Na coluna da semana passada, falei sobre a falta de opções que teremos nas eleições presidenciais deste ano. Relevantes (em termos de votação), apenas três postulantes ao cargo eletivo máximo tupiniquim: Serra (PSDB) e Dilma (PT), que polarizam segundo os índices feitos pelas pesquisas, com Marina Silva (PV) correndo por fora. Duvido que alguém aposte uma embalagem vazia de leite barriga mole que o Ey-Ey-Eymael (o democrata cristão– que é gaúcho, por sinal), o extrema esquerda Zé Maria, do PSTU, ou o “quem bate cartão não vota em patrão” Rui Costa Pimenta conseguirão somar, juntos, mais de 0,5% dos votos válidos.
Refletindo sobre isso, dei-me conta de outra coisa. Apesar de fatores muito importantes, não são apenas o poder econômico ou o carguismo que têm feito com que os partidos se isentem de apresentar candidatura própria. Falta o principal: novas lideranças.
Quando há um líder, alguém que consiga conciliar os interesses do partido, que tenha carisma, conhecimento de causa, a candidatura passa por cima destes “obstáculos”. Cristovam Buarque se lançou pelo PDT mesmo sem coligação, em 2006. Heloísa Helena (PSOL) tinha apenas os minúsculos PSTU e PCB no mesmo ano. Ciro Gomes, que foi candidato em 2002 pelo PPS, quase conseguiu impor sua candidatura ao PSB, que não é uma sigla lá muito ramificada pelos quatro cantos do país.
Quem deixa muito a desejar são os grandes partidos. O maior de todos, o PMDB, não lança candidato próprio desde 1994, quando Orestes Quercia concorreu sem ter o apoio de boa parte dos companheiros. Desde então, afunda qualquer iniciativa de colegas do partido em concorrer para garantir uma coligação com a tendência de ficar no poder. O PP, quinto maior, segue a mesma tendência: a última vez que lançou candidato próprio foi em 1994, com Esperidião Amin (na época a sigla chamava-se PPR). Pior é o DEM (ex-PFL), quarto maior partido do país, que desde 1994 vem a reboque do PSDB, contentando-se em ter candidato a vice. Gente, 1994 foi há 16 anos. Quatro eleições. Foi recém a segunda eleição direta após a abertura política!
Agora, vejamos: quem são os líderes de hoje? Quando foram forjados? Numa pequena pesquisa entre o Google e minha memória, não consegui achar nomes que não sejam egressos do período de Ditadura Militar ou ainda anteriores. Nos anos de chumbo, Dilma foi guerrilheira; o padrinho Lula, líder sindical. Serra foi presidente da UNE nos anos 60 e posteriormente exilado pelos militares. Desafio você, caro leitor, a apresentar nomes do quilate (aqui compreendido apenas como representatividade, sem julgamento sobre ser honesto ou não, entre outros adjetivos) de Roberto Freire, Paulo Maluf, Fernando Henrique Cardoso, Cezar Maia. Podemos avaliar partido por partido: os caciques ainda são os mesmos de 30 anos atrás (tirando os falecidos Leonel Brizola, Ulysses Guimarães, Antônio Carlos Magalhães, Franco Montoro e Mário Covas, que deixaram representantes não tão importantes como os próprios, mas da mesma época, em seus lugar).
Ainda estamos refém de uma geração. Parece, salvo exceções, que há um vácuo entre as lideranças (contra ou a favor) dos anos de chumbo e as novas gerações. E pior: esse hiato não significará ruptura. Mas isso é assunto para outra coluna.
14-05-10
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