terça-feira, 24 de agosto de 2010

Contos da carochinha

Semana passada falei sobre drogas. Ou melhor, sobre como e o quê pais, professores, padres, pastores, prefeitos, comunicadores falam para adolescentes sobre drogas. Como achei que pudesse não ser muito bem compreendido, enviei a coluna para algumas pessoas para tirar uma amostra do que pensam. Sabe o que é mais engraçado? Fui aprovado por todos com menos de 35 anos. Mas não tive tanto sucesso com pessoas acima desta idade. Por quê? Creio que haja um confronto de gerações que tentarei explicar. Do meu jeito, é claro.
Acho que um pouco se deve às transformações que o mundo enfrentou nas últimas décadas. Saímos de um regime militar, em que tudo era mais “controlado” e “ordeiro” (vou pegar leve com a Ditadura porque um nobre leitor já mandou me puxarem a orelha). Tivemos grandes avanços tecnológicos, sobretudo nos meios de comunicação. Ou seja: com mais liberdade para falar, pensar e opinar, e com mais velocidade de informação, a gurizada se adiantou em certas questões em relação aos pais. É um confronto entre o disco de vinil e a geração MP3. Carta x e-mail. Pesquisa em biblioteca x wikipédia, blogs, google, tv a cabo...
Para comparar, vamos aos desenhos animados. Foi-se a era de princesas inocentes e perfeitas, de mocinhos que lutavam pelo bem. Coloca uma criança de dez anos para ver a Bela Adormecida para ver o que ela vai dizer. Vão preferir o fracassado Homer Simpson ou o ogro cheio de maus modos Shrek, ambos desenhos com piadas por vezes maliciosas – alguns dizem que são desenhos para adultos.
Os programas de tv faturam sempre sobre o mesmo trio: esportes, sexo e violência. A exploração da realidade de forma exacerbada tira a crença de qualquer um de que o mundo é bonitinho. E chega-se a conclusão de que não se deve esperar para receber uma bala perdida, sofrer um assalto, ser atropelado por um motorista bêbado, pensar daqui a 30 anos sem saber como será o dia de amanhã. O importante é o momento! E por isso que vejo as drogas se popularizarem tanto. Não adiantam propagandas e campanhas contrárias – não da forma como são feitas. Não adiantou colocar fotos de pessoas morrendo nos maços de cigarro: o percentual de jovens que fumam aumentou mesmo assim. Por quê? A ideia é de que os efeitos vão demorar anos para serem sentidos pelo corpo, e talvez eu nem esteja mais por aí para saber.
É por isso que eu acho que as cartas devem ser colocadas sempre na mesa. Os diálogos devem ser francos. E para isso, os pais precisam estar atentos ao que acontece no mundo, no dia-a-dia da cidade, dos jovens, para não apenas dizer isso pode, isso não pode, mas argumentando o porquê de preferirem que os filhos não tomem determinadas atitudes. Os jovens não devem ser poupados, devem sentir nas mãos a responsabilidade sobre os próprios atos. E isso envolve o álcool, as drogas, a maneira de dirigir, a maneira de conviver em sociedade. Isso envolve sempre a verdade.

09-07-10

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