Essa campanha política está me dando uma saudade da eleição de 1989 que vou te contar. Não é exatamente saudade, porque naquela época eu tinha apenas seis anos (o máximo que me lembro é da musiquinha do Lulalá, do “Juntos chegaremos lá” e dos patinhos na lagoa do Afif Domingos, entre outras vagas lembranças). Mas faço referência àquela eleição para comparar com os últimos pleitos para escolher o presidente da República. Tenho achado as eleições atuais parecidas com a Fórmula 1. Depois da morte do Senna, a briga pelo título sempre foi entre Schumacher e mais um (ok, de dois anos para cá a coisa mudou um pouco... na Fórmula 1, claro).
Para refrescar a memória dos mais velhos – e para informar aos mais jovens que ainda não procuraram notícias sobre isso no Google: nada menos do que 22 candidatos concorreram à presidência. Apenas três deles com coligação, e mesmo assim entre siglas nanicas. Todos os partidos grandes foram protagonistas com candidatos próprios. Segue a lista de alguns, para lembrar: o PT lançou Lula; o PDT, Leonel Brizola; o PSDB, Mário Covas; o PDS (hoje PP), Paulo Maluf; PMDB foi com Ulysses Guimarães; o PCB com Roberto Freire; o PFL com Aureliano Chaves (a maioria desses virou nome de rua, já). Ganhou Collor, do PRN, puxando a coligação composta ainda pelos “enormes” PSC, PTR e PST.
Naquele momento, de abertura política – foi a primeira eleição direta para presidente depois da Ditadura -, as siglas tentaram demarcar o próprio território. Buscaram a liderança. Até porque, nenhum desses partidos tinha mais de 10 anos (todos surgiram ou da divisão do MDB ou da ARENA), e ainda idealizava alguma coisa.
O que acontece hoje? Estamos praticamente num bipartidarismo. O pleito em âmbito nacional está resumido entre os amiguinhos do PSDB e os companheirinhos do PT. Em jogo estão cargos públicos para os cabos eleitorais (os filiados para se manterem no emprego precisam destinar parte do salário para o partido) e o financiamento das siglas por meio de “gratificações” de empresas que foram vencedoras em processos de licitação. As coligações se formam muito menos por ideologia do que por interesse em segundos a mais nos programas televisivos. Os gastos são tão grandes que os partidos temem enfrentar sozinhos adversários com maior poder econômico. E todos estes aspectos são mascarados pelo discurso bonitinho de que é importante que mais personagens tomem decisões sobre os rumos do país (balela, isso deveria ser feito no Congresso, ou pelo menos no segundo turno).
Na última eleição, tivemos quatro opções: Lula (PT), Alckmin (PSDB), Heloísa Helena (PSOL) e Cristovam Buarque (PDT) – vamos e viemos, Ana Maria Rangel (PRP), José Maria Eymael (PSDC), Luciano Bivar (PSL) e Rui Costa Pimenta (PCO) são café com leite, pois nenhum fez mais do que 130 mil votos (bem abaixo do que alguns candidatos gaúchos a deputado federal obtiveram). Na de outubro deste ano, teremos Dilma, Serra e talvez Marina Silva (PV). E um que outro aventureiro em busca de segundos de fama. Quantas opções, não?
É com uma certa desilusão que vejo que siglas como PTB, PP e PMDB ficam sempre esperando o resultado das pesquisas para saber quem vai ganhar e, aí sim, designar apoio. É quase um Campeonato Brasileiro com Flamengo e Corinthians disputando o título e os outros clubes participando apenas para receber a mala preta em troca de entregar o jogo. É aí que percebe-se que o que chamamos de política deveria chamar-se de comércio. Ou melhor, de parasitismo.
07-05-10
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