terça-feira, 30 de agosto de 2011

Mais uma vítima da guerra fiscal

Imagine você sendo morador de um município de 51.500 habitantes que, do dia para noite, viu uma das principais empresas local fechar as portas e demitir 840 trabalhadores. Para piorar, os cofres públicos deixarão de arrecadar 30% de ICMS. Foi o que aconteceu nesta semana em Parobé, município do Vale do Paranhana, distante 70 km de Porto Alegre e 120 km de Caxias do Sul.
Os 53 anos de história não foram suficientes para segurar a Azaléia, uma das maiores fábricas de calçados do país, no local. Após abrir fábricas na Argentina e no Nordeste brasileiro, unidades maiores do que a unidade gaúcha (a primeira da empresa), seus diretores não tiveram dúvidas em fechar as portas. Entre as justificativas, a guerra fiscal e o preço do calçado fabricado na China.
Não adiantou o município aprovar leis e mais leis ao longo dos anos para beneficiar a empresa e garantir o emprego dos parobenses. O mundo capitalista não é tão nostálgico e sentimental como gostariam os habitantes mais antigos da cidade, que é uma das maiores do eixo calçadista gaúcho (que envolve também Novo Hamburgo, São Leopoldo, Campo Bom, Sapiranga, Taquara). Este eixo, inclusive, que já foi o líder do país, mas hoje está atrás de São Paulo (pela localização e infraestrutura) e perdendo cada vez mais posição para o Nordeste (onde a mão-de-obra é bem mais barata).
Frederico Westphalen já viveu dias tão nebulosos quanto estes de Parobé após o fechamento do frigorífico Sadia, nos anos 90. Para os mais experientes, não preciso relembrar as dificuldades enfrentadas pela região. Por mais que outras empresas absorvam a mão-de-obra qualificada, os menos preparados – tanto da empresa que fechou como das demais – vão para a rua. Drama principalmente para os mais jovens e para os mais velhos.
Não estou aqui condenando a direção da Azaléia. A atitude é uma forma de sobrevivência. Eles não têm culpa da nossa política econômica. Não foram favoráveis quando o presidente Fernando Henrique Cardoso trocou as técnicas calçadistas brasileiras pelo projeto de Itaipu. Eles não gostariam de ter que se mudar – toda mudança é sempre um incômodo. Mas, se é mais barato fazer a mudança do que pagar alguns meses dos altos impostos gaúchos, fazer o quê? No futuro, é possível que a Azaléia se mude para Índia, para a China ou qualquer outro país que não cobre taxas abusivas que encarecem o valor do par de calçado.
Quando se fala da necessidade de reforma tributária de forma urgente, nossos “lideres” fingem se sensibilizar, mas empurram com a barriga. O fato é que um dos Estados mais prejudicados por tudo isso é o Rio Grande do Sul, porque não é central, ou seja, próximo das mais variadas unidades da federação (o que exige uma logística maior), porque o seu porto (em Rio Grande) é especializado em exportações (e o real valorizado impede isso), porque seus trabalhadores têm vencimentos em patamares superiores ao da maioria dos demais Estados, e porque o ICMS, entre outros impostos, é mais caro.
Agora vamos pensar o seguinte: o problema todo se deu em Parobé, cuja posição geográfica e cuja infraestrutura e logística é muito melhor do que a da nossa região. Como incentivar empresas a se instalar aqui sem uma reforma tributária, que torne os impostos em todos os estados mais equivalentes? Não tem terraplenagem, pagamento de aluguel ou cessão de terreno em distrito industrial que ajude...

12-05-11

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