Entrou no ar nesta semana um novo programa nas televisões e nos rádios das famílias brasileiras. O Horário Eleitoral Gratuito (ou “Me engana que eu gosto”, como preferir). É a parte mais cara das campanhas, e é a que mais define o eleitor. E, para mim, uma baita enganação. Explicarei: na teoria, essa é a forma mais abrangente para os candidatos apresentarem suas propostas. Num país tão grande, é importante ter um canal direto com o eleitor para mostrar a cara e apresentar projetos. Mas o aproveitamento em termos de conteúdo é uma... Bom, vamos aos fatos:
1) Campanha para deputados estadual e federal: beira o ridículo aquele povo todo tentando passar o recado em 15 segundos. Em primeiro lugar, porque cérebro nenhum consegue distinguir um candidato do outro. Mais improvável ainda decorar os números. “Sou a favor da Educação, vote xx”! A favor da Educação todos somos, mas o que precisa mudar mesmo? “Vou trabalhar por mais segurança, meu nome é Godofredo”! Cada discurso... a ideia que fica é de que parlamentares têm poderes supremos, dotados de magia oculta para acabar com as mazelas do mundo.
2) Disparidade de tempo: como é que vamos eleger um presidente com a convicção de que é o melhor se uns tem menos de dois minutos de programa e outros entre 6 e 10? Como explicitar alguma ideia em tão pouco tempo? Como um candidato de sigla nanica pode concorrer igualitariamente com o poder econômico e o latifúndio de tempo de siglas maiores? Dividir o tempo de exposição de forma proporcional ao número de deputados federais de cada partido foi uma forma “inteligente” de manter sempre os mesmos no poder.
3) Clichês: como não temos mais a disciplina de Educação Moral e Cívica nas escolas, os programas são uma aula de clichês sobre o Brasil e o Rio Grande amado. Bandeiras, hinos, paisagens e pontos turísticos, um pouco de pobreza (para mostrar que os candidatos também sabem das necessidades do povo), musicas chicletes, passeatas e apelos a figuras históricas (Vargas, Tancredo, Brizola e Lula são os mais concorridos; ninguém menciona Médici, Costa e Silva, Geisel, Figueiredo e Castelo Branco). É um 7 de Setembro misturado com carnaval. Como eles vão fazer nossa vida melhorar? Isso fica para depois (quem tentar provocar reflexões mais profundas corre o risco de cair nas pesquisas).
4) Números maquiados: como tudo é relativo, é possível manipular os números da maneira que se imaginar. Por exemplo: nos últimos quatro anos, a taxa de desemprego caiu 10%. Mas está 2% acima do ano anterior. E um patamar muito aquém do que era há 20 anos atrás. Ou seja, a mesma coisa é mostrada sob pontos de vista diferentes, dependendo apenas do interesse do candidato. Um grande vazio travestido de “repleto de significado”.
5) Sorrisos: a simpatia forçada nos programas ainda é facilmente confundida pela população com habilidade administrativa. Fulano é bem legal, logo deve fazer um bom governo. Cicrana se veste bem, logo é “gente séria”.
Enfim, como já me informei e defini meus candidatos, vou aproveitar esse tempinho da tv para ler, lavar a louça, trabalhar mais um pouco (olha a demagogia do colunista!). Assistir, só para ter mais argumentos para pôr defeito. Rezar também é uma boa, para pedir que nossas cabecinhas que só pensam em futebol e novela captem por osmose alguma mensagem subliminar que aponte para os mais preparados. E que tudo isso acabe logo!
20-08-10
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