quinta-feira, 26 de agosto de 2010

TSE adverte: humor demais faz mal as eleições

Humoristas do Brasil fizeram um protesto contra a norma do Tribunal Superior Eleitoral que proíbe a veiculação, por rádio ou TV, de entrevistas ou montagens que "degradem ou ridicularizem" candidatos. Quem desobedecer terá que desembolsar até R$ 106.410. Praticamente todos os programas de humor estavam representados. Juntando as pessoas que passavam pelas ruas, deu em torno de 500 pessoas (hoje em dia nem comediantes famosos conseguem mobilizar o povo)...
Bom, puxei esse assunto para entrar em outro: já se perguntaram porquê foi adotado esse critério? Desde já adianto que sou contra qualquer tipo de censura. Assim como sou contra qualquer tipo de publicação irresponsável. Brinco volta e meia com médicos que, se eles podem matar uma pessoa, nós (enquanto jornalistas ou pessoas que lidam com mídias) podemos condenar pessoas ao ostracismo – menos letal, mas muito mais doloroso (Ibsen Pinheiro que o diga). Algumas brincadeiras que são feitas, mesmo sem querer, acabam rotulando determinadas pessoas, sem a preocupação de comprovar o porquê do rótulo. E não recomendo a ridicularização como forma de humor.
Adoro sátiras, ironias, comentários com acidez, irreverência, tiradas inteligentes, seja isso em vídeos, charges, crônicas, stand up comedy, o que for. Acho que é uma forma de levar ao público assuntos indigestos de forma interessante. O mundo seria muito chato sem humor! Mas confesso que não gosto muito de avacalhação, escracho. Isso é para rodas de amigos, não para meios de comunicação. E, diante do que tenho visto, até entendo o porquê desta grita generalizada dos políticos contra algumas piadas. Muitos humoristas atuam como parasitas, ou seja, para fazerem rir, terem audiência e venderem ingressos para shows, necessitam “sugar” os próximos.
Acho válida a manifestação dos humoristas. Apenas lamento que isso tenha servido apenas como uma forma de jogar para a torcida, sem que isso resulte em uma reflexão sobre a própria produção, sobre o tipo de humor que é feito. Há uma linha tênue entre irreverência e falta de respeito. Entre inteligência e idiotice. Linha esta que cada vez mais é ultrapassada, para o deleite do espectador. E, dentro da linha propagada há décadas por Sílvio Santos do “eu dou ao público o que o público quer”, creio que esse aumento de audiência a partir do mau gosto só pode ser reflexo do que grande parte das pessoas também está passando por esta fase de idiotização. Não estou pregando que todos devam desligar a televisão, ou deixar de comprar determinado jornal, ou parar de acessar alguns blogs. Mas um olhar mais crítico é necessário. Até porque, seguindo a linha de raciocínio de que nos dão o que queremos, também parece que temos os políticos, a realidade social, a condição econômica, o nível de educação oferecido pelo Estado, o tipo de segurança pública que queremos... E para que questionar isso, se afinal de contas podemos rir de tudo isso, não é mesmo?
Enfim: essa lei é nociva à democracia, sim. Humor ajuda a formar a opinião dos eleitores, aproxima as notícias do público. Mas também considero nociva a rotulação, a ridicularização, a apelação, o mau gosto, penso que essa censura poderia ter sido evitada com um pingo de “auto-censura”. Mas, claro, isso parece não ter graça...

Atualizado!!!

Finalmente o blog está atualizado. Postei tudo o que tinha de antigo desde o início da coluna Papo de Corredor em Folha do Noroeste (Papo de Corredor... depois que cometi esse nome, fiquei pensando que algum desavisado pode pensar que eu dou dicas de maratona)! Não que seja um patrimônio cultural que precisa ser preservado, mas não deixa de ser um arquivo pessoal (só eu sei o quanto esforço fiz para parir essas "criaturas"). Ou seja: a partir de agora o blog está valendo.
Fica um agradecimento para o pessoal que colaborou até hoje revisando, dando ideias e criticando os textos. A Dani, a Jaque, a Debora, a Fefa, e sobretudo o meu pai, o seu Nelson, que se diz meu leitor número um e divulga a coluna no msn dele para os outros pensarem que ele que escreve e, desta forma, eu ter mais acessos. Também tenho que agradecer aos demais 32 leitores dqa coluna no jornal (pelo menos foram tantos que disseram que leram). Valeu!!!

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Me engana que eu gosto!

Entrou no ar nesta semana um novo programa nas televisões e nos rádios das famílias brasileiras. O Horário Eleitoral Gratuito (ou “Me engana que eu gosto”, como preferir). É a parte mais cara das campanhas, e é a que mais define o eleitor. E, para mim, uma baita enganação. Explicarei: na teoria, essa é a forma mais abrangente para os candidatos apresentarem suas propostas. Num país tão grande, é importante ter um canal direto com o eleitor para mostrar a cara e apresentar projetos. Mas o aproveitamento em termos de conteúdo é uma... Bom, vamos aos fatos:
1) Campanha para deputados estadual e federal: beira o ridículo aquele povo todo tentando passar o recado em 15 segundos. Em primeiro lugar, porque cérebro nenhum consegue distinguir um candidato do outro. Mais improvável ainda decorar os números. “Sou a favor da Educação, vote xx”! A favor da Educação todos somos, mas o que precisa mudar mesmo? “Vou trabalhar por mais segurança, meu nome é Godofredo”! Cada discurso... a ideia que fica é de que parlamentares têm poderes supremos, dotados de magia oculta para acabar com as mazelas do mundo.
2) Disparidade de tempo: como é que vamos eleger um presidente com a convicção de que é o melhor se uns tem menos de dois minutos de programa e outros entre 6 e 10? Como explicitar alguma ideia em tão pouco tempo? Como um candidato de sigla nanica pode concorrer igualitariamente com o poder econômico e o latifúndio de tempo de siglas maiores? Dividir o tempo de exposição de forma proporcional ao número de deputados federais de cada partido foi uma forma “inteligente” de manter sempre os mesmos no poder.
3) Clichês: como não temos mais a disciplina de Educação Moral e Cívica nas escolas, os programas são uma aula de clichês sobre o Brasil e o Rio Grande amado. Bandeiras, hinos, paisagens e pontos turísticos, um pouco de pobreza (para mostrar que os candidatos também sabem das necessidades do povo), musicas chicletes, passeatas e apelos a figuras históricas (Vargas, Tancredo, Brizola e Lula são os mais concorridos; ninguém menciona Médici, Costa e Silva, Geisel, Figueiredo e Castelo Branco). É um 7 de Setembro misturado com carnaval. Como eles vão fazer nossa vida melhorar? Isso fica para depois (quem tentar provocar reflexões mais profundas corre o risco de cair nas pesquisas).
4) Números maquiados: como tudo é relativo, é possível manipular os números da maneira que se imaginar. Por exemplo: nos últimos quatro anos, a taxa de desemprego caiu 10%. Mas está 2% acima do ano anterior. E um patamar muito aquém do que era há 20 anos atrás. Ou seja, a mesma coisa é mostrada sob pontos de vista diferentes, dependendo apenas do interesse do candidato. Um grande vazio travestido de “repleto de significado”.
5) Sorrisos: a simpatia forçada nos programas ainda é facilmente confundida pela população com habilidade administrativa. Fulano é bem legal, logo deve fazer um bom governo. Cicrana se veste bem, logo é “gente séria”.
Enfim, como já me informei e defini meus candidatos, vou aproveitar esse tempinho da tv para ler, lavar a louça, trabalhar mais um pouco (olha a demagogia do colunista!). Assistir, só para ter mais argumentos para pôr defeito. Rezar também é uma boa, para pedir que nossas cabecinhas que só pensam em futebol e novela captem por osmose alguma mensagem subliminar que aponte para os mais preparados. E que tudo isso acabe logo!

20-08-10

Conviver com a diferença

Na semana passada, fui assistir num bar ao jogo de ida do Grêmio contra o Goiás pela Copa Sul-Americana. Após a partida, viria Inter e São Paulo. Obviamente, minha pretensão era torcer na primeira partida, e secar na segunda. Como a campanha não é boa, fiquei na minha no primeiro jogo. E como estava no meio de um mar vermelho, fiquei na minha também no segundo jogo. Ainda mais depois que o São Paulo abriu o placar e três gremistas apanharam de metade do bar porque comemoraram. O engraçado é que quem bateu foram os mesmos que fizeram a maior zona depois que o Goiás empatou o jogo com o Tricolor.
Não quero falar sobre futebol. Ultimamente prefiro ignorar o tema. Muito menos para condenar uma torcida, sabendo que a recíproca é verdadeira. Vou falar sobre o que pensei enquanto tive que ficar bem quieto no bar, vendo a classificação do adversário. Sem motivos para comemorar, fiquei pensando sobre conviver com diferenças. O que me levou a isso foi a observação que fiz em meio a briga. Os colorados que assistiam a torcida acompanhados de amigos “secadores” não se envolveram no tumulto. Até ajudaram a separar. Por outro lado, aqueles que estavam em mesas “puras” foram os que se comportaram pior. Daí lembrei que as vezes em que me comportei melhor durante os jogos foi quando tinha comigo pessoas “diferentes”.
Sabe que cheguei à conclusão de que isso é assim em outras circunstâncias? Pessoas que têm amigos, ou colegas, ou conhecidos homossexuais, aparentemente são menos homofóbicos; sujeitos que frequentam ambientes com católicos, ateus, pentecostais, judeus, etc... convivem melhor do que aqueles mergulhados apenas entre “iguais” (geralmente são os mais intolerantes); homens que tem mais contato com mulheres, seja na criação, no trabalho ou onde for, aparentemente são menos machistas do que aqueles que convivem apenas em ambientes masculinos.
Falo aparentemente porque essa é apenas uma observação: não empreguei qualquer método científico. E, obviamente, estou generalizando. Mas penso que a diferença leva a uma mudança de comportamento. Coloca um homem no meio de um salão de beleza para ver se a mulherada não pega mais leve nos comentários...
Além disso, os maiores fofoqueiros que conheço são pessoas dotadas de muito preconceito, que não sabem lidar com diferenças, que acham que são os únicos certos e por isso apontam para os outros (que são os errados, segundo esse raciocínio).
Por isso acho que algumas coisas precisam ser revistas nos grupos de “iguais”. Eu defendo a pluralidade. Por mais que a diferença possa parecer agressiva, é a existência dela em uma sociedade que reduz o preconceito e a violência (os países em guerra são exatamente os que não sabem conviver com isso). Acho que só se chega a uma sociedade mais pacífica e consciente por dois caminhos: ou com a igualdade absoluta, ou com o bom convívio entre as diferenças. Eu prefiro a segunda.

Ps: hoje, sexta-feira 13, em pleno agosto. Dia dos canhotos! Parabéns a todos esses renegados obrigados a abrir refrigerante pet girando a garrafa ao invés da tampa...

13-08-10

A campanha que pesa no bolso (ou o bolso em que a campanha pesa)

Um dos assuntos que nós, eleitores, com certeza vamos ouvir falar muito neste período eleitoral é sobre financiamento público de campanha. A grita entre os candidatos está se avolumando ante as dificuldades em conseguir financiadores para encorpar a movimentação das próprias bases. O endurecimento da legislação contra o caixa dois (historicamente, prática utilizada por todos os partidos e candidatos, sem exceção) está dificultando a arrecadação. Nunca foi tão difícil conseguir dinheiro para campanhas. Então, é preciso achar uma forma de alguém pagar por isso, não?
A edição de Zero Hora de ontem (quinta-feira, 5) mostra que os três principais candidatos ao Palácio Piratini declararam, na primeira prestação de contas obrigatória da campanha, um volume arrecadado muito aquém do que pretendiam. O melhor resultado foi o de Tarso Genro, que angariou R$ 1,3 milhão, pouco mais de 10% dos R$ 10 milhões outrora estimados como gastos total.
Ninguém quer se comprometer. Segundo uma reportagem da Folha de São Paulo desta semana, alguns partidos estão usando truques para conseguir recursos mantendo os doadores (especialmente as pessoas jurídicas) no anonimato. Por exemplo, ao invés da doação ser feita diretamente à conta da campanha, em que seria obrigatória a divulgação do doador, o dinheiro tem sido enviado aos fundos partidários, que por conseguinte remetem para a conta dos candidatos. Em menor âmbito, é mais ou menos como aqueles empresários de cidades em que todos se conhecem, que optam por não abrir o voto com medo de retaliações por parte dos eleitores adversários (em Frederico Westphalen isso acontece e muito!).
Por outro lado, as campanhas estão cada vez mais caras. É preciso pagar por material gráfico (adesivos, santinhos, folders), locomoção (gasolina, aluguel de veículos, estadias), pessoas que trabalham na campanha (entregadores de santinhos), empresas que produzem o material gráfico, jingles, aluguel de equipamentos de som, construção de sites, gravação dos vídeos e áudios para o programa eleitoral, etc...
Ou seja: o direito universal de que todos podem concorrer fica cada vez mais no papel, porque o alto investimento é de alto risco, e cada vez menos pode-se contar com a estrutura partidária. Em consequência, teremos candidatos com “menos” qualidade (no sentido de capacidade política). Em contrapartida, seremos atacados por uma elite (no sentido de capacidade de investimento), ou por um bando de celebridades. Os próprios partidos estão apelando por incluir em suas nominatas celebridades, na esperança de que estes sejam puxadores de votos. Daqui uns dias, teremos parlamentos compostos exclusivamente por jogadores de futebol, cantores de músicas populares e ex-BBBs.
Enfim: se vocês ouvirem falar em financiamento público de campanha, apertem os candidatos, perguntem sobre qual a fórmula proposta, de que forma estaremos pagando isso. Por um lado, pode até ser algo positivo. Mas tenho dúvidas: ainda prefiro ver “eles” tirando dinheiro do bolso. Do bolso deles, e não do meu.

06-08-10

A ditadura do excesso

No curso de pós-graduação que encerrei há poucos meses, tive a oportunidade de ser aluno e colega de algumas figuras interessantes. Uma delas é músico Richard Serraria (líder da Bataclã F.C. e do projeto Vila Brasil), professor de uma disciplina dedicada à análise de canções de cada época em meio ao contexto social e político. Com um violão e uma pilha de CDs, ouvimos Noel Rosa e Aracy de Almeida, Carmen Miranda, as divas do rádio Emilinha Borba e Marlene, as grandes canções dos festivais da década de 60, dando atenção também ao Tropicalismo, à Bossa Nova e ao Rock dos Anos 80.
Percebemos, nesta disciplina, que a música é bastante ligada ao momento histórico em que é produzida, por mais simples que seja (músicas antigas não dizem ‘to num celular, falando de um bar’, embora bares apareçam em várias canções).E, principalmente, que seu sucesso depende muito dos meios de comunicação à disposição. Também acompanhamos a experiência de Serraria, que aplica no trabalho sua pesquisa de ritmos e instrumentos brasileiros, expressas em letras ricas e, confesso não muito pop. Culturalmente muito bom, mas que enfrentam muitos obstáculos para marcar shows e vender CDs (R$ 5,00).
Para encurtar a história, comparamos o momento musical atual com os anteriores: o contexto político e o acesso aos meios de comunicação. Tivemos algumas conclusões positivas e muitas nem tanto. A boa notícia é de que a internet surgiu como uma espécie de libertação àqueles que antes tinham que se curvar à ditadura das grandes gravadoras (interessadas mais na quantidade de vendas do que na qualidade das músicas e dos artistas), das rádios e dos programas de televisão (tudo pela audiência). Hoje é possível descobrir cantores e bandas de qualquer lugar do mundo sentado na frente do computador. A adesão é cada vez maior de público e de artistas. Hoje temos grandes exemplos de bandas e artistas que conseguem divulgar o trabalho e sobreviver dessa forma. E, pasmem: há ótimos músicos e compositores assim como havia no passado.
Porém, constatamos que liberdade de escolha não significa diversidade de escolha. Assim como uma criança pede sempre sorvete de chocolate entre 40 sabores, o público, em geral, transforma em sucesso apenas canções similares do que já é consumido (eu sei que ninguém tem a obrigação de gostar de algo. Mas poderia experimentar!). Só que considero muito frustrante que, apesar do espaço para aparecer ser bastante amplo, a temática e a riqueza das letras e das melodias só piorem. Há um excesso de rimas do tipo “o amor é uma dor, e meu dia ficou sem cor”, há uma infinidade de músicas falando “vou beber até cair”, “quem cuida da minha vida sou eu”, “ela me abandonoooooou” ou “vou pegar todas” (valores que parecem ser a principal preocupação da sociedade moderna), e a impressão que fica é que no meio de tudo isso se perde o que soa diferente. Como se um diluísse o outro. Ou seja: a dificuldade de que algo novo se sobreponha às mesmas “fórmulas de sucesso” está igual ou pior do que antes. Ficamos com a sensação de que, no meio de tanta diversidade, de tantas possibilidades, tudo está cada vez mais igual. Apenas com rótulos diferentes.

30-07-10

Inversão de papéis

Gosto de política. Quando decidi fazer o curso de Jornalismo, lá pela sétima série, foi pensando em cobrir este setor. Como se fosse um voyeur com camarote privilegiado das tomadas de decisões, estando muito próximo sem a necessidade de tomar partido, defender bandeiras. Seria uma ótima maneira de evitar ter de tomar partido, de defender uma sigla como se fosse um clube de futebol. De me comprometer com pessoas de índoles discutíveis em nome de um todo.
Não precisei de muito tempo para ver que minha visão era romântica. Por que nem os políticos se comprometem com a sigla de forma sincera. Quem verdadeiramente se compromete, bate no peito, chora, grita, discute, esperneia, ameaça de morte, é a “boiada”, aqueles apoiadores que não estão nem um pouco interessados no que é política em si, mas na farra, na festa, no burburinho, na fofoca. São os que se expõe pela simples paixão por se expor.
Quantos políticos você conhece que pensam em primeiro lugar no partido? Pelo contrário: os maiores adversários políticos estão dentro do mesmo diretório. A disputa pelo poder começa em casa. Vale a máxima de que, se “partido” fosse bom, seria “unido”. Vamos aos exemplos: o PMDB estadual apoia (informalmente) Serra, o federal indicou o vice de Dilma; idem o PP, que apesar de não estar formalmente na coligação da candidata petista, teve parte considerável de seu bloco que declarou apoio à ex-ministra – as mesmas figuras que deram sustentação a Fernando Henrique Cardoso e que, independentemente de quem ganhe as eleições, permanecerão “governistas” no próximo mandato; os progressistas ainda vêem seus candidatos da Capital deixar Yeda de lado para se aproximar de Fogaça; o PDT indicou o vice de Fogaça no Estado, mas o ex-governador Collares está em todas as fotos ao lado de Tarso.
Poucos tomam posição. Pra nós sobram os discursos de que é preciso manter um alto nível de campanha (= pouco debate de ideias), de que não podemos trocar acusações baratas (= não parecer antipático ao eleitor), de que um país, um Estado, deve ser governado por todos (= se eu perder, apoio o governo e mantenho minha cota de cargos).
Esse é um dos motivos pelos quais considero o período eleitoral como a pior parte dos quatro anos dos mandatos. Não se vê trabalho concreto: esta é apenas uma época de promessas. Poeticamente, diríamos que é mais hora de semear (as promessas) do que de colher (o trabalho feito). O eleitor que não acompanhou tudo o que aconteceu se deixa levar por apelos emocionais. É por isso que acho que a culpa não é dos políticos, que precisam atingir o eleitorado de outras formas, já que o trabalho não aparece. É do eleitor (cada povo tem os representantes que elegeu). O descaso com que 90% da população trata a política, sem se envolver nos assuntos do próprio município e do próprio Estado faz com que as regras do jogo permaneçam iguais às de 20, 30 anos atrás. É como futebol: não importa muito como o seu time está jogando; nunca se troca de time.

23-07-10

Palmas ou palmadas para o ECA?

O Estatuto da Criança e do Adolescente fez 20 anos. Eu tinha sete anos quando isso ocorreu. Lembro de ver as pessoas falarem do ECA pela tv, de assistir palestras na escola, até de fazer trabalhinhos sobre o assunto. Claro que não entendia nada do que estava acontecendo. Mas ao menos parecia algo bom, diante da faceirice das profes. Hoje entendo porque elas aplaudiram o Estatuto: o ECA garantiu às crianças e adolescentes tratamento igual entre todos, sem distinção de cor, classe social, ou qualquer forma de discriminação; deu prioridade absoluta na formulação de políticas públicas e destinação privilegiada de recursos nas dotações orçamentárias; prioridade do direito à convivência familiar e comunitária; priorizou as medidas de proteção sobre as socioeducativas, além da integração e da articulação das ações governamentais e não-governamentais na política de atendimento; lembrou a garantia de devido processo legal e da defesa aos menores infratores; municipalização do atendimento; etc. Além das regras, acho que o mais importante foi o fato de promover discussões mais frequentes e amplas sobre os direitos (e deveres) das Crianças e Adolescentes.
Viu quanta coisa legal? Pois este nariz de cera todo foi para introduzir o assunto da semana. Nosso presidente resolveu comemorar os 20 anos do ECA com uma lei. Entre uma festa de promoção a Dilma e outra, na última quarta-feira, Ele enviou ao Congresso um projeto proibindo a prática de castigos físicos aos menores de idade. Palmadas, puxões de orelhas e afins incluem-se em castigos físicos. Fico imaginando como vai ser daqui pra frente: a criança, sabendo que os pais não podem dar palmadas, processará os pais porque eles preferiram dar um puxão de orelhas ao invés de aceitarem quietos uma nota baixa. Ou então, fará chantagens do tipo “vou contar para o Conselho Tutelar que você me deu uma chinelada se eu não ganhar aquela bola”... Ih...
Sinceramente? Acho que a lei não tem pé nem cabeça. Condenações a agressores já estão previstas em lei. Mas ao menos entrou em pauta a discussão sobre como os pais devem educar os filhos. O senso comum diz que a adolescentes e crianças com má conduta faltou laço. Pois eu conheço vários que foram praticamente espancados, que tomaram mais açoitadas do que burro de carga empacado, e que também não são exemplos de boas pessoas. Violência nunca foi solução, mas também penso que muitos pais que nunca levantaram a mão para os filhos podem estar arrependidos de não terem agido com mais firmeza (aquela mão que afagou a cabeça bem que poderia ter dado um cascudo). Não se educa com ameaças. Mas também a relação pai e filho não pode se transformar em um balcão de negociações, um comércio entre a nota alta e o aumento da mesada. Enfim, creio que o bom senso não é algo que se tornará prática na família por meio de uma lei. Talvez tenha faltado laço para o presidente, por ter matado aula e ter ideias como esta.

PS: Será que essa lei também é retroativa? Poderia cobrar do pai e da mãe aquelas chineladas que eles me deram... Pensando bem, uma ou duas vezes eu não merecia apanhar... Em compensação, perdi as contas de quantas vezes merecia e consegui escapar. Hum... o saldo está bem positivo, não vale a pena essa revisão...

16-07-10

Contos da carochinha

Semana passada falei sobre drogas. Ou melhor, sobre como e o quê pais, professores, padres, pastores, prefeitos, comunicadores falam para adolescentes sobre drogas. Como achei que pudesse não ser muito bem compreendido, enviei a coluna para algumas pessoas para tirar uma amostra do que pensam. Sabe o que é mais engraçado? Fui aprovado por todos com menos de 35 anos. Mas não tive tanto sucesso com pessoas acima desta idade. Por quê? Creio que haja um confronto de gerações que tentarei explicar. Do meu jeito, é claro.
Acho que um pouco se deve às transformações que o mundo enfrentou nas últimas décadas. Saímos de um regime militar, em que tudo era mais “controlado” e “ordeiro” (vou pegar leve com a Ditadura porque um nobre leitor já mandou me puxarem a orelha). Tivemos grandes avanços tecnológicos, sobretudo nos meios de comunicação. Ou seja: com mais liberdade para falar, pensar e opinar, e com mais velocidade de informação, a gurizada se adiantou em certas questões em relação aos pais. É um confronto entre o disco de vinil e a geração MP3. Carta x e-mail. Pesquisa em biblioteca x wikipédia, blogs, google, tv a cabo...
Para comparar, vamos aos desenhos animados. Foi-se a era de princesas inocentes e perfeitas, de mocinhos que lutavam pelo bem. Coloca uma criança de dez anos para ver a Bela Adormecida para ver o que ela vai dizer. Vão preferir o fracassado Homer Simpson ou o ogro cheio de maus modos Shrek, ambos desenhos com piadas por vezes maliciosas – alguns dizem que são desenhos para adultos.
Os programas de tv faturam sempre sobre o mesmo trio: esportes, sexo e violência. A exploração da realidade de forma exacerbada tira a crença de qualquer um de que o mundo é bonitinho. E chega-se a conclusão de que não se deve esperar para receber uma bala perdida, sofrer um assalto, ser atropelado por um motorista bêbado, pensar daqui a 30 anos sem saber como será o dia de amanhã. O importante é o momento! E por isso que vejo as drogas se popularizarem tanto. Não adiantam propagandas e campanhas contrárias – não da forma como são feitas. Não adiantou colocar fotos de pessoas morrendo nos maços de cigarro: o percentual de jovens que fumam aumentou mesmo assim. Por quê? A ideia é de que os efeitos vão demorar anos para serem sentidos pelo corpo, e talvez eu nem esteja mais por aí para saber.
É por isso que eu acho que as cartas devem ser colocadas sempre na mesa. Os diálogos devem ser francos. E para isso, os pais precisam estar atentos ao que acontece no mundo, no dia-a-dia da cidade, dos jovens, para não apenas dizer isso pode, isso não pode, mas argumentando o porquê de preferirem que os filhos não tomem determinadas atitudes. Os jovens não devem ser poupados, devem sentir nas mãos a responsabilidade sobre os próprios atos. E isso envolve o álcool, as drogas, a maneira de dirigir, a maneira de conviver em sociedade. Isso envolve sempre a verdade.

09-07-10

Abrindo o jogo

Falar sobre drogas é difícil, ainda mais quando se foge um pouco do consenso do que se pensa sobre o assunto. Mas como não tomei meus “remedinhos” hoje, vou arriscar. Lá vai.
Uma pesquisa feita pela Brigada Militar em Porto Alegre com 1,8 mil estudantes dos ensinos Fundamental e Médio constataram que a maioria dos adolescentes sabem pouco ou quase nada sobre drogas. Surpresa? Diria que é uma obviedade. Quer tirar a prova? Então responda você: quais são os efeitos de maconha, cocaína, crack, heroína, LSD e êxtase? E quais são as consequências provocadas pelo uso contínuo destas substâncias? Conseguiu? Não? Hum...
A droga ainda hoje parece ser um assunto proibido. Os ensinamentos mais profundos que partem da família, da igreja, dos meios de comunicação, das escolas é de que não se deve usar porque é ruim. Ruim, cara pálida? Garanto que, se usado uma única vez provocasse vômitos de ogro, dores incontroláveis, corrosão do nariz, queda das unhas, ninguém usaria. Como não é bem isso, faço minhas as palavras o que uma psicóloga do Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Droga de Novo Hamburgo me disse uma vez. “Se fosse ruim, eles (os adolescentes) não usavam”.
Forte a expressão dela, né? Na hora eu também achei. Mas daí, didaticamente, ela me explicou que os usuários, em geral, acham que não faz mal porque num primeiro momento os efeitos são “bons” – ou como diz a magrinhagem, “dá um barato”. Para eles, não importa o que isso vai acarretar com o uso frequente – até porque “é só esta vez”. Não admitem que ficarão dependentes, até porque raramente tiveram contato com pessoas que enfrentaram a dependência, que sabem o que é se colocar em situação extremas como roubar e matar para conseguir alguns trocados e manter o vício.
Pelamordedeus, não me interpretem como entusiastas das drogas. Pelo contrário. É por estar cheio de ver amigos meus fazendo bobagens devido ao uso de substâncias ilícitas que acho que a maneira como minha geração aprendeu a não entrar nessa é errada. Ao invés de mostrarem que a dependência é uma doença, aprendemos que não se deve falar com estranhos, que quem usa entorpecentes é mal-encarado, é bandido. Daí, enquanto pensávamos que os drogaditos eram da turma do Velho do Saco, nos deparamos com meninos e meninas que são populares, bonitinhos, de boa família, oferecendo um “bagulho”. E vai tudo por água abaixo. E pensam: “não é bem assim”, “ele (a) usa drogas, mas é legal”, “é exagero dos pais” - ainda mais nessa fase em que eles crêem que os pais não sabem de nada. Fica a impressão de que é o mesmo discurso de que “se não comer, não vai crescer”.
Neste mundo em que as informações chegam rapidamente e em grande escala nos domicílios por meio da internet (e são consumidas especialmente pelos mais jovens), é imprescindível “abrir o jogo”. Uma conversa mais franca, mais de igual para igual, sem contos da carochinha, com certeza terá mais eficácia para evitar que os entorpecentes façam parte de sua família, de sua escola. Creio que combater as drogas começa por acabar com as lendas sobre as drogas.

02-07-10

A bola do desenvolvimento

Ainda em overdose graças a essa Copa do Mundo, estou adotando as mesmas estratégias dos maiores veículos de comunicação do país (pretensioso, não?), para falar sobre Copa não falando. Esta é uma estratégia bem recorrente, especialmente daqueles que não detém os direitos de transmissão dos jogos. Falam sobre a cultura do continente africano, que está em voga graças à competição; dos problemas sociais dos países; do que mudou na África do Sul por causa da presença das seleções. Inclusive, tenho achado essas pautas mais interessantes do que propriamente os jogos (bate aquela sensação “esperava bem mais” ao ver cada partida).
Pois, se a maior competição do mundo não passa em branco nem mesmo em nações que não têm no futebol a principal referência esportiva, não poderia deixar de ser diferente nesse Brasil em que a bola é prioridade até mesmo em relação ao prato de comida de cada dia. E com a próxima Copa do Mundo sendo realizada aqui na Terra de Santa Cruz, o disco só será virado lá por 2015.
Não é exagero. Na campanha eleitoral deste ano, vão falar de obras para a Copa. Daqui a dois anos, os maiores municípios, que contam com canal de tv e transmitem a campanha deles para nossos lares (quando eu era pequeno, sabia mais da eleição de Passo Fundo do que de Frederico) também serão pautados por isso. Durante o Campeonato Brasileiro, serão observados os Estádios. Qualquer empreendimento a ser construído, será pensando na Copa. Nas escolas, as profes, emocionadas, ensinarão hinos e modos diferentes de fazer pompons. Talvez até inventem vuvuzelas com garrafas pet (por que fui dar a ideia?). E como uma coisa puxa a outra, as coisas vão evoluir até todos estarem vestidos de verde e amarelo, em ambientes verde e amarelo, comendo comida verde e amarela (vi no jornal que “inventaram” uma abobrinha nessas cores)...
Mas, como tudo, também tem a parte boa. O jornal O Estado de São Paulo de março noticiou que, só na área de Segurança, serão abertos 35 mil empregos (e todos terão que passar por qualificação). A construção civil, que antigamente era onde desaguava toda a mão-de-obra qualificada, já sofre com falta de funcionários qualificados e se vê obrigada a investir não apenas no aperfeiçoamento de pessoal, mas também em salários mais dignos. Levantamento do Ministério do Esporte destaca que sediar o evento vai gerar R$ 183 bilhões na economia nacional entre 2010 e 2019, distribuídos em infraestrutura, turismo, empregos, impostos, consumo, etc... Quem passa pela Grande Porto Alegre já consegue visualizar uma série de obras voltadas à Copa tupiniquim.
Tudo muito bonito. Mas, não sei se é por falta de esclarecimento, ou se é porque o pré-sal vai salvar a todos, preocupo-me com os municípios menores. Temo que as sedes e subsedes da competição sejam muito mais privilegiadas do que se imagina, e que o restante fique de lado. E, além disso, com a dita falta de mão-de-obra, temo que haja uma diáspora rumo aos grandes centros, atrapalhando o desenvolvimento dos pequenos...

25-06-10

Tentativa de falar algo que não seja sobre a Copa

Nesta quinta, bateu o desespero. Em meio a esta overdose de Copa do Mundo, sobre o que mais eu poderia escrever? Até há coisas importantes acontecendo, mas essas informações se perdem diante dos jornais com cadernos especiais da Copa e programas televisivos repetindo lances, gols e comentários de pessoas com um QI altíssimo, como é o caso de Edmundo, Vampeta, Neto, Casagrande, etc... Eu chego a ficar abobado com as demonstrações férteis dos raciocínios deles. Me bate uma coisa assim no peito... Algo do tipo: “porque fui perder tempo estudando, por cinco anos – quatro de faculdade mais um de cursinho, sem contar o ensino médio e séries anteriores que 90% desses jogadores que ganham 50 mil, 80 mil vezes mais do que eu não completaram, se quem vai para a tv são esses @%&*”. Não que eu quisesse estar na tv. Até já me aventurei por esse meio. Não é a minha. O certo é que eu devia ter escutado o professor Ricardo Denti e me esforçado mais na escolinha do Ipiranga, sem matar os exercícios, sem abusar do refrigerante, sem preguiça para treinar...
Do que eu estava falando mesmo? Ah, da Copa. É incrível o que acontece. No elevador, só se fala nisso. Durante as sessões plenárias da Câmara, do Senado e da Assembleia também. Enquanto um bobo discursa para ninguém ouvir, passa alguém propondo a realização de um bolão. Durante o atendimento de um acidente de trânsito em Porto Alegre, um policial que fazia a ocorrência perguntava sobre resultado de Eslováquia e Nova Zelândia (será que ele sabe em que parte do globo ficam essas nações?).
Desculpem o mau humor. Estou descontando na Copa – e em vocês – a falta de assunto. O cérebro está atrofiado até a final para questões importantes, como a votação do novo Código Florestal, o veto do Lula à queda do fator previdenciário, o aumento de 7,7% confirmado pelo presidente como compensação à queda do fator previdenciário, a morte do ex-deputado Bernardo de Souza, a aprovação no Senado do parcelamento de multas de trânsito em até seis vezes no cartão, a opção do PP por entregar o cargo de vice na chapa de Yeda ao PPS, o impasse do PMDB gaúcho entre apoiar ou não apoiar Serra/Dilma, a venda ou não do terreno da Fase (antiga Febem) de Porto Alegre em troca da construção de novas unidades.
Diante disso, consigo apenas fazer algumas constatações: 1) as pessoas que mais gostam de assistir aos jogos da Copa são aquelas que normalmente não acompanham futebol; 2) a renovação de narradores e comentaristas esportivos tem que acontecer logo (chega de Galvão e Milton Neves); 3) ex-jogadores não podem ser comentaristas, sob pena de emburrecer ainda mais a nação; 4) filmes são ótimas opções aos canais de tv aberta para quem já está de saco cheio ainda na primeira rodada; 5) vou incentivar meu filho a estudar menos e a jogar mais futebol...

18-06-10

Cinema e Política

"Mantenha seus amigos perto, e seus inimigos mais perto ainda." O lema é de Dom Vito Corleone, personagem do livro de Mario Puzo, “The Godfather”, traduzido no Brasil como “O Poderoso Chefão”, transformado nos anos 70 em um dos mais cultuados filmes da história do cinema pelo diretor Francis Ford Coppolla. O personagem é dono de outras frases marcantes. Eu gosto de várias. São os melhores ensinamentos para quem quer transitar na política depois de “A Arte da Guerra”, de Sun Tzu.
Máfia, depois de O Poderoso Chefão, virou quase um gênero do cinema, especialmente o americano. Além da ação, dos tiroteios, assassinatos, também apresenta dramas vividos pelos personagens. Pois eu sugiro lançar um novo subgênero do cinema nacional. Depois de pornochanchadas, filmes das favelas cariocas, e os históricos sobre as “batalhas” e “glórias” nacionais, acho que seria interessante lançar filmes políticos. Enredos não faltam: o mensalão poderia fazer tanto sucesso quanto o filme sobre o “watergate”. A morte de Celso Daniel poderia ter o título de “Queima de Arquivo”. O mesmo vale para o assassinato de PC Farias e Eliseu Santos. Pedro Collor, que entregou o irmão, poderia render uma película cheia de traições.
Voltando a “O Poderoso Chefão”. É impressionante a força de algumas frases que o autor destinou ao personagem. Simples, na maioria das vezes sem expressar pensamentos muito profundos, mas que quando enunciadas provocam impacto. E o que são grandes líderes senão ótimos frasistas? Alguns presidentes também são. Selecionei os enunciados mais marcantes do personagem e fiquei pensando como poderiam ser utilizados na política nacional. Por exemplo: a frase citada na primeira linha deste texto poderia ser atribuída à governadora Yeda Crusius, quando optou por manter nos cargos do governo lideranças de partidos que apresentaram ou apoiarão outros candidatos à corrida pelo Piratini.
Outro exemplo: o ensinamento “dói mais ter algo e perdê-lo, do que nunca tê-lo” poderia facilmente ter saído da boca do ex-governador do Distrito Federal, que obrigou-se a renunciar para não ser impechado depois de todos os flagrantes de dinheiro nas meias e orações da propina.
Mais um: “Nunca odeie seus inimigos, isso afeta seu julgamento”. Quer frase mais Roberto Jefferson do que esta? O cara que “tirou a roupa do rei” José Dirceu, ao denunciar o suposto mensalão (do qual participava) foi também um dos defensores de Lula, sob a alegação de que ele não sabia de nada.
“Se você tivesse se cercado com um muro de amigos, isto não estaria acontecendo”. Essa frase poderia ter sido direcionada à governadora Yeda pelo presidente Lula durante o episódio das investigações do Detran. (Lula, diga-se de passagem, poderia também ser garoto propaganda de panelas de teflon, em oposição a alguns que são culpados inclusive pelos erros de colegas).
“Homens realmente grandes não nascem grandes, tornam-se grandes”. Essa frase poderia ser utilizada pelo Duda Mendonça nas campanhas do Lula (não foi isso que o filme-publicidade Lula – O Filho do Brasil tentou mostrar?). E nem precisarei comentar sobre aquela: “vou fazer-lhe uma oferta que não poderá recusar”.
Pois é por essas e por outras que acho que esse seria um filão para o cinema nacional. Podem sair disto filmes melhores do que “Cidade de Deus” e “Tropa de Elite”. O único ponto delicado seria incluir na trama umas mulheres um pouco mais atraentes do que as nossas atuais líderes. Se bem que sempre há uma que outra amante por aí...

11-06-10

Que tal uma nova constituinte?

Já há algum tempo que ouço, como desculpa de lideranças políticas, que é preciso fazer uma nova constituinte para que reformas importantes (política, tributária, previdenciária, penal) sejam feitas. (A propósito: assembleia constituinte é um organismo colegiado que tem como função redigir ou reformar a constituição de um Estado, sendo para isso dotado de plenos poderes ou poder constituinte, ao qual devem submeter-se todas as instituições públicas. Obrigado, Google!). Os argumentos, dentro da realidade política, são válidos. O governo não envia uma reforma porque isso é um “tiro no pé”, já que para atender a demanda da sociedade poderá ter que adotar medidas impopulares. E os deputados sabem que o que prevalecerá, nas discussões feitas no Congresso, são medidas em causa própria, ou seja, para manter benefícios aos próprios deputados e seu eleitorado (leia sobre a polêmica da votação do Projeto Ficha Limpa).
Mas, o que diferenciaria novos congressistas dos atuais? Não teriam eles também ambições políticas, e por isso tomariam decisões apenas simpáticas a seus eleitores? Baseados nestes argumentos que normalmente quem propõe a realização de uma constituinte nos microfones da imprensa coloca uma série de condições para que a reforma seja profunda: 1) os deputados constituintes não poderiam se candidatar a um cargo público durante alguns anos; 2) também não poderiam usufruir de uma estrutura muito grande, como a dos atuais parlamentares, leia-se muitos funcionários e recursos para impressão de materiais gráficos; 3) Sem emendas destinando recursos para municípios, nem contato com os ministérios para este fim; 4) o mandato seria de dois anos, e não de quatro. É claro que as condições acima citadas variam de uma pessoa para outra, e por isso levei em consideração o que disse a maioria em cada caso. Mas acho que isso já permite fazer uma leitura inicial do que impede discussões sérias em nosso parlamento. Os próprios deputados reconhecem que do jeito que está não dá.
Vamos às medidas. Não poder se candidatar em seguida ao mandato constituinte daria tranquilidade para não ouvir pressões externas, nem de adotar a prática atual, que é buscar mais votos e discutir menos os reais problemas brasileiros? Sei não... Esses mesmos “constituintes”, para se eleger, precisariam do apoio de candidatos. Ou sejam, teriam que retribuir a ajuda, aprovando alguns pontos não tão “ideais”. O mesmo vale para a redução de tempo de mandato e de recursos: é uma maneira de não permitir que “cobras” novas se criem (e não se transformem em concorrentes). Também evitaria a superexposição na mídia durante muito tempo de novos personagens, pessoas que ganhariam notoriedade pela importância do trabalho. Só que estas criaturas, desde que engessadas, poderiam ser bons cabos eleitorais junto a entidades e instituições que participariam dos debates de uma nova Constituição.
Chegamos a um ponto no país em que nem mais se finge que nosso Congresso é capaz de votar reformas que atendam o desejo do povo, sem deixar brechas para a retórica de advogados que defendem sujeitos de conduta (e índole) escusa. Reformas são necessárias. Porém não vejo garantia de que não seria apenas dinheiro jogado pela janela.

04-06-10

Entre belos e (feios) famosos

“As feias que me desculpem, mas beleza é fundamental”. A frase, já um jargão, é atribuída ao poeta Vinícius de Moraes. Embora nada simpática e um tanto quanto politicamente incorreta, ainda é uma realidade. O mundo valoriza os mais belos. Em praticamente todas as áreas. Na rua, carros conduzidos por homens param apenas quando uma moça bem fornida tenta passar para o outro lado. Há um aumento gradativo de homens metrossexuais. Não vejo esforço tão grande por parte dos indivíduos – generalizadamente falando, claro – em parecer tão bons trabalhadores quanto belos.
Tenho uma historinha para ilustrar um pouco isso. Certa feita um empresário conhecido meu, dono de um comércio em Santa Maria, disse-me que “boa aparência” era um diferencial. “As vezes é melhor investir em uma pessoa um pouco menos eficiente, mas mais apresentável", atestou. Reparei melhor nas meninas contratadas pela empresa. E entendi que “boa aparência” tinha menos a ver com simpatia e muito mais com atributos físicos.
Pensa comigo: as academias recebem cada vez mais clientes. Dificilmente alguém vê um salão de beleza às moscas. Nunca a indústria de cosméticos arrecadou tanto. Há filas de clientes em busca de espaço na agenda dos médicos para fazerem cirurgias plásticas. Cada vez mais meninas, com menos de 20 anos, sonham ir para uma sala de cirurgias para implantes de silicone ou lipoaspiração. Uma amiga minha, de 25 anos, por exemplo, que tem sérios problemas de fechar a boca, já passou por inacreditáveis três lipos. Chegamos ao ponto em que não existe mulher feia, mas sim mulher pobre.
Mas... acho que este valor, está ficando um pouco de lado para a emergência de outro. A fama.Com o desenvolvimento em progressão geométrica de novas tecnologias de comunicação, uma grande parcela das pessoas estão fazendo de tudo para serem conhecidas. Basta acessar o Youtube que você vai entender do que estou falando. Os vídeos mais visitados de “anônimos” são aqueles em que personagens mostram dentes tortos, fazem dancinhas ridículas, vestem roupas, digo, pequenos paninhos, para chamar a atenção. Descobriu-se que existe um grande filão pelo ridículo, pelo horrível, pelo mau gosto.
Semanas atrás assisti ao “Pânico na TV”, programa dominical exibido pela Rede TV. Não vou comentar a qualidade do programa. Seria demagogia minha dizer que não assisto ou que não acho graça de muitas das bobagens. Mas mesmo assim acho de baixo nível (porém à altura de tudo que passa no mesmo horário na tv aberta). Neste dia, a superinteligente apresentadora Sabrina Sato propôs que Gorete, uma personagem que ganhou notoriedade pelo seu sorriso, desprovido de dentes, a largar a imagem de Gata Borralheira para virar a princesa, mas para isso teria que deixar de aparecer no programa. O que era mais importante? Ficar bonita, com direito a dentes novos, e outros reparos no corpo avariado, e voltar ao anonimato, ou então continuar feia mas fazendo participações na tv?
Gorete chorou ao ter que escolher. Disse que gostava de ser famosa. Que não queria perder aquilo, mesmo que seu papel fosse humilhar-se. Por fim, escolheu ficar bonita, pois assim, quem sabe, conseguiria um emprego. Como recompensa, conseguiu mais alguns minutos de fama, já que todo o processo de “chapeação” da moça foi midiatizado. Mas daqui uns dias esqueceremos ela. Agora, pergunto a você: o que você faria no lugar dela?

29-05-10

sábado, 21 de agosto de 2010

Prefeitos querem fim das emendas individuais dos parlamentares (???)

Esta foi mais uma semana de marcha de prefeitos em Brasília. Neste ano não estive lá. Mas tenho certeza de que a cena foi a mesma do ano passado: corredores lotados com os chefes dos Executivos municipais dividindo-se entre as reuniões e os gabinetes, gabinetes entupidos com filas gigantescas de pessoas com “pires na mão” esperando por alguns minutos de conversa com parlamentares para conseguir emendas para pequenas obras. Discursos fortes em reuniões de grupos de trabalhos nem sempre cheias, porque os prefeitos estão nos gabinetes. Propostas vindas de todos os cantos do Brasil bonitas no papel mas que, sabemos, permanecerão apenas no papel.
Uma destas propostas me surpreendeu: prefeitos pedem o fim das emendas individuais dos deputados e senadores. Confesso que de certa forma cheguei a concordar com o pedido. Mas refletindo melhor, acho que, no modelo político atual, essas emendas ainda são necessárias.
Concordo com o argumento daqueles que afirmam que parlamentares são Legisladores, e não parte do Executivo, que é o único poder que realmente ordena despesas com obras. Acho que há fundamento nas acusações dos opositores que bradam – quando não estão no poder, diga-se de passagem – que as emendas são uma forma de aprovar as propostas do Governo praticamente sem discussão. Acredito que as emendas, como funcionam hoje, são sim uma forma de os deputados e senadores “prenderem” lideranças municipais a si, entregando as documentações necessárias em troca de apoio na eleição. E também me parece que muitas das viagens das lideranças municipais à Brasília poderiam ser evitadas, caso não houvesse tanta burocracia para projetos serem aprovados diretamente nos ministérios.
Porém, peço licença para fazer algumas observações: é do interesse dos prefeitos e vereadores receber as emendas, porque assim podem ir aos jornais e rádios para anunciar obras como sendo partes do próprio trabalho (o que não deixa de ser mesmo). Sem contar que ganham um grande cabo eleitoral para o pleito municipal seguinte. Por mais que se diga na marcha que evitariam as viagens à capital federal, juro que nunca ouvi nenhuma reclamação – ao contrário, já ouvi alguém dizer que acha essas viagens divertidas.
Mas como tudo tem um contudo, eu posso afirmar o seguinte: 1) o desejo expressado na marcha não é unânime. 2) os municípios menores serão muito prejudicados, já que recebem por ano em emendas um valor significativo comparado com o próprio PIB. 3) dependendo do governo, municípios com índices intermediários de educação, saúde, habitação, podem ser preteridos por ser opção de um presidente (isto é hipotético, ok?!) em investir apenas naquelas que estão pior colocadas. 4) etc (é demais para esse espaço)...
Deve-se levar em consideração que para eleger um Governador ou um presidente, o número de eleitores de pequenos municípios é desprezível em relação à diferença que faz para candidatos ao Legislativo os poucos votos de unidades como André da Rocha, município com 1086 eleitores. Para se ter uma ideia, a diferença entre o último deputado federal eleito pelo PMDB, Ibsen Pinheiro, foi de apenas 1474 votos a mais do que o primeiro suplente, Cezar Schirmer.
Assim sendo: só se houver uma reforma política. Que os deputados teriam que aprovar...

21-05-10

Vácuo político

Na coluna da semana passada, falei sobre a falta de opções que teremos nas eleições presidenciais deste ano. Relevantes (em termos de votação), apenas três postulantes ao cargo eletivo máximo tupiniquim: Serra (PSDB) e Dilma (PT), que polarizam segundo os índices feitos pelas pesquisas, com Marina Silva (PV) correndo por fora. Duvido que alguém aposte uma embalagem vazia de leite barriga mole que o Ey-Ey-Eymael (o democrata cristão– que é gaúcho, por sinal), o extrema esquerda Zé Maria, do PSTU, ou o “quem bate cartão não vota em patrão” Rui Costa Pimenta conseguirão somar, juntos, mais de 0,5% dos votos válidos.
Refletindo sobre isso, dei-me conta de outra coisa. Apesar de fatores muito importantes, não são apenas o poder econômico ou o carguismo que têm feito com que os partidos se isentem de apresentar candidatura própria. Falta o principal: novas lideranças.
Quando há um líder, alguém que consiga conciliar os interesses do partido, que tenha carisma, conhecimento de causa, a candidatura passa por cima destes “obstáculos”. Cristovam Buarque se lançou pelo PDT mesmo sem coligação, em 2006. Heloísa Helena (PSOL) tinha apenas os minúsculos PSTU e PCB no mesmo ano. Ciro Gomes, que foi candidato em 2002 pelo PPS, quase conseguiu impor sua candidatura ao PSB, que não é uma sigla lá muito ramificada pelos quatro cantos do país.
Quem deixa muito a desejar são os grandes partidos. O maior de todos, o PMDB, não lança candidato próprio desde 1994, quando Orestes Quercia concorreu sem ter o apoio de boa parte dos companheiros. Desde então, afunda qualquer iniciativa de colegas do partido em concorrer para garantir uma coligação com a tendência de ficar no poder. O PP, quinto maior, segue a mesma tendência: a última vez que lançou candidato próprio foi em 1994, com Esperidião Amin (na época a sigla chamava-se PPR). Pior é o DEM (ex-PFL), quarto maior partido do país, que desde 1994 vem a reboque do PSDB, contentando-se em ter candidato a vice. Gente, 1994 foi há 16 anos. Quatro eleições. Foi recém a segunda eleição direta após a abertura política!
Agora, vejamos: quem são os líderes de hoje? Quando foram forjados? Numa pequena pesquisa entre o Google e minha memória, não consegui achar nomes que não sejam egressos do período de Ditadura Militar ou ainda anteriores. Nos anos de chumbo, Dilma foi guerrilheira; o padrinho Lula, líder sindical. Serra foi presidente da UNE nos anos 60 e posteriormente exilado pelos militares. Desafio você, caro leitor, a apresentar nomes do quilate (aqui compreendido apenas como representatividade, sem julgamento sobre ser honesto ou não, entre outros adjetivos) de Roberto Freire, Paulo Maluf, Fernando Henrique Cardoso, Cezar Maia. Podemos avaliar partido por partido: os caciques ainda são os mesmos de 30 anos atrás (tirando os falecidos Leonel Brizola, Ulysses Guimarães, Antônio Carlos Magalhães, Franco Montoro e Mário Covas, que deixaram representantes não tão importantes como os próprios, mas da mesma época, em seus lugar).
Ainda estamos refém de uma geração. Parece, salvo exceções, que há um vácuo entre as lideranças (contra ou a favor) dos anos de chumbo e as novas gerações. E pior: esse hiato não significará ruptura. Mas isso é assunto para outra coluna.

14-05-10

Parasitismo

Essa campanha política está me dando uma saudade da eleição de 1989 que vou te contar. Não é exatamente saudade, porque naquela época eu tinha apenas seis anos (o máximo que me lembro é da musiquinha do Lulalá, do “Juntos chegaremos lá” e dos patinhos na lagoa do Afif Domingos, entre outras vagas lembranças). Mas faço referência àquela eleição para comparar com os últimos pleitos para escolher o presidente da República. Tenho achado as eleições atuais parecidas com a Fórmula 1. Depois da morte do Senna, a briga pelo título sempre foi entre Schumacher e mais um (ok, de dois anos para cá a coisa mudou um pouco... na Fórmula 1, claro).
Para refrescar a memória dos mais velhos – e para informar aos mais jovens que ainda não procuraram notícias sobre isso no Google: nada menos do que 22 candidatos concorreram à presidência. Apenas três deles com coligação, e mesmo assim entre siglas nanicas. Todos os partidos grandes foram protagonistas com candidatos próprios. Segue a lista de alguns, para lembrar: o PT lançou Lula; o PDT, Leonel Brizola; o PSDB, Mário Covas; o PDS (hoje PP), Paulo Maluf; PMDB foi com Ulysses Guimarães; o PCB com Roberto Freire; o PFL com Aureliano Chaves (a maioria desses virou nome de rua, já). Ganhou Collor, do PRN, puxando a coligação composta ainda pelos “enormes” PSC, PTR e PST.
Naquele momento, de abertura política – foi a primeira eleição direta para presidente depois da Ditadura -, as siglas tentaram demarcar o próprio território. Buscaram a liderança. Até porque, nenhum desses partidos tinha mais de 10 anos (todos surgiram ou da divisão do MDB ou da ARENA), e ainda idealizava alguma coisa.
O que acontece hoje? Estamos praticamente num bipartidarismo. O pleito em âmbito nacional está resumido entre os amiguinhos do PSDB e os companheirinhos do PT. Em jogo estão cargos públicos para os cabos eleitorais (os filiados para se manterem no emprego precisam destinar parte do salário para o partido) e o financiamento das siglas por meio de “gratificações” de empresas que foram vencedoras em processos de licitação. As coligações se formam muito menos por ideologia do que por interesse em segundos a mais nos programas televisivos. Os gastos são tão grandes que os partidos temem enfrentar sozinhos adversários com maior poder econômico. E todos estes aspectos são mascarados pelo discurso bonitinho de que é importante que mais personagens tomem decisões sobre os rumos do país (balela, isso deveria ser feito no Congresso, ou pelo menos no segundo turno).
Na última eleição, tivemos quatro opções: Lula (PT), Alckmin (PSDB), Heloísa Helena (PSOL) e Cristovam Buarque (PDT) – vamos e viemos, Ana Maria Rangel (PRP), José Maria Eymael (PSDC), Luciano Bivar (PSL) e Rui Costa Pimenta (PCO) são café com leite, pois nenhum fez mais do que 130 mil votos (bem abaixo do que alguns candidatos gaúchos a deputado federal obtiveram). Na de outubro deste ano, teremos Dilma, Serra e talvez Marina Silva (PV). E um que outro aventureiro em busca de segundos de fama. Quantas opções, não?
É com uma certa desilusão que vejo que siglas como PTB, PP e PMDB ficam sempre esperando o resultado das pesquisas para saber quem vai ganhar e, aí sim, designar apoio. É quase um Campeonato Brasileiro com Flamengo e Corinthians disputando o título e os outros clubes participando apenas para receber a mala preta em troca de entregar o jogo. É aí que percebe-se que o que chamamos de política deveria chamar-se de comércio. Ou melhor, de parasitismo.

07-05-10

Baixaria

Minha coluna de hoje era sobre outra coisa. Coincidentemente falaria sobre o que a vontade de ter poder pode provocar nos indivíduos. Mas, quando começava a digitar algumas coisas sobre o contexto político nacional, tomei conhecimento de um blog que circula na internet que, no meu entender, atingiu a cotação máxima do que se chama de baixaria. Não vou divulgar o endereço, para não dar publicidade a pessoas de laia duvidosa.
Surgiu neste mês uma página na internet claramente de oposição ao prefeito Antonio Scaravonatto, de Planalto. Pretendendo ser engraçadinha, ampliou o significado de “mau gosto”. Por ora, constam apenas duas “notícias”. Espero que não chegue à terceira. Em dois posts, o autor conseguiu empilhar barbaridades. Mas vou me deter apenas a uma.
No segundo post, com data de 28 de abril, todas as barreiras da falta de noção foram quebradas. Está ali uma falsa enquete sugerindo respostas especulando como o filho do prefeito Antonio Scaravonatto contraiu H1N1. Olha as opções:
“A- Comprando votos perto de um chiqueiro;
B- Em uma de suas inúmeras visitas de caridade às crianças doentes;
C- Desfilando abraçado com um porco no dia em que seu pai ganhou a eleição;
D- Todas as alternativas acima (menos a ‘b’, é claro)”
Alguém, por favor, consegue entender o que leva uma pessoa a jogar tão baixo? Críticas a forma de governar tudo bem. Ninguém que ingressam na vida pública consegue agradar 100% do povo, e serão questionados. Mas envolver o lado pessoal, pessoas da família que nada têm a ver com a administração, e o que é pior, brincar com situações delicadas, tudo isso é dum mau gosto elevado à milésima potência. É injustificável. Uma atitude dessas é feita em nome de quê? Adversidade política? Manutenção de poder? Quem ganha com isso? Não seria mais decente os descontentes procurarem a administração pública, os vereadores, para buscar explicações sobre as tomadas de decisões?
E, pior, o autor não se identifica, apenas lança argumentos vagos protegido pelo anonimato da internet. Vou incorporar o Datena, o Ratinho, e chamar esse cara de frouxo. (O mesmo vale para o cara que distribuiu cartinhas por Frederico denegrindo o nome de pessoas sem apresentar provas e, pior, sem se identificar). Enfim, presto aqui minha solidariedade ao prefeito, meu repúdio ao agressor e minha torcida para que a Polícia Federal faça alguma coisa.
***
E o projeto “Ficha Limpa”, aquele que propõe que pessoas condenadas pela Justiça não possam concorrer a cargos públicos eletivos, parece que vai mesmo à votação na próxima terça-feira. Motivo de alegria? Parcialmente. Não vou me vangloriar por ter antecipado os fatos porque o que aconteceu era óbvio: o projeto, de iniciativa popular respaldado pelas assinaturas de 1,6 milhão de brasileiros, sofreu diversas alterações e também não valerá para o pleito deste ano. É o que dá quando os próprios parlamentares determinam o que eles mesmos podem fazer ou não...
***
No dia primeiro de maio do ano passado, segundo minhas contas, circulava pela primeira vez na Folha do Noroeste esta coluna. Inacreditavelmente, completa-se um ano. Fico feliz por ainda não ter sido censurado ou banido deste veículo pelo Adelar. Embora ele deixe claro que não se responsabiliza por nada do que está escrito aqui... E fico ainda mais feliz quando volta e meia recebo qualquer tipo de manifestação sobre o que é escrito aqui – acreditem, até das críticas eu gosto. Até porque é um sinal de que alguém leu esse canto do jornal. E o que é melhor: tenho sempre uma desculpa para ouvir as “rádios-corredores” que encontro aqui e ali.

30-04-10

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Fofocas ciberespaciais

Políticos, assessores e marqueteiros estão apostando especialmente num ponto como o diferencial desta campanha em relação às eleições passadas. O ciberespaço está sendo disputado à tapa por uma legião de personagens que, por algum interesse, estão de olho no pleito que se aproxima. Sei de pessoas que estão sendo contratadas exclusivamente para passar o dia no Orkut, no Facebook, no Twitter e postando comentários em blogs de renomados colunistas políticos para se promover (esse artifício foi usado por Sarney contrapor a chuva de críticas que recebeu após as sucessivas denúncias recebidas de jornalistas e órgãos da Justiça. Na ocasião, foram seis os contratados).
Comecei a fazer as contas. Segundo o Ibope Nielsen Online, são pouco mais de 36,8 milhões de internautas, que passam, em média, 65 horas e 23 minutos por mês navegando. Num país com aproximadamente 190 milhões de pessoas, não é um número tão expressivo como o percentual de usuários que decidiu as eleições americanas, porém é bastante considerável. Tentei ainda buscar dados sobre quantos eleitores são internautas, mas acho que pedi demais ao oráculo Google.
Essa disputa virtual traz algumas novidades. A parte legal é que boa parte dos candidatos (seja à presidência, ao governo do Estado, ao Senado, à Câmara dos Deputados ou à Assembleia Legislativa) mexem pessoalmente nos próprios perfis, ficando mais próximos dos eleitores. Serra e Dilma são bons exemplos. Enquanto ele já domina muito bem o Twitter e comemorou nesta semana a marca de 200 mil seguidores, Dilma, que começou a twittar há poucos dias, conseguiu 9 mil nas primeiras 24 horas de microblog.
Há, porém, um detalhe que não pode passar batido: todos sempre vão parecer muito bonzinhos. Eles não vão entrar em grandes polêmicas. Vão demostrar preocupação mesmo se você pedir ajuda para combater a calvície. Deixarão recadinhos para você sempre com mensagens positivas. E você vai pensar: bah, que cara legal!
Acho que nem precisa dizer que as funções estão bem divididas: enquanto o candidato se mostrará uma pessoa íntegra, o trabalho sujo ficará a cargo da tropa de choque. Como a internet permite o anonimato, muitos conteúdos - de piadinhas à arquivos de slides, fotografias modificadas à trechos de discursos descontextualizados, acusação sem fundamento à documentos “confidenciais” – serão disponibilizados e utilizados para entupir a sua caixa de e-mail. Contudo, deve-se considerar que, como todos são produtores de conteúdo nesse meio virtual, também são formadores de opinião. De qualquer tipo. Ando, ultimamente, com dificuldade de acreditar no que leio. A não ser por sites de empresas com credibilidade, de colunistas já conhecidos e algum ou outro contato (e isso também não é sinônimo de isenção), fico perdido em meio de todas as informações lançadas de maneira irresponsável. Esta é a versão potencializada das tiazonas dos municípios do interior, que levam e trazem todos os tipos de assuntos tratando adversários pejorativamente. Vale um quilo de mandioca descascada por uma virgem de que, antes mesmo do período eleitoral, você também estará de saco cheio.

16-04-10

Ficha limpa, só Deus sabe quando

Não será desta vez. Por decisão dos deputados federais, o projeto “ficha limpa”, que tenta barrar candidaturas de pessoas condenadas pela justiça que ainda tem processos tramitando devido a recursos, foi encaminhado para a Comissão de Constituição e Justiça. E não será aprovado em plenário esse ano. Pelo menos não a tempo de ser válido já no pleito de outubro.
O mais curioso é de que, ao serem interrogados, todos os parlamentares são favoráveis. Mas justificam que não pode ser votado às pressas, que é preciso alguns ajustes, que tem que averiguar se é constitucional ou não. E, assim como outras matérias, o projeto vai ficando, ficando e o final da história é esperado. Ou nunca irá a plenário, ou vai sofrer tantas alterações que ficará desfigurado, sem cumprir o papel inicialmente proposto. Menos mal que mais de 1,6 milhão de pessoas assinaram a iniciativa do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE), o que pode ser um indicativo de mobilização.
Mas falando do projeto: não acho que alguém que está sendo processado por envolvimento em acidente de trânsito tenha que estar entre os impossibilitados. Ser barbeiro no trânsito não quer dizer que o cara é desonesto. Porém, se o vivente já foi condenado por má utilização de recursos públicos, corrupção, formação de quadrilha, etc..., sob hipótese alguma poderia mexer com a coisa pública. Mesmo que ainda haja possibilidade de recurso em outras instâncias. Até que não haja absolvição, não poderia se candidatar.
Agora, o mais engraçado: quem é que legisla o que pode e o que não pode? Justamente aqueles que serão afetados...
***
Atendendo ao pedido de um leitor, publicarei o trecho de um e-mail para esclarecer sobre homossexualidade (na edição passada usei “homossexualismo”, termo em desuso): “não usa-se mais o termo HOMOSSEXUALISMO, uma vez que o sufixo ISMO seria representativo de patologia, e se não é do conhecimento do caríssimo colunista em questão, ser homossexual deixou de constar como doença a algum tempo. Se quiser ter uma prova concreta disso, consulte o CID(Cadastro Internacional de Doenças). Portanto, cuidado com os verbetes usados, isso pode influir ao preconceito dos desavisados. HomossexualiDADE, com sufixo de ação, ou seja, SER HOMOSSEXUAL”. (as letras em caixa alta foram escritas pelo leitor).
Realmente foi uma falha do caríssimo colunista aqui, que já sabia à respeito mas não se deu conta enquanto redigia. E digo mais: passou batido porque eu não acho que o termo vá trazer grandes mudanças no tratamento que hoje recebe o terceiro gênero (ou, para não ser criticado por colocar transexuais, gays, lésbicas, bissexuais, travestis no mesmo saco, os demais gêneros).
Quanto ao que o leitor se refere a eu ter chamado de doença, peço atenção, em primeiro lugar, para o que está escrito: “Não entro na discussão se homossexualismo é genético, uma doença ou pecado”. Traduzindo: não quer dizer que penso que é uma doença ou qualquer outra coisa. Entretanto, embora tenha afirmado que “deixou de ser doença há algum tempo”, basta uma passadinha pelo google que poderá ser encontradas pesquisas concluídas e em andamento com as mais variadas explicações para algo que, para mim, não precisa ser explicado. Cada um é o que é, simples assim. O mesmo vale para os demais comentários do e-mail, pois como essa é uma coluna de opinião, que não se propõe ser isenta – pelo contrário, é coberta da subjetividade desse que escreve -, de alguma maneira vai deixar alguns satisfeitos e outros nem tanto. E esse é o espírito. O principal é não passar batido, já que a indiferença é o pior dos sentimentos.

08-08-10

Efeito Dourado

Por sacanagem de meus colegas de redação, fui escalado para uma pauta que fez com que eu entendesse o que as mulheres sentem ao passar em frente a uma obra. “Quem é que mando ir para o congresso da diversidade sexual”, perguntou o pauteiro. “Manda o Buzatto”, responderam em coro os demais integrantes do recinto, enquanto eu almoçava longe dali.
Sabe aqueles comentários cheio de maldade, ressaltando partes do meu corpo, seguidos de assovios? Como fui elogiado! Ainda mais depois de fazer a bobagem de entrar na brincadeira e dizer que aquele corpinho todo era na-tu-ral! Se eu andar pelado na Rua do Comércio, vou sentir menos vergonha do que senti depois dos aplausos.
Queria sumir dali, mas era preciso entrevistar a presidente nacional de uma das principais organizações da causa gay brasileira. Um travesti, com cerca de 50 anos. Apesar de corpo de homem, estava vestido de mulher. Falava como mulher. Até conseguiria se passar por uma tiazona, se não abrisse a boca. Depois das perguntas básicas sobre a importância da programação, entrei numa questão mais delicada: por que em paradas gays e comemorações o público sempre corresponde e, em dias de congresso, de discussões sobre a necessidade de políticas para a causa homossexual, dificilmente aparece alguém? “Este realmente é um problema. Não há politização. Elas gostam de festa, porque no dia-a-dia são recriminadas, e os eventos são formas de inverter os papéis”, afirmou ela, com aquela voz de quem engoliu uma pedaleira wah wah. Resumindo: no encontro, “elas” descontaram em mim (refiro-me apenas ao ato de constranger)...
***
Não entro na discussão se homossexualismo é genético, uma doença ou pecado. Durante a faculdade tive a oportunidade de conviver com homossexuais. Sou amigo de alguns. Sempre me respeitaram. E por isso têm meu respeito. E também sei que não sou ninguém para dizer o que é certo ou errado, até porque para mim esses são conceitos bem relativos. Mas nem todos fazem isso. Tente imaginar a quantidade de tabus que ainda existem contra o terceiro sexo. Quem nunca ouviu declarações do tipo “tem que encher de laço”, ou piadas pesadas achincalhando esse “novo” gênero (que de novo não tem nada: gregos e romanos conviviam, antes de Cristo, muito melhor do que a gente)? Ninguém se importa com o sofrimento que passou quem “saiu do armário” ao assumir sua sexualidade, a rejeição enfrentada na própria família, entre colegas, a dificuldade de arrumar emprego, a falta de locais (especialmente em cidades menores, geralmente mais conservadoras) para se divertir. Pelo contrário: considera um “insulto” conviver com eles. Por isso entendo a atitude deles de me intimidar no congresso. Devem se sentir assim a maior parte do tempo.
***
Encerrou-se o BBB. Ganhou o brutamontes, suposto representante da causa heterossexual, num programa marcado claramente pela participação de pelo menos três homossexuais (há outros ali que não me enganam). Torci pelo Dourado. Até porque desta vez, ocorreu algo curioso. A maioria dos brasileiros (tiro como febre os sites de fofoca que li para escrever essa coluna) ficou ao lado do gaúcho por considerar ele “minoria” no programa. É a primeira vez que percebo discriminação com heterossexuais. E, embora eu os respeite e seja contrário a manifestações preconceituosas, acho que o respeito deve ser recíproco: quero ter o direito de um dia entrar num congresso homossexual para fazer uma reportagem sem que ninguém faça comentários sobre minha bunda.

01-01-10

CC`s x Cargos de Confiança

É uma briga antiga. E ocorre em qualquer parte do funcionalismo público. Suponho que a guerra entre ocupantes de cargos de confiança e funcionários concursados nunca vá terminar. Câmaras de vereadores, prefeituras, governos de estados, assembléias legislativas, Congresso Nacional... Não importa. A briga sempre será a mesma.
O último capítulo aconteceu nesta quinta-feira. A mesa diretora da AL rejeitou uma minuta sugestão do sindicato dos funcionários da casa que previa a redução de CC`s e a contratação de mais efetivos. O que poderia era para virar um PL foi rejeitado por unanimidade.
Por quê? É simples. Qual deputado quer reduzir o número dos seus funcionários, identificados com seu trabalho e que carregam o piano em horários aleatórios, que cuidam de assuntos pessoais dada a proximidade estabelecida entre empregado e “empregador”, para deixar o trabalho nas mãos de concursados, pessoas capacitadas que conquistaram merecidamente um espaço no setor público, mas que, amparados pelas leis trabalhistas, não “vestem a camisa” e ainda não assumem qualquer compromisso com o parlamentar?
Os CC`s invariavelmente são acusados pelos efetivos por não ter horário fixo, por não serem descontados a cada falta, por não terem precisado passar por uma seleção, etc... Por outro lado, os CC`s afirmam que os efetivos são “preguiçosos”, que graças a estabilidade de emprego (ou, em outras palavras, a certeza de não serem demitidos) não se esforçam, que para trabalharem em finais de semana ou além do turno exigem pagamento extra, e blá blá, blá...
Acho essa guerra a senhora das bobagens. Ambos são necessários. Primeiro porque os efetivos também são sujeitos dotados de subjetividade, são eleitores, têm preferências, e como entraram pelo próprio esforço, não precisam “puxar o saco” de ninguém (palavras ouvidas de um funcionário e que não expressam exatamente minha opinião). Parlamentares precisam de gente da própria confiança. Não porque essas pessoas esconderiam as “sujeiras” debaixo do tapete (há corruptos também entre os efetivos – lembram do Macalão?). Mas porque, quando se é uma pessoa pública, fica-se exposto o tempo todo, e os “braços-direitos” amenizam a falta de privacidade. E também não sejamos falsos, são estas as pessoas que mais querem zelar pelo mandato do deputado, afinal o emprego dura quatro anos.
E porque não acabar com os efetivos? Por que uma casa como a AL, diferentemente dos seus ocupantes, sempre vai existir, então precisa de gente que entenda do serviço e dê continuidade (não pode ter um rodízio tão grande de funcionários, senão vira bagunça).
E a moral dessa história? No imaginário das pessoas, funcionário público é vagabundo e CC é mordedor. Culpa dos maus, que a cada escândalo sujam a reputação dos bons. E isso parece ter sido incorporado por cada categoria (embora CC não seja categoria, nesse texto eu trato assim) para encher a outra. Agora, não pensem que eu acho que isso tudo ta perfeito. Na real, eu acho que, não só no caso da AL, todas as casas que cuidam da coisa pública deveriam ter a folha de pagamento enxugada. Se há 800, que baixe pra 700. Se for 700, que baixe para 600. Porque, quanto mais trabalho e menos pessoas para fazê-lo, também menos tempo para ficar com briguinha...

26-03-10

O prestígio de uma classe!

Nesta terça-feira (9), peguei o avião rumo a Brasília. No mesmo vôo, pelo menos sete deputados federais gaúchos, de diferentes partidos, além de prefeitos, vereadores e secretários de município. E, claro, um monte de pessoas “comuns”. A saída, marcada para as 10h52, atrasou. O comandante detectou problemas no radar, e precisou abortar momentaneamente a decolagem. Ou seja: ficamos parados dentro da aeronave por mais de uma hora até que o reparo fosse concluído.
Preocupados com a falta de previsão para a saída, os parlamentares se reuniram no meio do avião para discutir o que fazer. Até que uma deputada lembrou que outra companhia tinha uma viagem prevista para 12h40. Freneticamente, nossos representantes entraram em contato com seus assessores e pediram que transferissem a passagem. Mesmo com o esforço das belas (e bote belas nisso!) aeromoças, os integrantes da bancada gaúcha forçaram a saída da aeronave. Um ônibus levaria o grupo até o outro portão de embarque.
Foi nesse meio tempo que pude ter uma noção bem clara (não que já não desconfiasse) do prestígio de nossos políticos. Revoltados com a situação, os passageiros “normais” botaram a boca no mundo. “Quem vê, eles estão indo lá para trabalhar de verdade!”, “Por que essas “madames” não podem esperar como a gente?”, “Outra passagem paga com dinheiro público!”, foram os protestos mais leves. Palavrões completaram o repertório.
Claro que compreendo que um atraso de mais de uma hora irrita qualquer um (tentei trocar, com relativo sucesso, a impaciência com a alegria do “motora” ter descoberto o problema ainda no chão). Se bem que também não vi nada demais em os parlamentares procurarem uma nova opção de partida. E tem outra: seu eu pudesse, faria o mesmo (garanto que todos também). Afinal, é entre terças e quintas que acontecem as reuniões de comissões (e cada um participa de pelo menos duas), as sessões plenárias, as votações, o atendimento aos prefeitos e vereadores (entre sextas e segundas eles atendem Rio Grande a fora). Um deles, inclusive, tinha horário marcado para fazer o Grande Expediente (chance obtida uma vez por ano para cada um).
Mas, logo após o ingresso dos parlamentares no ônibus, milagrosamente o radar funcionou. Daí um vivente do meu lado grita: “não avisa ninguém, deixa eles esperarem o próximo vôo” (bem na hora em que eu estava procurando o número no celular para chamar de volta. Desisti!). Outro disse que “assim o avião fica mais leve, a consciência deles deve estar muito pesada”. Aí, uma velhinha retruca: “eles nem têm mais consciência”.
Entretanto, o comandante, com o orgulho ferido, mandou o veículo retornar com os passageiros apressados porque o radar havia sido consertado. Adivinha o que aconteceu quando os parlamentares voltaram para o avião? Sim, mais protestos. Se houvesse uma competição por comentários de humor negro, eu votaria numa senhora que largou essa: se eu não estivesse nesse avião, iria torcer para que caísse (de pronto eu olhei para ela e perguntei: se a senhora resolver descer, me leva junto?).
Isso tudo só me deu mais convicção de uma coisa: o povo diz que tem que lavar o Congresso Nacional e as demais sedes dos três poderes com muito, mas muito rinso e ki-boa, metaforicamente falando. Mas não vi um deles sequer falando isso diretamente para os parlamentares. E é isso que acontece. Na bodega, todo mundo queima o rei. Na frente, disfarçam com um sorriso, engolem as palavras e até beijam a mão. E isso, podem ter certeza, não causa sequer uma ruga de preocupação na face dos eleitos.

12-05-10

Só pra contrariar: em defesa do BBB...

Entrei em mais de uma discussão sobre o BBB nos últimos dias. Desconheço alguém que não tenha debatido sobre essa ícone contemporâneo da cultura popular. E não foi apenas sobre a eliminação da fogosa Cacau, a bananice do Eliezer ou a provável vitória do Dourado, aquele gaúcho tão amável como uma leoa no cio. O tema girou, sim, sobre a velha questão da exploração da miséria humana (resumindo: um papinho pseudo-intelectual). Já gostei do BBB, depois odiei, depois tolerei, depois não assisti, depois voltei a ver, e agora acho que gosto. E gosto por implicância. O programa mostra tudo aquilo que as pessoas são capazes de fazer em situação crítica. Os telespectadores ficam escandalizados com as mentiras, inveja, dissimulações, as cenas picantes (como podem fazer isso em rede nacional!), os palavrões, e por aí vai. Todas atitudes que todos sabem que têm, que tentam controlar, mas que preferem negar. Mas é esse “ser escandalizado” que faz com que a maioria dos brasileiros esperem o Bial diariamente sentadinhos no sofá, a assinarem o pay-per-view na tv a cabo, a procurarem informações em sites de fofoca todos os dias e a gastarem dinheiro ligando para eliminar alguém. É mais ou menos a mesma explicação para Ratinho, Datena e companhia fazerem tanto sucesso com programas sensacionalistas. E não botem a culpa nos canais, que lucram com isso, por colocar programas com esses conteúdos, pois é o que dá audiência – incomodados que desliguem a televisão e vão ler um livro.
Essa edição está melhor do que as outras. Para dar sobrevida ao programa, os produtores criaram uma série de armadilhas. Apenas alguns ganham presentes (carros, motos). Enquanto o pessoal da casa come bem, os do puxadinho ficam olhando com água na boca. Poucos podem ver filme no quarto do líder. Todas as provas estimulam a competição. E quem não consegue nada, fica com inveja. Arranja intriga. Remói até ter a oportunidade de se vingar. Talvez por isso mesmo que o bandido da quarta edição, o Dourado, seja o mais cotato para ganhar a bolada nesta décima temporada.
O BBB é como uma novela. O enredo tem o vilão, o mocinho, a princesa, o engraçado. Mas a diferença é que não são personagens. Talvez os participantes até incorporem personagens. O que não vem ao caso. E, em alguns momentos, os papéis se invertem. Morango passou de heroína a escorraçada da casa. É a convivência do bem contra o mal. E não quer dizer que, assim como ocorre com as tramas do Manoel Carlos, o bonzinho ganha no final.
Mas quem aí não trocaria o anonimato por R$ 1,5 milhão? Quem não colocaria a própria reputação à prova para ser convidado para programas globais, para festas com a nata das celebridades, para deixar de ser apenas mais um? Por que mudei de opinião, eu não sei. Mas é possível que essa posição adotada agora dure até a próxima discussão, desta vez com pessoas favoráveis ao programa. Enquanto isso, fico espiando. Quem sabe não mando um vídeo para o Boninho...

05-03-10

Um guri de 55 anos

Entre meus amigos de outros municípios do Rio Grande do Sul virei, quando o assunto é a terra natal, um personagem quase folclórico. A cada vez que digo que vou viajar para Frederico Westphalen, sempre me refiro à Princesa do Alto Uruguai como “ A terra prometida” ou como “A capital do mundo”. Claro que sempre ouço piadas sobre isso. Afinal, boa parte deles apenas ouviu falar da cidade, muitos não têm sequer ideia da localização. Mas, para mim, é a minha capital do mundo.
Cada um tem uma relação muito particular em relação à terra natal. Alguns criaram raízes tão profundas que não conseguem sair. Outros preferem não ter raiz, e tentar a vida em outros locais. Eu estou no meio termo. Ao mesmo tempo que não moro em “Fred”, permaneço informado sobre o que acontece e tento fazer visitas mensais a terra que um amigo batizou de “confins da BR 386”.
A real é que tenho orgulho de ser daqui. Mesmo sendo longe dos grandes centros. Até porque, na falta de uma “potência” próxima, criou-se aqui um centro regional. Tudo bem que ainda não somos uma megalópole, mas o que eu mais admiro é que o discurso das pessoas daqui, quando estão falando com pessoas de outras querências, geralmente é ufanista, no sentido de comprovar que Frederico é o futuro do mundo. É tipo falar do irmão: eu posso xingar ele o quanto eu quiser, mas se alguém tentar fazer o mesmo, arranja bronca comigo.
Uso meus exemplos: pesquisa nenhuma do IBGE disse que Frederico tem mais de 30 mil habitantes, mas eu nunca afirmei para ninguém que tem menos do que isso. Já presenciei conterrâneos declararem que a URI está no nível das universidades de Oxford e Sorbone. Ouvi de pessoas mais velhas que Ipiranga e Itapagé já montaram equipes com atletas locais capazes de disputar em igualdade com a dupla Gre-Nal. O Elton Bortoluzzi já disse que o Integração Varzeano tem jogos muito melhores do que a maioria das partidas do Gauchão. O ponto alto é quando o Vinão garante que o Frederico Rock Show foi um mini Planeta Atlântida. E, ai de quem duvidar que a Catedral é a mais bonita do mundo.
Cada terra tem suas peculiaridades. Muitas palavras que eu uso no meio vocabulário ficam incompreendidas em algumas rodas de conversa. Afinal, que outro município chama pivete de “chebinha”? Ou se refere a militantes do PP, do antigo PDS, de “lacerdão”? Qual outro lugar em que canjica não é apenas o doce de leite com milho?
Muitos dos meus amigos não entendem porque eu gosto tanto daqui. Porque, apesar de estarmos há 435 km de Porto Alegre, há 180 km de Passo Fundo, 300 km de Santa Maria, de a cidade de médio porte menos longe ser catarinense (Chapecó), Frederico é uma cidade arrumada, com gente que quer crescer, que não se contenta em ser apenas uma cidade do interior como muitas que vemos por aí. Cada vez que volto para casa, vejo uma coisa nova. Há menos de um século, esse território todo era só mato. A emancipação veio há apenas 55 anos. Frederico ainda é apenas um guri. Mas um guri daqueles que se nota que tem um diferencial. Acredito que esse diferencial é a cultura que se criou de que o município pode e deve ser um lugar com qualidade de vida. Falta uns ajustes, mas isso são detalhes a serem acertados durante o tempo.

26-02-10

Retorno à Teologia da Libertação?

Há alguns anos, em Santa Maria, fui designado pelo editor de A Razão para falar com o então bispo da cidade, Dom Ivo Lorscheiter. Foi minha primeira entrevista como estagiário do periódico. Era para perguntar sobre uma viagem que ele acabara de realizar pela Europa. O detalhe é que eu tinha apenas três dias de trabalho, e não tinha informação nenhuma sobre o que ele foi fazer no velho continente. O fotógrafo Paulo Pires me contou que ele era gremista. Como estávamos no início de 2005, comecei a entrevista perguntando se o religioso não poderia pedir para Deus voltar a torcer pelo Tricolor. Isso desarmou o bispo, e a entrevista correu bem. Pelo menos até eu fazer uma pergunta que nada tinha a ver com a pauta, mas que supria uma curiosidade minha. Era sobre a Teologia da Libertação. Dom Ivo desconversou, deu respostas vazias, e meus minutos com ele acabaram por ali.
O bispo era uma figura fascinante. Não tenho grande queda por bispos, mas ele, junto com outros religiosos, sempre me provocaram, no mínimo, uma certa fascinação. Isso porque tiveram participação destaca no período da Ditadura Militar. Dom Ivo presidiu a CNBB entre 65 e 70, abrigou padres e bispos perseguidos justamente por causa da Teologia. É preciso lembrar que essa corrente tinha tendências marxistas, e que o mundo estava dividido entre o capitalismo e o socialismo. Nascida nos países pobres (ou seriam pobres países?) da América Latina, e tendo o teólogo Leonardo Boff como expoente maior no Brasil, essa corrente incentivava as classes mais baixas a serem protagonistas da própria “libertação” por meio de movimentos sociais ou mesmo por meio da política. O alvo era a opressão – sobretudo a econômica.
Infelizmente – e esse é o meu ponto de vista –, a Teologia da Libertação não vingou, um pouco por causa do conservadorismo de grande fatia dos líderes católicos (tenho certeza que vou tomar pedrada). Mas, de certa forma, me sinto confortado em ver que alguns pontos dessa corrente em favor dos pobres volta e meia são lembrados com mais força pela própria Igreja, sobretudo em Campanhas da Fraternidade. Podem me falar que não há relação alguma entre uma coisa e outra, mas pegando como exemplo o tema deste ano, “Economia é Vida”, fico com a sensação de que ainda há resquícios dos ideais que deram esperança a muitos integrantes de classes mais baixas no mundo. Ou li errado a matéria de capa da Zero Hora da última quarta-feira (17). Vejamos: a campanha condena o lucro fruto da exploração; defende a superação da lógica de mercado; aponta para uma economia baseada em cooperativas e não em entidades globais; questiona a migração de capitais; indica a preferência pela agricultura familiar em detrimento do agronegócio; e ainda está preocupada com o pagamento da dívida pública ao invés de investimentos e quer a redução tributária. Ok, está longe de ser o Manifesto do Partido Comunista, de Karl Marx e Friedrich Engels, mas é inegável que os valores defendidos há algumas décadas ainda permanecem. Creio que essa participação junto ao povo – se colocada em prática - é que legitima verdadeiramente a Igreja (este espaço está aberto para resposta de quem discordar).

19-02-10

Outros carnavais

Há dois anos, fiz uma grande reportagem sobre os antigos carnavais de Frederico Westphalen para um jornal da cidade. Ouvi muitas pessoas que se envolveram nesse processo, desde as primeiras festas do Momo, na década de 40. Ouvi relatos muito interessantes, e na minha cabeça remoí isso várias vezes. Menos pela curiosidade sobre a evolução do carnaval barrilense, e sim pela evolução (?) do comportamento dos foliões.
Tivemos na então freguesia do Barril carnavais animados por gaiteiros, em um galpão que foi a sede do primeiro clube social daquele embrião de município. Somente anos depois surgiram as festas na rua, com desfile de blocos e bailes no clube. Recentemente, houve até disputa de “escolas de samba”. Mas em 2008, a configuração do carnaval frederiquense mudou radicalmente. Rei momo e marchinhas perderam espaço para carros com som alto e shows sem muita ligação com o carnaval. E a explicação para isso é justamente a mudança de comportamento da maioria que participa das festas, que são os jovens. Na avaliação deles, dançar em círculos pelo clube não tem graça, é algo ultrapassado. Marchinhas não tem o mesmo significado para eles como tem para as pessoas que viveram a época das marchinhas. Eles podem naõ saber o que querem, mas com certeza sabem o que não querem.
É lógico que o ideal seria uma festa que permitisse a participação de toda a sociedade, um carnaval popular, com desfiles, etc... Mas, como fazer isso, se não há adeptos? Carnaval de rua equivale ao Sete de Setembro, 90% vai por obrigação ou falta de opção. Ou ninguém lembra dos anos em que o clube ficou deserto? E que os “atrativos” do Centro atraíram pouca gente? Anos em que nos quatro dias de folia, haviam mais frederiquenses em Águas de Chapecó ou São Carlos do que no Barril.
Foi pensando nisso que no final de 2007 um grupo se juntou para organizar a Park Folia de 2008. Eu fui um deles. Lembro de conversar com as pessoas. Os mais velhos não queriam esse modelo atual. Preferiam o carnaval de rua, mais cultural, ideia prontamente rechaçada pela “gurizada”. Não haveria quorum para ter um carnaval semelhante aos do final dos anos 90, início dos 00. Chegamos a conclusão de que, se quiséssemos mesmo um evento com participação maciça, teríamos que mudar, ou estaríamos fadados ao fracasso dos anos anteriores. E pelo jeito o que foi proposto agradou.
Sei que muitos ainda torcem o nariz. Porém, com esse novo formato, evitamos que muitos enfrentassem os perigos da BR 386 e aquelas curvas catarinas bem estreitas propícias a acidentes de trânsito. E, de quebra, o dinheiro do povo ficou circulando na cidade. Tudo bem que não tem o mesmo charme dos carnavais do passado, que dificilmente deixará nos participantes o mesmo sentimento de nostalgia que as antigas competições entre blocos até hoje provocam nos ex-foliões de Cartel, Soesba, Los Cabeças, Crise, Filhos do Barril, Tet’s... Mas qualquer evento só acontece se há participantes. São eles que escolhem como se divertir.

12-02-10

Alucinações...

A coluna da semana ficou meio prejudicada. Impossível pensar, e muito menos escrever, num calor desses. Sensação térmica de 43,8ºC em Porto Alegre. O ar condicionado da Assembleia não vence a demanda. Acho que nenhum está vencendo. Vou ao banheiro lavar o rosto: quase queimo a cara com a temperatura da água. Está difícil de engolir comida quente. Mas basta ficar fora da geladeira por alguns segundos, e já está quente. Até a cerveja gelada do bar do Jajá esquenta antes de acabar... Atravessar a rua virou uma tarefa arriscada, pois a sola do tênis pode derreter e me segurar no meio da avenida. Já às 8h30 da amanhã, quando chego no trabalho, tenho a impressão de ter trabalhado como assador de 80 quilos de carne na festa da paróquia, de tão suado. E, pior, não há como dormir direito, então meu grau de atenção está beirando o mínimo.
A situação é tão crítica, que tenho tido alucinações. Acho que sonhei que ainda não prenderam o deputado distrital de Brasília que guardou dinheiro nas meias. E que, no lugar dele, que era presidente da Câmara, colocaram um aliado da quadrilha. Só o calor para me fazer pensar um absurdo desses. O mesmo aconteceu quando olhei para o IPTU, e que fiz as contas dos impostos que pagarei no ano. Achei melhor esperar chegar o inverno para refazer os cálculos. Até porque nunca fui um gênio da matemática. Acho impossível que tudo somado chegariam a mais de um terço do que devo receber em 2010...
A temperatura elevada me fez pensar em comprar um split. Até fui atrás. Mas não achei nas lojas. Acabaram. Ainda bem que acabaram, porque R$ 1,5 mil é algo que eu relutaria até a morte para tirar do bolso. Ainda mais depois que descobri que estão cobrando em média R$ 450 para instalar, porque falta mão de obra qualificada. Devo estar delirando mesmo. Como é que alguém que instale seis aparelhos desses por mês vai ganhar quase R$ 3 mil? Acho que não é só minha cabeça que está ficando fora do ar com esse calor... Por via das dúvidas, comprei um ventilador de R$ 60, que eu mesmo instalei. Infelizmente, acho que fiz errado, porque só sai ar quente dele, e o motor esquenta mais o apartamento...
Também estou vendo coisas repetidas. Esse sol na minha cabeça me dá a impressão de ver a Dilma e o Lula em todos os noticiários todos os dias inaugurando obras incompletas do PAC... Seria isso o que chamam de déjà vu? Acho que também ouvi algo sobre a participação de um governador de São Paulo na Festa da Uva em Caxias... Devo estar errado. Afinal, só um louco para querer fazer campanha num calor desses...
Não consigo mais nem assistir a tv. Ouvi num corredor que uma participante eliminada de um reality show teria feito sexo oral sob o edredon em rede nacional. Acho que o calor está afetando a cabeça de todo mundo. Reluto em acreditar que isso realmente exista. Refiro-me à preocupação de todo mundo com o que as pessoas fazem ou deixam de fazer sob o edredon. Para quem está acostumado a ter que ver completamente descobertas coisas bem mais pesadas na nossa política, deveríamos agradecer a preocupação da dupla em ficar embaixo das cobertas. Mesmo com todo esse calor...

05-02-10

Espetacupolitização?

Adoro livros apocalípticos! Durante a faculdade, os que mais li foram de autores que prevêem um futuro dominado pelo entretenimento e o prazer proporcionado pelos canais de TV. E que as pessoas vão emburrecer graças a formatos cada vez menos inteligentes, até que uma força superior que coordena todos os produtores de televisão domine o mundo. Essas ideias são novas: tudo começa lá na década de 20, com a Escola de Frankfurt... O mau dominará por meio dos meios de comunicação, pela busca desenfreada por audiência, que é vendida como mercadoria aos patrocinadores. É de arrepiar!
Já não sei se concordo com os apocalípticos como concordei. Mas há uma certa razão nisso. Olhe para a grade de horários dos canais, especialmente os abertos. Além de novelas e futebol, o que dá audiência são programas de auditório e reality shows. E já que esses profetas afirmam com toda a certeza que esse é o destino final da sociedade, fiquei imaginando como será quando as ideias dos marqueteiros se esgotarem e os candidatos, em busca de visibilidade enxergarem nestes tipos de programas uma oportunidade de conquistar votos.
Peguemos por exemplo a eleição estadual. Ao invés daqueles debates rasos mediados pelo Lasier Martins (dois minutos para responder uma pergunta é pouco tempo), porque não promover um jogo de perguntas e respostas do tipo “Passa ou Repassa” colocando frente a frente Yeda, Fogaça, Tarso, Beto Albuquerque e cia. Um candidato pergunta para o outro, e se a resposta for evasiva ou incorreta, leva torta na cara. Aí sim conheceríamos quem seria mais bem preparado, quais não dependem de assessores para responder a tudo. Que tal um “Show do Milhão”, em que os eleitores enviam perguntas com quatro alternativas. Antes de cada resposta, rufam os tambores...Suspense.... E o Sílvio Santos pergunta: “quer pedir ajuda aos assessores? Você ainda tem direito a usar uma maleta de dinheiro para subornar alguém em troca de uma resposta”...
Ou então, ao invés de eleição, a Globo colocaria Dilma, Serra, Ciro Gomes e Marina Silva numa casa completamente vigiada dia e noite. Para garantir a comida da semana, eles terão de elaborar um plano de educação. Cada proposta inovadora valerão mil estalecas. O líder pode ser decidido em provas de busca ao dinheiro em um porão cheio de ratos. E o povão eliminaria os candidatos votando pelo telefone!
Pensei também em um formato para os candidatos a deputado. Como são muitos, ao invés de debates, poderiam passar por provas do tipo “Olimpíadas do Faustão”. Afinal, para passar o tempo todo de correria pelos corredores do Congresso Nacional e em viagens pelo interior do Estado, é necessário boa vontade e um certo preparo. Imagina se para se elegerem o Vinão e o Milani, ao invés de percorrer a região toda, precisassem apenas atravessar a ponte do rio que cai?
Mas eu acho que, no nível que está o Brasil, o quadro que teria mais audiência seria apresentado pelo Ratinho. Tema do dia: “ele não pagou a propina que prometeu”, com Roberto Jefferson e José Dirceu fazendo barraco. Ou então: “ela não deixa eu mandar”, estrelando Feijó e Yeda, um agarrando o pescoço do outro, com o Datena mediando...
Alucinações à parte, esse fenômeno não está tão longe de acontecer não (agora o apocalíptico sou eu). A California já elegeu o Governator Arnold Schwarzenegger com a crença de que ele vai salvar o mundo como fez em O Exterminador do Futuro II. Mas, cá para nós: tomara que isso demore. Se é pra ver esse tipo de coisa, ainda prefiro a Tessália ou a Cacau de biquini. Bem melhor do que as curvas da Dilma...

20-01-10

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

A culpa é dos procrastinadores

É tudo para a última hora. Essa é uma grande mania nacional: procrastinar. Na escola, o professor passa um trabalho na sexta-feira. E a maioria dos alunos deixam para fazer na noite de domingo, durante o Fantástico. Na faculdade, com prazos superiores a um mês, é na última madrugada que boa parte dos acadêmicos tentam elaborar um artigo ou a monografia. E, no trabalho, quando o chefe pede um relatório para ser entregue em uma semana, a coisa só vai andar mesmo na véspera.
Isso é cultural. Tudo só anda no Brasil quando não tem mais como não andar. Precisou da Gripe A para que as pessoas começarem a higienizar as mãos (alguns já esqueceram). Só depois que morreu um monte de gente no trânsito que a lei foi modificada e os motoristas punidos até que o cinto de segurança entrasse na moda. É preciso que um prédio desabe para que as autoridades constatem que ele já deveria ter sido demolido muito antes de tirar vidas. É preciso que me lembrem este colunista para que não perca o prazo e comece a escrever...
Temo que a discussão sobre as mudanças climáticas que presenciamos não saiam do papel, que as ações fiquem também para a última hora. Estiagens intermináveis, chuva de um mês disparadas sobre nossas cabeças em poucas horas, degelo das calotas polares, aumento do nível de água nos mares, ciclones, tornados... Como curioso, liguei para um meteorologista que entrevistei algumas vezes perguntando se estamos à beira de um colapso. Para minha tranquilidade, ele garantiu que o fim do mundo não está chegando, que todas essas alterações climáticas são parte de um processo de aquecimento natural porque passa a terra em períodos cíclicos. Por outro lado, disse também que esse aquecimento é potencializado pela ação humana. Daí exclamei: “então está todo mundo me enganando. Não preciso separar o lixo orgânico do seco, nem tomar banho menos demorado, nem comprar carro totalflex?”. Daí ele explicou o seguinte: “certas coisas não podemos falar porque senão as pessoas acham que está tudo bem. Imagina por exemplo o dia que um médico disser que a AIDs tem cura? Camisinha nunca mais... É uma obrigação dos meteorologistas, dos agentes públicos e dos jornalistas manter o alerta, mesmo sendo normal o aquecimento, para o descaso não acabar com o planeta”, completou. “Se todas essas ações que querem implantar acabassem mesmo com enchentes, ciclones e estiagens, os EUA já teriam assinado tudo quanto é tratado ambiental pensando em aumentar a produção e dar fôlego a economia”, ironizou. Ou seja: isso só vai acontecer aos 45 do segundo tempo...
Por mais didático que tenha sido esse meu amigo, custei a organizar as ideias. São tantas informações desencontrada que não dá para saber quem está mentindo. Ou são tantas verdades que não vejo uma que seja absoluta. Por via das dúvidas, como tenho vontade de viver um pouco além de 2012 (tem uns malucos dizendo que no dia 11 de dezembro de 2012 acaba o mundo, antes da Copa e da Olimpíada no Brasil), estou tentando enfrentar uma das palavras que mais temo (disciplina!) e tomei algumas providências: caminhar mais, usar mais transporte público, comprar mais cerveja em garrafa e menos em lata, usar uma sacola que ganhei na rua para colocar os produtos do mercado e utilizar menos sacolinhas. É pouco. Mas já é uma coisa que não deixei para última hora. Sabe que até me senti bem com isso?

08-01-10

Obs: acho que essa coluna foi escrita no calor do início do ano, quando a gente faz um monte de promessas. Cumprindo mesmo, mesmo, só a de beber mais cerveja em garrafa e menos em lata (proporcionalmente, né?!)...

E que venha 2010

E lá se foi mais um ano. Sem grandes novidades, com exceção da nova mania de esconder dinheiro nas meias (que substituiu a moda de usar a cueca para tal fim). Para variar, Sarney e sua família foi notícia mais durante 365 dias. E novamente, com tons pejorativos! 2009 foi um ano repleto de CPIs. Que, novamente, não deram em nada. De novo o Brasil era para ser o país com um mega crescimento, que, para variar, foi atrapalhado por uma crise internacional. E a política gaúcha permaneceu dividida, não em chimangos e maragatos, mas entre petistas e não-petistas. E o Cpers fez mais um greve que não aumentou os salários dos professores.
Meu Grêmio não ganhou nada. E o Colorado não foi lá muito melhor (o que é um alento). E brasileiro nenhum foi campeão da Fórmula 1 (o jejum automobilístico é ainda maior do que o do Tricolor).
Na música, o sertanejo universitário predominou. Joelma, Chimbinha e a banda Calipso não saíram da tv. E o bom e velho rock and roll continua preterido em relação aos EMO’s nestas bandas tupiniquins. Mulheres frutas e ex-BBB’s tomaram conta das revistas masculinas e dos programas de fofocas. A moda predominante é retrô. Mas acho que as tendências em todas as áreas também são retrôs. É, o ano passou com um quê de déjà vu...
Morreu um punhado de gente famosa. Inventaram a cura para doenças das quais nunca ouvimos falar. Câncer e AID’s seguem na fila. Apareceram novos tratamentos e remédios milagrosos. Não conheci ninguém que experimentou ou que confirme a eficácia.
Novas tecnologias que não prejudicam o meio ambiente foram divulgadas como salvadoras do mundo. Não lembro agora de nenhuma que chegou nesse 2009 às lojas, fábricas e mercados para serem consumidas em larga escala. Mas o lixo segue sendo um problema sem solução aparente...
Enfim, novamente passamos por um ano que não será lembrado como decisivo na mudança do curso da História. Não se compara a um 1968, 1917, 1914, 1939 ou 2001. O que tem lá suas vantagens, porque não houve início novas de guerras. Apenas a continuação de velhas disputas sem muito sentido.
Pois é, nada mudou. Mas, sinceramente? Por mais que eu acompanhe isso tudo todos os dias, que eu torça para que as autoridades sejam mais conscientes, que me engaje em causas humanitárias, que deseje o sucesso dos cientistas ou que implore para a Joelma perder o dom da fala, não acho que isso seja o mais importante. Francamente, isso é papo de miss desejando a paz mundial.... O mais importante foram as novas amizades que fiz, as velhas que mantive, os amigos que casaram ou graduaram-se, os filhos de amigos que nasceram, a cerveja gelada depois das peladas, o esforço feito o mês inteiro para ver pingar o soldo na conta, o churrasco em família. Na minha concepção, o mundo, diante dessas pequenas coisas, é menor ainda. Portanto, que venha 2010, trazendo a paz mundial ou não. Desde que eu ainda consiga ter momentos em meio às pessoas que eu amo. E desejo o mesmo para você! Não faltando o básico, o resto é detalhe. Obrigado por cada minuto dispensado para ler essa coluna nesse ano. Não fosse isso, e o Adelar já teria me tirado esse espaço... Um Feliz Natal a todos e, mesmo que o Sarney seja reeleito, um 2010 repleto das pequenas coisas que te deixam alegre.

22-12-09