sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Dicas eleitorais

A falta de noção da maior parte dos eleitores sobre as regras eleitorais brasileiras reflete exatamente qual o grau de preocupação das pessoas em relação à política nacional. Enquanto quase todos sabem tudo sobre a fórmula do Brasileirão, raros são os que não têm dúvidas sobre o processo eleitoral. E por mais didáticas que sejam as propagandas do TSE – capazes de instruir crianças de três anos -, o povo ainda não entende alguns detalhes de nosso sistema político. Tentarei ajudar...
1) Senadores: cada estado é representado por três, cujos mandatos são de oito anos. Assim, são eleitos, alternadamente um e dois. Na eleição passada, por exemplo, o Simon foi reeleito. Há oito anos, foram Zambiasi e Paim. Ah, cada eleitor tem direito a votar duas vezes, mas não pode ser duas vezes no mesmo candidato;
2) Deputados Federais: embora eles discutam projetos para o país inteiro e trabalhem em Brasília, são representantes de um Estado. Sendo assim, são eleitos apenas por pessoas com domicílio eleitoral na mesma Unidade Federativa onde eles concorrem. Não adianta alguém daqui fazer campanha em Chapecó! Nestes dois meses, ouvi dezenas de pessoas de outros estados se oferecerem para votar em candidatos gaúchos. Vai ver porque por lá os postulantes são Tiririca, Mulher Pêra, etc...
3) Governo ou Presidência: para não ter segundo turno, um candidato precisa de metade dos votos válidos mais um – descontados brancos e nulos. Ou seja: se alguém não quiser uma vitória do líder das pesquisas já no dia 3 de outubro, não precisa votar no segundo colocado. Votar no Levy Fidelix tem o mesmo valor do que votar no Serra ou na Marina – em se tratando de ter ou não segundo turno, claro.
4) Voto de protesto: é uma baita bobagem, porque como são descontados dos votos válidos os brancos e nulos, mostrar descontentamento com a política dessa maneira apenas “dá uma mão” para o mais bem votado a ganhar em primeiro turno (no caso de Governo e Presidência), ou facilita a vida de alguns candidatos aos cargos parlamentares. Recomendo aos eleitores que deixem de preguiça e escolham alguém – um deles é o menos pior.
5) Pesquisas apontam uma tendência de resultado para a eleição, mas em hipótese alguma refletem com 100% de certeza o resultado final. Essa história de deixar de votar em C, que é em quem você acredita, para escolher B porque está melhor colocado é bobagem. Até porque, em caso em segundo turno, haverá a oportunidade de votar no oponente do determinado candidato A, que você rejeita. E há inúmeros exemplos de pleitos em que os institutos de pesquisa erraram redondamente. Na última eleição ao Governo do Estado, por exemplo, era dado como praticamente certo um segundo turno entre Rigotto e Olívio Dutra. Mas muitos que votariam no peemedebista apostaram em Yeda para evitar que o petista fosse ao segundo turno. O restante da história, todos conhecem...
6) Cuidado com candidatos celebridades. Campeões de votação, eles são um engodo que os partidos apresentam ao eleitor. Estima-se que Tiririca faça, em São Paulo, cerca de um milhão de votos. Com isso, outros sete candidatos do PR ganharão uma vaga na Câmara dos Deputados com número bem menos expressivos. Isso já aconteceu quando Éneas puxou outros cinco candidatos do Prona ao fazer 1,5 milhão de votos.
7) A ideia desta coluna não é ser prepotente, embora pareça. Apenas quero alertar sobre os possíveis efeitos de “brincadeiras” com o voto para os próximos quatro anos.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

A falsa dança das cadeiras

Tenho acompanhado o resultado de algumas pesquisas eleitorais com uma certa apreensão. Pelo rumo que tudo está tomando, teremos um Brasil sem oposição nos próximos anos. Explico: na maioria dos Estados, os prováveis vencedores ou são candidatos do PT ou de partidos aliados, todos eles abraçados na figura de “São” Lula. Na disputa para o Senado, a mesma coisa: tudo indica que, se Dilma for nossa próxima presidente, contará com mais de 60% de apoio da parte azul do Congresso Nacional. Na parte verde (Câmara dos Deputados), a tendência é que isso se repita.
Apesar dos mais de 30 partidos políticos existentes no Brasil, estamos num ponto em que se é ou não governo. Há siglas especialistas em estar ao lado do poder. Cito o maior partido do Brasil, o PMDB, que deve ser o maior vitorioso nas eleições governamentais e para o Senado deste pleito, mas que constantemente adota postura de situação para se manter grande, não se expondo a um julgamento no pleito presidencial. O próprio PT abriu mão de concorrer em algumas unidades da federação para privilegiar alianças. O Rio Grande do Sul foi uma exceção, dada rivalidade histórica entre os dois partidos (rivalidade que, diga-se de passagem, está cada vez mais fraca).
Já disse isso em outras colunas, mas não canso de repetir: nosso modelo político leva a isso. Em primeiro lugar, porque o presidente, para se eleger, precisa de tempo de televisão, e as coligações permitem a soma dos minutos de cada partido integrante da base de apoio. Em segundo lugar, para governar é preciso ter base aliada, o que leva a favores e concessões. Em terceiro lugar porque os partidos se financiam em parte por um percentual retirado dos salários de quem ocupa cargos de confiança (mais CCs, mais dinheiro entrando na conta), e ninguém quer ver o orçamento do partido reduzido.
Até mesmo nas doações de campanha Dilma recebeu o dobro do que Serra, dada a probabilidade de vitória. E alguém aí sabe explicar por que uma empresa (grande parte delas são empreiteiras e agências de publicidade) destina parte de seu capital para um candidato? Creio que não seja por ideologia...
No fim das contas, nossa campanha é composta de dois grandes blocos, como ocorre na eleição norte-americana. Os amigos do rei contra seus inimigos. A chamada terceira via, da maneira como é proposta, com um monte de partidos nanicos – com representatividade praticamente nula – não tem chance alguma de prosperar. Ainda mais sem uma divisão mais justa em tempo de televisão, em participação em debates, em recursos para fazer a divulgação de ideias e propostas (como é que Marina vai disputar em igualdade com a Dilma, se a exposição desta é cinco vezes maior?).
Os partidos estão fracos. Viraram iscas da própria pescaria. E resistem a mudanças. A reforma política só não acontece porque os caciques, que se alimentam deste ciclo vicioso, têm medo de perder o lugar. E o povo está entrando na mesma dança. Para agravar o panorama atual, nesta eleição tem o agravante de que, de um lado, está Lula, que conquistou uma popularidade maior do que a do papa, e de outro estão lideranças desnorteadas, tontas, em crise existencial.
Enfim, nossa democracia é falsa. E somos induzidos a pensar que tudo vai bem. Por mais paranóico que possa parecer, eu tenho comparado isso a uma ditadura disfarçada, onde o mesmo bloco de partidos amiguinhos brincam de dança da cadeira, sufocando o aparecimento de novas lideranças, com ideias capazes de reverter essa tendência.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Solução para o trânsito é a exploração!

Faz tempo que me ensaio para falar sobre isso, e ainda não sei porque cargas d’água ainda não entrei no assunto. Ocorreu-me entrar no assunto depois de uma conversa que tive na sala de espera do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes. Sobre preço da gasolina e dos veículos. Eu reclamava do preço da gasolina, das estradas esburacadas e do alto preço dos automóveis. O meio ambiente que me desculpe, mas o que eu queria mesmo era comprar um carro bem potente pela metade do preço e abastecer com combustível bem mais barato. Bom, nada diferente do que todos querem. Ainda mais sabendo que na Argentina, o combustível está menos da metade do preço que pagamos. O mesmo vale para os veículos: os hermanos gastam até 50% menos por um mesmo modelo vendido no Brasil. Revoltante!
Mas... Imagina se os preços fossem os mesmos da Argentina? Atingiríamos o caos (foi só o governo baixar o IPI e a frota nacional aumentou em mais de 3 milhões de veículos em 2009).
Mas hoje até não acho tãããão ruim assim esses custos elevados. Por que, se com esse susto no bolso estamos a beira de um colapso no trânsito das regiões metropolitanas, imagina como seria com tudo mais barato? Em São Paulo, já faz anos que foi adotado o rodízio. Dependendo o dia da semana, determinado número da placa não pode trafegar em pontos críticos da cidade. E o que aconteceu? As pessoas compraram um segundo carro. Até em cidades longe de grandes centros como Frederico já têm alguns problemas. Achar uma vaga para estacionar no Centro é difícil. Os fiéis que vão à missa de domingo fazem procissões de duas, três quadras do carro até a Catedral. Já temos uma média de um veículo por menos de três pessoas no município. E boa parte se desloca de uma quadra a outra de carro.
Ah, ainda não levei em consideração que, quanto maior o fluxo de veículos, mais e maiores os buracos. E também não quero nem pensar em redução da idade para obter permissão para dirigir, (nos Estados Unidos é de 16 anos, por exemplo)! Não estamos preparados para isso!
Transporte público seria a solução. Mas quem é que quer andar em ônibus caindo aos pedaços, esperar horas em paradas detonadas, para ser encoxado? Só se sujeita a virar sardinha enlatada em pinga-pinga quem não tem condições para manter um veículo. Bicicleta? Seria ótimo! Mas sem ciclovias e com um trânsito caótico, é preciso ao menos fazer o testamento antes de se arriscar. Vide o percentual de motociclistas envolvidos em acidentes. Investir em novas vias? A maioria das nossas cidades cresceram de forma desordenada, sem planejamento. Frederico mesmo é cheia de ruas tortas, cruzamentos com cinco ruas. Alterações exigem um grande montante para desocupar terrenos – e também de longas batalhas judiciais. Motoristas sozinhos no carro poderiam aceitar caroneiros. Mas esbarramos de novo no problema da segurança.
Também acho que dava para implementar uma política de renovação de frotas. Em primeiro lugar, por causa da segurança: em praticamente todos os acidentes, tem um carro com mais de 20 anos envolvido. Sem contar que, além de mais lerdos, menos seguros e viciados em mecânico, são muito poluentes. Até daria para ser feito um PAC do carro, do tipo “Jogue fora sua lata velha e compre um veículo com desconto”. Mas como seria muito trabalhoso, e também por ser um prato cheio par picaretas, podem esquecer! Resumindo: como por aqui os bons sempre pagam pelos maus, esses preços exorbitantes tem uma certa razão de existir.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Plataforma de governo

Três de setembro. Falta um mês para a “apoteose da democracia”. Só mais 30 dias e novela volta ao horário normal e os meios de comunicação recomeçam a falar em política (e não de agenda de candidatos e de pesquisa). Um doze avos de ano e você não chegará mais em casa e encontrará sua caixa de correio lotada nem um calhamaço de santinhos empurrados para o seu lar pela fresta da porta.
Recuperaremos agora o que vimos nos últimos dois meses: pessoas de quem nunca ouvimos falar afirmando que fizeram muito pela nossa cidade, fofocas sobre a índole de alguns candidatos, acusações sobre se algo foi feito ou não. Muitas promessas, e afirmações de que “sou consciente dos problemas da região”. Pouca coisa baseada em dados reais. Até porque, como nós eleitores praticamente não damos muita bola para isso em quatro anos, qualquer número jogado na nossa frente acaba sendo aceito.
Não vejo muita criatividade nas campanhas. Essa mesmice é a sequência de fórmulas antigas para fazer nomes de candidatos. Mas vou cobrar o quê, se nossos costumes seguem sendo os mesmos? Por isso, montei minha plataforma de campanha, não como candidato, mas como cidadão. Seria mais ou menos assim:
Prometo que darei o exemplo para que as pessoas sejam mais gentis e solidárias, dêem lugar na fila para idosos e gestantes, não furem as filas, doem sangue, separem lixo seco de orgânico, não façam xixi em vias públicas, usem menos sacolas e embalagens plásticas. Comprometo-me a fazer com que os alunos façam os temas e que não matem aulas. Que aqueles que estão de guarda-chuvas deixem as marquises para os que esqueceram o objeto em casa. Que ninguém mais fará ultrapassagens perigosas, nem beberá antes de dirigir. Além disso, garanto que a faixa de segurança será respeitada.
Elaborarei planos que convençam a todos a lerem mais jornais, livros de boa qualidade e que aproveitem o domingo para desligar a televisão e fazer exercícios físicos. Serei um paladino na luta para que as tiazonas que pegam ônibus intermunicipal ou estadual comam antes de seguir viagem, para não incomodar os demais no primeiro minuto de deslocamento com barulho de sacos sendo mexidos, nem com o cheiro de “fedoritos”. Criarei dispositivos para que o povo tenha mais senso crítico, consciência política e vontade de atuar em causas sociais. E que saibam distinguir carisma e capacidade, boa fé e efetividade, promessa e trabalho, público e particular, generosidade e exploração.
Olhando para esse plano de governo, sinto a mesma impotência em não poder cumprir que devem sentir aqueles que prometem (espero que pelo menos isso eles sintam) saneamento básico, educação , saúde, segurança, infraestrutura, distribuição de renda, aumento do salário mínimo a patamares decentes, reforma agrícola, transparência nas contas públicas, enxugamento da máquina pública, etc... A diferença é que estes problemas dependem de quem será votado por nós. E a resolução de minhas promessas, de quem escolhe os representantes. Tenho quase certeza de que uma coisa é reflexo da outra. Não teríamos nós os representantes que merecemos?

Coluna de 03-09-10 (sim, desta vez o blog publicou em primeira mão)