quinta-feira, 12 de agosto de 2010

O prestígio de uma classe!

Nesta terça-feira (9), peguei o avião rumo a Brasília. No mesmo vôo, pelo menos sete deputados federais gaúchos, de diferentes partidos, além de prefeitos, vereadores e secretários de município. E, claro, um monte de pessoas “comuns”. A saída, marcada para as 10h52, atrasou. O comandante detectou problemas no radar, e precisou abortar momentaneamente a decolagem. Ou seja: ficamos parados dentro da aeronave por mais de uma hora até que o reparo fosse concluído.
Preocupados com a falta de previsão para a saída, os parlamentares se reuniram no meio do avião para discutir o que fazer. Até que uma deputada lembrou que outra companhia tinha uma viagem prevista para 12h40. Freneticamente, nossos representantes entraram em contato com seus assessores e pediram que transferissem a passagem. Mesmo com o esforço das belas (e bote belas nisso!) aeromoças, os integrantes da bancada gaúcha forçaram a saída da aeronave. Um ônibus levaria o grupo até o outro portão de embarque.
Foi nesse meio tempo que pude ter uma noção bem clara (não que já não desconfiasse) do prestígio de nossos políticos. Revoltados com a situação, os passageiros “normais” botaram a boca no mundo. “Quem vê, eles estão indo lá para trabalhar de verdade!”, “Por que essas “madames” não podem esperar como a gente?”, “Outra passagem paga com dinheiro público!”, foram os protestos mais leves. Palavrões completaram o repertório.
Claro que compreendo que um atraso de mais de uma hora irrita qualquer um (tentei trocar, com relativo sucesso, a impaciência com a alegria do “motora” ter descoberto o problema ainda no chão). Se bem que também não vi nada demais em os parlamentares procurarem uma nova opção de partida. E tem outra: seu eu pudesse, faria o mesmo (garanto que todos também). Afinal, é entre terças e quintas que acontecem as reuniões de comissões (e cada um participa de pelo menos duas), as sessões plenárias, as votações, o atendimento aos prefeitos e vereadores (entre sextas e segundas eles atendem Rio Grande a fora). Um deles, inclusive, tinha horário marcado para fazer o Grande Expediente (chance obtida uma vez por ano para cada um).
Mas, logo após o ingresso dos parlamentares no ônibus, milagrosamente o radar funcionou. Daí um vivente do meu lado grita: “não avisa ninguém, deixa eles esperarem o próximo vôo” (bem na hora em que eu estava procurando o número no celular para chamar de volta. Desisti!). Outro disse que “assim o avião fica mais leve, a consciência deles deve estar muito pesada”. Aí, uma velhinha retruca: “eles nem têm mais consciência”.
Entretanto, o comandante, com o orgulho ferido, mandou o veículo retornar com os passageiros apressados porque o radar havia sido consertado. Adivinha o que aconteceu quando os parlamentares voltaram para o avião? Sim, mais protestos. Se houvesse uma competição por comentários de humor negro, eu votaria numa senhora que largou essa: se eu não estivesse nesse avião, iria torcer para que caísse (de pronto eu olhei para ela e perguntei: se a senhora resolver descer, me leva junto?).
Isso tudo só me deu mais convicção de uma coisa: o povo diz que tem que lavar o Congresso Nacional e as demais sedes dos três poderes com muito, mas muito rinso e ki-boa, metaforicamente falando. Mas não vi um deles sequer falando isso diretamente para os parlamentares. E é isso que acontece. Na bodega, todo mundo queima o rei. Na frente, disfarçam com um sorriso, engolem as palavras e até beijam a mão. E isso, podem ter certeza, não causa sequer uma ruga de preocupação na face dos eleitos.

12-05-10

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