terça-feira, 24 de agosto de 2010

A bola do desenvolvimento

Ainda em overdose graças a essa Copa do Mundo, estou adotando as mesmas estratégias dos maiores veículos de comunicação do país (pretensioso, não?), para falar sobre Copa não falando. Esta é uma estratégia bem recorrente, especialmente daqueles que não detém os direitos de transmissão dos jogos. Falam sobre a cultura do continente africano, que está em voga graças à competição; dos problemas sociais dos países; do que mudou na África do Sul por causa da presença das seleções. Inclusive, tenho achado essas pautas mais interessantes do que propriamente os jogos (bate aquela sensação “esperava bem mais” ao ver cada partida).
Pois, se a maior competição do mundo não passa em branco nem mesmo em nações que não têm no futebol a principal referência esportiva, não poderia deixar de ser diferente nesse Brasil em que a bola é prioridade até mesmo em relação ao prato de comida de cada dia. E com a próxima Copa do Mundo sendo realizada aqui na Terra de Santa Cruz, o disco só será virado lá por 2015.
Não é exagero. Na campanha eleitoral deste ano, vão falar de obras para a Copa. Daqui a dois anos, os maiores municípios, que contam com canal de tv e transmitem a campanha deles para nossos lares (quando eu era pequeno, sabia mais da eleição de Passo Fundo do que de Frederico) também serão pautados por isso. Durante o Campeonato Brasileiro, serão observados os Estádios. Qualquer empreendimento a ser construído, será pensando na Copa. Nas escolas, as profes, emocionadas, ensinarão hinos e modos diferentes de fazer pompons. Talvez até inventem vuvuzelas com garrafas pet (por que fui dar a ideia?). E como uma coisa puxa a outra, as coisas vão evoluir até todos estarem vestidos de verde e amarelo, em ambientes verde e amarelo, comendo comida verde e amarela (vi no jornal que “inventaram” uma abobrinha nessas cores)...
Mas, como tudo, também tem a parte boa. O jornal O Estado de São Paulo de março noticiou que, só na área de Segurança, serão abertos 35 mil empregos (e todos terão que passar por qualificação). A construção civil, que antigamente era onde desaguava toda a mão-de-obra qualificada, já sofre com falta de funcionários qualificados e se vê obrigada a investir não apenas no aperfeiçoamento de pessoal, mas também em salários mais dignos. Levantamento do Ministério do Esporte destaca que sediar o evento vai gerar R$ 183 bilhões na economia nacional entre 2010 e 2019, distribuídos em infraestrutura, turismo, empregos, impostos, consumo, etc... Quem passa pela Grande Porto Alegre já consegue visualizar uma série de obras voltadas à Copa tupiniquim.
Tudo muito bonito. Mas, não sei se é por falta de esclarecimento, ou se é porque o pré-sal vai salvar a todos, preocupo-me com os municípios menores. Temo que as sedes e subsedes da competição sejam muito mais privilegiadas do que se imagina, e que o restante fique de lado. E, além disso, com a dita falta de mão-de-obra, temo que haja uma diáspora rumo aos grandes centros, atrapalhando o desenvolvimento dos pequenos...

25-06-10

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