Por sacanagem de meus colegas de redação, fui escalado para uma pauta que fez com que eu entendesse o que as mulheres sentem ao passar em frente a uma obra. “Quem é que mando ir para o congresso da diversidade sexual”, perguntou o pauteiro. “Manda o Buzatto”, responderam em coro os demais integrantes do recinto, enquanto eu almoçava longe dali.
Sabe aqueles comentários cheio de maldade, ressaltando partes do meu corpo, seguidos de assovios? Como fui elogiado! Ainda mais depois de fazer a bobagem de entrar na brincadeira e dizer que aquele corpinho todo era na-tu-ral! Se eu andar pelado na Rua do Comércio, vou sentir menos vergonha do que senti depois dos aplausos.
Queria sumir dali, mas era preciso entrevistar a presidente nacional de uma das principais organizações da causa gay brasileira. Um travesti, com cerca de 50 anos. Apesar de corpo de homem, estava vestido de mulher. Falava como mulher. Até conseguiria se passar por uma tiazona, se não abrisse a boca. Depois das perguntas básicas sobre a importância da programação, entrei numa questão mais delicada: por que em paradas gays e comemorações o público sempre corresponde e, em dias de congresso, de discussões sobre a necessidade de políticas para a causa homossexual, dificilmente aparece alguém? “Este realmente é um problema. Não há politização. Elas gostam de festa, porque no dia-a-dia são recriminadas, e os eventos são formas de inverter os papéis”, afirmou ela, com aquela voz de quem engoliu uma pedaleira wah wah. Resumindo: no encontro, “elas” descontaram em mim (refiro-me apenas ao ato de constranger)...
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Não entro na discussão se homossexualismo é genético, uma doença ou pecado. Durante a faculdade tive a oportunidade de conviver com homossexuais. Sou amigo de alguns. Sempre me respeitaram. E por isso têm meu respeito. E também sei que não sou ninguém para dizer o que é certo ou errado, até porque para mim esses são conceitos bem relativos. Mas nem todos fazem isso. Tente imaginar a quantidade de tabus que ainda existem contra o terceiro sexo. Quem nunca ouviu declarações do tipo “tem que encher de laço”, ou piadas pesadas achincalhando esse “novo” gênero (que de novo não tem nada: gregos e romanos conviviam, antes de Cristo, muito melhor do que a gente)? Ninguém se importa com o sofrimento que passou quem “saiu do armário” ao assumir sua sexualidade, a rejeição enfrentada na própria família, entre colegas, a dificuldade de arrumar emprego, a falta de locais (especialmente em cidades menores, geralmente mais conservadoras) para se divertir. Pelo contrário: considera um “insulto” conviver com eles. Por isso entendo a atitude deles de me intimidar no congresso. Devem se sentir assim a maior parte do tempo.
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Encerrou-se o BBB. Ganhou o brutamontes, suposto representante da causa heterossexual, num programa marcado claramente pela participação de pelo menos três homossexuais (há outros ali que não me enganam). Torci pelo Dourado. Até porque desta vez, ocorreu algo curioso. A maioria dos brasileiros (tiro como febre os sites de fofoca que li para escrever essa coluna) ficou ao lado do gaúcho por considerar ele “minoria” no programa. É a primeira vez que percebo discriminação com heterossexuais. E, embora eu os respeite e seja contrário a manifestações preconceituosas, acho que o respeito deve ser recíproco: quero ter o direito de um dia entrar num congresso homossexual para fazer uma reportagem sem que ninguém faça comentários sobre minha bunda.
01-01-10
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