quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Retorno à Teologia da Libertação?

Há alguns anos, em Santa Maria, fui designado pelo editor de A Razão para falar com o então bispo da cidade, Dom Ivo Lorscheiter. Foi minha primeira entrevista como estagiário do periódico. Era para perguntar sobre uma viagem que ele acabara de realizar pela Europa. O detalhe é que eu tinha apenas três dias de trabalho, e não tinha informação nenhuma sobre o que ele foi fazer no velho continente. O fotógrafo Paulo Pires me contou que ele era gremista. Como estávamos no início de 2005, comecei a entrevista perguntando se o religioso não poderia pedir para Deus voltar a torcer pelo Tricolor. Isso desarmou o bispo, e a entrevista correu bem. Pelo menos até eu fazer uma pergunta que nada tinha a ver com a pauta, mas que supria uma curiosidade minha. Era sobre a Teologia da Libertação. Dom Ivo desconversou, deu respostas vazias, e meus minutos com ele acabaram por ali.
O bispo era uma figura fascinante. Não tenho grande queda por bispos, mas ele, junto com outros religiosos, sempre me provocaram, no mínimo, uma certa fascinação. Isso porque tiveram participação destaca no período da Ditadura Militar. Dom Ivo presidiu a CNBB entre 65 e 70, abrigou padres e bispos perseguidos justamente por causa da Teologia. É preciso lembrar que essa corrente tinha tendências marxistas, e que o mundo estava dividido entre o capitalismo e o socialismo. Nascida nos países pobres (ou seriam pobres países?) da América Latina, e tendo o teólogo Leonardo Boff como expoente maior no Brasil, essa corrente incentivava as classes mais baixas a serem protagonistas da própria “libertação” por meio de movimentos sociais ou mesmo por meio da política. O alvo era a opressão – sobretudo a econômica.
Infelizmente – e esse é o meu ponto de vista –, a Teologia da Libertação não vingou, um pouco por causa do conservadorismo de grande fatia dos líderes católicos (tenho certeza que vou tomar pedrada). Mas, de certa forma, me sinto confortado em ver que alguns pontos dessa corrente em favor dos pobres volta e meia são lembrados com mais força pela própria Igreja, sobretudo em Campanhas da Fraternidade. Podem me falar que não há relação alguma entre uma coisa e outra, mas pegando como exemplo o tema deste ano, “Economia é Vida”, fico com a sensação de que ainda há resquícios dos ideais que deram esperança a muitos integrantes de classes mais baixas no mundo. Ou li errado a matéria de capa da Zero Hora da última quarta-feira (17). Vejamos: a campanha condena o lucro fruto da exploração; defende a superação da lógica de mercado; aponta para uma economia baseada em cooperativas e não em entidades globais; questiona a migração de capitais; indica a preferência pela agricultura familiar em detrimento do agronegócio; e ainda está preocupada com o pagamento da dívida pública ao invés de investimentos e quer a redução tributária. Ok, está longe de ser o Manifesto do Partido Comunista, de Karl Marx e Friedrich Engels, mas é inegável que os valores defendidos há algumas décadas ainda permanecem. Creio que essa participação junto ao povo – se colocada em prática - é que legitima verdadeiramente a Igreja (este espaço está aberto para resposta de quem discordar).

19-02-10

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