Tive que ir ao meu mal-tratado dicionário buscar o real significado da palavra irreverência antes de começar a escrever essa coluna. Eu sempre gostei do termo, mas por um minuto me perguntei se sabia exatamente o significado dele.
Sempre associei “irreverência” aos Mamonas Assassinas. Um pouco porque a primeira vez que ouvi a palavra foi assistindo a uma apresentação da finada banda no Faustão. “Ô loco, os maiores sucessos da banda mais irreverente do Brasil”... Também associava o termo a humoristas em geral, achava que irreverência era pura e simplesmente fazer graça de fatos sérios, principalmente quando se tratava de paródias.
Mas o significado de “irreverência” me decepcionou um pouco. Quer dizer “falta de respeito, ato desrespeitoso, desacato, falta de reverência” (reverência para mim sempre foi o ato de beijar o anel do bispo, que os atores encenavam em filmes e novelas). Fiquei duplamente decepcionado. Mas por outro lado, fiquei satisfeito em ter achado uma palavra para o assunto que quero abordar, que é a atitude do Partido da República em colocar o deputado Francisco Everardo Oliveira Silva fantasiado do personagem Tiririca para fazer graça nas inserções gratuitas que o partido tem direito.
Acho que é a primeira vez que utilizo essa palavra como forma denotativa. Eu sempre achava o máximo alguém ser “irreverente”. Mas o que o PR está fazendo não pode levar um só adjetivo bom (o PR sim, pois a responsabilidade por este fenômeno se deve ao lema “crescer a qualquer custo”, entoado por dirigentes do partido). Vejamos: não contente por ter explorado a figura do palhaço Tiririca na campanha eleitoral para deputado federal, que fizeram dele o parlamentar mais votado do país – e que foi suficiente para “puxar” para Brasília outros quatro candidatos da sigla que não se elegeriam pelo própria votação – o PR agora recoloca a figura, desta vez em rede nacional, para fazer mais piadas. Para quem não viu, ao contar o que já aprendeu nestes seis meses de Câmara dos Deputados (clara referência à campanha), Tiririca diz: “Um deputado federal não pode empregar sua família. Por isso, pai continue catando latinha. Mãe, continue lavando roupa para fora”.
Vamos piorar um pouco a falta de respeito. Tiririca, que suspeitava-se ser analfabeto, hoje integra a Comissão de Educação e Cultura. Seus assessores com maiores salários ( R$ 8 mil) são dois humoristas de “A praça é nossa”, que não cumprem expediente nem em Brasília, nem em São Paulo.
Enfim, acho que os eleitores e o povo em geral, precisam é de reverência, de respeito, precisam ter a sensação de que suas reivindicações sejam tratadas de maneira séria. Criticar de forma humorística as atitudes de nossos políticos é válido, e alguns não merecem outra coisa senão serem alvos de piadas. Se alguns eleitores “irreverentes” elegeram políticos sem vocação, para dizer o mínimo, não vejo mérito em debochar de todos os demais. Posso parecer injusto, mas não vejo motivos para que todos os políticos não paguem por um mau elemento. Até porque eles têm recursos legais para punir os próprios colegas. Eu, infelizmente, não posso fazer nada contra aqueles que expressaram o próprio direito de votar “irreverentemente”. Na menos pior das hipóteses, é um castigo “irrevente” aos que defendem o “voto de protesto”.
01-07-11
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