Esta semana, depois de percorrer alguns sites de notícias, lembrei de uma música do Raul Seixas. “O comandante não saiu para o quartel, pois sabia que o soldado também não tava lá/ E o soldado não saiu pra ir pra guerra, pois sabia que o inimigo também não tava lá/ E o paciente não saiu pra se tratar, pois sabia que o doutor também não tava lá”, etc...
Claro que a canção, “O dia em que a terra parou”, tem um sentido místico, mas ao ler tanto sobre greves acabei associando a letra com os fatos. Imaginei-me na seguinte situação: vou ao banco para pagar uma conta que chegou atrasada por causa da paralisação dos Correios. Mas os bancos também estão em greve, então não consigo fazer o acerto, que se referia a uma contribuição ao Círculo de Pais e Mestres de uma escola que também está paralisada. E para piorar, acabei assaltado, porque não havia policiais para me proteger. Sim, porque bandido – tirando alguns eleitos pelo voto – não param...
Já mencionei há algumas colunas que considero greve como um modo pouco eficaz de conseguir algo. Isso porque ela tira da zona de conforto as pessoas que necessitam dos serviços cancelados, e com isso conquistam muita antipatia, pouca compreensão e pressão para retomem os serviços antes mesmo das negociações. Mas desta vez não vou criticar. Como não aceitar o argumento de um bancário que pede participação nos lucros, já que a cada balanço há recordes de arrecadação engordando o bolso de acionistas? Como vou exigir um serviço razoável de um policial que recebe menos de mil reais e está sujeito a todos os tipos de suborno e tentação de aceitar bicos para aumentar a renda? E vocês sabem quanto ganham os funcionários dos Correios? Uma vergonha! Bem que aquele dinheiro desviado da estatal para pagar mensalão poderia ser usado como abono para essa classe!
Cansei de ver, em outras ocasiões, greves esvaziadas, que encerravam com nenhum ganho e muitos foguetes para maquilar a derrota. Desta vez, em alguns casos vejo ofertas que outrora seriam muito bem-vindas. Mas os trabalhadores querem mais. Pensa comigo: o cidadão liga a tv e ouve todos os dias que o país está bem, que crise só existe fora de nossas fronteiras, que o Brasil está crescendo. E percebe que os nossos deputados, ministros, governantes, vereadores, magistrados aumentam os vencimentos e vantagens em margens inimagináveis para qualquer classe. É lógico que ele vai querer uma fatia desse bolo. Está feita a bola de neve!
Correios, bancos, professores, policia militar e civil, agentes carcerários, funcionários públicos de todas as esferas. É no Brasil todo! E ainda vem mais. Parece que foi convencionado que chegou a hora de cobrar a conta das farras de certos gabinetes. Diante desses argumentos, como tirar a razão de quem recebe R$ 500,00 todo o mês para se virar com as necessidades básicas da família?
Mas não será fácil. O patronato pensa assim: se dermos tudo o que eles pedem hoje, amanhã vão querer mais. Eu sugiro outra coisa: dêem o exemplo. Gostaria que essas manifestações fossem interpretadas pelas nossas lideranças como recado de que chegou a hora de maneirar. Está em crise? Que se corte na própria carne, reduza gastos e pare de aumentar vencimentos que já são superiores a 15, 20 mil reais.
E os trabalhadores? Devem fiscalizar, usar o poder do voto, pressionar seus representantes. Mas também devem ter bom senso. Se for no setor privado, devem buscar representação no conselho das empresas e unir a categoria para evitar caça as bruxas. Paralisações são ruins. Afetam diretamente a economia. Por isso não pode faltar é bom senso. De nenhuma das partes. Se ninguém pensar no próprio umbigo, por descaso ou peleguismo – e essa é a grande utopia – todos, patronato e trabalhadores saem ganhando.
Essa é do dia 7-10-11
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