terça-feira, 30 de agosto de 2011

Aumento na cara dura

Sabe aquela frase feita de que o brasileiro tem memória curta? Parece que já virou lei. Mas não é bem assim. Brasileiro tem uma baita memória para futebol, por exemplo. O que não tem muito parece ser memória política. Os políticos, especialmente, usam bastante essa “regra” para tirar proveito próprio. Esse novo aumento salarial é a maior prova disso.
O último aumento havia sido em 2007. Muito antes da eleição de 2010. Naquela época, o reajuste foi de 61,8%, bem acima da inflação que guia os aumentos do salário mínimo. Novamente o artifício foi utilizado. Aumentaram o salário após o pleito deste ano, apostando que nos próximos meses tudo será esquecido. E aumentaram na cara dura! Enquanto alguns projetos demoram décadas para tramitar no Congresso Nacional, entre passagem pelas comissões e pelo plenário da Câmara e do Senado (a cada alteração feita numa das casas, é preciso que o projeto retorne para o outro lado do Congresso para ser novamente apreciado), ontem tudo foi feito em horas. Claro, esse trâmite extenso é apenas para projetos que causam polêmicas, como as já mitológicas tentativas de reformas previdenciárias, política e tributária. Aumento salarial próprio não tem discussão! Pense você, amigo eleitor, o que faria se tivesse o poder de decidir aumentos para o seu salário. Seus colegas, se também aumentassem os lucros, não iriam apóia-lo?
O aumento salarial próprio é capaz de operar milagres (leia-se: de fazer os políticos trabalharem arduamente) como fazer um projeto ser votado no mesmo dia na Câmara e no Senado com poucos minutos de diferença. Alguns dizem que para acontecer milagres como esse é preciso de vontade política. Na minha opinião, a denominação menos ofensiva que essa atitude pode receber é “cara-de-pau”.
Até mesmo os – poucos - parlamentar que dizem criticar a medida não fizeram muita força. Acredito que estes utilizaram a ação como jogada de marketing. Passam como defensores de uma certa moral, mas embolsam da mesma maneira.E mesmo se doarem a diferença salarial para entidades, sairão ganhando, pois a simpática iniciativa certamente será utilizada para ganhar votos (isso eles não deixarão que fique esquecido).
Além de jogadores de futebol, quem mais no país recebe mais de R$ 16.512,09? Mas daí a chegar a R$ 26.723,13? Teremos impacto anual de 124 milhões por ano na Câmara e R$ 12 milhões no Senado. Para piorar, na carona do trem da alegria, vem deputados estaduais e vereadores. Só os nossos 55 representantes da AL devem passar de R$ 11,564,76 para R$ 20.042,34 mil. E Ministros do STF, que tradicionalmente não gostam de ficar para trás, devem pressionar e muito para que os vencimentos passem para R$ 30.674,00. E com eles, o restante do judiciário também receberá reajuste.
Proponho uma troca: o salário dos políticos aumenta mais dez mil além desse aumento, desde que sejam cortadas as verbas de gabinete, auxílio-moradia, passagens aéreas, serviço postal e telefônico e os gastos com escritórios regionais (essas cortesias que eles mesmos se deram e que fazem o gasto com os parlamentares ultrapassarem os R$ 100 mil por mês). Enquanto isso, professores, brigadianos, servidores públicos dos mais baixos escalões, precisam se ajoelhar e implorar por 6 ou 7%. É dose! É mesmo para querer esquecer! E esta é a impressão que fica: poucos se importam. Agora, deixa o Inter aumentar o salário do Alecsandro para ver se a chiadeira não vai ser grande....

publicada em 18-12-10

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