Chega perto do Natal e começam a pipocar várias histórias de... Natal. Acho que
cada um tem uma. Eu tenho a minha. Não é nenhum conto de Charles Dickens, nem
envolve altruísmo, bondade, generosidade ou qualquer outra virtude de minha parte.
Envolve, sim, minha mania de ser uma rocha. Vamos ao conto.
Fazia alguns anos que eu tinha perdido o encanto com o Natal. No início da
adolescência já não tinha tanta graça como outrora. Antes, mesmo sabendo que o
papai noel era algum vizinho disfarçado, valia a pena porque um punhado e tios se
juntavam, alguns de outras cidades, trazendo os primos – é incrível como se fazia
filhos antigamente! -, era até engraçado ver os adultos falando mais alto do que de
costume, um pouco pelos efeitos do álcool, um pouco por alegria mesmo. Ah, e tinha os
presentes, é claro.
Mas com o tempo, as ceias tiveram o tamanho reduzido. Volta e meia faltava
um família inteira, os primos passavam a noite na casa das namoradas. Aliado a isso,
a adolescência chegou com tudo, e o que eu queria mais era saber da programação das
baladas e quais as meninas que estariam por lá. Natal, para mim, era coisa de criança,
tinha perdido um pouco do sentido.
Até que há dois anos eu fui escalado pelo editor do jornal que eu trabalhava em
Novo Hamburgo para fazer o plantão da noite do dia 24. Detalhe: de uma redação com
mais de 50 pessoas, estava sozinho em meio a todos os computadores e os telefones.
Minha função era ligar para todas as delegacias, os comandos rodoviários, as sedes
do Corpo de Bombeiros de 52 municípios da região de hora em hora, em busca de
tragédias. Trabalho que um dia normal levava uns 50 minutos, naquele dia levou 15.
sobravam 45 minutos para passar na internet e vendo tv. Todas as propagandas de todos
os canais exerciam uma coerção muito grande. Eu estava perdendo o Natal! Para piorar,
eu precisava sair com o carro da empresa e achar uma ceia para fazer fotos e entrevistar
as pessoas, passando depois para os leitores o mais puro espírito natalino...
Por educação, convidaram-me par a ceia. Mas eu não era parte daquilo. Voltei
para a redação. Eram recém 19h30, e eu sairia somente às 22h. Para piorar, teria que
andar naquele horário uma distância semelhante a que separa o Ipiranga do Cañellas, já
que não teria mais linha de ônibus à disposição, nem eu tinha carro, e nem um amigo na
cidade que pudesse me dar uma carona. Eu também é que não iria pedir, afinal, era
apenas mais um dia, como outro qualquer... Se bem que naquela altura eu já estava
reavaliando minha posição quanto a isso. E como odeio me sentir sentimental...
21h48. Finalizo a última ronda telefônica. Em muitas delegacias, o telefone não
era atendido. Naqueles que eu escutava um alô, recebia cumprimentos de feliz natal, e
alguns até esboçavam o ho-ho-ho de Santa Claus. Embora também estivessem
trabalhando, eu sabia que depois do expediente eles estariam com seus familiares. Já eu,
solteiro, longe da família, sem uma carona para ir para casa, era a expressão máxima da
auto-piedade! Para piorar, não haveria um bar sequer aberto. Seria eu e a televisão em
casa. E eu não tinha sequer feito compras...
Até que o improvável aconteceu. Não sei quem alertou a quem, mas às 21h57,
aos 48 minutos do segundo tempo, aparecem o Lucas e a Fernanda, que percorreram 30
e poucos km de Porto Alegre até ali para me buscar para a ceia. Como eles descobriram,
eu não sei. Para mim isso não interessava. Mas o fato é que eu estava aliviado. Não
sentiria mais vontade de me enforcar num pé de couve, ou de cortar os pulsos com
bolacha maria. Foi emocionante! Mas claro que isso ninguém ficou sabendo. Ao entrar
no carro, contive a alegria, respondi o convite com frases graciosas como “não
precisavam ter se incomodado”, “eu iria me virar bem”. Quase havia sido vencido por
sentimentos melosos demais. Tinha que manter minha fama de mau. Mas, coincidência
ou não, aquele foi o único Natal até hoje longe de casa...
Feliz Natal a todos!
Publicada no dia 20-12-10
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