Humoristas do Brasil fizeram um protesto contra a norma do Tribunal Superior Eleitoral que proíbe a veiculação, por rádio ou TV, de entrevistas ou montagens que "degradem ou ridicularizem" candidatos. Quem desobedecer terá que desembolsar até R$ 106.410. Praticamente todos os programas de humor estavam representados. Juntando as pessoas que passavam pelas ruas, deu em torno de 500 pessoas (hoje em dia nem comediantes famosos conseguem mobilizar o povo)...
Bom, puxei esse assunto para entrar em outro: já se perguntaram porquê foi adotado esse critério? Desde já adianto que sou contra qualquer tipo de censura. Assim como sou contra qualquer tipo de publicação irresponsável. Brinco volta e meia com médicos que, se eles podem matar uma pessoa, nós (enquanto jornalistas ou pessoas que lidam com mídias) podemos condenar pessoas ao ostracismo – menos letal, mas muito mais doloroso (Ibsen Pinheiro que o diga). Algumas brincadeiras que são feitas, mesmo sem querer, acabam rotulando determinadas pessoas, sem a preocupação de comprovar o porquê do rótulo. E não recomendo a ridicularização como forma de humor.
Adoro sátiras, ironias, comentários com acidez, irreverência, tiradas inteligentes, seja isso em vídeos, charges, crônicas, stand up comedy, o que for. Acho que é uma forma de levar ao público assuntos indigestos de forma interessante. O mundo seria muito chato sem humor! Mas confesso que não gosto muito de avacalhação, escracho. Isso é para rodas de amigos, não para meios de comunicação. E, diante do que tenho visto, até entendo o porquê desta grita generalizada dos políticos contra algumas piadas. Muitos humoristas atuam como parasitas, ou seja, para fazerem rir, terem audiência e venderem ingressos para shows, necessitam “sugar” os próximos.
Acho válida a manifestação dos humoristas. Apenas lamento que isso tenha servido apenas como uma forma de jogar para a torcida, sem que isso resulte em uma reflexão sobre a própria produção, sobre o tipo de humor que é feito. Há uma linha tênue entre irreverência e falta de respeito. Entre inteligência e idiotice. Linha esta que cada vez mais é ultrapassada, para o deleite do espectador. E, dentro da linha propagada há décadas por Sílvio Santos do “eu dou ao público o que o público quer”, creio que esse aumento de audiência a partir do mau gosto só pode ser reflexo do que grande parte das pessoas também está passando por esta fase de idiotização. Não estou pregando que todos devam desligar a televisão, ou deixar de comprar determinado jornal, ou parar de acessar alguns blogs. Mas um olhar mais crítico é necessário. Até porque, seguindo a linha de raciocínio de que nos dão o que queremos, também parece que temos os políticos, a realidade social, a condição econômica, o nível de educação oferecido pelo Estado, o tipo de segurança pública que queremos... E para que questionar isso, se afinal de contas podemos rir de tudo isso, não é mesmo?
Enfim: essa lei é nociva à democracia, sim. Humor ajuda a formar a opinião dos eleitores, aproxima as notícias do público. Mas também considero nociva a rotulação, a ridicularização, a apelação, o mau gosto, penso que essa censura poderia ter sido evitada com um pingo de “auto-censura”. Mas, claro, isso parece não ter graça...
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