terça-feira, 30 de agosto de 2011

A “morte” de Nascimento

Gostaria de ser psicanalista e atender algumas figuras de nossa política nacional. Sobretudo aquelas que se agarram ao poder como se fosse o último recurso. O que faz alguns seres humanos, que vêem tudo a sua volta afundar, agarrarem-se com todas as forças ao cargo, ao status, a medirem forças com o óbvio? Fazendo uma metáfora, o que faz com que, ao invés de pegar um bote e sumir, essas pessoas prefiram se agarrar ao barco e tentar tirar a água do convés com um copo furado, afogando o resto da tripulação?
Entro nesse assunto para entender a atitude do ministro dos Transportes, Alfredo Nascimento. Pois, segundo reportagem da revista Veja, o digníssimo ministro é acusado de envolvimento em um suposto esquema de corrupção, baseado na cobrança de propinas de 4% das empreiteiras e de 5% das empresas de consultoria que elaboram os projetos de obras em rodovias e ferrovias. Como é moda, Nascimento garantiu desde o início não saber de nada.
A presidente Dilma relutou em afastar o ministro. Até esta quarta-feira, ele permanecia no cargo. Caíram apenas o chefe de gabinete do ministro, um assessor, o diretor-geral do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), Luiz Antônio Pagot (que saiu de férias, ao invés de ser exonerado) e o presidente da Valec Engenharia (estatal ferroviária), José Francisco das Neves.
Nascimento poderia ter pedido o boné. Mas não queria sair pela porta dos fundos. Preferiu defender o posto, talvez para mostrar que nada o atingiria. Até que o jornal O Globo fez uma denúncia que fez o prédio do ministério tremer. A empresa do filho de Nascimento, que em 2005 foi aberta com um capital de R$ 60 mil, teria hoje um capital de R$ 52 milhões. Crescimento de módicos 86.500%. Cabe lembrar que Nascimento já era ministro no mandato de Lula, e só saiu para concorrer a deputado federal (sim, ele foi eleito).
Se o barco do ministro afundou, pode ter certeza de que mais gente ainda irá se afogar. Primeiro, divisão na própria base do governo, já que dirigentes do PMDB e do PT já fazem campanha nos corredores em busca da vaga que hoje é ocupada pelo PR. A coisa é tão óbvia, que até o Senado (cuja base governista é amplamente majoritária) aprovou requerimento para que Nascimento vá ao Congresso dar explicações (nem o requerimento convocando Palocci foi aprovado). Uma CPI no DNIT também está prestes a ser aprovada no Senado (faltam poucas assinaturas para confirmar a investigação parlamentar).
Disposto a “esclarecer” tudo, e mostrar “transparência”, ao invés do ministro se afastar até que tudo se esclareça, preferiu mandar suspender licitações de projetos, obras e serviços de sua pasta por 30 dias. E aí, adivinha quem é que toma (ops!), digo, quem paga o pato? Dou um naco de pão com banha para quem acertar. Uma pista: só no RS, no mínimo sete obras importantes terão o trâmite atrasado, inclusive parte de nossa pobre BR 386.
O amor ao poder de Nascimento, que poderia ter voltado para o Congresso Nacional, derrubou até o filho, causou complicações ao próprio partido e ao governo atual e ao anterior. Ele construiu o próprio túmulo. Diante de tudo, a presidente resolveu demitir o ministro. O que devia ter feito bem antes. Evitando se desgastar com um dos partidos da base, a presidente comprometeu o próprio governo. Que, diga-se de passagem, coleciona escândalos semelhantes. Mas isso é pra outra coluna.

08-07-11

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