Um dos assuntos que nós, eleitores, com certeza vamos ouvir falar muito neste período eleitoral é sobre financiamento público de campanha. A grita entre os candidatos está se avolumando ante as dificuldades em conseguir financiadores para encorpar a movimentação das próprias bases. O endurecimento da legislação contra o caixa dois (historicamente, prática utilizada por todos os partidos e candidatos, sem exceção) está dificultando a arrecadação. Nunca foi tão difícil conseguir dinheiro para campanhas. Então, é preciso achar uma forma de alguém pagar por isso, não?
A edição de Zero Hora de ontem (quinta-feira, 5) mostra que os três principais candidatos ao Palácio Piratini declararam, na primeira prestação de contas obrigatória da campanha, um volume arrecadado muito aquém do que pretendiam. O melhor resultado foi o de Tarso Genro, que angariou R$ 1,3 milhão, pouco mais de 10% dos R$ 10 milhões outrora estimados como gastos total.
Ninguém quer se comprometer. Segundo uma reportagem da Folha de São Paulo desta semana, alguns partidos estão usando truques para conseguir recursos mantendo os doadores (especialmente as pessoas jurídicas) no anonimato. Por exemplo, ao invés da doação ser feita diretamente à conta da campanha, em que seria obrigatória a divulgação do doador, o dinheiro tem sido enviado aos fundos partidários, que por conseguinte remetem para a conta dos candidatos. Em menor âmbito, é mais ou menos como aqueles empresários de cidades em que todos se conhecem, que optam por não abrir o voto com medo de retaliações por parte dos eleitores adversários (em Frederico Westphalen isso acontece e muito!).
Por outro lado, as campanhas estão cada vez mais caras. É preciso pagar por material gráfico (adesivos, santinhos, folders), locomoção (gasolina, aluguel de veículos, estadias), pessoas que trabalham na campanha (entregadores de santinhos), empresas que produzem o material gráfico, jingles, aluguel de equipamentos de som, construção de sites, gravação dos vídeos e áudios para o programa eleitoral, etc...
Ou seja: o direito universal de que todos podem concorrer fica cada vez mais no papel, porque o alto investimento é de alto risco, e cada vez menos pode-se contar com a estrutura partidária. Em consequência, teremos candidatos com “menos” qualidade (no sentido de capacidade política). Em contrapartida, seremos atacados por uma elite (no sentido de capacidade de investimento), ou por um bando de celebridades. Os próprios partidos estão apelando por incluir em suas nominatas celebridades, na esperança de que estes sejam puxadores de votos. Daqui uns dias, teremos parlamentos compostos exclusivamente por jogadores de futebol, cantores de músicas populares e ex-BBBs.
Enfim: se vocês ouvirem falar em financiamento público de campanha, apertem os candidatos, perguntem sobre qual a fórmula proposta, de que forma estaremos pagando isso. Por um lado, pode até ser algo positivo. Mas tenho dúvidas: ainda prefiro ver “eles” tirando dinheiro do bolso. Do bolso deles, e não do meu.
06-08-10
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