quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Tamarindo, laranja e limão

Tenho escrito bastante sobre reforma política neste espaço. E hoje vou me arriscar de novo. E é provável que eu escreva sobre isso muitas e muitas vezes. Funciona como a tabela do Brasileirão: pouca coisa muda após cada rodada, mas eu insisto em olhar várias vezes e fazer projeções que nunca se concretizam. Mas vamos ao ponto: a fundação do Partido Social Democrata (PSD) sob a liderança do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab. Gostaria de mostrar que essa é uma grande prova de que está tudo errado, de que é urgente uma reforma política. Vamos aos fatos.
A Justiça Eleitoral autorizou a criação da legenda poucos dias antes do prazo para que tivesse condições de participar das eleições municipais do ano que vem. Isso depois de impedir porque o número de assinaturas (em torno de 228 mil) foi forjado, constando nomes duplicados e também de pessoas mortas.
Passada essa fase, enfim surge o PSD, que já nasce como o terceiro em representação na Câmara dos Deputados, com 54 parlamentares, atrás apenas de PT e PMDB, e a frente do PSDB. Por que foi tão fácil? Além da maestria de Kassab e seus escudeiros na articulação política, a criação do partido foi uma baita manobra. Como a legislação diz que a pessoa que trocar de sigla por outra já existente perderá o mandato, sobrou apenas o PSD para abrigar os descontentes. Assim, quem não concordava com as diretrizes da sigla anterior, saiu para engrossar o exército kassabista. Por exemplo: o jornalista e ex-deputado federal Celso Russomano, descontente com Maluf e com a falta de espaço no PP, se entrincheirou na esperança de concorrer à prefeitura de São Paulo. Talvez não tenha sido avisado que terá que disputar a preferência com, entre outros, Guilherme Afif Domingos, vice-governador paulista e que deixou o DEM com o mesmo intuito, e com o ex-peemedebista e ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles, que inclusive transferiu o título do Estado de Goiás para a capital paulista. Talvez, ninguém consiga nada, pois o novo partido ainda pode se aliar a Serra, caso este concorra.
Apesar de, teoricamente, ser uma facção do DEM, o PSD já abriga políticos de todos os lados. Alguns deixaram as siglas de oposição do governo para correr para os braços de Dilma e receber dinheiro de emendas parlamentares, cruciais para quem visa a próxima eleição. No RS, o principal líder é Danrlei, que ao que parece utilizou o PTB como barriga de aluguel para chegar ao Congresso Nacional. Liberais, conservadores, esquerda e direita, governistas e oposicionistas desfizeram o beiço que tinham em outros partidos ao encontrar abrigo na barraca do Kassab.
O prefeito de São Paulo disse que a sigla é de centro, e anunciou que os próprios parlamentares poderão escolher entre ser governista ou oposição. “É um partido plural”. Fala em ideologia, mas não diz qual é. Apenas bandeiras vagas, como “a defesa dos interesses nacionais”. Afirma que a prioridade é lutar por uma Assembléia Constituinte para fazer as reformas necessárias, porque julga que os atuais políticos não têm capacidade para tanto (!!!).
Já são 28 siglas na sopa de letrinhas da política brasileira. E ainda há pedidos para a criação de outros 40. Lembra do Chavez, que vendia um suco de tamarindo, com sabor de laranja e cor de limão? O Kassab fez um partido de direita, que diz ser de centro, mas que vai se aliar com a esquerda para se beneficiar dos recursos do governo. É a prova de que os políticos brasileiros não têm ideologia, não são democráticos e que sonham em ser um grande cacique, donos de um a sigla.

14-10-11

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