terça-feira, 24 de agosto de 2010

Entre belos e (feios) famosos

“As feias que me desculpem, mas beleza é fundamental”. A frase, já um jargão, é atribuída ao poeta Vinícius de Moraes. Embora nada simpática e um tanto quanto politicamente incorreta, ainda é uma realidade. O mundo valoriza os mais belos. Em praticamente todas as áreas. Na rua, carros conduzidos por homens param apenas quando uma moça bem fornida tenta passar para o outro lado. Há um aumento gradativo de homens metrossexuais. Não vejo esforço tão grande por parte dos indivíduos – generalizadamente falando, claro – em parecer tão bons trabalhadores quanto belos.
Tenho uma historinha para ilustrar um pouco isso. Certa feita um empresário conhecido meu, dono de um comércio em Santa Maria, disse-me que “boa aparência” era um diferencial. “As vezes é melhor investir em uma pessoa um pouco menos eficiente, mas mais apresentável", atestou. Reparei melhor nas meninas contratadas pela empresa. E entendi que “boa aparência” tinha menos a ver com simpatia e muito mais com atributos físicos.
Pensa comigo: as academias recebem cada vez mais clientes. Dificilmente alguém vê um salão de beleza às moscas. Nunca a indústria de cosméticos arrecadou tanto. Há filas de clientes em busca de espaço na agenda dos médicos para fazerem cirurgias plásticas. Cada vez mais meninas, com menos de 20 anos, sonham ir para uma sala de cirurgias para implantes de silicone ou lipoaspiração. Uma amiga minha, de 25 anos, por exemplo, que tem sérios problemas de fechar a boca, já passou por inacreditáveis três lipos. Chegamos ao ponto em que não existe mulher feia, mas sim mulher pobre.
Mas... acho que este valor, está ficando um pouco de lado para a emergência de outro. A fama.Com o desenvolvimento em progressão geométrica de novas tecnologias de comunicação, uma grande parcela das pessoas estão fazendo de tudo para serem conhecidas. Basta acessar o Youtube que você vai entender do que estou falando. Os vídeos mais visitados de “anônimos” são aqueles em que personagens mostram dentes tortos, fazem dancinhas ridículas, vestem roupas, digo, pequenos paninhos, para chamar a atenção. Descobriu-se que existe um grande filão pelo ridículo, pelo horrível, pelo mau gosto.
Semanas atrás assisti ao “Pânico na TV”, programa dominical exibido pela Rede TV. Não vou comentar a qualidade do programa. Seria demagogia minha dizer que não assisto ou que não acho graça de muitas das bobagens. Mas mesmo assim acho de baixo nível (porém à altura de tudo que passa no mesmo horário na tv aberta). Neste dia, a superinteligente apresentadora Sabrina Sato propôs que Gorete, uma personagem que ganhou notoriedade pelo seu sorriso, desprovido de dentes, a largar a imagem de Gata Borralheira para virar a princesa, mas para isso teria que deixar de aparecer no programa. O que era mais importante? Ficar bonita, com direito a dentes novos, e outros reparos no corpo avariado, e voltar ao anonimato, ou então continuar feia mas fazendo participações na tv?
Gorete chorou ao ter que escolher. Disse que gostava de ser famosa. Que não queria perder aquilo, mesmo que seu papel fosse humilhar-se. Por fim, escolheu ficar bonita, pois assim, quem sabe, conseguiria um emprego. Como recompensa, conseguiu mais alguns minutos de fama, já que todo o processo de “chapeação” da moça foi midiatizado. Mas daqui uns dias esqueceremos ela. Agora, pergunto a você: o que você faria no lugar dela?

29-05-10

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