terça-feira, 30 de agosto de 2011

Recalques de um assalariado

Há alguns dias, tive mais um pensamento daqueles que a gente não sabe como
teve, mas que nos intrigam. Era sobre salário e nível de instrução. Fiz uma pequena
varredura mental entre os meus conhecidos para ter uma noção (nada científica) sobre
essa relação. Afinal, eu e a grande maioria da minha geração escutamos histórias de
família, do tipo “se eu tivesse estudado mais estaria feito na vida” ou então ordens
como “estude senão você não terá futuro”. Quando se é criança, ou se acredita ou não se
leva a sério. Quando se cresce, acabe-se percebendo que não é bem assim.
Isso pode até parecer recalque de jornalista. Mas, se pensar que fiquei quatro
anos na faculdade para, ao sair, ter um piso de um mil e pouco, tenho vontade de
mandar toda aquela utopia dos tempos de ensino médio para lá de cacimbinhas. A
sensação é compartilhada por amigos publicitários, sociólogos, filósofos, professores,
psicólogos, etc. E não pense que hoje eu pense que deveria ser médico, dentista,
advogado ou engenheiro, porque a maioria desses também não está tão melhor.
Por outro lado, vejo aqui em Porto Alegre pessoas com nível médio para baixo
ter salários superiores – e em menos tempo de serviço – do que nossos graduados. Por
exemplo: na construção civil, os salários podem chegar há mais de 3 mil; na área
comercial, vendedores, embora na carteira de trabalho recebam uma ninharia, tiram em
comissão e benefícios (uma voltinha das empresas para pagar menos encargos
trabalhistas) muito mais do que aqueles profissionais citados acima. Até mesmo garçons
recebem, em estabelecimentos bem freqüentados (e a base de alguns sacrifícios, claro)
comissões superiores a R$ 2 mil.
Analisando um pouco mais a fundo (não muito), dou-me conta de uma coisa:
numa empresa, são poucos os profissionais que dão lucros. Os mesmos, se partirem
para iniciativa própria, esbarram em uma série de obstáculos, como a falta de noção
para gerenciar um negócio (o que definitivamente não se é ensinado na maior parte dos
currículos, tanto nos cursos de nível secundários ou superior) ou mesmo a concorrência,
já bem estabelecida em outras épocas. Tudo isso exige mais tempo, mais investimentos,
e talento para os negócios. Não é bem assim para encarar, pois tudo demanda aquilo que
os graduandos estão atrás (vou dar uma pista: é um maço com vários papéis com onças
e tartarugas marinhas desenhadas).
O mundo atual é bastante dinâmico. As gerações surgidas após os anos 80, por
tudo o que ocorreu após esse período (uma colunas dessas falarei mais sobre isso), tem
como uma das principais características o imediatismo. Isso explica a chuva de jovens
buscando concursos públicos (o que também demanda tempo, mas não um investimento
tão grande como para abrir uma empresa), cujos cargos ainda pagam, em média, mais
do que o mercado. Sem levar em consideração aqueles que buscam a fama instantânea e
a qualquer custo com a idéia (perigosa) de que assim poderão se dar bem.
Somos ensinados desde cedo a ser empregados. No fim das contas, parece-me
que sobrevive (digamos que com mais qualidade de vida) quem tem peito e cabeça para
gerenciar algo próprio. Conheço filhos de comerciantes que mal sabem ler escrever e
fazer contas que são bem sucedidos por terem aprendido desde cedo a investir. Com
todo o horror que tenho a livros de auto-ajuda, especialmente do tipo “10 passos para
enriquecer”, acho que o que nos falta é uma cultura que nos desamarre do senso comum
em que seguro é ter uma profissão, sem que isso esteja aliado com noções de projetos
empreendedores.

21-01-11

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