terça-feira, 30 de agosto de 2011

Uma peça de teatro chamada greve

Os juízes federais de todo o país paralisaram as atividades durante 24 horas. E nisso achei o tema da coluna de hoje. Porque, já há algum tempo, eu tenho dúvidas quanto a eficácia das greves. Normalmente, pelo que percebo, as greves geram mais ônus do que bônus para os próprios trabalhadores. Seria esta a forma como a categoria deveria chamar a atenção para suas reivindicações?
As primeiras greves do Brasil datam da década de 30. Não faz cem anos. E já acho que deveria estar em desuso. Minha experiência com manifestações como esta, ao menos, indica que sim. Há alguns anos, liderei uma greve. E senti na pele as consequências. Era meu primeiro trabalho após conseguir meu registro (e após ser diplomado). Eu era movido por pura ideologia e sentimento de defesa da classe. Berrei muito contra atrasos salariais, contra o excesso de carga horária extras não remuneradas e algumas outras coisas. Foi uma das raras greves de jornalistas dos últimos 15 anos do país. Recebemos apoio de colegas do Brasil todo. Alguns chegaram a oferecer a criação de um fundo para manter nossa resistência. Fomos à Prefeitura, à Câmara de Vereadores, e verbalmente recebemos apoio de todos. Fomos à Justiça do Trabalho, que tratou de contemporizar os ânimos. Se na frente das autoridades os patrões pareciam conscientes dos problemas, na empresa provocaram o caos. Tudo o que os chefes queriam era ver cabeças rolando. Precisavam de motivos que, se não existiam, poderiam ser criados. A primeira medida foi pegar um pra cristo. Sobrou para o mais novo, com menos tempo de trabalho, que também era o mais reclamão e o mais inconseqüente. Acharam uma desculpa e fui demitido por justa causa, tarja que reverti na Justiça tempos depois. Até hoje os atrasos salariais persistem.
Também cobri algumas greves, de todas as classes que você possa imaginar: professores (estaduais, municipais e federais), bancários, do transporte público, da segurança, da saúde. Percebi algumas coincidências: as categorias não se mobilizavam. Eram sempre as mesmas lideranças, quase sempre amparadas por estatutos que garantem estabilidade de emprego, e todos ligados a partidos políticos, que faziam barulho.
A principal desculpa de uma greve é sempre chamar a atenção do público para uma necessidade. É bonito de ver meia dúzia tomando chimarrão em frente aos postos de trabalho, faixas penduradas, enquanto os outros trabalhadores se preocupam com qualquer outra coisa que não seja a manifestação. Conheci alguns que já contavam com a greve para poder passar uma semana visitando a família. Entrevistei também os usuários dos serviços que estavam paralisados e nunca ouvi ninguém entre os “civis” apoiar a iniciativa de classe. Ou seja: ao invés de sensibilizar, os grevistas provocavam raiva em todos os que sofrem com a não prestação dos serviços.
O mais engraçado é que todas as autoridades, ou mesmo representantes do patronato, falam em respeito aos direitos dos trabalhadores e, por trás dos panos, buscam maneiras caçar as bruxas. E os dirigentes sindicais sempre falam em repressão, em não baixar a cabeça, em seguir em frente, em resistência, até que todas as ameaças tenham feito os trabalhadores voltarem ao batente sem nenhum pio, e o movimento acaba esvaziado. Aí, essas mesmas lideranças sindicais vão a imprensa declarar a vitória porque “muito” foi conquistado. É um grande teatro!
Sei não. Ou eu que fiquei muito desiludido com as utopias que me venderam, ou está na hora das organizações sindicais adotarem posturas um pouco mais simpáticas à sociedade e que não coloquem em risco os colegas. As greves hoje são mais nocivas aos trabalhadores do que a qualquer outro. A não ser que o estatuto garanta a estabilidade no emprego por alguns anos, ninguém mais me pega para paralisação alguma.

publicada em 29-04-11

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