terça-feira, 24 de agosto de 2010

A ditadura do excesso

No curso de pós-graduação que encerrei há poucos meses, tive a oportunidade de ser aluno e colega de algumas figuras interessantes. Uma delas é músico Richard Serraria (líder da Bataclã F.C. e do projeto Vila Brasil), professor de uma disciplina dedicada à análise de canções de cada época em meio ao contexto social e político. Com um violão e uma pilha de CDs, ouvimos Noel Rosa e Aracy de Almeida, Carmen Miranda, as divas do rádio Emilinha Borba e Marlene, as grandes canções dos festivais da década de 60, dando atenção também ao Tropicalismo, à Bossa Nova e ao Rock dos Anos 80.
Percebemos, nesta disciplina, que a música é bastante ligada ao momento histórico em que é produzida, por mais simples que seja (músicas antigas não dizem ‘to num celular, falando de um bar’, embora bares apareçam em várias canções).E, principalmente, que seu sucesso depende muito dos meios de comunicação à disposição. Também acompanhamos a experiência de Serraria, que aplica no trabalho sua pesquisa de ritmos e instrumentos brasileiros, expressas em letras ricas e, confesso não muito pop. Culturalmente muito bom, mas que enfrentam muitos obstáculos para marcar shows e vender CDs (R$ 5,00).
Para encurtar a história, comparamos o momento musical atual com os anteriores: o contexto político e o acesso aos meios de comunicação. Tivemos algumas conclusões positivas e muitas nem tanto. A boa notícia é de que a internet surgiu como uma espécie de libertação àqueles que antes tinham que se curvar à ditadura das grandes gravadoras (interessadas mais na quantidade de vendas do que na qualidade das músicas e dos artistas), das rádios e dos programas de televisão (tudo pela audiência). Hoje é possível descobrir cantores e bandas de qualquer lugar do mundo sentado na frente do computador. A adesão é cada vez maior de público e de artistas. Hoje temos grandes exemplos de bandas e artistas que conseguem divulgar o trabalho e sobreviver dessa forma. E, pasmem: há ótimos músicos e compositores assim como havia no passado.
Porém, constatamos que liberdade de escolha não significa diversidade de escolha. Assim como uma criança pede sempre sorvete de chocolate entre 40 sabores, o público, em geral, transforma em sucesso apenas canções similares do que já é consumido (eu sei que ninguém tem a obrigação de gostar de algo. Mas poderia experimentar!). Só que considero muito frustrante que, apesar do espaço para aparecer ser bastante amplo, a temática e a riqueza das letras e das melodias só piorem. Há um excesso de rimas do tipo “o amor é uma dor, e meu dia ficou sem cor”, há uma infinidade de músicas falando “vou beber até cair”, “quem cuida da minha vida sou eu”, “ela me abandonoooooou” ou “vou pegar todas” (valores que parecem ser a principal preocupação da sociedade moderna), e a impressão que fica é que no meio de tudo isso se perde o que soa diferente. Como se um diluísse o outro. Ou seja: a dificuldade de que algo novo se sobreponha às mesmas “fórmulas de sucesso” está igual ou pior do que antes. Ficamos com a sensação de que, no meio de tanta diversidade, de tantas possibilidades, tudo está cada vez mais igual. Apenas com rótulos diferentes.

30-07-10

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