quarta-feira, 15 de setembro de 2010

A falsa dança das cadeiras

Tenho acompanhado o resultado de algumas pesquisas eleitorais com uma certa apreensão. Pelo rumo que tudo está tomando, teremos um Brasil sem oposição nos próximos anos. Explico: na maioria dos Estados, os prováveis vencedores ou são candidatos do PT ou de partidos aliados, todos eles abraçados na figura de “São” Lula. Na disputa para o Senado, a mesma coisa: tudo indica que, se Dilma for nossa próxima presidente, contará com mais de 60% de apoio da parte azul do Congresso Nacional. Na parte verde (Câmara dos Deputados), a tendência é que isso se repita.
Apesar dos mais de 30 partidos políticos existentes no Brasil, estamos num ponto em que se é ou não governo. Há siglas especialistas em estar ao lado do poder. Cito o maior partido do Brasil, o PMDB, que deve ser o maior vitorioso nas eleições governamentais e para o Senado deste pleito, mas que constantemente adota postura de situação para se manter grande, não se expondo a um julgamento no pleito presidencial. O próprio PT abriu mão de concorrer em algumas unidades da federação para privilegiar alianças. O Rio Grande do Sul foi uma exceção, dada rivalidade histórica entre os dois partidos (rivalidade que, diga-se de passagem, está cada vez mais fraca).
Já disse isso em outras colunas, mas não canso de repetir: nosso modelo político leva a isso. Em primeiro lugar, porque o presidente, para se eleger, precisa de tempo de televisão, e as coligações permitem a soma dos minutos de cada partido integrante da base de apoio. Em segundo lugar, para governar é preciso ter base aliada, o que leva a favores e concessões. Em terceiro lugar porque os partidos se financiam em parte por um percentual retirado dos salários de quem ocupa cargos de confiança (mais CCs, mais dinheiro entrando na conta), e ninguém quer ver o orçamento do partido reduzido.
Até mesmo nas doações de campanha Dilma recebeu o dobro do que Serra, dada a probabilidade de vitória. E alguém aí sabe explicar por que uma empresa (grande parte delas são empreiteiras e agências de publicidade) destina parte de seu capital para um candidato? Creio que não seja por ideologia...
No fim das contas, nossa campanha é composta de dois grandes blocos, como ocorre na eleição norte-americana. Os amigos do rei contra seus inimigos. A chamada terceira via, da maneira como é proposta, com um monte de partidos nanicos – com representatividade praticamente nula – não tem chance alguma de prosperar. Ainda mais sem uma divisão mais justa em tempo de televisão, em participação em debates, em recursos para fazer a divulgação de ideias e propostas (como é que Marina vai disputar em igualdade com a Dilma, se a exposição desta é cinco vezes maior?).
Os partidos estão fracos. Viraram iscas da própria pescaria. E resistem a mudanças. A reforma política só não acontece porque os caciques, que se alimentam deste ciclo vicioso, têm medo de perder o lugar. E o povo está entrando na mesma dança. Para agravar o panorama atual, nesta eleição tem o agravante de que, de um lado, está Lula, que conquistou uma popularidade maior do que a do papa, e de outro estão lideranças desnorteadas, tontas, em crise existencial.
Enfim, nossa democracia é falsa. E somos induzidos a pensar que tudo vai bem. Por mais paranóico que possa parecer, eu tenho comparado isso a uma ditadura disfarçada, onde o mesmo bloco de partidos amiguinhos brincam de dança da cadeira, sufocando o aparecimento de novas lideranças, com ideias capazes de reverter essa tendência.

1 comentário:

  1. Belíssimo artigo, Thiago. É de uma lucidez que impressiona e de uma verdade que choca. Muito boa indicação. Sugiro que envies para o site jurídico www.espacovital.com.br, que tem mais de 15 mil acessos diários. Abração!

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