terça-feira, 30 de agosto de 2011

Tecnologia 10x0 Eu

Não sei se alguém aí percebeu mas, pela primeira vez em quase dois anos, na semana passada minha coluna não foi publicada. Não, ainda não fui censurado pelos nobres diretores da Folha, nem quando mereci. Mas acabei enrolado em um pequeno problema técnico, que serviu ao menos para uma coisa: ser objeto da coluna desta semana (nada se ganha, nada se perde, tudo se transforma, diria um tal de Lavoisier – isto segundo o Google).

Mas voltamos aos fatos: meu notebook resolveu dar pau bem na hora de enviar a coluna. Isso não é desculpa de aluno, embora em outras ocasiões já tenha utilizado deste estratagema. Escrevi a coluna e, enquanto navegava pela internet pensando num título, travou tudo. Reiniciei a máquina, apareceu a mensagem para que eu entrasse no modo de segurança. Não adiantou. Tentei o modo normal. Nada. Após várias outras tentativas, que foram desde desligar o notebook durante um tempo para observar se o problema na era apenas aquecimento até orações a Santo Expedito, joguei a toalha. Pela primeira vez na vida, perdi um deadline!

Depois e tentar avisar a equipe do jornal e pedir desculpas de forma (des)envergonhada, lembrei do que mais havia no Jarbas (este é o nome do meu notebook). Pelo menos dez anos de fotos (coleção que já estava incompleta por causa de outras panes em outros computadores). Cerca de cinco mil músicas. Vídeos, inclusive o de minha formatura. Todas as colunas escritas até agora na Folha (ainda não são dignas do prêmio Pulitzer, mas são quase cem e ao menos eu tenho carinho por elas). Minhas duas monografias, a de conclusão da graduação e a da pós-graduação. Jogos (o que fazer para curar a insônia ou o formigamentos nos meus joelhos?).

Não é a primeira vez que blasfemo a tecnologia. Antigamente, eu só perderia minhas fotos se pegasse fogo na casa. Nem se a residência de meus pais fosse roubada ficaria sem os meus lindos retratinhos, afinal, qual bandido me levaria para casa de recordação? E além de tudo, haveria os negativos, era só levar rapidinho ali no Chapa e pronto. Nem havia essas máquinas digitais, na base do filme mesmo. Até sei de histórias de roubos de discos de vinil e de CD’s, mas nada se compara a perde tantas músicas, algumas raras e de bandas desconhecidas, de uma só vez. E, se fosse há 20 anos atrás, e eu teria uma caixa de sapato com minhas colunas datilografadas e corrigidas a caneta, com observações de todos os tipos. E os filmes não seriam perdas, já que eu só pegava na locadora mesmo.

Agora, de volta ao zero. É claro que boa parte das informações perdidas podem ser recuperadas no próprio ciberespaço. Assim como eu já havia baixado um monte de filmes e músicas – e até livros -, posso repetir a dose. Boa parte das fotos também, é só passar pelos perfis dos meus amigos nas redes sociais que ainda conseguirei lembrar da minha cara alguns anos mais moço, mais magro e com mais cabelos). Mas só de pensar nesse trabalhão, prefiro cruzar os dedos e colocar um trabalhinho em um cruzamento para que o técnico que está examinando o Jarbas recupere tudo.

Pois é. Dizem que a tecnologia é desenvolvida para facilitar nossa vida. É certo que em grande parte sim, não há a menor dúvida. Por outro lado, acho que ela tira um pouco o romantismo das coisas (tema para uma próxima coluna, ok?) e também escraviza um pouco. A tecnologia faz a gente ganhar tempo, torna tudo mais ágil. Mas também nos prende durante horas em frente a um computador. Ao mesmo tempo em que nos conecta ao mundo, desliga-nos de tudo o que acontece num raio superior a dois metros. E ainda por cima, volta e meia obriga-nos a reescrever páginas e mais páginas não salvas...

publicada em 08-04-11

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