“Tio, tio, quer comprar uma rifa?”. É para ajudar na compra de equipamentos
para o grupo de jovens A, para a cobertura da quadra esportiva da escola municipal B,
para a compra de livros para a escola estadual Y, para mandar fazer os trajes do grupo
de danças TAL, para custear parte da viagem da escolhinha Z. Um real o número, dois
reais, cinco, dez, 20. Concorre a um ferro elétrico, um DVD, um computador, uma
camiseta. Mas um muito obrigado sempre é garantido.
Quem nunca teve que vender uma rifa atire a primeira pedra. Eu perdi as contas
de quantas rifas tive que vender. Foi para a escolhinha de futebol, para o CTG, para a
escola, para o grupo de danças étnicas. E geralmente vendia muito poucos números,
sempre para os mesmos tios e vizinhos. Tinha vergonha. Fazia aquilo sempre porque
os “tios” das entidades mandavam, mesmo sendo beneficiado de alguma forma com
aquilo achava que as pessoas ficariam ofendidas com o oferecimento de um número.
Acabava que mais da metade do bloco ficava para meus pais venderem para alguns
amigos e comprassem o restante. Foram muitos os números comprados por eles, e não
lembro de terem conseguido algum prêmio...
Lembrei de tudo isso nessa semana, em que participei de uma reunião de pais.
Vem mais rifa por aí. Como tantas outras que devem estar circulando na praça. Mas
hoje eu já penso diferente de quando era mais novo. Até porque já não estou mais do
lado daqueles que vendem, e sim daqueles que compram os números. Por mais que às
vezes a vontade seja de dizer não, sou a favor das ações entre amigos.
Claro que há rifas e rifas. As entidades também precisam ter “desconfiômetro”
e não pôr praça bloquinhos por qualquer coisa. Mas eu entendo as dificuldades pelas
quais esses grupos passam. E além do mais, julgo que essas mordidinhas, que nos
incomodam um pouco, somadas a todas as outras mordidas, trazem benefícios. Se for
para cobrir uma quadra, é porque teremos mais uma opção de lazer para os jovens
praticarem esportes. Se for para a confecção de trajes, é porque na próxima promoção
na praça veremos os grupos ainda mais bonitos. E toda essa beleza nos representará
nos municípios fora daqui. O mesmo ocorre com escolhinhas de futebol. Essa gurizada
vai divulgar nossos clubes em outras querências. Além de tudo, vão conhecer lugares
novos, sair da rotina, confraternizar com pessoas de outros cantos. Mas, principalmente,
os trocados usados para comprar um número de rifa vão incentivar a molecada a
manter uma atividade saudável, a conviver socialmente, e afastar em parte o perigo da
criminalidade ou drogadição. E mesmo quando a rifa é coisa de “adulto”, geralmente há
intenções altruístas por trás dos blocos.
Solidariedade, essa é a característica da ação entre amigos. O mesmo vale para
almoços, jantar baile, pedágios, etc. O importante não é levar para o lado da “mordida”
– tente nunca somar tudo o que você já investiu em rifas e não ganhou sequer um
relógio de parede. Pense que você está ajudando a viabilizar atividades saudáveis no seu
município.
Eu mesmo já pensei várias vezes em desviar a rua para fugir da gurizada dos
bloquinhos. Mas mudei de ideia no momento em que percebi porque alguém compra
um bilhete por cinco pila correndo o risco de ganhar uma tábua de passar roupa. É
só olhar nos olhos das crianças que chegam com uma rifa e pronto, não tem saída.
Aqueles “petebês” que estavam perdidos no bolso acham novo dono na hora.
19-08-11
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