Foi meio difícil pinçar um assunto para falar nesta semana que não fosse a novela
Ronaldinho, o início do BBB, ou os desastres causados pelas intempéries. Mas, na
terça-feira, houve sessão na nossa Assembléia Legislativa. E, melhor ainda, na pauta
constava um assunto bastante polêmico. O novo governador, Tarso Genro, enviou
ao Legislativo um projeto prevendo o aumento no salário de uma série de cargos do
Executivo. Foi o suficiente para que as opiniões que alguns deputados mantiveram nos
últimos quatro anos fossem alteradas e defendidas com uma convicção que quase me
convenceu de que vinha de longa data.
Deputados que hoje fazem oposição ao governo petista, sobretudo PSDB e PMDB,
criticaram o aumento. Os mesmo que durante o governo Yeda foram favoráveis à
matéria semelhante. Por outro lado, a bancada governista, que votaram contrário
ou estiveram ausentes da maioria das votações que previam aumentos salariais para
servidores do Executivo nos últimos dois governos, agora reconheciam a necessidade de
valorizar estes trabalhadores.
O mais incrível dessa história é que dois parlamentares, um de cada lado, trocaram
acusações, chamando um ao outro de “demagogo”! Isso depois de argumentarem que
a valorização é importante ou que o aumento de salário é quase um mensalão, que a
intenção real é aumentar o valor do salário que os CC`s destinam para a sigla. Um circo!
A verdade? Segundo mim mesmo, é que boa parte de nossos representantes ainda
mantém a cultura de pensar sempre na carreira política, e têm a certeza de que coerência
e bom senso não reelegem ninguém.
***
Outro fato que me chocou foi uma propaganda (propaganda porque tenta vender
uma idéia, e não um produto, como a publicidade faz) do Governo Federal buscando
incentivar jovens a investirem na carreira de professor. Pessoas de vários países
desenvolvidos respondem a uma pergunta semelhante a essa: qual o profissional que é
responsável pelo desenvolvimento de uma nação. A resposta, óbvia e unânime, foi “o
professor”.
Concordo plenamente. Principalmente nas regiões das cidades em que as famílias
são mal estruturadas e/ou não têm uma cultura que incentive o aprendizado dos
filhos. Nessas áreas (falo de forma generalizada), em alguns casos é até preferível
que as crianças fiquem mais tempo na escola do que em casa. Porque nas regiões
periféricas é que são mais altos os índices de drogadição ou envolvimento com
tráfico; onde os adolescentes descobrem a sexualidade mais cedo; em que há mais
adolescentes grávidas; mais pessoas em subempregos; e, por outro lado, é onde há
menos qualificação profissional. Somando tudo, temos como resultado um grande
círculo vicioso.
Gostei muito da propaganda! Pareceu-me um recado para si próprio, ou seja, para
os governos municipais, estaduais e, claro, federal: se o salário dos professores não
forem reajustados, se não for definido um plano de carreira digno, se não forem dadas
condições decentes de infraestrutura e logística para as escolas, daqui uns dias nossos
mestres estarão extintos. E nosso país seguirá sendo guiado por cidadãos como os
citados antes dos três asteriscos. É até simplista pensar assim, mas não consigo pensar
em outra coisa para que nada radicalmente seja feito: é para manter azeitadas as
engrenagens dessa locomotiva defasada, em que tudo é feito para que o maior número
de eleitores possível tenha um baixo grau de instrução e sigam facilmente manobrados
por caciques políticos.
publicada em 14-01-11
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