É tudo para a última hora. Essa é uma grande mania nacional: procrastinar. Na escola, o professor passa um trabalho na sexta-feira. E a maioria dos alunos deixam para fazer na noite de domingo, durante o Fantástico. Na faculdade, com prazos superiores a um mês, é na última madrugada que boa parte dos acadêmicos tentam elaborar um artigo ou a monografia. E, no trabalho, quando o chefe pede um relatório para ser entregue em uma semana, a coisa só vai andar mesmo na véspera.
Isso é cultural. Tudo só anda no Brasil quando não tem mais como não andar. Precisou da Gripe A para que as pessoas começarem a higienizar as mãos (alguns já esqueceram). Só depois que morreu um monte de gente no trânsito que a lei foi modificada e os motoristas punidos até que o cinto de segurança entrasse na moda. É preciso que um prédio desabe para que as autoridades constatem que ele já deveria ter sido demolido muito antes de tirar vidas. É preciso que me lembrem este colunista para que não perca o prazo e comece a escrever...
Temo que a discussão sobre as mudanças climáticas que presenciamos não saiam do papel, que as ações fiquem também para a última hora. Estiagens intermináveis, chuva de um mês disparadas sobre nossas cabeças em poucas horas, degelo das calotas polares, aumento do nível de água nos mares, ciclones, tornados... Como curioso, liguei para um meteorologista que entrevistei algumas vezes perguntando se estamos à beira de um colapso. Para minha tranquilidade, ele garantiu que o fim do mundo não está chegando, que todas essas alterações climáticas são parte de um processo de aquecimento natural porque passa a terra em períodos cíclicos. Por outro lado, disse também que esse aquecimento é potencializado pela ação humana. Daí exclamei: “então está todo mundo me enganando. Não preciso separar o lixo orgânico do seco, nem tomar banho menos demorado, nem comprar carro totalflex?”. Daí ele explicou o seguinte: “certas coisas não podemos falar porque senão as pessoas acham que está tudo bem. Imagina por exemplo o dia que um médico disser que a AIDs tem cura? Camisinha nunca mais... É uma obrigação dos meteorologistas, dos agentes públicos e dos jornalistas manter o alerta, mesmo sendo normal o aquecimento, para o descaso não acabar com o planeta”, completou. “Se todas essas ações que querem implantar acabassem mesmo com enchentes, ciclones e estiagens, os EUA já teriam assinado tudo quanto é tratado ambiental pensando em aumentar a produção e dar fôlego a economia”, ironizou. Ou seja: isso só vai acontecer aos 45 do segundo tempo...
Por mais didático que tenha sido esse meu amigo, custei a organizar as ideias. São tantas informações desencontrada que não dá para saber quem está mentindo. Ou são tantas verdades que não vejo uma que seja absoluta. Por via das dúvidas, como tenho vontade de viver um pouco além de 2012 (tem uns malucos dizendo que no dia 11 de dezembro de 2012 acaba o mundo, antes da Copa e da Olimpíada no Brasil), estou tentando enfrentar uma das palavras que mais temo (disciplina!) e tomei algumas providências: caminhar mais, usar mais transporte público, comprar mais cerveja em garrafa e menos em lata, usar uma sacola que ganhei na rua para colocar os produtos do mercado e utilizar menos sacolinhas. É pouco. Mas já é uma coisa que não deixei para última hora. Sabe que até me senti bem com isso?
08-01-10
Obs: acho que essa coluna foi escrita no calor do início do ano, quando a gente faz um monte de promessas. Cumprindo mesmo, mesmo, só a de beber mais cerveja em garrafa e menos em lata (proporcionalmente, né?!)...
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