quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Plataforma de governo

Três de setembro. Falta um mês para a “apoteose da democracia”. Só mais 30 dias e novela volta ao horário normal e os meios de comunicação recomeçam a falar em política (e não de agenda de candidatos e de pesquisa). Um doze avos de ano e você não chegará mais em casa e encontrará sua caixa de correio lotada nem um calhamaço de santinhos empurrados para o seu lar pela fresta da porta.
Recuperaremos agora o que vimos nos últimos dois meses: pessoas de quem nunca ouvimos falar afirmando que fizeram muito pela nossa cidade, fofocas sobre a índole de alguns candidatos, acusações sobre se algo foi feito ou não. Muitas promessas, e afirmações de que “sou consciente dos problemas da região”. Pouca coisa baseada em dados reais. Até porque, como nós eleitores praticamente não damos muita bola para isso em quatro anos, qualquer número jogado na nossa frente acaba sendo aceito.
Não vejo muita criatividade nas campanhas. Essa mesmice é a sequência de fórmulas antigas para fazer nomes de candidatos. Mas vou cobrar o quê, se nossos costumes seguem sendo os mesmos? Por isso, montei minha plataforma de campanha, não como candidato, mas como cidadão. Seria mais ou menos assim:
Prometo que darei o exemplo para que as pessoas sejam mais gentis e solidárias, dêem lugar na fila para idosos e gestantes, não furem as filas, doem sangue, separem lixo seco de orgânico, não façam xixi em vias públicas, usem menos sacolas e embalagens plásticas. Comprometo-me a fazer com que os alunos façam os temas e que não matem aulas. Que aqueles que estão de guarda-chuvas deixem as marquises para os que esqueceram o objeto em casa. Que ninguém mais fará ultrapassagens perigosas, nem beberá antes de dirigir. Além disso, garanto que a faixa de segurança será respeitada.
Elaborarei planos que convençam a todos a lerem mais jornais, livros de boa qualidade e que aproveitem o domingo para desligar a televisão e fazer exercícios físicos. Serei um paladino na luta para que as tiazonas que pegam ônibus intermunicipal ou estadual comam antes de seguir viagem, para não incomodar os demais no primeiro minuto de deslocamento com barulho de sacos sendo mexidos, nem com o cheiro de “fedoritos”. Criarei dispositivos para que o povo tenha mais senso crítico, consciência política e vontade de atuar em causas sociais. E que saibam distinguir carisma e capacidade, boa fé e efetividade, promessa e trabalho, público e particular, generosidade e exploração.
Olhando para esse plano de governo, sinto a mesma impotência em não poder cumprir que devem sentir aqueles que prometem (espero que pelo menos isso eles sintam) saneamento básico, educação , saúde, segurança, infraestrutura, distribuição de renda, aumento do salário mínimo a patamares decentes, reforma agrícola, transparência nas contas públicas, enxugamento da máquina pública, etc... A diferença é que estes problemas dependem de quem será votado por nós. E a resolução de minhas promessas, de quem escolhe os representantes. Tenho quase certeza de que uma coisa é reflexo da outra. Não teríamos nós os representantes que merecemos?

Coluna de 03-09-10 (sim, desta vez o blog publicou em primeira mão)

1 comentário:

  1. Parabéns pelo belíssimo texto. Conta com meu voto quando te candidatares, hehehe. Abração e vida longa ao blog! :)

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