Tenho escrito bastante sobre reforma política neste espaço. E hoje vou me arriscar de novo. E é provável que eu escreva sobre isso muitas e muitas vezes. Funciona como a tabela do Brasileirão: pouca coisa muda após cada rodada, mas eu insisto em olhar várias vezes e fazer projeções que nunca se concretizam. Mas vamos ao ponto: a fundação do Partido Social Democrata (PSD) sob a liderança do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab. Gostaria de mostrar que essa é uma grande prova de que está tudo errado, de que é urgente uma reforma política. Vamos aos fatos.
A Justiça Eleitoral autorizou a criação da legenda poucos dias antes do prazo para que tivesse condições de participar das eleições municipais do ano que vem. Isso depois de impedir porque o número de assinaturas (em torno de 228 mil) foi forjado, constando nomes duplicados e também de pessoas mortas.
Passada essa fase, enfim surge o PSD, que já nasce como o terceiro em representação na Câmara dos Deputados, com 54 parlamentares, atrás apenas de PT e PMDB, e a frente do PSDB. Por que foi tão fácil? Além da maestria de Kassab e seus escudeiros na articulação política, a criação do partido foi uma baita manobra. Como a legislação diz que a pessoa que trocar de sigla por outra já existente perderá o mandato, sobrou apenas o PSD para abrigar os descontentes. Assim, quem não concordava com as diretrizes da sigla anterior, saiu para engrossar o exército kassabista. Por exemplo: o jornalista e ex-deputado federal Celso Russomano, descontente com Maluf e com a falta de espaço no PP, se entrincheirou na esperança de concorrer à prefeitura de São Paulo. Talvez não tenha sido avisado que terá que disputar a preferência com, entre outros, Guilherme Afif Domingos, vice-governador paulista e que deixou o DEM com o mesmo intuito, e com o ex-peemedebista e ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles, que inclusive transferiu o título do Estado de Goiás para a capital paulista. Talvez, ninguém consiga nada, pois o novo partido ainda pode se aliar a Serra, caso este concorra.
Apesar de, teoricamente, ser uma facção do DEM, o PSD já abriga políticos de todos os lados. Alguns deixaram as siglas de oposição do governo para correr para os braços de Dilma e receber dinheiro de emendas parlamentares, cruciais para quem visa a próxima eleição. No RS, o principal líder é Danrlei, que ao que parece utilizou o PTB como barriga de aluguel para chegar ao Congresso Nacional. Liberais, conservadores, esquerda e direita, governistas e oposicionistas desfizeram o beiço que tinham em outros partidos ao encontrar abrigo na barraca do Kassab.
O prefeito de São Paulo disse que a sigla é de centro, e anunciou que os próprios parlamentares poderão escolher entre ser governista ou oposição. “É um partido plural”. Fala em ideologia, mas não diz qual é. Apenas bandeiras vagas, como “a defesa dos interesses nacionais”. Afirma que a prioridade é lutar por uma Assembléia Constituinte para fazer as reformas necessárias, porque julga que os atuais políticos não têm capacidade para tanto (!!!).
Já são 28 siglas na sopa de letrinhas da política brasileira. E ainda há pedidos para a criação de outros 40. Lembra do Chavez, que vendia um suco de tamarindo, com sabor de laranja e cor de limão? O Kassab fez um partido de direita, que diz ser de centro, mas que vai se aliar com a esquerda para se beneficiar dos recursos do governo. É a prova de que os políticos brasileiros não têm ideologia, não são democráticos e que sonham em ser um grande cacique, donos de um a sigla.
14-10-11
Espaço destinado a publicar as colunas que escrevo desde 01-05-09 no jornal Folha do Noroeste, de Frederico Westphalen. E eventualmente para qualquer outra coisa. Sobretudo, para expôr minha visão das coisas, o que na maioria das vezes não quer dizer muita coisa. Ps: São todos textos do Thiago Buzatto.
quinta-feira, 20 de outubro de 2011
Cobrando uma fatia do bolo
Esta semana, depois de percorrer alguns sites de notícias, lembrei de uma música do Raul Seixas. “O comandante não saiu para o quartel, pois sabia que o soldado também não tava lá/ E o soldado não saiu pra ir pra guerra, pois sabia que o inimigo também não tava lá/ E o paciente não saiu pra se tratar, pois sabia que o doutor também não tava lá”, etc...
Claro que a canção, “O dia em que a terra parou”, tem um sentido místico, mas ao ler tanto sobre greves acabei associando a letra com os fatos. Imaginei-me na seguinte situação: vou ao banco para pagar uma conta que chegou atrasada por causa da paralisação dos Correios. Mas os bancos também estão em greve, então não consigo fazer o acerto, que se referia a uma contribuição ao Círculo de Pais e Mestres de uma escola que também está paralisada. E para piorar, acabei assaltado, porque não havia policiais para me proteger. Sim, porque bandido – tirando alguns eleitos pelo voto – não param...
Já mencionei há algumas colunas que considero greve como um modo pouco eficaz de conseguir algo. Isso porque ela tira da zona de conforto as pessoas que necessitam dos serviços cancelados, e com isso conquistam muita antipatia, pouca compreensão e pressão para retomem os serviços antes mesmo das negociações. Mas desta vez não vou criticar. Como não aceitar o argumento de um bancário que pede participação nos lucros, já que a cada balanço há recordes de arrecadação engordando o bolso de acionistas? Como vou exigir um serviço razoável de um policial que recebe menos de mil reais e está sujeito a todos os tipos de suborno e tentação de aceitar bicos para aumentar a renda? E vocês sabem quanto ganham os funcionários dos Correios? Uma vergonha! Bem que aquele dinheiro desviado da estatal para pagar mensalão poderia ser usado como abono para essa classe!
Cansei de ver, em outras ocasiões, greves esvaziadas, que encerravam com nenhum ganho e muitos foguetes para maquilar a derrota. Desta vez, em alguns casos vejo ofertas que outrora seriam muito bem-vindas. Mas os trabalhadores querem mais. Pensa comigo: o cidadão liga a tv e ouve todos os dias que o país está bem, que crise só existe fora de nossas fronteiras, que o Brasil está crescendo. E percebe que os nossos deputados, ministros, governantes, vereadores, magistrados aumentam os vencimentos e vantagens em margens inimagináveis para qualquer classe. É lógico que ele vai querer uma fatia desse bolo. Está feita a bola de neve!
Correios, bancos, professores, policia militar e civil, agentes carcerários, funcionários públicos de todas as esferas. É no Brasil todo! E ainda vem mais. Parece que foi convencionado que chegou a hora de cobrar a conta das farras de certos gabinetes. Diante desses argumentos, como tirar a razão de quem recebe R$ 500,00 todo o mês para se virar com as necessidades básicas da família?
Mas não será fácil. O patronato pensa assim: se dermos tudo o que eles pedem hoje, amanhã vão querer mais. Eu sugiro outra coisa: dêem o exemplo. Gostaria que essas manifestações fossem interpretadas pelas nossas lideranças como recado de que chegou a hora de maneirar. Está em crise? Que se corte na própria carne, reduza gastos e pare de aumentar vencimentos que já são superiores a 15, 20 mil reais.
E os trabalhadores? Devem fiscalizar, usar o poder do voto, pressionar seus representantes. Mas também devem ter bom senso. Se for no setor privado, devem buscar representação no conselho das empresas e unir a categoria para evitar caça as bruxas. Paralisações são ruins. Afetam diretamente a economia. Por isso não pode faltar é bom senso. De nenhuma das partes. Se ninguém pensar no próprio umbigo, por descaso ou peleguismo – e essa é a grande utopia – todos, patronato e trabalhadores saem ganhando.
Essa é do dia 7-10-11
Claro que a canção, “O dia em que a terra parou”, tem um sentido místico, mas ao ler tanto sobre greves acabei associando a letra com os fatos. Imaginei-me na seguinte situação: vou ao banco para pagar uma conta que chegou atrasada por causa da paralisação dos Correios. Mas os bancos também estão em greve, então não consigo fazer o acerto, que se referia a uma contribuição ao Círculo de Pais e Mestres de uma escola que também está paralisada. E para piorar, acabei assaltado, porque não havia policiais para me proteger. Sim, porque bandido – tirando alguns eleitos pelo voto – não param...
Já mencionei há algumas colunas que considero greve como um modo pouco eficaz de conseguir algo. Isso porque ela tira da zona de conforto as pessoas que necessitam dos serviços cancelados, e com isso conquistam muita antipatia, pouca compreensão e pressão para retomem os serviços antes mesmo das negociações. Mas desta vez não vou criticar. Como não aceitar o argumento de um bancário que pede participação nos lucros, já que a cada balanço há recordes de arrecadação engordando o bolso de acionistas? Como vou exigir um serviço razoável de um policial que recebe menos de mil reais e está sujeito a todos os tipos de suborno e tentação de aceitar bicos para aumentar a renda? E vocês sabem quanto ganham os funcionários dos Correios? Uma vergonha! Bem que aquele dinheiro desviado da estatal para pagar mensalão poderia ser usado como abono para essa classe!
Cansei de ver, em outras ocasiões, greves esvaziadas, que encerravam com nenhum ganho e muitos foguetes para maquilar a derrota. Desta vez, em alguns casos vejo ofertas que outrora seriam muito bem-vindas. Mas os trabalhadores querem mais. Pensa comigo: o cidadão liga a tv e ouve todos os dias que o país está bem, que crise só existe fora de nossas fronteiras, que o Brasil está crescendo. E percebe que os nossos deputados, ministros, governantes, vereadores, magistrados aumentam os vencimentos e vantagens em margens inimagináveis para qualquer classe. É lógico que ele vai querer uma fatia desse bolo. Está feita a bola de neve!
Correios, bancos, professores, policia militar e civil, agentes carcerários, funcionários públicos de todas as esferas. É no Brasil todo! E ainda vem mais. Parece que foi convencionado que chegou a hora de cobrar a conta das farras de certos gabinetes. Diante desses argumentos, como tirar a razão de quem recebe R$ 500,00 todo o mês para se virar com as necessidades básicas da família?
Mas não será fácil. O patronato pensa assim: se dermos tudo o que eles pedem hoje, amanhã vão querer mais. Eu sugiro outra coisa: dêem o exemplo. Gostaria que essas manifestações fossem interpretadas pelas nossas lideranças como recado de que chegou a hora de maneirar. Está em crise? Que se corte na própria carne, reduza gastos e pare de aumentar vencimentos que já são superiores a 15, 20 mil reais.
E os trabalhadores? Devem fiscalizar, usar o poder do voto, pressionar seus representantes. Mas também devem ter bom senso. Se for no setor privado, devem buscar representação no conselho das empresas e unir a categoria para evitar caça as bruxas. Paralisações são ruins. Afetam diretamente a economia. Por isso não pode faltar é bom senso. De nenhuma das partes. Se ninguém pensar no próprio umbigo, por descaso ou peleguismo – e essa é a grande utopia – todos, patronato e trabalhadores saem ganhando.
Essa é do dia 7-10-11
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