Falar sobre drogas é difícil, ainda mais quando se foge um pouco do consenso do que se pensa sobre o assunto. Mas como não tomei meus “remedinhos” hoje, vou arriscar. Lá vai.
Uma pesquisa feita pela Brigada Militar em Porto Alegre com 1,8 mil estudantes dos ensinos Fundamental e Médio constataram que a maioria dos adolescentes sabem pouco ou quase nada sobre drogas. Surpresa? Diria que é uma obviedade. Quer tirar a prova? Então responda você: quais são os efeitos de maconha, cocaína, crack, heroína, LSD e êxtase? E quais são as consequências provocadas pelo uso contínuo destas substâncias? Conseguiu? Não? Hum...
A droga ainda hoje parece ser um assunto proibido. Os ensinamentos mais profundos que partem da família, da igreja, dos meios de comunicação, das escolas é de que não se deve usar porque é ruim. Ruim, cara pálida? Garanto que, se usado uma única vez provocasse vômitos de ogro, dores incontroláveis, corrosão do nariz, queda das unhas, ninguém usaria. Como não é bem isso, faço minhas as palavras o que uma psicóloga do Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Droga de Novo Hamburgo me disse uma vez. “Se fosse ruim, eles (os adolescentes) não usavam”.
Forte a expressão dela, né? Na hora eu também achei. Mas daí, didaticamente, ela me explicou que os usuários, em geral, acham que não faz mal porque num primeiro momento os efeitos são “bons” – ou como diz a magrinhagem, “dá um barato”. Para eles, não importa o que isso vai acarretar com o uso frequente – até porque “é só esta vez”. Não admitem que ficarão dependentes, até porque raramente tiveram contato com pessoas que enfrentaram a dependência, que sabem o que é se colocar em situação extremas como roubar e matar para conseguir alguns trocados e manter o vício.
Pelamordedeus, não me interpretem como entusiastas das drogas. Pelo contrário. É por estar cheio de ver amigos meus fazendo bobagens devido ao uso de substâncias ilícitas que acho que a maneira como minha geração aprendeu a não entrar nessa é errada. Ao invés de mostrarem que a dependência é uma doença, aprendemos que não se deve falar com estranhos, que quem usa entorpecentes é mal-encarado, é bandido. Daí, enquanto pensávamos que os drogaditos eram da turma do Velho do Saco, nos deparamos com meninos e meninas que são populares, bonitinhos, de boa família, oferecendo um “bagulho”. E vai tudo por água abaixo. E pensam: “não é bem assim”, “ele (a) usa drogas, mas é legal”, “é exagero dos pais” - ainda mais nessa fase em que eles crêem que os pais não sabem de nada. Fica a impressão de que é o mesmo discurso de que “se não comer, não vai crescer”.
Neste mundo em que as informações chegam rapidamente e em grande escala nos domicílios por meio da internet (e são consumidas especialmente pelos mais jovens), é imprescindível “abrir o jogo”. Uma conversa mais franca, mais de igual para igual, sem contos da carochinha, com certeza terá mais eficácia para evitar que os entorpecentes façam parte de sua família, de sua escola. Creio que combater as drogas começa por acabar com as lendas sobre as drogas.
02-07-10
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