metam a mão no vespeiro, que pesem todos argumentos, que se informem, que não se prendam a preconceitos.
Você pode pensar que, pelo que escrevi aqui, sou favorável. Pois revelo desde já minha posição: não sei. Mas quero saber. Não quero que me digam que não dá para legalizar porque é ruim. Nem que a legalização gerará mais impostos e que acabará com o tráfico (duvido, ainda mais em se tratando de Brasil: será impostos demais sobre a erva, e o pessoal vai buscar nos países vizinhos, tal qual é feito com bebidas, cigarros, azeitonas e alfajor).
Eu quero é saber se a maconha faz mais mal do que o tabaco e do que o álcool. Eu quero saber se ela realmente é a dita porta de entrada para o mundo das drogas. Eu quero saber se é verdade que a substância pode ser utilizada com fins terapêuticos, e se é verdade que os tratamentos que usam maconha para curar a dependência do crack têm tido bons resultados. Quero saber um pouco mais sobre a experiência de outros países. E se a reulamentação vai prever áreas para o cultivo legal da prima do alface (porque regulamentar e as compras continuarem ilegais não tem sentido algum).
Sinceramente? Mais de 80% - jogando por baixo - dos meus conhecidos já usaram a substância pelo menos uma vez. E não são cabeludos, que usam roupas pretas ou esfarrapadas e que não gostam de banho. Alguns nem gostam de Bob Marley. E tem mais: muitos dos que usam com uma certa freqüência são pessoas legais, inteligentes, honestas, de boa família e de conduta exemplar (boa índole). Outros indivíduos que conheço, que nunca usaram, que são ferrenhos opositores do pessoal “verde”, têm caráter bastante duvidável. Conheço policiais, médicos, advogados, professores, jornalistas (estes são tão clássicos como músicos e demais artistas), dentistas, engenheiros e até juizes e promotores que volta e meia queimam um bagulho. E não pensem que são apenas jovens e adolescentes. Tem muito quarentão, cinquentão, e terceira idade a dentro que curte “dar um tapa”. Ou seja: proibida ou não, é fato que a “atividade”, existe em qualquer lugar do mundo, seja em Nova Iorque ou em Nova Hartz. E, se está tão disseminada, por que fugirmos do debate?
02-06-11
Fernando Henrique Cardoso reconhece que a política anti-drogas adotada pelo próprio governo foi errada. Mas o que mais gostei na entrevista foi que, ao ser perguntado “por que meter a mão nesse vespeiro?”, ele respondeu justamente o seguinte: porque é um vespeiro. Não dá para ficar fugindo eternamente de algumas realidades nacionais que nossos agentes públicos tentam enfiar por baixo do tapete. E o que eu quero é justamente isso: que todos metam a mão no vespeiro, que pesem todos argumentos, que se informem, que não se prendam a preconceitos.
Você pode pensar que, pelo que escrevi aqui, sou favorável. Pois revelo desde já minha posição: não sei. Mas quero saber. Não quero que me digam que não dá para legalizar porque é ruim. Nem que a legalização gerará mais impostos e que acabará com o tráfico (duvido, ainda mais em se tratando de Brasil: será impostos demais sobre a erva, e o pessoal vai buscar nos países vizinhos, tal qual é feito com bebidas, cigarros, azeitonas e alfajor).
Eu quero é saber se a maconha faz mais mal do que o tabaco e do que o álcool. Eu quero saber se ela realmente é a dita porta de entrada para o mundo das drogas. Eu quero saber se é verdade que a substância pode ser utilizada com fins terapêuticos, e se é verdade que os tratamentos que usam maconha para curar a dependência do crack têm tido bons resultados. Quero saber um pouco mais sobre a experiência de outros países. E se a reulamentação vai prever áreas para o cultivo legal da prima do alface (porque regulamentar e as compras continuarem ilegais não tem sentido algum).
Sinceramente? Mais de 80% - jogando por baixo - dos meus conhecidos já usaram a substância pelo menos uma vez. E não são cabeludos, que usam roupas pretas ou esfarrapadas e que não gostam de banho. Alguns nem gostam de Bob Marley. E tem mais: muitos dos que usam com uma certa freqüência são pessoas legais, inteligentes, honestas, de boa família e de conduta exemplar (boa índole). Outros indivíduos que conheço, que nunca usaram, que são ferrenhos opositores do pessoal “verde”, têm caráter bastante duvidável. Conheço policiais, médicos, advogados, professores, jornalistas (estes são tão clássicos como músicos e demais artistas), dentistas, engenheiros e até juizes e promotores que volta e meia queimam um bagulho. E não pensem que são apenas jovens e adolescentes. Tem muito quarentão, cinquentão, e terceira idade a dentro que curte “dar um tapa”. Ou seja: proibida ou não, é fato que a “atividade”, existe em qualquer lugar do mundo, seja em Nova Iorque ou em Nova Hartz. E, se está tão disseminada, por que fugirmos do debate?
02-06-11
Código Florestal eleitoreiro
A votação do Código Florestal ocorrida na Câmara dos Deputados na madrugada desta quarta-feira prova o que o senso comum já sabia: cada um só quer defender o seu. Há vários pontos que comprovam como atuam nossos digníssimos representantes.
O primeiro ponto interessante, é que a votação aconteceu de madrugada. Não pensem que foi espontaneamente. Na Câmara, isso ocorre com certa frequência. E certamente não é por dever cívico. Pelo contrário: é o chamado matar no cansaço. Quando o projeto é polêmico, os parlamentares esticam a corda ameaçando votar o projeto com alterações que não interessam ao governo. Assim, cozinham em banho maria enquanto esperam concessões – leia-se promessas de liberação de emendas, negociações por cargos, etc...
Apesar de ultimamente quase sempre o governo ganhar a queda de braço em pontos de interesse da nação – como por exemplo quando o requerimento de Antonio Carlos Magalhães Neto para que o Ministro-Chefe da Casa Civil, Antonio Palocci, fosse a Câmara explicar seu considerável aumento patrimonial foi rejeitado-, desta vez Dilma sofreu um revés. O principal ponto do Código Florestal, que dava ao Governo Federal a prerrogativa de decidir o que é ou não Área de Preservação Permanente, foi rejeitado pelos parlamentares e passado aos Estados, decisão que deve ser mantida no Senado. Assim, a bomba deve cair no colo da presidente Dilma, que pode vetar integral ou parcialmente o projeto – e se isso ocorrer, vai criar um desgaste natural com as pessoas ligadas à agricultura.
A presidente perdeu a queda de braço mesmo concedendo modificações anteriores ao projeto, como a isenção de recomposição de mata nativa por parte de pequenos produtores. E essa derrota mostra duas coisas: a primeira é de que a base aliada não é tão coesa assim, mantém-se muito mais por interesse eleitoreiro do que por ideologia. A segunda, bastante ligada à primeira, é de que parlamentar nenhum vai arriscar “queimar o filme” com o eleitorado, principalmente os deputados que tem como base eleitoral municípios dependentes da agricultura.
Se o que foi aprovado foi bom ou não, cabe a cada um se informar e responder. Até porque não é isso o que realmente interessa. As votações no Congresso seguem muito mais o montante de pessoas de cada lado (“há mais agricultores do que ambientalistas, logo vou defender os agricultores”). E aqui está o problema mais grave: raros são os políticos que tentam votar leis com neutralidade, pensando única e exclusivamente no bem da população. Mesmo a presidente, ao escolher entre vetar ou sancionar o projeto, pensará no próprio desgaste. E não venham me dizer que não: se isso não pesasse, o projeto já teria ido para a Câmara sem concessão alguma. Infelizmente é assim: o jogo político é todo montado a partir de vencedores e perdedores, sem pensar em outras conseqüências além do resultado das urnas.
publicada em 26-05-11
O primeiro ponto interessante, é que a votação aconteceu de madrugada. Não pensem que foi espontaneamente. Na Câmara, isso ocorre com certa frequência. E certamente não é por dever cívico. Pelo contrário: é o chamado matar no cansaço. Quando o projeto é polêmico, os parlamentares esticam a corda ameaçando votar o projeto com alterações que não interessam ao governo. Assim, cozinham em banho maria enquanto esperam concessões – leia-se promessas de liberação de emendas, negociações por cargos, etc...
Apesar de ultimamente quase sempre o governo ganhar a queda de braço em pontos de interesse da nação – como por exemplo quando o requerimento de Antonio Carlos Magalhães Neto para que o Ministro-Chefe da Casa Civil, Antonio Palocci, fosse a Câmara explicar seu considerável aumento patrimonial foi rejeitado-, desta vez Dilma sofreu um revés. O principal ponto do Código Florestal, que dava ao Governo Federal a prerrogativa de decidir o que é ou não Área de Preservação Permanente, foi rejeitado pelos parlamentares e passado aos Estados, decisão que deve ser mantida no Senado. Assim, a bomba deve cair no colo da presidente Dilma, que pode vetar integral ou parcialmente o projeto – e se isso ocorrer, vai criar um desgaste natural com as pessoas ligadas à agricultura.
A presidente perdeu a queda de braço mesmo concedendo modificações anteriores ao projeto, como a isenção de recomposição de mata nativa por parte de pequenos produtores. E essa derrota mostra duas coisas: a primeira é de que a base aliada não é tão coesa assim, mantém-se muito mais por interesse eleitoreiro do que por ideologia. A segunda, bastante ligada à primeira, é de que parlamentar nenhum vai arriscar “queimar o filme” com o eleitorado, principalmente os deputados que tem como base eleitoral municípios dependentes da agricultura.
Se o que foi aprovado foi bom ou não, cabe a cada um se informar e responder. Até porque não é isso o que realmente interessa. As votações no Congresso seguem muito mais o montante de pessoas de cada lado (“há mais agricultores do que ambientalistas, logo vou defender os agricultores”). E aqui está o problema mais grave: raros são os políticos que tentam votar leis com neutralidade, pensando única e exclusivamente no bem da população. Mesmo a presidente, ao escolher entre vetar ou sancionar o projeto, pensará no próprio desgaste. E não venham me dizer que não: se isso não pesasse, o projeto já teria ido para a Câmara sem concessão alguma. Infelizmente é assim: o jogo político é todo montado a partir de vencedores e perdedores, sem pensar em outras conseqüências além do resultado das urnas.
publicada em 26-05-11
Mais sobre o mesmo assunto
Na semana passada, escrevi sobre a demissão em massa ocorrida em uma empresa calçadista de Parobé, cuja direção justificou o fechamento das portas por causa da guerra fiscal, entre outras coisas...
Pois nessa semana, foi eleito para presidir a Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul o empresário Heitor Müller. Decorem esse nome, pois nos próximos anos ouviremos falar muito nele assim como ouvimos muito o nome de Paulo Tigre, já ex-presidente da entidade.
Bom, trouxe o assunto à tona porque fiquei bastante interessado no discurso de posse do novo presidente da Fiergs. Citou que seu trabalho será norteado por ações para garantir o fortalecimento do setor produtivo gaúcho, tais como ampliação do Fundopem, condições tributárias igualitárias entre os Estados, melhor infraestrutura e juros menores. É claro que, como presidente da Fiergs, Muller quer o melhor para a Indústria, sem pensar muito no resto. Prova disso é a frase: "É o mercado que determina o preço do produto, por isso precisamos resolver as questões que impactam nos custos", direcionada exclusivamente ao salário mínimo regional que, segundo ele, vem desequilibrando a competitividade gaúcha. Mas suas preocupações deveriam ter todo nosso apoio.
***
Há um outro fato dessa semana que chamou minha atenção: um grupo organizado de arrozeiros gaúchos foram para Uruguaiana para trancar a ponte que liga o Brasil e a Argentina. Entre as medidas reivindicadas é a suspensão da entrada de arroz de outros países do Mercosul em terras tupiniquins por seis meses e a suspensão das dívidas de custeio e investimento até 31 de outubro. Isso porque a competitividade está sendo nociva, pois o preço da saca do grão caiu 67,9% em relação ao ano passado, sendo comercializada por R$ 18,79 (dados da Emater).
***
Esses são dois exemplos de como nosso Estado está sendo prejudicado pela atual política econômica. Um Estado com vocação exportadora quebra com uma moeda tão valorizada. E o pior é que, já que o real está forte, nossos empresários poderiam adquirida tecnologia estrangeira para novas indústrias, cujos produtos tivessem um valor agregado superior ao que se vê hoje (ainda exportamos majoritariamente matérias primas), algo que fizesse diferença na balança comercial. Mas não acontece, suspeito que por causa dos (da falta de) incentivos governamentais.
A chia é grande e vem de todos os setores, especialmente do primário e do secundário. É claro que, enquanto consumidor, adoro o fato de a inflação ser mínima, de comer arroz mais barato, de tomar um Carménère chileno ou um Malbec argentino a preços mais acessíveis, ou de comprar um calçado de origem chinesa a preços muito mais baixos do que encontramos nas lojas.
O problema disso tudo é o impacto causado na nossa economia. São menos empregos, é menos atração de empresas para o Estado, o comércio deixa de ganhar porque não há incremento na economia, são menos impostos entrando nos cofres do governo e, consequentemente, é menos dinheiro para investir nas mais diversas áreas, sobretudo as sociais. E, quem sobra, fica instalado em regiões mais ricas. As mais pobres, pra variar, é que pagam o preço...
publicada em 19-05-11
Pois nessa semana, foi eleito para presidir a Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul o empresário Heitor Müller. Decorem esse nome, pois nos próximos anos ouviremos falar muito nele assim como ouvimos muito o nome de Paulo Tigre, já ex-presidente da entidade.
Bom, trouxe o assunto à tona porque fiquei bastante interessado no discurso de posse do novo presidente da Fiergs. Citou que seu trabalho será norteado por ações para garantir o fortalecimento do setor produtivo gaúcho, tais como ampliação do Fundopem, condições tributárias igualitárias entre os Estados, melhor infraestrutura e juros menores. É claro que, como presidente da Fiergs, Muller quer o melhor para a Indústria, sem pensar muito no resto. Prova disso é a frase: "É o mercado que determina o preço do produto, por isso precisamos resolver as questões que impactam nos custos", direcionada exclusivamente ao salário mínimo regional que, segundo ele, vem desequilibrando a competitividade gaúcha. Mas suas preocupações deveriam ter todo nosso apoio.
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Há um outro fato dessa semana que chamou minha atenção: um grupo organizado de arrozeiros gaúchos foram para Uruguaiana para trancar a ponte que liga o Brasil e a Argentina. Entre as medidas reivindicadas é a suspensão da entrada de arroz de outros países do Mercosul em terras tupiniquins por seis meses e a suspensão das dívidas de custeio e investimento até 31 de outubro. Isso porque a competitividade está sendo nociva, pois o preço da saca do grão caiu 67,9% em relação ao ano passado, sendo comercializada por R$ 18,79 (dados da Emater).
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Esses são dois exemplos de como nosso Estado está sendo prejudicado pela atual política econômica. Um Estado com vocação exportadora quebra com uma moeda tão valorizada. E o pior é que, já que o real está forte, nossos empresários poderiam adquirida tecnologia estrangeira para novas indústrias, cujos produtos tivessem um valor agregado superior ao que se vê hoje (ainda exportamos majoritariamente matérias primas), algo que fizesse diferença na balança comercial. Mas não acontece, suspeito que por causa dos (da falta de) incentivos governamentais.
A chia é grande e vem de todos os setores, especialmente do primário e do secundário. É claro que, enquanto consumidor, adoro o fato de a inflação ser mínima, de comer arroz mais barato, de tomar um Carménère chileno ou um Malbec argentino a preços mais acessíveis, ou de comprar um calçado de origem chinesa a preços muito mais baixos do que encontramos nas lojas.
O problema disso tudo é o impacto causado na nossa economia. São menos empregos, é menos atração de empresas para o Estado, o comércio deixa de ganhar porque não há incremento na economia, são menos impostos entrando nos cofres do governo e, consequentemente, é menos dinheiro para investir nas mais diversas áreas, sobretudo as sociais. E, quem sobra, fica instalado em regiões mais ricas. As mais pobres, pra variar, é que pagam o preço...
publicada em 19-05-11
Mais uma vítima da guerra fiscal
Imagine você sendo morador de um município de 51.500 habitantes que, do dia para noite, viu uma das principais empresas local fechar as portas e demitir 840 trabalhadores. Para piorar, os cofres públicos deixarão de arrecadar 30% de ICMS. Foi o que aconteceu nesta semana em Parobé, município do Vale do Paranhana, distante 70 km de Porto Alegre e 120 km de Caxias do Sul.
Os 53 anos de história não foram suficientes para segurar a Azaléia, uma das maiores fábricas de calçados do país, no local. Após abrir fábricas na Argentina e no Nordeste brasileiro, unidades maiores do que a unidade gaúcha (a primeira da empresa), seus diretores não tiveram dúvidas em fechar as portas. Entre as justificativas, a guerra fiscal e o preço do calçado fabricado na China.
Não adiantou o município aprovar leis e mais leis ao longo dos anos para beneficiar a empresa e garantir o emprego dos parobenses. O mundo capitalista não é tão nostálgico e sentimental como gostariam os habitantes mais antigos da cidade, que é uma das maiores do eixo calçadista gaúcho (que envolve também Novo Hamburgo, São Leopoldo, Campo Bom, Sapiranga, Taquara). Este eixo, inclusive, que já foi o líder do país, mas hoje está atrás de São Paulo (pela localização e infraestrutura) e perdendo cada vez mais posição para o Nordeste (onde a mão-de-obra é bem mais barata).
Frederico Westphalen já viveu dias tão nebulosos quanto estes de Parobé após o fechamento do frigorífico Sadia, nos anos 90. Para os mais experientes, não preciso relembrar as dificuldades enfrentadas pela região. Por mais que outras empresas absorvam a mão-de-obra qualificada, os menos preparados – tanto da empresa que fechou como das demais – vão para a rua. Drama principalmente para os mais jovens e para os mais velhos.
Não estou aqui condenando a direção da Azaléia. A atitude é uma forma de sobrevivência. Eles não têm culpa da nossa política econômica. Não foram favoráveis quando o presidente Fernando Henrique Cardoso trocou as técnicas calçadistas brasileiras pelo projeto de Itaipu. Eles não gostariam de ter que se mudar – toda mudança é sempre um incômodo. Mas, se é mais barato fazer a mudança do que pagar alguns meses dos altos impostos gaúchos, fazer o quê? No futuro, é possível que a Azaléia se mude para Índia, para a China ou qualquer outro país que não cobre taxas abusivas que encarecem o valor do par de calçado.
Quando se fala da necessidade de reforma tributária de forma urgente, nossos “lideres” fingem se sensibilizar, mas empurram com a barriga. O fato é que um dos Estados mais prejudicados por tudo isso é o Rio Grande do Sul, porque não é central, ou seja, próximo das mais variadas unidades da federação (o que exige uma logística maior), porque o seu porto (em Rio Grande) é especializado em exportações (e o real valorizado impede isso), porque seus trabalhadores têm vencimentos em patamares superiores ao da maioria dos demais Estados, e porque o ICMS, entre outros impostos, é mais caro.
Agora vamos pensar o seguinte: o problema todo se deu em Parobé, cuja posição geográfica e cuja infraestrutura e logística é muito melhor do que a da nossa região. Como incentivar empresas a se instalar aqui sem uma reforma tributária, que torne os impostos em todos os estados mais equivalentes? Não tem terraplenagem, pagamento de aluguel ou cessão de terreno em distrito industrial que ajude...
12-05-11
Os 53 anos de história não foram suficientes para segurar a Azaléia, uma das maiores fábricas de calçados do país, no local. Após abrir fábricas na Argentina e no Nordeste brasileiro, unidades maiores do que a unidade gaúcha (a primeira da empresa), seus diretores não tiveram dúvidas em fechar as portas. Entre as justificativas, a guerra fiscal e o preço do calçado fabricado na China.
Não adiantou o município aprovar leis e mais leis ao longo dos anos para beneficiar a empresa e garantir o emprego dos parobenses. O mundo capitalista não é tão nostálgico e sentimental como gostariam os habitantes mais antigos da cidade, que é uma das maiores do eixo calçadista gaúcho (que envolve também Novo Hamburgo, São Leopoldo, Campo Bom, Sapiranga, Taquara). Este eixo, inclusive, que já foi o líder do país, mas hoje está atrás de São Paulo (pela localização e infraestrutura) e perdendo cada vez mais posição para o Nordeste (onde a mão-de-obra é bem mais barata).
Frederico Westphalen já viveu dias tão nebulosos quanto estes de Parobé após o fechamento do frigorífico Sadia, nos anos 90. Para os mais experientes, não preciso relembrar as dificuldades enfrentadas pela região. Por mais que outras empresas absorvam a mão-de-obra qualificada, os menos preparados – tanto da empresa que fechou como das demais – vão para a rua. Drama principalmente para os mais jovens e para os mais velhos.
Não estou aqui condenando a direção da Azaléia. A atitude é uma forma de sobrevivência. Eles não têm culpa da nossa política econômica. Não foram favoráveis quando o presidente Fernando Henrique Cardoso trocou as técnicas calçadistas brasileiras pelo projeto de Itaipu. Eles não gostariam de ter que se mudar – toda mudança é sempre um incômodo. Mas, se é mais barato fazer a mudança do que pagar alguns meses dos altos impostos gaúchos, fazer o quê? No futuro, é possível que a Azaléia se mude para Índia, para a China ou qualquer outro país que não cobre taxas abusivas que encarecem o valor do par de calçado.
Quando se fala da necessidade de reforma tributária de forma urgente, nossos “lideres” fingem se sensibilizar, mas empurram com a barriga. O fato é que um dos Estados mais prejudicados por tudo isso é o Rio Grande do Sul, porque não é central, ou seja, próximo das mais variadas unidades da federação (o que exige uma logística maior), porque o seu porto (em Rio Grande) é especializado em exportações (e o real valorizado impede isso), porque seus trabalhadores têm vencimentos em patamares superiores ao da maioria dos demais Estados, e porque o ICMS, entre outros impostos, é mais caro.
Agora vamos pensar o seguinte: o problema todo se deu em Parobé, cuja posição geográfica e cuja infraestrutura e logística é muito melhor do que a da nossa região. Como incentivar empresas a se instalar aqui sem uma reforma tributária, que torne os impostos em todos os estados mais equivalentes? Não tem terraplenagem, pagamento de aluguel ou cessão de terreno em distrito industrial que ajude...
12-05-11
Cabo de guerra de gênero
Às vezes passo um tempão pensando se realmente devo escrever sobre determinado tema. São aqueles que mexem com paixões, com idéias, com religião, etc. É complicado escrever sobre homossexualidade, porque, se eu tentar ser imparcial (nunca se consegue, mas sempre se tenta), conseguirei desagradar os dois lados. Contudo, como eu não nasci de susto, vou tentar de novo.
Nos próximos dias, estaremos em meio a (mais) uma grande polêmica sobre homofobia. Mais precisamente sobre a PEC 122, já entitulada no Congresso Nacional e nos meios de comunicação como Lei da Homofobia (vocês já notaram que toda lei precisa de um título para dar ibope? É Lei Pelé, Lei Maria da Penha, Lei da Ficha Limpa, Lei Seca, Lei Áurea, etc..). O Projeto de Emenda Constitucional, que tramita no Congresso desde 2001 (!!!), amplia as leis que já proíbem a discriminação de raça, cor, etnia, religião e procedência nacional, para também tornar crime o preconceito por “gênero, sexo, orientação sexual e identidade de gênero”.
O que poderia parecer, pelo menos para boa parte da população, uma lei normal, que já deveria estar em vigor, levanta polêmica especialmente porque mexe com dogmas religiosos. Basta entrar em sites e blogs, ou assistir ao Silas Malafaia, para ver que isso é latente. O medo de pastores e bispos é não poder mais pregar aquilo que crêem sem correr o risco de parar atrás das grades. Falam de censura, de amordaçamento. E acusam ongs e alguns deputados de estarem patrocinando uma “ditadura gay”.
Pelo que acompanhei, em breve teremos ardentes capítulos: no dia 17 de maio, ocorre a segunda marcha nacional contra homofobia e pela aprovação da PEC 122. Como toda a ação trás consigo uma reação, no final do mês se reúnem em Brasília pastores, líderes religiosos e pessoas que costumeiramente são enquadradas no termo “extrema direita” para berrar contra o projeto.
De um lado, as Ongs lutando contra o preconceito, a perseguição, a violência contra homossexuais. Com razão: numa rápida pesquisa pela internet, é possível encontrar alguns dados alarmantes, todos de Ongs voltadas para a causa LGBT, que indicam o crescente aumento de crimes ditos homofóbicos. Por exemplo: nos últimos 5 anos, o número de assassinatos motivados pelo ódio a esta minoria teve um crescimento de 113%, com o ano de 2010 vendo a morte de pelo menos 260 gays, travestis e lésbicas. Em 2009, foram 198 homicídios com motivação homofóbica. Outros dados cuja fonte é o google indicam que o Brasil é o campeão mundial de assassinatos de homossexuais: nos Estados Unidos, com 100 milhões a mais de habitantes que nosso país, foram registrados 14 assassinatos de travestis em 2010, enquanto no Brasil, foram 110 homicídios (não achei dados do mundo árabe).
Do outro lado, pessoas que discordam da referida opção sexual com argumentos de que a lei fere princípios constitucionais de liberdade de expressão, de culto, de fé e de opinião. Vai dar pano para a manga...
Vai. E o pior é que nenhuma parte admite fazer acordos quanto à causa. A impressão que tenho é de que ninguém, na realidade, está pensando em resolver o problema da discriminação. O que vejo é atores brincando de cabo de guerra. E muitos parlamentares se aproveitando eleitoralmente disso. E se a lei for aprovada tão longe das eleições, quais serão as novas bandeiras? Para mim, o fato de termos tantas leis proibindo, proibindo, proibindo demonstra como ainda estamos longe de sermos plenamente civilizados. Ainda mais em se tratando de preconceito, o que de forma alguma existiria se cada um soubesse conviver em seu quadrado, cuidando do próprio nariz.
05-05-11
Nos próximos dias, estaremos em meio a (mais) uma grande polêmica sobre homofobia. Mais precisamente sobre a PEC 122, já entitulada no Congresso Nacional e nos meios de comunicação como Lei da Homofobia (vocês já notaram que toda lei precisa de um título para dar ibope? É Lei Pelé, Lei Maria da Penha, Lei da Ficha Limpa, Lei Seca, Lei Áurea, etc..). O Projeto de Emenda Constitucional, que tramita no Congresso desde 2001 (!!!), amplia as leis que já proíbem a discriminação de raça, cor, etnia, religião e procedência nacional, para também tornar crime o preconceito por “gênero, sexo, orientação sexual e identidade de gênero”.
O que poderia parecer, pelo menos para boa parte da população, uma lei normal, que já deveria estar em vigor, levanta polêmica especialmente porque mexe com dogmas religiosos. Basta entrar em sites e blogs, ou assistir ao Silas Malafaia, para ver que isso é latente. O medo de pastores e bispos é não poder mais pregar aquilo que crêem sem correr o risco de parar atrás das grades. Falam de censura, de amordaçamento. E acusam ongs e alguns deputados de estarem patrocinando uma “ditadura gay”.
Pelo que acompanhei, em breve teremos ardentes capítulos: no dia 17 de maio, ocorre a segunda marcha nacional contra homofobia e pela aprovação da PEC 122. Como toda a ação trás consigo uma reação, no final do mês se reúnem em Brasília pastores, líderes religiosos e pessoas que costumeiramente são enquadradas no termo “extrema direita” para berrar contra o projeto.
De um lado, as Ongs lutando contra o preconceito, a perseguição, a violência contra homossexuais. Com razão: numa rápida pesquisa pela internet, é possível encontrar alguns dados alarmantes, todos de Ongs voltadas para a causa LGBT, que indicam o crescente aumento de crimes ditos homofóbicos. Por exemplo: nos últimos 5 anos, o número de assassinatos motivados pelo ódio a esta minoria teve um crescimento de 113%, com o ano de 2010 vendo a morte de pelo menos 260 gays, travestis e lésbicas. Em 2009, foram 198 homicídios com motivação homofóbica. Outros dados cuja fonte é o google indicam que o Brasil é o campeão mundial de assassinatos de homossexuais: nos Estados Unidos, com 100 milhões a mais de habitantes que nosso país, foram registrados 14 assassinatos de travestis em 2010, enquanto no Brasil, foram 110 homicídios (não achei dados do mundo árabe).
Do outro lado, pessoas que discordam da referida opção sexual com argumentos de que a lei fere princípios constitucionais de liberdade de expressão, de culto, de fé e de opinião. Vai dar pano para a manga...
Vai. E o pior é que nenhuma parte admite fazer acordos quanto à causa. A impressão que tenho é de que ninguém, na realidade, está pensando em resolver o problema da discriminação. O que vejo é atores brincando de cabo de guerra. E muitos parlamentares se aproveitando eleitoralmente disso. E se a lei for aprovada tão longe das eleições, quais serão as novas bandeiras? Para mim, o fato de termos tantas leis proibindo, proibindo, proibindo demonstra como ainda estamos longe de sermos plenamente civilizados. Ainda mais em se tratando de preconceito, o que de forma alguma existiria se cada um soubesse conviver em seu quadrado, cuidando do próprio nariz.
05-05-11
Uma peça de teatro chamada greve
Os juízes federais de todo o país paralisaram as atividades durante 24 horas. E nisso achei o tema da coluna de hoje. Porque, já há algum tempo, eu tenho dúvidas quanto a eficácia das greves. Normalmente, pelo que percebo, as greves geram mais ônus do que bônus para os próprios trabalhadores. Seria esta a forma como a categoria deveria chamar a atenção para suas reivindicações?
As primeiras greves do Brasil datam da década de 30. Não faz cem anos. E já acho que deveria estar em desuso. Minha experiência com manifestações como esta, ao menos, indica que sim. Há alguns anos, liderei uma greve. E senti na pele as consequências. Era meu primeiro trabalho após conseguir meu registro (e após ser diplomado). Eu era movido por pura ideologia e sentimento de defesa da classe. Berrei muito contra atrasos salariais, contra o excesso de carga horária extras não remuneradas e algumas outras coisas. Foi uma das raras greves de jornalistas dos últimos 15 anos do país. Recebemos apoio de colegas do Brasil todo. Alguns chegaram a oferecer a criação de um fundo para manter nossa resistência. Fomos à Prefeitura, à Câmara de Vereadores, e verbalmente recebemos apoio de todos. Fomos à Justiça do Trabalho, que tratou de contemporizar os ânimos. Se na frente das autoridades os patrões pareciam conscientes dos problemas, na empresa provocaram o caos. Tudo o que os chefes queriam era ver cabeças rolando. Precisavam de motivos que, se não existiam, poderiam ser criados. A primeira medida foi pegar um pra cristo. Sobrou para o mais novo, com menos tempo de trabalho, que também era o mais reclamão e o mais inconseqüente. Acharam uma desculpa e fui demitido por justa causa, tarja que reverti na Justiça tempos depois. Até hoje os atrasos salariais persistem.
Também cobri algumas greves, de todas as classes que você possa imaginar: professores (estaduais, municipais e federais), bancários, do transporte público, da segurança, da saúde. Percebi algumas coincidências: as categorias não se mobilizavam. Eram sempre as mesmas lideranças, quase sempre amparadas por estatutos que garantem estabilidade de emprego, e todos ligados a partidos políticos, que faziam barulho.
A principal desculpa de uma greve é sempre chamar a atenção do público para uma necessidade. É bonito de ver meia dúzia tomando chimarrão em frente aos postos de trabalho, faixas penduradas, enquanto os outros trabalhadores se preocupam com qualquer outra coisa que não seja a manifestação. Conheci alguns que já contavam com a greve para poder passar uma semana visitando a família. Entrevistei também os usuários dos serviços que estavam paralisados e nunca ouvi ninguém entre os “civis” apoiar a iniciativa de classe. Ou seja: ao invés de sensibilizar, os grevistas provocavam raiva em todos os que sofrem com a não prestação dos serviços.
O mais engraçado é que todas as autoridades, ou mesmo representantes do patronato, falam em respeito aos direitos dos trabalhadores e, por trás dos panos, buscam maneiras caçar as bruxas. E os dirigentes sindicais sempre falam em repressão, em não baixar a cabeça, em seguir em frente, em resistência, até que todas as ameaças tenham feito os trabalhadores voltarem ao batente sem nenhum pio, e o movimento acaba esvaziado. Aí, essas mesmas lideranças sindicais vão a imprensa declarar a vitória porque “muito” foi conquistado. É um grande teatro!
Sei não. Ou eu que fiquei muito desiludido com as utopias que me venderam, ou está na hora das organizações sindicais adotarem posturas um pouco mais simpáticas à sociedade e que não coloquem em risco os colegas. As greves hoje são mais nocivas aos trabalhadores do que a qualquer outro. A não ser que o estatuto garanta a estabilidade no emprego por alguns anos, ninguém mais me pega para paralisação alguma.
publicada em 29-04-11
As primeiras greves do Brasil datam da década de 30. Não faz cem anos. E já acho que deveria estar em desuso. Minha experiência com manifestações como esta, ao menos, indica que sim. Há alguns anos, liderei uma greve. E senti na pele as consequências. Era meu primeiro trabalho após conseguir meu registro (e após ser diplomado). Eu era movido por pura ideologia e sentimento de defesa da classe. Berrei muito contra atrasos salariais, contra o excesso de carga horária extras não remuneradas e algumas outras coisas. Foi uma das raras greves de jornalistas dos últimos 15 anos do país. Recebemos apoio de colegas do Brasil todo. Alguns chegaram a oferecer a criação de um fundo para manter nossa resistência. Fomos à Prefeitura, à Câmara de Vereadores, e verbalmente recebemos apoio de todos. Fomos à Justiça do Trabalho, que tratou de contemporizar os ânimos. Se na frente das autoridades os patrões pareciam conscientes dos problemas, na empresa provocaram o caos. Tudo o que os chefes queriam era ver cabeças rolando. Precisavam de motivos que, se não existiam, poderiam ser criados. A primeira medida foi pegar um pra cristo. Sobrou para o mais novo, com menos tempo de trabalho, que também era o mais reclamão e o mais inconseqüente. Acharam uma desculpa e fui demitido por justa causa, tarja que reverti na Justiça tempos depois. Até hoje os atrasos salariais persistem.
Também cobri algumas greves, de todas as classes que você possa imaginar: professores (estaduais, municipais e federais), bancários, do transporte público, da segurança, da saúde. Percebi algumas coincidências: as categorias não se mobilizavam. Eram sempre as mesmas lideranças, quase sempre amparadas por estatutos que garantem estabilidade de emprego, e todos ligados a partidos políticos, que faziam barulho.
A principal desculpa de uma greve é sempre chamar a atenção do público para uma necessidade. É bonito de ver meia dúzia tomando chimarrão em frente aos postos de trabalho, faixas penduradas, enquanto os outros trabalhadores se preocupam com qualquer outra coisa que não seja a manifestação. Conheci alguns que já contavam com a greve para poder passar uma semana visitando a família. Entrevistei também os usuários dos serviços que estavam paralisados e nunca ouvi ninguém entre os “civis” apoiar a iniciativa de classe. Ou seja: ao invés de sensibilizar, os grevistas provocavam raiva em todos os que sofrem com a não prestação dos serviços.
O mais engraçado é que todas as autoridades, ou mesmo representantes do patronato, falam em respeito aos direitos dos trabalhadores e, por trás dos panos, buscam maneiras caçar as bruxas. E os dirigentes sindicais sempre falam em repressão, em não baixar a cabeça, em seguir em frente, em resistência, até que todas as ameaças tenham feito os trabalhadores voltarem ao batente sem nenhum pio, e o movimento acaba esvaziado. Aí, essas mesmas lideranças sindicais vão a imprensa declarar a vitória porque “muito” foi conquistado. É um grande teatro!
Sei não. Ou eu que fiquei muito desiludido com as utopias que me venderam, ou está na hora das organizações sindicais adotarem posturas um pouco mais simpáticas à sociedade e que não coloquem em risco os colegas. As greves hoje são mais nocivas aos trabalhadores do que a qualquer outro. A não ser que o estatuto garanta a estabilidade no emprego por alguns anos, ninguém mais me pega para paralisação alguma.
publicada em 29-04-11
Tecnologia 10x0 Eu
Não sei se alguém aí percebeu mas, pela primeira vez em quase dois anos, na semana passada minha coluna não foi publicada. Não, ainda não fui censurado pelos nobres diretores da Folha, nem quando mereci. Mas acabei enrolado em um pequeno problema técnico, que serviu ao menos para uma coisa: ser objeto da coluna desta semana (nada se ganha, nada se perde, tudo se transforma, diria um tal de Lavoisier – isto segundo o Google).
Mas voltamos aos fatos: meu notebook resolveu dar pau bem na hora de enviar a coluna. Isso não é desculpa de aluno, embora em outras ocasiões já tenha utilizado deste estratagema. Escrevi a coluna e, enquanto navegava pela internet pensando num título, travou tudo. Reiniciei a máquina, apareceu a mensagem para que eu entrasse no modo de segurança. Não adiantou. Tentei o modo normal. Nada. Após várias outras tentativas, que foram desde desligar o notebook durante um tempo para observar se o problema na era apenas aquecimento até orações a Santo Expedito, joguei a toalha. Pela primeira vez na vida, perdi um deadline!
Depois e tentar avisar a equipe do jornal e pedir desculpas de forma (des)envergonhada, lembrei do que mais havia no Jarbas (este é o nome do meu notebook). Pelo menos dez anos de fotos (coleção que já estava incompleta por causa de outras panes em outros computadores). Cerca de cinco mil músicas. Vídeos, inclusive o de minha formatura. Todas as colunas escritas até agora na Folha (ainda não são dignas do prêmio Pulitzer, mas são quase cem e ao menos eu tenho carinho por elas). Minhas duas monografias, a de conclusão da graduação e a da pós-graduação. Jogos (o que fazer para curar a insônia ou o formigamentos nos meus joelhos?).
Não é a primeira vez que blasfemo a tecnologia. Antigamente, eu só perderia minhas fotos se pegasse fogo na casa. Nem se a residência de meus pais fosse roubada ficaria sem os meus lindos retratinhos, afinal, qual bandido me levaria para casa de recordação? E além de tudo, haveria os negativos, era só levar rapidinho ali no Chapa e pronto. Nem havia essas máquinas digitais, na base do filme mesmo. Até sei de histórias de roubos de discos de vinil e de CD’s, mas nada se compara a perde tantas músicas, algumas raras e de bandas desconhecidas, de uma só vez. E, se fosse há 20 anos atrás, e eu teria uma caixa de sapato com minhas colunas datilografadas e corrigidas a caneta, com observações de todos os tipos. E os filmes não seriam perdas, já que eu só pegava na locadora mesmo.
Agora, de volta ao zero. É claro que boa parte das informações perdidas podem ser recuperadas no próprio ciberespaço. Assim como eu já havia baixado um monte de filmes e músicas – e até livros -, posso repetir a dose. Boa parte das fotos também, é só passar pelos perfis dos meus amigos nas redes sociais que ainda conseguirei lembrar da minha cara alguns anos mais moço, mais magro e com mais cabelos). Mas só de pensar nesse trabalhão, prefiro cruzar os dedos e colocar um trabalhinho em um cruzamento para que o técnico que está examinando o Jarbas recupere tudo.
Pois é. Dizem que a tecnologia é desenvolvida para facilitar nossa vida. É certo que em grande parte sim, não há a menor dúvida. Por outro lado, acho que ela tira um pouco o romantismo das coisas (tema para uma próxima coluna, ok?) e também escraviza um pouco. A tecnologia faz a gente ganhar tempo, torna tudo mais ágil. Mas também nos prende durante horas em frente a um computador. Ao mesmo tempo em que nos conecta ao mundo, desliga-nos de tudo o que acontece num raio superior a dois metros. E ainda por cima, volta e meia obriga-nos a reescrever páginas e mais páginas não salvas...
publicada em 08-04-11
Mas voltamos aos fatos: meu notebook resolveu dar pau bem na hora de enviar a coluna. Isso não é desculpa de aluno, embora em outras ocasiões já tenha utilizado deste estratagema. Escrevi a coluna e, enquanto navegava pela internet pensando num título, travou tudo. Reiniciei a máquina, apareceu a mensagem para que eu entrasse no modo de segurança. Não adiantou. Tentei o modo normal. Nada. Após várias outras tentativas, que foram desde desligar o notebook durante um tempo para observar se o problema na era apenas aquecimento até orações a Santo Expedito, joguei a toalha. Pela primeira vez na vida, perdi um deadline!
Depois e tentar avisar a equipe do jornal e pedir desculpas de forma (des)envergonhada, lembrei do que mais havia no Jarbas (este é o nome do meu notebook). Pelo menos dez anos de fotos (coleção que já estava incompleta por causa de outras panes em outros computadores). Cerca de cinco mil músicas. Vídeos, inclusive o de minha formatura. Todas as colunas escritas até agora na Folha (ainda não são dignas do prêmio Pulitzer, mas são quase cem e ao menos eu tenho carinho por elas). Minhas duas monografias, a de conclusão da graduação e a da pós-graduação. Jogos (o que fazer para curar a insônia ou o formigamentos nos meus joelhos?).
Não é a primeira vez que blasfemo a tecnologia. Antigamente, eu só perderia minhas fotos se pegasse fogo na casa. Nem se a residência de meus pais fosse roubada ficaria sem os meus lindos retratinhos, afinal, qual bandido me levaria para casa de recordação? E além de tudo, haveria os negativos, era só levar rapidinho ali no Chapa e pronto. Nem havia essas máquinas digitais, na base do filme mesmo. Até sei de histórias de roubos de discos de vinil e de CD’s, mas nada se compara a perde tantas músicas, algumas raras e de bandas desconhecidas, de uma só vez. E, se fosse há 20 anos atrás, e eu teria uma caixa de sapato com minhas colunas datilografadas e corrigidas a caneta, com observações de todos os tipos. E os filmes não seriam perdas, já que eu só pegava na locadora mesmo.
Agora, de volta ao zero. É claro que boa parte das informações perdidas podem ser recuperadas no próprio ciberespaço. Assim como eu já havia baixado um monte de filmes e músicas – e até livros -, posso repetir a dose. Boa parte das fotos também, é só passar pelos perfis dos meus amigos nas redes sociais que ainda conseguirei lembrar da minha cara alguns anos mais moço, mais magro e com mais cabelos). Mas só de pensar nesse trabalhão, prefiro cruzar os dedos e colocar um trabalhinho em um cruzamento para que o técnico que está examinando o Jarbas recupere tudo.
Pois é. Dizem que a tecnologia é desenvolvida para facilitar nossa vida. É certo que em grande parte sim, não há a menor dúvida. Por outro lado, acho que ela tira um pouco o romantismo das coisas (tema para uma próxima coluna, ok?) e também escraviza um pouco. A tecnologia faz a gente ganhar tempo, torna tudo mais ágil. Mas também nos prende durante horas em frente a um computador. Ao mesmo tempo em que nos conecta ao mundo, desliga-nos de tudo o que acontece num raio superior a dois metros. E ainda por cima, volta e meia obriga-nos a reescrever páginas e mais páginas não salvas...
publicada em 08-04-11
Justiça seja feita
Eu juro que não queria escrever sobre isso. Mas não tem remédio. Mesmo porque eu já sabia que iria dar nisso. Você também sabia. Eles iriam dar um jeito de se livrarem dessa. E os fichas sujas que concorreram nas eleições de 2010, estão liberados para assumir os cargos.
Será que é só no Brasil que o vilão sempre vence no final? Esperamos um tempão até que a vaga deixada pelo ministro Eros Grau fosse ocupada, já que a discussão sobre valer ou não a Ficha Limpa estava empatada em cinco a cinco no Supremo Tribunal Federal (relembrando a todos: a Lei de Ficha Limpa impede que políticos condenados pela Justiça possam concorrer a cargos eletivos). O ex-presidente Lula deixou a indicação de um novo ministro para sua sucessora. Dilma escolheu o então juiz do Superior Tribunal de Justiça, Luis Fux. Recomposto o Tribunal, todos os holofotes foram ligados. Até a audiência da TV Justiça aumentou. Mas não deu em nada. O novo ministro acompanhou aqueles que defendem que a Lei da Ficha Limpa só vale para o ano que vem. Azar é nosso.
Não posso discutir leis com ninguém. Sou leigo no assunto. Sei pouco mais do que o básico. No final do ano passado já havia acompanhado durante horas a fio pela tv as argumentações de cada um dos ministros. Fico admirado com o grau de inteligência de todos. Facilmente qualquer um me convenceria. Mas como metade do Tribunal dava parecer favorável a validade da lei, creio que não é nenhum absurdo reivindica-lo. É coisa de gente maluca, mas assisti a sessão como se fosse uma partida de futebol, e torci como um doido pelos “jogadores” Ellen Gracie, Joaquim Barbosa, Ricardo Lewandowski, Cármen Lúcia e Carlos Ayres Britto. Cada vez que o relator Gilmar Mendes falava, embrulhava-me o estômago (tenho uma implicância com ele desde a história da não obrigatoriedade do diploma para jornalista). Dias Toffoli, César Peluso, Celso de Mello e Marco Aurélio Mello idem. E aquele empate me fez sentir como se o Grêmio tivesse perdido uma final (para o Inter).
Consegui chegar apenas a seguinte conclusão: cada um consegue fazer o que quer com a lei, depende apenas com que ângulo se debruça sobre os Códigos. E daí que fica difícil de entender porque não acabar com os “cidadãos” que, comprovadamente, utilizaram do dinheiro público – entre outros delitos. Por que dar mais quatro anos (oito, no caso dos senadores) de imunidade parlamentar?
Agora vamos temos que esperar ainda mais para que esse “filtro” (sim, é uma forma de tirar algumas personalidades de conduta duvidosa do cenário político) passe a funcionar. O que também, justiça seja feita (irônica essa expressão, não?) também não vai nos salvar de políticos sem escrúpulos. Mas ainda fico com a sensação de que os juizes se divertem muito com a nossa cara. É como se lavassem as mãos. Sim, porque se Jader Barbalho, Paulo Maluf, João Alberto Capiberibe, etc, conquistaram votos o suficiente para se eleger, a culpa realmente não é dos ministros. Justiça seja feita...
publicada em 25-03-11(meu aniversário!)
Será que é só no Brasil que o vilão sempre vence no final? Esperamos um tempão até que a vaga deixada pelo ministro Eros Grau fosse ocupada, já que a discussão sobre valer ou não a Ficha Limpa estava empatada em cinco a cinco no Supremo Tribunal Federal (relembrando a todos: a Lei de Ficha Limpa impede que políticos condenados pela Justiça possam concorrer a cargos eletivos). O ex-presidente Lula deixou a indicação de um novo ministro para sua sucessora. Dilma escolheu o então juiz do Superior Tribunal de Justiça, Luis Fux. Recomposto o Tribunal, todos os holofotes foram ligados. Até a audiência da TV Justiça aumentou. Mas não deu em nada. O novo ministro acompanhou aqueles que defendem que a Lei da Ficha Limpa só vale para o ano que vem. Azar é nosso.
Não posso discutir leis com ninguém. Sou leigo no assunto. Sei pouco mais do que o básico. No final do ano passado já havia acompanhado durante horas a fio pela tv as argumentações de cada um dos ministros. Fico admirado com o grau de inteligência de todos. Facilmente qualquer um me convenceria. Mas como metade do Tribunal dava parecer favorável a validade da lei, creio que não é nenhum absurdo reivindica-lo. É coisa de gente maluca, mas assisti a sessão como se fosse uma partida de futebol, e torci como um doido pelos “jogadores” Ellen Gracie, Joaquim Barbosa, Ricardo Lewandowski, Cármen Lúcia e Carlos Ayres Britto. Cada vez que o relator Gilmar Mendes falava, embrulhava-me o estômago (tenho uma implicância com ele desde a história da não obrigatoriedade do diploma para jornalista). Dias Toffoli, César Peluso, Celso de Mello e Marco Aurélio Mello idem. E aquele empate me fez sentir como se o Grêmio tivesse perdido uma final (para o Inter).
Consegui chegar apenas a seguinte conclusão: cada um consegue fazer o que quer com a lei, depende apenas com que ângulo se debruça sobre os Códigos. E daí que fica difícil de entender porque não acabar com os “cidadãos” que, comprovadamente, utilizaram do dinheiro público – entre outros delitos. Por que dar mais quatro anos (oito, no caso dos senadores) de imunidade parlamentar?
Agora vamos temos que esperar ainda mais para que esse “filtro” (sim, é uma forma de tirar algumas personalidades de conduta duvidosa do cenário político) passe a funcionar. O que também, justiça seja feita (irônica essa expressão, não?) também não vai nos salvar de políticos sem escrúpulos. Mas ainda fico com a sensação de que os juizes se divertem muito com a nossa cara. É como se lavassem as mãos. Sim, porque se Jader Barbalho, Paulo Maluf, João Alberto Capiberibe, etc, conquistaram votos o suficiente para se eleger, a culpa realmente não é dos ministros. Justiça seja feita...
publicada em 25-03-11(meu aniversário!)
Ação e reação
Com tsunami e terremotos no Japão, fatos que resultaram em quatro mil e lá vai mortos, não tive como não pensar em certas coisas. Não me refiro ao sofrimento de tantas famílias, às perdas materiais, às destruições nos sistemas viários, etc... (óbvio que isso é importante, eu ainda tenho coração, mas não é o foco da coluna). Ao escrever estas linhas estou pensando no mutirão para reerguer o país que veremos em breve.
Para quem cabulou as aulas de história, eu relembro: o Japão saiu da Segunda Guerra Mundial bem pior do que se encontra agora. Lembram das ditas bombas atômicas? Pois é. Em poucos anos, o país do sol nascente reergueu-se e tornou-se uma das maiores potências mundiais. O que provocou essa transformação? Certamente houve ajuda externa de vários países (especialmente daqueles interessados em criar um comércio forte com os japas, e principalmente dos Estados Unidos, que competiam com a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas pela dianteira do planeta), mas o que fez realmente a diferença foi o sentido de cooperação entre os habitantes do país.
Outros países devastados pela Segunda Guerra também deram a volta rapidinho, como a França e a Itália (diferentemente dos EUA, eles tiveram muitas batalhas em seu território). Mas o melhor exemplo que conheço por ouvir falar foi a Alemanha de Hitler, quebrada e destroçada após a Primeira Guerra, foi reorganizada pelo pai dos nazistas (calma novamente: não estou dizendo que o cara estava certo, mas que fez um baita trabalho, ah se fez! Pena que era louco, preconceituoso, etc...) a partir da mobilização nacional. Pense nisso: em 1918, a Alemanha era apenas um monte de cacos; em 1939, foi a potência que assombrou o mundo e que por pouco não ganhou a guerra. E sabe como? Unindo e motivando os alemães.
No Brasil mesmo, vimos recentes comoções que indicaram uma certa preocupação do nosso povo com os compatriotas, como por exemplo os deslizamentos de Santa Catarina, que teve tantas doações que a Defesa Civil do Estado estava implorando para que nada mais fosse mandado por que não havia como estocar e distribuir os donativos.
Enfim, não sei se me fiz entender, mas o que quero dizer é que, movidos como somos todos os humanos pela emoção, acontecimentos tristes como esses provocam uma mobilização enorme, apontada quase sempre para a melhora na qualidade de vida de todo o país. É como aquela ponte capenga, que ninguém se importa de trocar, a menos que caia e leve consigo algumas vidas inocentes (lembram de um certo fato ocorrido no RS no ano passado? A ponte está pronta em tempo recorde!). Eu mesmo presenciei alguns fatos interessante: foi quando ocorreram episódios do mesmo quilate que vi alguns políticos trabalhando realmente de maneira séria e voltada para a população, como sempre deveria ser.
Diante do problema, vem a solução. Disseram-me na escola que, para toda a ação, tem-se uma reação. Passei a duvidar. Não temos tsunami, ou terremotos (uma enchentezinha aqui, um deslizamento ali), dificilmente teremos acidente nuclear com as usinas Angras, estamos bem longe de entrar em guerra, somos o país invejado pela alegria, pelo carnaval, pelo futebol. Ao invés de crescermos por não ter que enfrentar problemas de grandes proporções, parece-me que é justamente isso que nos tapa os olhos e nos mantém estáticos, sem cobrar nada das autoridades ou sem mexer um dedo pelo próximo. Hoje estou convicto de que pequenas injustiças, mini-tragédias, pelo menos para a maioria, não causa reação alguma. Será que só vamos conseguir desenvolver esse espírito próximo do final do mundo?
18-03-11
Para quem cabulou as aulas de história, eu relembro: o Japão saiu da Segunda Guerra Mundial bem pior do que se encontra agora. Lembram das ditas bombas atômicas? Pois é. Em poucos anos, o país do sol nascente reergueu-se e tornou-se uma das maiores potências mundiais. O que provocou essa transformação? Certamente houve ajuda externa de vários países (especialmente daqueles interessados em criar um comércio forte com os japas, e principalmente dos Estados Unidos, que competiam com a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas pela dianteira do planeta), mas o que fez realmente a diferença foi o sentido de cooperação entre os habitantes do país.
Outros países devastados pela Segunda Guerra também deram a volta rapidinho, como a França e a Itália (diferentemente dos EUA, eles tiveram muitas batalhas em seu território). Mas o melhor exemplo que conheço por ouvir falar foi a Alemanha de Hitler, quebrada e destroçada após a Primeira Guerra, foi reorganizada pelo pai dos nazistas (calma novamente: não estou dizendo que o cara estava certo, mas que fez um baita trabalho, ah se fez! Pena que era louco, preconceituoso, etc...) a partir da mobilização nacional. Pense nisso: em 1918, a Alemanha era apenas um monte de cacos; em 1939, foi a potência que assombrou o mundo e que por pouco não ganhou a guerra. E sabe como? Unindo e motivando os alemães.
No Brasil mesmo, vimos recentes comoções que indicaram uma certa preocupação do nosso povo com os compatriotas, como por exemplo os deslizamentos de Santa Catarina, que teve tantas doações que a Defesa Civil do Estado estava implorando para que nada mais fosse mandado por que não havia como estocar e distribuir os donativos.
Enfim, não sei se me fiz entender, mas o que quero dizer é que, movidos como somos todos os humanos pela emoção, acontecimentos tristes como esses provocam uma mobilização enorme, apontada quase sempre para a melhora na qualidade de vida de todo o país. É como aquela ponte capenga, que ninguém se importa de trocar, a menos que caia e leve consigo algumas vidas inocentes (lembram de um certo fato ocorrido no RS no ano passado? A ponte está pronta em tempo recorde!). Eu mesmo presenciei alguns fatos interessante: foi quando ocorreram episódios do mesmo quilate que vi alguns políticos trabalhando realmente de maneira séria e voltada para a população, como sempre deveria ser.
Diante do problema, vem a solução. Disseram-me na escola que, para toda a ação, tem-se uma reação. Passei a duvidar. Não temos tsunami, ou terremotos (uma enchentezinha aqui, um deslizamento ali), dificilmente teremos acidente nuclear com as usinas Angras, estamos bem longe de entrar em guerra, somos o país invejado pela alegria, pelo carnaval, pelo futebol. Ao invés de crescermos por não ter que enfrentar problemas de grandes proporções, parece-me que é justamente isso que nos tapa os olhos e nos mantém estáticos, sem cobrar nada das autoridades ou sem mexer um dedo pelo próximo. Hoje estou convicto de que pequenas injustiças, mini-tragédias, pelo menos para a maioria, não causa reação alguma. Será que só vamos conseguir desenvolver esse espírito próximo do final do mundo?
18-03-11
Oficialmente, feliz ano novo!
Costumam dizer por aí que o ano começa somente depois que o carnaval acaba. Eu disconcordo – concordo e discordo ao mesmo tempo, sem medo de parecer incoerente. Mas já me aconteceu de perceber que a boiada já estava passando quando ouvi “Estação Primeira de Mangueira... Dez”...
Dá para entender. O calor começa a diminuir, dá até vontade de pensar de novo. Há menos pessoas na casa do BBB, as empresas começam a ficar completas, com a volta de todos os funcionários; não há mais recesso tão cedo no Congresso Nacional, nas Assembleias Legislativas, nas Câmaras de Vereadores; as secretarias em todos os âmbitos e os órgãos públicos agora estão (ou deveriam) operar normalmente (o que muda até o noticiário, que passa dois meses preocupado com previsão do tempo, acidentes e esportes); as aulas recomeçam e os pais não se sentem mais constrangidos ao verem os filhos em casa sem fazer absolutamente nada ou, pior, apenas fazendo barulho.
Parece que tudo o que vinha antes era de brincadeirinha, uma espécie de ensaio, e agora a coisa começa a pegar para valer. Mas, pelo menos para as estatísticas, o ano começou mesmo em janeiro. Sobretudo no que se refere a afogamentos, mortes no trânsito, mortes em tragédias, entrada de dólares, superávit, déficit, balança comercial, cotações da bolsa, desabrigados por causa de fenômenos climáticos, perdas na lavoura por causa da estiagem. (Sempre tive a impressão de que as estatísticas servem às forças do mal!). Tem o futebol também que, apesar de os primeiros jogos – por qualquer competição – terem ritmo mais lento, já tem campeões.
A verdade – aquilo que eu tomo como verdade, no fim das contas – é de que cada pessoa tem seu próprio tempo como paralelo ao tempo de todos. O cara que chegou semana passada depois de um mês em Camboriú encara tudo um pouco diferente de quem não teve direito a férias, ou então, que tirou férias lá em novembro último. Porém, entre todos – os de minha relação – uma coisa faz com que os cronômetros sejam ajustados, que caia a ficha geral de que sim, estamos em 2011. Chama-se março. É incrível como 98,7% das pessoas chegam ao terceiro mês do ano quebrado, apertando o cinto, choramingando por causa das contas. O índice só não é maior porque alguém tem que estar satisfeito com isso, é impossível que todos percam. E, para piorar, é um mês com 31 dias, o que dá a impressão de que o dinheiro levará uma eternidade para entrar no bolso. É IPTU, IPVA, até a declaração do Imposto de Renda já está sendo recolhida. Se você se enquadra nesta categoria, desejo, agora oficialmente, feliz 2011!
***
Deveria ser uma coluna inteira, mas como o meu ano está começando, não queria aborrecimento total nestes 3 mil caracteres geralmente extrapolados. Mas está relacionado à Educação do nosso povo. De acordo com o Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário, os materiais escolares carregam em seu valor em torno de 50% de impostos. A cada caneta esferográfica comprada, paga-se 47,49% de impostos. Uma régua carrega consigo 44,65%, enquanto as colas mandam 42,71%. Imaginem, pai e mãe de dois, três filhos, que iniciaram as aulas nos últimos dias, quão mais tranqüilo seria o mês se houvesse a redução dessas taxas. Na minha concepção, o material escolar é tão básico quanto o alimento consumido e, de forma alguma, poderia recolher aos cofres mais do que 10%. A redução seria quase uma bolsa educação para cada família brasileira, um incentivo a mais (dentre os poucos que são dados) para a melhoria dos nossos índices.
publicada em 11-03-11
Dá para entender. O calor começa a diminuir, dá até vontade de pensar de novo. Há menos pessoas na casa do BBB, as empresas começam a ficar completas, com a volta de todos os funcionários; não há mais recesso tão cedo no Congresso Nacional, nas Assembleias Legislativas, nas Câmaras de Vereadores; as secretarias em todos os âmbitos e os órgãos públicos agora estão (ou deveriam) operar normalmente (o que muda até o noticiário, que passa dois meses preocupado com previsão do tempo, acidentes e esportes); as aulas recomeçam e os pais não se sentem mais constrangidos ao verem os filhos em casa sem fazer absolutamente nada ou, pior, apenas fazendo barulho.
Parece que tudo o que vinha antes era de brincadeirinha, uma espécie de ensaio, e agora a coisa começa a pegar para valer. Mas, pelo menos para as estatísticas, o ano começou mesmo em janeiro. Sobretudo no que se refere a afogamentos, mortes no trânsito, mortes em tragédias, entrada de dólares, superávit, déficit, balança comercial, cotações da bolsa, desabrigados por causa de fenômenos climáticos, perdas na lavoura por causa da estiagem. (Sempre tive a impressão de que as estatísticas servem às forças do mal!). Tem o futebol também que, apesar de os primeiros jogos – por qualquer competição – terem ritmo mais lento, já tem campeões.
A verdade – aquilo que eu tomo como verdade, no fim das contas – é de que cada pessoa tem seu próprio tempo como paralelo ao tempo de todos. O cara que chegou semana passada depois de um mês em Camboriú encara tudo um pouco diferente de quem não teve direito a férias, ou então, que tirou férias lá em novembro último. Porém, entre todos – os de minha relação – uma coisa faz com que os cronômetros sejam ajustados, que caia a ficha geral de que sim, estamos em 2011. Chama-se março. É incrível como 98,7% das pessoas chegam ao terceiro mês do ano quebrado, apertando o cinto, choramingando por causa das contas. O índice só não é maior porque alguém tem que estar satisfeito com isso, é impossível que todos percam. E, para piorar, é um mês com 31 dias, o que dá a impressão de que o dinheiro levará uma eternidade para entrar no bolso. É IPTU, IPVA, até a declaração do Imposto de Renda já está sendo recolhida. Se você se enquadra nesta categoria, desejo, agora oficialmente, feliz 2011!
***
Deveria ser uma coluna inteira, mas como o meu ano está começando, não queria aborrecimento total nestes 3 mil caracteres geralmente extrapolados. Mas está relacionado à Educação do nosso povo. De acordo com o Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário, os materiais escolares carregam em seu valor em torno de 50% de impostos. A cada caneta esferográfica comprada, paga-se 47,49% de impostos. Uma régua carrega consigo 44,65%, enquanto as colas mandam 42,71%. Imaginem, pai e mãe de dois, três filhos, que iniciaram as aulas nos últimos dias, quão mais tranqüilo seria o mês se houvesse a redução dessas taxas. Na minha concepção, o material escolar é tão básico quanto o alimento consumido e, de forma alguma, poderia recolher aos cofres mais do que 10%. A redução seria quase uma bolsa educação para cada família brasileira, um incentivo a mais (dentre os poucos que são dados) para a melhoria dos nossos índices.
publicada em 11-03-11
Viva os feriados!
Desde que passei a freqüentar as redações como profissional, uma das pautas
mais certas do ano era a do carnaval. Não apenas a cobertura em si, com fotos de
blocos e de pessoas fantasiadas, mas um expediente para divulgar quais os serviços
que permaneceriam aberto sobretudo na terça-feira. Além de alguns postos de gasolina
(geralmente de beira de estrada) e de um que outro supermercado, tudo ficava parado.
Órgãos públicos disponibilizavam telefones de plantão. Bancos, somente caixas
eletrônicos. Farmácias, umas poucas.
Outra coisa que fazíamos todos os anos, em praticamente todos os lugares por
onde passei, era lembrar que a terça-feira de carnaval NÃO é feriado. Foram várias as
enquetes que fizemos com a sacana pergunta, “como carnaval não é feriado, você acha
que órgãos públicos deveriam funcionar normalmente?”. Na maioria das vezes, a
resposta vinha em forma de crítica ao poder público, do tipo “que isso é um descaso,
um desrespeito aos contribuintes”, etc, etc, etc... Mas teve uma vez que a maioria dos
entrevistados acharam normal o feriado, resultado que, particularmente me pegou de
surpresa. Talvez porque, como eu tinha que trabalhar durante o carnaval, criava comigo
um certo recalque, e achava q todo mundo tinha que trabalhar também. Principalmente
quando tentava dar andamento a algumas pautas e não encontrava uma viva alma que
pudesse dar declarações sobre os fatos.
Passado alguns anos, descubro que em Panambi o prefeito mandou todo mundo
trabalhar na terça-feira. O que era para ser “ponto facultativo”, virou dia normal.
Pensava sobre o assunto, e me dei conta que pensava o contrário de antes, achando que
a medida era eleitoreira, que o pessoal vai fingir que vai trabalhar, que o chefe do
Executivo local vai arrumar inimigos dentro da própria administração, etc...
Acho que sei o porquê da mudança de opinião. Por morar longe da família,
descobri que os feriados, especialmente quando caem em segundas ou sextas, são
ótimos. Isso não quer dizer que eu não queira trabalhar, mas que eu posso passar um
tempo em um lugar diferente do cotidiano, com pessoas que estão longe, que não posso
ver todos os dias. O meu rendimento até aumenta após uma jornada assim.
***
Lembro da polêmica surgida em 2009, quando foi aprovado na CCJ da Câmara
dos Deputados o projeto de lei que estabelece o adiamento para as sextas-feiras, "dos
feriados que caírem nos demais dias da semana, com exceção dos que ocorrem nos
sábados e domingos e dos feriados dos dias 1º de janeiro (Confraternização Universal),
7 de setembro (Independência) e 25 de dezembro (Natal)". Como justificativa para isso,
ouvi que na sexta as pessoas já estão mais devagar do que numa quarta, por exemplo, e
isso reduziria o impacto econômico. Sei! Até hoje acho que a proposta não virou lei
porque os mais prejudicados são os políticos, que teriam que ficar em Brasília em uma
semana que poderiam ficar “junto às bases”.
***
Para concluir este. Só não gosta de feriado quem não tem folga, isso é fato. Hoje,
começa meu feriadão. Fosse o contrário, eu estaria tão mal-humorado como devem estar
os funcionários da Prefeitura de Panambi.
***
Carnaval é carnaval, por isso sempre tem um chato para dar conselhos. Aqui
está mais um: não bebam num dia o que poderão beber em quatro; arranje formas
alternativas ao carro para locomover-se do local da festa para casa; cuidado com
brincadeiras de mau gosto, especialmente com quem não se conhece, para evitar olhos
roxos; usem camisinha; e não esqueça que o carnaval acaba na terça e a vida segue.
Todo e qualquer fiasco será lembrado em cada encontro de amigos...
04-03-11
mais certas do ano era a do carnaval. Não apenas a cobertura em si, com fotos de
blocos e de pessoas fantasiadas, mas um expediente para divulgar quais os serviços
que permaneceriam aberto sobretudo na terça-feira. Além de alguns postos de gasolina
(geralmente de beira de estrada) e de um que outro supermercado, tudo ficava parado.
Órgãos públicos disponibilizavam telefones de plantão. Bancos, somente caixas
eletrônicos. Farmácias, umas poucas.
Outra coisa que fazíamos todos os anos, em praticamente todos os lugares por
onde passei, era lembrar que a terça-feira de carnaval NÃO é feriado. Foram várias as
enquetes que fizemos com a sacana pergunta, “como carnaval não é feriado, você acha
que órgãos públicos deveriam funcionar normalmente?”. Na maioria das vezes, a
resposta vinha em forma de crítica ao poder público, do tipo “que isso é um descaso,
um desrespeito aos contribuintes”, etc, etc, etc... Mas teve uma vez que a maioria dos
entrevistados acharam normal o feriado, resultado que, particularmente me pegou de
surpresa. Talvez porque, como eu tinha que trabalhar durante o carnaval, criava comigo
um certo recalque, e achava q todo mundo tinha que trabalhar também. Principalmente
quando tentava dar andamento a algumas pautas e não encontrava uma viva alma que
pudesse dar declarações sobre os fatos.
Passado alguns anos, descubro que em Panambi o prefeito mandou todo mundo
trabalhar na terça-feira. O que era para ser “ponto facultativo”, virou dia normal.
Pensava sobre o assunto, e me dei conta que pensava o contrário de antes, achando que
a medida era eleitoreira, que o pessoal vai fingir que vai trabalhar, que o chefe do
Executivo local vai arrumar inimigos dentro da própria administração, etc...
Acho que sei o porquê da mudança de opinião. Por morar longe da família,
descobri que os feriados, especialmente quando caem em segundas ou sextas, são
ótimos. Isso não quer dizer que eu não queira trabalhar, mas que eu posso passar um
tempo em um lugar diferente do cotidiano, com pessoas que estão longe, que não posso
ver todos os dias. O meu rendimento até aumenta após uma jornada assim.
***
Lembro da polêmica surgida em 2009, quando foi aprovado na CCJ da Câmara
dos Deputados o projeto de lei que estabelece o adiamento para as sextas-feiras, "dos
feriados que caírem nos demais dias da semana, com exceção dos que ocorrem nos
sábados e domingos e dos feriados dos dias 1º de janeiro (Confraternização Universal),
7 de setembro (Independência) e 25 de dezembro (Natal)". Como justificativa para isso,
ouvi que na sexta as pessoas já estão mais devagar do que numa quarta, por exemplo, e
isso reduziria o impacto econômico. Sei! Até hoje acho que a proposta não virou lei
porque os mais prejudicados são os políticos, que teriam que ficar em Brasília em uma
semana que poderiam ficar “junto às bases”.
***
Para concluir este. Só não gosta de feriado quem não tem folga, isso é fato. Hoje,
começa meu feriadão. Fosse o contrário, eu estaria tão mal-humorado como devem estar
os funcionários da Prefeitura de Panambi.
***
Carnaval é carnaval, por isso sempre tem um chato para dar conselhos. Aqui
está mais um: não bebam num dia o que poderão beber em quatro; arranje formas
alternativas ao carro para locomover-se do local da festa para casa; cuidado com
brincadeiras de mau gosto, especialmente com quem não se conhece, para evitar olhos
roxos; usem camisinha; e não esqueça que o carnaval acaba na terça e a vida segue.
Todo e qualquer fiasco será lembrado em cada encontro de amigos...
04-03-11
MEC manda não reprovar
O MEC acatou o que disse o Conselho Nacional de Educação e recomendou aos educadores, tanto da rede pública quanto da privada, a não reprovação de alunos em séries iniciais. Na prática, isso já acontece em muitos estados brasileiros. Mas não é lei, até onde se sabe ninguém será preso caso algum aluno seja reprovado.
Uma série de razões foi apontada para que a medida passasse a vigorar: possibilita a formação continuada dos alunos, não há risco de elevar o analfabetismo funcional. Há ainda uma pesquisa realizada no ano passado pela Fundação para Pesquisa e Desenvolvimento da Administração, Contabilidade e Economia (Fundace), que diz que chegar ao final do ensino fundamental com pelo menos um ano de atraso em relação à idade esperada aumenta em 20% as chances de o aluno não se matricular no ensino médio. (Não sei o quanto isso influencia, afinal a mesma pesquisa diz que aproximadamente 30% dos estudantes com notas ruins no ensino fundamental não se matriculam no ensino médio).
Olha, não sou especialista em Educação, e acredito que seja bastante difícil colocar em ordem uma área que é tida em discursos como a mais importante, mas que não recebe os aportes necessários. Mas, como não faz nem 25 anos que eu estive no ensino fundamental, ainda lembro de algumas coisas que, ao me deparar com notícias como essas, fazem-me refletir.
No Roncalli, havia pelo menos uns oito alunos nos turnos da manhã ou da tarde que eram conhecidos pela gurizada por já terem reprovado quatro, cinco, seis vezes. O que acontecia era que eles chegavam à adolescência primeiro que os outros, cresciam antes, trocavam de voz enquanto alguns recém deixavam a mamadeira. Geralmente eram aqueles que davam problemas, que passavam constantemente pela secretaria, que se revoltavam por qualquer coisa (lembrem que ele chegava na aborrescência antes dos demais), etc... Eram casos perdidos, e por mais ajuda que os professores oferecessem, não adiantava. Houve uma situação que um sujeito que prometeu “pegar na saída” um pirralho quatro anos mais novo porque havia tirado o dobro da nota dele.
***
Reconheço todos esses problemas. Alunos que reprovam uma, duas vezes, realmente perdem o estímulo. Mas como se sente alguém que sempre recebe as notas mais baixas de uma turma? Como fica auto-estima do aluno estigmatizado como o “mais burro” da sala (crianças são cruéis nessas horas). Alguém empurrado, que não conseguiu aprender o mínimo exigido, tem condições de aprender o mesmo que os demais no ano seguinte? E o rendimento da turma como um todo? O trabalho que não anda por causa dos retardatários? Os professores que precisam repetir inúmeras vezes a mesma coisa ao invés de tocar a aula adiante? Seria esse o caminho?
***
Já respondendo a pergunta anterior, não creio que empurrar os alunos no final do ano seja o melhor. Acho, sim, que tem que empurrar desde o início, distinguir aqueles com mais dificuldades de aprendizado e tocar aulas de reforço.
Sim, ministrar aulas de reforço é uma baita medida. Mas a melhor ainda, no meu leigo julgamento, é a assistência que os filhos recebem em casa, dos pais. A cobrança, o acompanhamento, a participação são decisivos. Para a criança é importante saber que o pai, que a mãe, valorizam e apóiam o esforço dela. Tanto que pode-se medir o interesse dos pais pelo aprendizado dos filhos de uma forma bem simples, pela cara que as crianças fazem ao receber a nota de uma prova: aqueles que receberem um sete e ficarem feliz, é porque não são muito cobrados. Já aqueles que tiram nove e ainda assim esboçam uma certa indignação, podem ter certeza, estão no caminho.
publicada em 25-02-11
Uma série de razões foi apontada para que a medida passasse a vigorar: possibilita a formação continuada dos alunos, não há risco de elevar o analfabetismo funcional. Há ainda uma pesquisa realizada no ano passado pela Fundação para Pesquisa e Desenvolvimento da Administração, Contabilidade e Economia (Fundace), que diz que chegar ao final do ensino fundamental com pelo menos um ano de atraso em relação à idade esperada aumenta em 20% as chances de o aluno não se matricular no ensino médio. (Não sei o quanto isso influencia, afinal a mesma pesquisa diz que aproximadamente 30% dos estudantes com notas ruins no ensino fundamental não se matriculam no ensino médio).
Olha, não sou especialista em Educação, e acredito que seja bastante difícil colocar em ordem uma área que é tida em discursos como a mais importante, mas que não recebe os aportes necessários. Mas, como não faz nem 25 anos que eu estive no ensino fundamental, ainda lembro de algumas coisas que, ao me deparar com notícias como essas, fazem-me refletir.
No Roncalli, havia pelo menos uns oito alunos nos turnos da manhã ou da tarde que eram conhecidos pela gurizada por já terem reprovado quatro, cinco, seis vezes. O que acontecia era que eles chegavam à adolescência primeiro que os outros, cresciam antes, trocavam de voz enquanto alguns recém deixavam a mamadeira. Geralmente eram aqueles que davam problemas, que passavam constantemente pela secretaria, que se revoltavam por qualquer coisa (lembrem que ele chegava na aborrescência antes dos demais), etc... Eram casos perdidos, e por mais ajuda que os professores oferecessem, não adiantava. Houve uma situação que um sujeito que prometeu “pegar na saída” um pirralho quatro anos mais novo porque havia tirado o dobro da nota dele.
***
Reconheço todos esses problemas. Alunos que reprovam uma, duas vezes, realmente perdem o estímulo. Mas como se sente alguém que sempre recebe as notas mais baixas de uma turma? Como fica auto-estima do aluno estigmatizado como o “mais burro” da sala (crianças são cruéis nessas horas). Alguém empurrado, que não conseguiu aprender o mínimo exigido, tem condições de aprender o mesmo que os demais no ano seguinte? E o rendimento da turma como um todo? O trabalho que não anda por causa dos retardatários? Os professores que precisam repetir inúmeras vezes a mesma coisa ao invés de tocar a aula adiante? Seria esse o caminho?
***
Já respondendo a pergunta anterior, não creio que empurrar os alunos no final do ano seja o melhor. Acho, sim, que tem que empurrar desde o início, distinguir aqueles com mais dificuldades de aprendizado e tocar aulas de reforço.
Sim, ministrar aulas de reforço é uma baita medida. Mas a melhor ainda, no meu leigo julgamento, é a assistência que os filhos recebem em casa, dos pais. A cobrança, o acompanhamento, a participação são decisivos. Para a criança é importante saber que o pai, que a mãe, valorizam e apóiam o esforço dela. Tanto que pode-se medir o interesse dos pais pelo aprendizado dos filhos de uma forma bem simples, pela cara que as crianças fazem ao receber a nota de uma prova: aqueles que receberem um sete e ficarem feliz, é porque não são muito cobrados. Já aqueles que tiram nove e ainda assim esboçam uma certa indignação, podem ter certeza, estão no caminho.
publicada em 25-02-11
Experiência no Exterior
Já é algum tempo a moda entre jovens de ir para Europa, Estado Unidos e
Austrália para aprender uma nova língua e novos costumes. Entre meus amigos, uma
boa parcela já teve essa experiência, e outros estão se programando para tê-la. Não
fui um deles, portanto a opinião que se tem aqui é de alguém que apenas ouviu várias
narrativas a respeito.
Acho bastante válida a ida para o exterior. Especialmente porque conta muito no
currículo. Mas vejo alguns probleminhas aí, especialmente no que se refere no momento
certo para ir. Vou citar o exemplo de uma colega de faculdade. Ela esperou se formar
para ir para Londres. Não pensava em mais nada, só estudava inglês e italiano para
conseguir se comunicar lá fora enquanto freqüentasse os cursos de inglês e italiano.
Não queria saber nem de estágio. Pois bem. Ela foi. Passou dois anos e meio no Velho
Continente. Quando voltou, ao invés de ter mais mercado, não conseguiu se encaixar
porque faltava experiência na área. O que ela ouviu da maior parte dos veículos que
procurou: “ter essa experiência no Exterior é bastante importante, mas preferimos
alguém que já tenha atuado na área, até porque pouco utilizamos os conhecimentos
em língua estrangeira”. Ou seja, esses conhecimentos seriam ótimos para mídias de
circulação nacional e internacional. Que exigem muita experiência na área. Hoje ela
é professora de inglês (sem deméritos para isso, possivelmente ganhe mais hoje do
que como jornalista, mas não chegou a usar um diploma que levou quatro anos para
conquistar).
Por outro lado, outros conhecidos que foram mais cedo, que trancaram a
faculdade por um tempo e depois retomaram, tiveram resultados bem melhores. Tenho
dois amigos no Estadão e um em a Folha de São Paulo. Outros, que foram mais tarde,
estão no Exterior fazendo mestrados, doutorado. Construíram uma carreira sólida aqui,
e completaram lá fora.
Pode até ser recalque, e dos grandes, mas tem uma coisa que não agüento nesse
povo que debanda para lá. É que tudo lá parece melhor do que aqui. Especialmente
vindo daqueles que moraram em muquifos, que sofreram preconceito por serem
brasileiros, que trabalharam em subempregos - alguns trabalharam em dois
subempregos ao mesmo tempo -, e que acham que isso é muito melhor do que qualquer
coisa que exista no Brasil. Pessoas de famílias com poder aquisitivo considerável, que
sempre tiveram de tudo, que nunca precisaram colocar a mão na massa, se sujeitam a
algo que não estavam acostumadas e chamam de grande experiência de vida.
Olha, para ter experiência de vida no Brasil, basta tentar sustentar uma família
com R$ 545,00. Basta ter que pegar três, quatro ônibus por dia em horário de rush. Ou
então reconstruir um lar destruído por alagamentos. Ou pelo menos se envolver em
trabalhos sociais, que também conta como currículo.
Aprender outras línguas e conhecer novas culturas ainda fazem parte dos
meus planos, e invejo (inveja branca) quem teve essa oportunidade. Só não tentem me
convencer que se sentir só, lavar pratos, ser considerado mão-de-obra barata, sofrer
preconceito por ser estrangeiro, enfim, que isso tudo é uma maravilha. Pra mim não
cola.
publicada em 18-02-11
Austrália para aprender uma nova língua e novos costumes. Entre meus amigos, uma
boa parcela já teve essa experiência, e outros estão se programando para tê-la. Não
fui um deles, portanto a opinião que se tem aqui é de alguém que apenas ouviu várias
narrativas a respeito.
Acho bastante válida a ida para o exterior. Especialmente porque conta muito no
currículo. Mas vejo alguns probleminhas aí, especialmente no que se refere no momento
certo para ir. Vou citar o exemplo de uma colega de faculdade. Ela esperou se formar
para ir para Londres. Não pensava em mais nada, só estudava inglês e italiano para
conseguir se comunicar lá fora enquanto freqüentasse os cursos de inglês e italiano.
Não queria saber nem de estágio. Pois bem. Ela foi. Passou dois anos e meio no Velho
Continente. Quando voltou, ao invés de ter mais mercado, não conseguiu se encaixar
porque faltava experiência na área. O que ela ouviu da maior parte dos veículos que
procurou: “ter essa experiência no Exterior é bastante importante, mas preferimos
alguém que já tenha atuado na área, até porque pouco utilizamos os conhecimentos
em língua estrangeira”. Ou seja, esses conhecimentos seriam ótimos para mídias de
circulação nacional e internacional. Que exigem muita experiência na área. Hoje ela
é professora de inglês (sem deméritos para isso, possivelmente ganhe mais hoje do
que como jornalista, mas não chegou a usar um diploma que levou quatro anos para
conquistar).
Por outro lado, outros conhecidos que foram mais cedo, que trancaram a
faculdade por um tempo e depois retomaram, tiveram resultados bem melhores. Tenho
dois amigos no Estadão e um em a Folha de São Paulo. Outros, que foram mais tarde,
estão no Exterior fazendo mestrados, doutorado. Construíram uma carreira sólida aqui,
e completaram lá fora.
Pode até ser recalque, e dos grandes, mas tem uma coisa que não agüento nesse
povo que debanda para lá. É que tudo lá parece melhor do que aqui. Especialmente
vindo daqueles que moraram em muquifos, que sofreram preconceito por serem
brasileiros, que trabalharam em subempregos - alguns trabalharam em dois
subempregos ao mesmo tempo -, e que acham que isso é muito melhor do que qualquer
coisa que exista no Brasil. Pessoas de famílias com poder aquisitivo considerável, que
sempre tiveram de tudo, que nunca precisaram colocar a mão na massa, se sujeitam a
algo que não estavam acostumadas e chamam de grande experiência de vida.
Olha, para ter experiência de vida no Brasil, basta tentar sustentar uma família
com R$ 545,00. Basta ter que pegar três, quatro ônibus por dia em horário de rush. Ou
então reconstruir um lar destruído por alagamentos. Ou pelo menos se envolver em
trabalhos sociais, que também conta como currículo.
Aprender outras línguas e conhecer novas culturas ainda fazem parte dos
meus planos, e invejo (inveja branca) quem teve essa oportunidade. Só não tentem me
convencer que se sentir só, lavar pratos, ser considerado mão-de-obra barata, sofrer
preconceito por ser estrangeiro, enfim, que isso tudo é uma maravilha. Pra mim não
cola.
publicada em 18-02-11
Salário cebola
Parei de acompanhar as discussões por um novo salário mínimo. É muito
revoltante ver uma briga por dez, vinte reais. Dilma quer dar R$ 545,00, alguns
deputados de oposição “brigam”por R$ 600, as centrais sindicais almejam R$ 580,
mas a tendência é que fique em R$ 560,00. Não agüento mais ouvir falar em impactos
que alguns reais podem causar nos cofres públicos, na previdência, etc... E ainda por
cima é horrível ver muitos deputados tirando vantagens, tentando ganhar publicidade,
por causa de R$ 15,00. Por que, na hora de aparecer por aumentar o próprio salário em
62,5%, variando de em torno de R$ 20 mil para quase R$ 27 mil, ninguém se habilita?
O que é que dá para fazer com R$ 560? Cadê aquela história (lenda?) de que o
salário precisa ser o mínimo para suprir as necessidades do trabalhador e de sua família,
conforme a constituição brasileira? Estariam cientes esses parlamentares que estudos
indicam que o mínimo hoje deveria ser de R$ 2.194,76 para atender a lei que muitos dos
que estão aí hoje ajudaram a criar?
Claro que não é interesse do governo dar um aumento significativo para a
massa. Ainda mais faltando quase quatro anos para a próxima eleição. O discurso é
sempre o mesmo: “se fosse possível, aumentaríamos muito mais, porque o povo
brasileiro merece, mas não podemos ser irresponsáveis, não podemos comprometer as
contas públicas, isso geraria desemprego” e um monte de ameaças a mais. Nem parece
que um valor mais alto não iria aquecer ainda mais a economia, que aumentaria o
acesso a bens de consumo, o que exigiria aumentar a produção. Ops, esqueci que esse
também é um dos medos, porque não há energia para aumentar a produção, e também
não há mão de obra qualificada o bastante. Além disso, um aumento decente faria com
que muitos saíssem da faixa econômica que precisa de bolsas assistencialistas, o que
realmente garante votos. Mas... essas bolsas não dão impacto aos cofres?
Bom, independentemente do valor, será o chamado salário cebola: o cidadão
pega, olha e chora...
***
O goleiro do Palmeiras, Marcos, deu declarações fantásticas após a derrota para
o Corinthians, no final de semana. Deixou claro (não com essas palavras) que futebol
é só um jogo, que cenas de agressões como as que aconteceram após a prematura
eliminação do rival na Libertadores eram lamentáveis e que - essa parte foi a que mais
gostei - as pessoas deveriam voltar a própria indignação para cuidar do que é feito nas
salas fechadas dos Executivos, Legislativos e Judiciários espalhados por aí.
Imagina se a moda pega? A torcida do Corinthians inteira nas portas do
Congresso com ovos, pedras e faixas, tudo isso durante a votação que aumentou os
salários dos deputados? Ou a Geral do Grêmio organizada em frente ao Piratini logo
depois as denúncias de corrupção envolvendo o governo Yeda? Iria faltar ovos, paus e
pedras...
publicada em 11-02-11
revoltante ver uma briga por dez, vinte reais. Dilma quer dar R$ 545,00, alguns
deputados de oposição “brigam”por R$ 600, as centrais sindicais almejam R$ 580,
mas a tendência é que fique em R$ 560,00. Não agüento mais ouvir falar em impactos
que alguns reais podem causar nos cofres públicos, na previdência, etc... E ainda por
cima é horrível ver muitos deputados tirando vantagens, tentando ganhar publicidade,
por causa de R$ 15,00. Por que, na hora de aparecer por aumentar o próprio salário em
62,5%, variando de em torno de R$ 20 mil para quase R$ 27 mil, ninguém se habilita?
O que é que dá para fazer com R$ 560? Cadê aquela história (lenda?) de que o
salário precisa ser o mínimo para suprir as necessidades do trabalhador e de sua família,
conforme a constituição brasileira? Estariam cientes esses parlamentares que estudos
indicam que o mínimo hoje deveria ser de R$ 2.194,76 para atender a lei que muitos dos
que estão aí hoje ajudaram a criar?
Claro que não é interesse do governo dar um aumento significativo para a
massa. Ainda mais faltando quase quatro anos para a próxima eleição. O discurso é
sempre o mesmo: “se fosse possível, aumentaríamos muito mais, porque o povo
brasileiro merece, mas não podemos ser irresponsáveis, não podemos comprometer as
contas públicas, isso geraria desemprego” e um monte de ameaças a mais. Nem parece
que um valor mais alto não iria aquecer ainda mais a economia, que aumentaria o
acesso a bens de consumo, o que exigiria aumentar a produção. Ops, esqueci que esse
também é um dos medos, porque não há energia para aumentar a produção, e também
não há mão de obra qualificada o bastante. Além disso, um aumento decente faria com
que muitos saíssem da faixa econômica que precisa de bolsas assistencialistas, o que
realmente garante votos. Mas... essas bolsas não dão impacto aos cofres?
Bom, independentemente do valor, será o chamado salário cebola: o cidadão
pega, olha e chora...
***
O goleiro do Palmeiras, Marcos, deu declarações fantásticas após a derrota para
o Corinthians, no final de semana. Deixou claro (não com essas palavras) que futebol
é só um jogo, que cenas de agressões como as que aconteceram após a prematura
eliminação do rival na Libertadores eram lamentáveis e que - essa parte foi a que mais
gostei - as pessoas deveriam voltar a própria indignação para cuidar do que é feito nas
salas fechadas dos Executivos, Legislativos e Judiciários espalhados por aí.
Imagina se a moda pega? A torcida do Corinthians inteira nas portas do
Congresso com ovos, pedras e faixas, tudo isso durante a votação que aumentou os
salários dos deputados? Ou a Geral do Grêmio organizada em frente ao Piratini logo
depois as denúncias de corrupção envolvendo o governo Yeda? Iria faltar ovos, paus e
pedras...
publicada em 11-02-11
Blindagem da Dilma
Semana passada fui acordado (pelo telefone) por uma amiga com um convite: fazer a cobertura da primeira visita oficial da presidente Dilma a Porto Alegre. Topei na hora. Não por ser admirador ou eleitor ou tiete. Mas pela mais pura curiosidade de como seria o comportamento da dona Rousseff. Continuaria ela com aquela cara sisuda? Já estaria passando por um “tratamento” que a deixasse um pouco mais “palatável”? Deixaria ela os termos técnicos para utilizar uma linguagem mais popular sem se perder? E, principalmente: atenderia (e de que forma trataria) a imprensa?
Já havia feito cobertura de outras aparições da então ministra ao lado de Lula. Ela passou a fazer discursos praticamente apenas depois de ser escolhida a herdeira do ex-presidente. E o microfone não é um objeto com o qual ela tenha tanta intimidade como ela revela com calculadoras e planilhas. Considero ela tecnicamente muito mais preparada do que Lula. Mas, politicamente, e o grande mérito inegável do senhor Luis Inácio foi o jogo de cintura, tenho a impressão de que se parece muito mais com a ex-governadora Yeda Crusius.
Mas, enfim, vamos aos fatos. Dilma chegou ao local do evento, a sede do Ministério Público do Estado, com 1h35 de atraso. E enganou a imprensa com um drible de Messi. Todas as demais autoridades entraram por uma porta próxima a todos os repórteres (que ficaram enclausurados em uma gaiola nos fundos do salão), logo, as atenções ficaram voltadas para essa passagem. Enquanto o protocolo anunciava a presença da presidente, todos estávamos acotovelados na grade esperando por pelo menos uma declaração, ela apareceu já na primeira fileira do evento depois de entrar por uma porta aos fundos, mesma passagem que utilizou ao final da solenidade.
Sobrou apenas o discurso para que os repórteres pudessem extrair algo. Ok, tudo bem que o evento não ajudava, era uma promoção da Confederação Israelita Brasileira em homenagem às vítimas do holocausto, ou seja, exigia uma certa sobriedade. Mas, fria e sem sorrisos, Dilma formou duas ou três frases além daquilo que estava escrito em seu discurso pela assessoria. Uma delas era a de que estava muito feliz por estar pela primeira vez em Porto Alegre, “minha cidade”. E deu... Aqueles pingos de simpatia que a então ministra revelava haviam evaporado!
No outro dia, Dilma se encontraria no Palácio Piratini com o governador Tarso Genro. Tínhamos expectativa que, de repente, sendo uma sexta-feira pela manhã, sem cansaço por causa das viagens, após uma boa noite de sono na “minha cidade”, ela falasse. Nada! Procurei pelos assessores dela: a prioridade será entrevistas para jornais regionais, menos atrevidos em perguntas, e sempre com a pauta e as questões pré-aprovadas pelo sistema de blindagem que cerca a senhora Rousseff.
Espero que essa experiência tenha sido apenas um fato isolado. Por que eu não consigo conceber democracia sem imprensa livre, e isso significa também acesso às autoridades. Sem contar que ignorar os veículos de comunicação pode ser um tiro no pé. Melhor fazer piadinhas sobre o Corinthians e alusões futebolísticas sem muito sentido do que esconder o jogo. Até porque, com o jogo escondido, os repórteres se obrigam a investigar mais, forçar mais a situação em busca de resposta, descobrir o que verdadeiramente se quer esconder e... Ops! Não tinha me dado conta: sabe que esse isolamento até que pode ser bom?
publicada em 04-02-11
Já havia feito cobertura de outras aparições da então ministra ao lado de Lula. Ela passou a fazer discursos praticamente apenas depois de ser escolhida a herdeira do ex-presidente. E o microfone não é um objeto com o qual ela tenha tanta intimidade como ela revela com calculadoras e planilhas. Considero ela tecnicamente muito mais preparada do que Lula. Mas, politicamente, e o grande mérito inegável do senhor Luis Inácio foi o jogo de cintura, tenho a impressão de que se parece muito mais com a ex-governadora Yeda Crusius.
Mas, enfim, vamos aos fatos. Dilma chegou ao local do evento, a sede do Ministério Público do Estado, com 1h35 de atraso. E enganou a imprensa com um drible de Messi. Todas as demais autoridades entraram por uma porta próxima a todos os repórteres (que ficaram enclausurados em uma gaiola nos fundos do salão), logo, as atenções ficaram voltadas para essa passagem. Enquanto o protocolo anunciava a presença da presidente, todos estávamos acotovelados na grade esperando por pelo menos uma declaração, ela apareceu já na primeira fileira do evento depois de entrar por uma porta aos fundos, mesma passagem que utilizou ao final da solenidade.
Sobrou apenas o discurso para que os repórteres pudessem extrair algo. Ok, tudo bem que o evento não ajudava, era uma promoção da Confederação Israelita Brasileira em homenagem às vítimas do holocausto, ou seja, exigia uma certa sobriedade. Mas, fria e sem sorrisos, Dilma formou duas ou três frases além daquilo que estava escrito em seu discurso pela assessoria. Uma delas era a de que estava muito feliz por estar pela primeira vez em Porto Alegre, “minha cidade”. E deu... Aqueles pingos de simpatia que a então ministra revelava haviam evaporado!
No outro dia, Dilma se encontraria no Palácio Piratini com o governador Tarso Genro. Tínhamos expectativa que, de repente, sendo uma sexta-feira pela manhã, sem cansaço por causa das viagens, após uma boa noite de sono na “minha cidade”, ela falasse. Nada! Procurei pelos assessores dela: a prioridade será entrevistas para jornais regionais, menos atrevidos em perguntas, e sempre com a pauta e as questões pré-aprovadas pelo sistema de blindagem que cerca a senhora Rousseff.
Espero que essa experiência tenha sido apenas um fato isolado. Por que eu não consigo conceber democracia sem imprensa livre, e isso significa também acesso às autoridades. Sem contar que ignorar os veículos de comunicação pode ser um tiro no pé. Melhor fazer piadinhas sobre o Corinthians e alusões futebolísticas sem muito sentido do que esconder o jogo. Até porque, com o jogo escondido, os repórteres se obrigam a investigar mais, forçar mais a situação em busca de resposta, descobrir o que verdadeiramente se quer esconder e... Ops! Não tinha me dado conta: sabe que esse isolamento até que pode ser bom?
publicada em 04-02-11
Coitada da natureza
Acompanhando (de longe, afinal, é época de férias e de Big Brother Brasil) os últimos noticiários, percebi que nimguém no mundo tem as costas tão grande quanto a mãe natureza. Tudo fica ainda mais aflorado porque é uma época com notícias meio escassas, o que permite uma grande exploração do tema após episódios como as destruições no Rio de Janeiro e em Santa Catarina. Repórteres enlouquecidamente buscam culpados, mas de forma rasa, privilegiando muito menos o debate sobre o que fazer em detrimento de lágrimas e de histórias de quem realmente sofreu. No fim das contas, por mais que se cobre do poder público, a culpa fica para a natureza mesmo.
Eu já mudei meu pensamento várias vezes. Comecei achando que era dos nossos eleitos, que sempre empurram para administrações passadas. Depois atribuí à natureza mesmo, já que ninguém pode contra ela. Passei até a achar, em pensamento (porque expressar isso é crueldade), que a culpa era dos mesmos que hoje estão sofrendo, especialmente após presenciar duas histórias. Um exemplo: em Santa Maria, várias famílias moravam em uma área de risco. Todos os anos dava problema. Sempre ocorriam deslizamentos. A Defesa Civil pedia a remoção das famílias que, num ano, reclamavam que agora não tinham mais nada, enquanto no outro ano, queixavam-se de que haviam perdido tudo.
Outra, que também presenciei no coração do Estado: sobre uma área de risco, ergueu-se um bairro relativamente nobre. Durante muito tempo, é verdade, a prefeitura fechou os olhos. Quando foi tomar uma atitude, ouviram impropérios de pessoas com bom poder aquisitivo. Até que uma dessas casas veio abaixo. E o culpa foi única e exclusivamente quem? Do poder público.
***
Um aparte para continuar no mesmo assunto. Em 13 de Janeiro, o professor do curso de Comunicação da UFSC (e que mora em Florianópolis há algumas décadas), Nilson Lage, rezumiu sete erros históricos no Twitter (se você ainda não sabe o que é Twitter, não é agora que vou conseguir explicar), que realmente condenam nossos governantes.
1- tolerância solidária ou demagógica com invasão por gente pobre de encostas e vales sujeitos a enxurradas e alagamentos; 2- Discurso contínuo de exaltação de megalópolis como São Paulo e concentração nelas de empregos de baixa qualificação; 3- Excessiva influência da indústria de construção civil na gestão das cidades e busca de soluções para seus problemas; 4- Uso abusivo do poder de elevar gabarito de prédios, gerando excessiva concentração urbana e pressão sobre serviços; 5- Concentração de serviços e centros administrativos em um único lugar, mesmo em cidades com milhões de habitantes; 6- Falta de uma política habitacional que contemplasse a qualidade de vida das pessoas e sua inserção no meio ambiente; 7- Concentração de investimentos em áreas já privilegiadas e não dirigilos para áreas desprovidas ou desocupadas.
***
Hoje meu pensamento mudou de novo. A culpa é de quem deixa acontecer, de quem não fiscaliza. Mesmo que as pessoas se apropriem de áreas perigosas, a culpa é de quem deixa. Seja por descuido, por descaso, por incompetência, por cumplicidade, por despreparo, ou por interesse eleitoral (já que são necessárias sempre medidas antipáticas), a corda perante a opinião pública tem que (deve!) estourar nas autoridades eleitas, e não na coitada da natureza.
publicada em 28-01-11
Eu já mudei meu pensamento várias vezes. Comecei achando que era dos nossos eleitos, que sempre empurram para administrações passadas. Depois atribuí à natureza mesmo, já que ninguém pode contra ela. Passei até a achar, em pensamento (porque expressar isso é crueldade), que a culpa era dos mesmos que hoje estão sofrendo, especialmente após presenciar duas histórias. Um exemplo: em Santa Maria, várias famílias moravam em uma área de risco. Todos os anos dava problema. Sempre ocorriam deslizamentos. A Defesa Civil pedia a remoção das famílias que, num ano, reclamavam que agora não tinham mais nada, enquanto no outro ano, queixavam-se de que haviam perdido tudo.
Outra, que também presenciei no coração do Estado: sobre uma área de risco, ergueu-se um bairro relativamente nobre. Durante muito tempo, é verdade, a prefeitura fechou os olhos. Quando foi tomar uma atitude, ouviram impropérios de pessoas com bom poder aquisitivo. Até que uma dessas casas veio abaixo. E o culpa foi única e exclusivamente quem? Do poder público.
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Um aparte para continuar no mesmo assunto. Em 13 de Janeiro, o professor do curso de Comunicação da UFSC (e que mora em Florianópolis há algumas décadas), Nilson Lage, rezumiu sete erros históricos no Twitter (se você ainda não sabe o que é Twitter, não é agora que vou conseguir explicar), que realmente condenam nossos governantes.
1- tolerância solidária ou demagógica com invasão por gente pobre de encostas e vales sujeitos a enxurradas e alagamentos; 2- Discurso contínuo de exaltação de megalópolis como São Paulo e concentração nelas de empregos de baixa qualificação; 3- Excessiva influência da indústria de construção civil na gestão das cidades e busca de soluções para seus problemas; 4- Uso abusivo do poder de elevar gabarito de prédios, gerando excessiva concentração urbana e pressão sobre serviços; 5- Concentração de serviços e centros administrativos em um único lugar, mesmo em cidades com milhões de habitantes; 6- Falta de uma política habitacional que contemplasse a qualidade de vida das pessoas e sua inserção no meio ambiente; 7- Concentração de investimentos em áreas já privilegiadas e não dirigilos para áreas desprovidas ou desocupadas.
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Hoje meu pensamento mudou de novo. A culpa é de quem deixa acontecer, de quem não fiscaliza. Mesmo que as pessoas se apropriem de áreas perigosas, a culpa é de quem deixa. Seja por descuido, por descaso, por incompetência, por cumplicidade, por despreparo, ou por interesse eleitoral (já que são necessárias sempre medidas antipáticas), a corda perante a opinião pública tem que (deve!) estourar nas autoridades eleitas, e não na coitada da natureza.
publicada em 28-01-11
Recalques de um assalariado
Há alguns dias, tive mais um pensamento daqueles que a gente não sabe como
teve, mas que nos intrigam. Era sobre salário e nível de instrução. Fiz uma pequena
varredura mental entre os meus conhecidos para ter uma noção (nada científica) sobre
essa relação. Afinal, eu e a grande maioria da minha geração escutamos histórias de
família, do tipo “se eu tivesse estudado mais estaria feito na vida” ou então ordens
como “estude senão você não terá futuro”. Quando se é criança, ou se acredita ou não se
leva a sério. Quando se cresce, acabe-se percebendo que não é bem assim.
Isso pode até parecer recalque de jornalista. Mas, se pensar que fiquei quatro
anos na faculdade para, ao sair, ter um piso de um mil e pouco, tenho vontade de
mandar toda aquela utopia dos tempos de ensino médio para lá de cacimbinhas. A
sensação é compartilhada por amigos publicitários, sociólogos, filósofos, professores,
psicólogos, etc. E não pense que hoje eu pense que deveria ser médico, dentista,
advogado ou engenheiro, porque a maioria desses também não está tão melhor.
Por outro lado, vejo aqui em Porto Alegre pessoas com nível médio para baixo
ter salários superiores – e em menos tempo de serviço – do que nossos graduados. Por
exemplo: na construção civil, os salários podem chegar há mais de 3 mil; na área
comercial, vendedores, embora na carteira de trabalho recebam uma ninharia, tiram em
comissão e benefícios (uma voltinha das empresas para pagar menos encargos
trabalhistas) muito mais do que aqueles profissionais citados acima. Até mesmo garçons
recebem, em estabelecimentos bem freqüentados (e a base de alguns sacrifícios, claro)
comissões superiores a R$ 2 mil.
Analisando um pouco mais a fundo (não muito), dou-me conta de uma coisa:
numa empresa, são poucos os profissionais que dão lucros. Os mesmos, se partirem
para iniciativa própria, esbarram em uma série de obstáculos, como a falta de noção
para gerenciar um negócio (o que definitivamente não se é ensinado na maior parte dos
currículos, tanto nos cursos de nível secundários ou superior) ou mesmo a concorrência,
já bem estabelecida em outras épocas. Tudo isso exige mais tempo, mais investimentos,
e talento para os negócios. Não é bem assim para encarar, pois tudo demanda aquilo que
os graduandos estão atrás (vou dar uma pista: é um maço com vários papéis com onças
e tartarugas marinhas desenhadas).
O mundo atual é bastante dinâmico. As gerações surgidas após os anos 80, por
tudo o que ocorreu após esse período (uma colunas dessas falarei mais sobre isso), tem
como uma das principais características o imediatismo. Isso explica a chuva de jovens
buscando concursos públicos (o que também demanda tempo, mas não um investimento
tão grande como para abrir uma empresa), cujos cargos ainda pagam, em média, mais
do que o mercado. Sem levar em consideração aqueles que buscam a fama instantânea e
a qualquer custo com a idéia (perigosa) de que assim poderão se dar bem.
Somos ensinados desde cedo a ser empregados. No fim das contas, parece-me
que sobrevive (digamos que com mais qualidade de vida) quem tem peito e cabeça para
gerenciar algo próprio. Conheço filhos de comerciantes que mal sabem ler escrever e
fazer contas que são bem sucedidos por terem aprendido desde cedo a investir. Com
todo o horror que tenho a livros de auto-ajuda, especialmente do tipo “10 passos para
enriquecer”, acho que o que nos falta é uma cultura que nos desamarre do senso comum
em que seguro é ter uma profissão, sem que isso esteja aliado com noções de projetos
empreendedores.
21-01-11
teve, mas que nos intrigam. Era sobre salário e nível de instrução. Fiz uma pequena
varredura mental entre os meus conhecidos para ter uma noção (nada científica) sobre
essa relação. Afinal, eu e a grande maioria da minha geração escutamos histórias de
família, do tipo “se eu tivesse estudado mais estaria feito na vida” ou então ordens
como “estude senão você não terá futuro”. Quando se é criança, ou se acredita ou não se
leva a sério. Quando se cresce, acabe-se percebendo que não é bem assim.
Isso pode até parecer recalque de jornalista. Mas, se pensar que fiquei quatro
anos na faculdade para, ao sair, ter um piso de um mil e pouco, tenho vontade de
mandar toda aquela utopia dos tempos de ensino médio para lá de cacimbinhas. A
sensação é compartilhada por amigos publicitários, sociólogos, filósofos, professores,
psicólogos, etc. E não pense que hoje eu pense que deveria ser médico, dentista,
advogado ou engenheiro, porque a maioria desses também não está tão melhor.
Por outro lado, vejo aqui em Porto Alegre pessoas com nível médio para baixo
ter salários superiores – e em menos tempo de serviço – do que nossos graduados. Por
exemplo: na construção civil, os salários podem chegar há mais de 3 mil; na área
comercial, vendedores, embora na carteira de trabalho recebam uma ninharia, tiram em
comissão e benefícios (uma voltinha das empresas para pagar menos encargos
trabalhistas) muito mais do que aqueles profissionais citados acima. Até mesmo garçons
recebem, em estabelecimentos bem freqüentados (e a base de alguns sacrifícios, claro)
comissões superiores a R$ 2 mil.
Analisando um pouco mais a fundo (não muito), dou-me conta de uma coisa:
numa empresa, são poucos os profissionais que dão lucros. Os mesmos, se partirem
para iniciativa própria, esbarram em uma série de obstáculos, como a falta de noção
para gerenciar um negócio (o que definitivamente não se é ensinado na maior parte dos
currículos, tanto nos cursos de nível secundários ou superior) ou mesmo a concorrência,
já bem estabelecida em outras épocas. Tudo isso exige mais tempo, mais investimentos,
e talento para os negócios. Não é bem assim para encarar, pois tudo demanda aquilo que
os graduandos estão atrás (vou dar uma pista: é um maço com vários papéis com onças
e tartarugas marinhas desenhadas).
O mundo atual é bastante dinâmico. As gerações surgidas após os anos 80, por
tudo o que ocorreu após esse período (uma colunas dessas falarei mais sobre isso), tem
como uma das principais características o imediatismo. Isso explica a chuva de jovens
buscando concursos públicos (o que também demanda tempo, mas não um investimento
tão grande como para abrir uma empresa), cujos cargos ainda pagam, em média, mais
do que o mercado. Sem levar em consideração aqueles que buscam a fama instantânea e
a qualquer custo com a idéia (perigosa) de que assim poderão se dar bem.
Somos ensinados desde cedo a ser empregados. No fim das contas, parece-me
que sobrevive (digamos que com mais qualidade de vida) quem tem peito e cabeça para
gerenciar algo próprio. Conheço filhos de comerciantes que mal sabem ler escrever e
fazer contas que são bem sucedidos por terem aprendido desde cedo a investir. Com
todo o horror que tenho a livros de auto-ajuda, especialmente do tipo “10 passos para
enriquecer”, acho que o que nos falta é uma cultura que nos desamarre do senso comum
em que seguro é ter uma profissão, sem que isso esteja aliado com noções de projetos
empreendedores.
21-01-11
Uma coisa puxa a outra
Foi meio difícil pinçar um assunto para falar nesta semana que não fosse a novela
Ronaldinho, o início do BBB, ou os desastres causados pelas intempéries. Mas, na
terça-feira, houve sessão na nossa Assembléia Legislativa. E, melhor ainda, na pauta
constava um assunto bastante polêmico. O novo governador, Tarso Genro, enviou
ao Legislativo um projeto prevendo o aumento no salário de uma série de cargos do
Executivo. Foi o suficiente para que as opiniões que alguns deputados mantiveram nos
últimos quatro anos fossem alteradas e defendidas com uma convicção que quase me
convenceu de que vinha de longa data.
Deputados que hoje fazem oposição ao governo petista, sobretudo PSDB e PMDB,
criticaram o aumento. Os mesmo que durante o governo Yeda foram favoráveis à
matéria semelhante. Por outro lado, a bancada governista, que votaram contrário
ou estiveram ausentes da maioria das votações que previam aumentos salariais para
servidores do Executivo nos últimos dois governos, agora reconheciam a necessidade de
valorizar estes trabalhadores.
O mais incrível dessa história é que dois parlamentares, um de cada lado, trocaram
acusações, chamando um ao outro de “demagogo”! Isso depois de argumentarem que
a valorização é importante ou que o aumento de salário é quase um mensalão, que a
intenção real é aumentar o valor do salário que os CC`s destinam para a sigla. Um circo!
A verdade? Segundo mim mesmo, é que boa parte de nossos representantes ainda
mantém a cultura de pensar sempre na carreira política, e têm a certeza de que coerência
e bom senso não reelegem ninguém.
***
Outro fato que me chocou foi uma propaganda (propaganda porque tenta vender
uma idéia, e não um produto, como a publicidade faz) do Governo Federal buscando
incentivar jovens a investirem na carreira de professor. Pessoas de vários países
desenvolvidos respondem a uma pergunta semelhante a essa: qual o profissional que é
responsável pelo desenvolvimento de uma nação. A resposta, óbvia e unânime, foi “o
professor”.
Concordo plenamente. Principalmente nas regiões das cidades em que as famílias
são mal estruturadas e/ou não têm uma cultura que incentive o aprendizado dos
filhos. Nessas áreas (falo de forma generalizada), em alguns casos é até preferível
que as crianças fiquem mais tempo na escola do que em casa. Porque nas regiões
periféricas é que são mais altos os índices de drogadição ou envolvimento com
tráfico; onde os adolescentes descobrem a sexualidade mais cedo; em que há mais
adolescentes grávidas; mais pessoas em subempregos; e, por outro lado, é onde há
menos qualificação profissional. Somando tudo, temos como resultado um grande
círculo vicioso.
Gostei muito da propaganda! Pareceu-me um recado para si próprio, ou seja, para
os governos municipais, estaduais e, claro, federal: se o salário dos professores não
forem reajustados, se não for definido um plano de carreira digno, se não forem dadas
condições decentes de infraestrutura e logística para as escolas, daqui uns dias nossos
mestres estarão extintos. E nosso país seguirá sendo guiado por cidadãos como os
citados antes dos três asteriscos. É até simplista pensar assim, mas não consigo pensar
em outra coisa para que nada radicalmente seja feito: é para manter azeitadas as
engrenagens dessa locomotiva defasada, em que tudo é feito para que o maior número
de eleitores possível tenha um baixo grau de instrução e sigam facilmente manobrados
por caciques políticos.
publicada em 14-01-11
Ronaldinho, o início do BBB, ou os desastres causados pelas intempéries. Mas, na
terça-feira, houve sessão na nossa Assembléia Legislativa. E, melhor ainda, na pauta
constava um assunto bastante polêmico. O novo governador, Tarso Genro, enviou
ao Legislativo um projeto prevendo o aumento no salário de uma série de cargos do
Executivo. Foi o suficiente para que as opiniões que alguns deputados mantiveram nos
últimos quatro anos fossem alteradas e defendidas com uma convicção que quase me
convenceu de que vinha de longa data.
Deputados que hoje fazem oposição ao governo petista, sobretudo PSDB e PMDB,
criticaram o aumento. Os mesmo que durante o governo Yeda foram favoráveis à
matéria semelhante. Por outro lado, a bancada governista, que votaram contrário
ou estiveram ausentes da maioria das votações que previam aumentos salariais para
servidores do Executivo nos últimos dois governos, agora reconheciam a necessidade de
valorizar estes trabalhadores.
O mais incrível dessa história é que dois parlamentares, um de cada lado, trocaram
acusações, chamando um ao outro de “demagogo”! Isso depois de argumentarem que
a valorização é importante ou que o aumento de salário é quase um mensalão, que a
intenção real é aumentar o valor do salário que os CC`s destinam para a sigla. Um circo!
A verdade? Segundo mim mesmo, é que boa parte de nossos representantes ainda
mantém a cultura de pensar sempre na carreira política, e têm a certeza de que coerência
e bom senso não reelegem ninguém.
***
Outro fato que me chocou foi uma propaganda (propaganda porque tenta vender
uma idéia, e não um produto, como a publicidade faz) do Governo Federal buscando
incentivar jovens a investirem na carreira de professor. Pessoas de vários países
desenvolvidos respondem a uma pergunta semelhante a essa: qual o profissional que é
responsável pelo desenvolvimento de uma nação. A resposta, óbvia e unânime, foi “o
professor”.
Concordo plenamente. Principalmente nas regiões das cidades em que as famílias
são mal estruturadas e/ou não têm uma cultura que incentive o aprendizado dos
filhos. Nessas áreas (falo de forma generalizada), em alguns casos é até preferível
que as crianças fiquem mais tempo na escola do que em casa. Porque nas regiões
periféricas é que são mais altos os índices de drogadição ou envolvimento com
tráfico; onde os adolescentes descobrem a sexualidade mais cedo; em que há mais
adolescentes grávidas; mais pessoas em subempregos; e, por outro lado, é onde há
menos qualificação profissional. Somando tudo, temos como resultado um grande
círculo vicioso.
Gostei muito da propaganda! Pareceu-me um recado para si próprio, ou seja, para
os governos municipais, estaduais e, claro, federal: se o salário dos professores não
forem reajustados, se não for definido um plano de carreira digno, se não forem dadas
condições decentes de infraestrutura e logística para as escolas, daqui uns dias nossos
mestres estarão extintos. E nosso país seguirá sendo guiado por cidadãos como os
citados antes dos três asteriscos. É até simplista pensar assim, mas não consigo pensar
em outra coisa para que nada radicalmente seja feito: é para manter azeitadas as
engrenagens dessa locomotiva defasada, em que tudo é feito para que o maior número
de eleitores possível tenha um baixo grau de instrução e sigam facilmente manobrados
por caciques políticos.
publicada em 14-01-11
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