terça-feira, 24 de agosto de 2010

Inversão de papéis

Gosto de política. Quando decidi fazer o curso de Jornalismo, lá pela sétima série, foi pensando em cobrir este setor. Como se fosse um voyeur com camarote privilegiado das tomadas de decisões, estando muito próximo sem a necessidade de tomar partido, defender bandeiras. Seria uma ótima maneira de evitar ter de tomar partido, de defender uma sigla como se fosse um clube de futebol. De me comprometer com pessoas de índoles discutíveis em nome de um todo.
Não precisei de muito tempo para ver que minha visão era romântica. Por que nem os políticos se comprometem com a sigla de forma sincera. Quem verdadeiramente se compromete, bate no peito, chora, grita, discute, esperneia, ameaça de morte, é a “boiada”, aqueles apoiadores que não estão nem um pouco interessados no que é política em si, mas na farra, na festa, no burburinho, na fofoca. São os que se expõe pela simples paixão por se expor.
Quantos políticos você conhece que pensam em primeiro lugar no partido? Pelo contrário: os maiores adversários políticos estão dentro do mesmo diretório. A disputa pelo poder começa em casa. Vale a máxima de que, se “partido” fosse bom, seria “unido”. Vamos aos exemplos: o PMDB estadual apoia (informalmente) Serra, o federal indicou o vice de Dilma; idem o PP, que apesar de não estar formalmente na coligação da candidata petista, teve parte considerável de seu bloco que declarou apoio à ex-ministra – as mesmas figuras que deram sustentação a Fernando Henrique Cardoso e que, independentemente de quem ganhe as eleições, permanecerão “governistas” no próximo mandato; os progressistas ainda vêem seus candidatos da Capital deixar Yeda de lado para se aproximar de Fogaça; o PDT indicou o vice de Fogaça no Estado, mas o ex-governador Collares está em todas as fotos ao lado de Tarso.
Poucos tomam posição. Pra nós sobram os discursos de que é preciso manter um alto nível de campanha (= pouco debate de ideias), de que não podemos trocar acusações baratas (= não parecer antipático ao eleitor), de que um país, um Estado, deve ser governado por todos (= se eu perder, apoio o governo e mantenho minha cota de cargos).
Esse é um dos motivos pelos quais considero o período eleitoral como a pior parte dos quatro anos dos mandatos. Não se vê trabalho concreto: esta é apenas uma época de promessas. Poeticamente, diríamos que é mais hora de semear (as promessas) do que de colher (o trabalho feito). O eleitor que não acompanhou tudo o que aconteceu se deixa levar por apelos emocionais. É por isso que acho que a culpa não é dos políticos, que precisam atingir o eleitorado de outras formas, já que o trabalho não aparece. É do eleitor (cada povo tem os representantes que elegeu). O descaso com que 90% da população trata a política, sem se envolver nos assuntos do próprio município e do próprio Estado faz com que as regras do jogo permaneçam iguais às de 20, 30 anos atrás. É como futebol: não importa muito como o seu time está jogando; nunca se troca de time.

23-07-10

Sem comentários:

Enviar um comentário