terça-feira, 30 de agosto de 2011

“Lei de Puzo”

Estou finalizando a leitura de um livro do Mario Puzo, o mesmo autor de “O poderoso chefão”. O título, em português, é “Os tolos morrem antes”. Apesar de ser uma obra publicada em 1978, é bastante atual. A história trata de um órfão, que sonha ser um escritor famoso e que descobre que, para subir na vida é preciso ser vigarista. A história se passa entre Nova Iorque, Las Vegas e Hollywood, ambientada especialmente na parte “podre” do serviço público, da política, dos cassinos e da indústria de filmes. Não vou falar mais sobre o enredo. Vá para a biblioteca, a livraria ou o computador mais perto.
O que quero abordar é a clareza com que Puzo expõe certas idéias. A premissa que mais chama a atenção é a de que ninguém consegue enriquecer sem “favores”, sem desviar dinheiro, sem sonegar impostos, sem tirar do caminho alguém que possa atrapalhar determinados planos. A impressão que fica é de que nossa sociedade é sistematizada para privilegiar os vigaristas. Mas não um simples vigarista, daqueles que passa a perna nas pessoas uma só vez. Pelo contrário: segundo o autor, bom vigarista é aquele que consegue ganhar nas costas da mesma pessoa durante a vida inteira. Aqueles que aceitam suborno, aqueles que fazem o trabalho sujo para os mais poderosos, e que parecem sempre estarem prestando auxílios (favores) de forma sem interesse é que são os bons vigaristas.
É um ótimo romance (gênero romance, e não história de amor, apesar de conter muitas passagens sobre relações entre homens e mulheres, e algumas entre mulheres e mulheres, ou homens e homens). O livro provoca mesmo uma reflexão sobre a sociedade, sobre a natureza humana em querer se dar bem (ser virtuoso exige mais esforços e privações), e me faz pensar se vale a pena mesmo ser bonzinho, pagar impostos, ser um bom cidadão, se quem consegue aproveitar os confortos materiais são aqueles de conduta inadequada.
Por outro lado, a obra já adverte no título que não é qualquer um que pode se dar bem o tempo todo. “Os tolos morrem antes”. É um jogo perigoso. E é aqui que eu quero chegar. Vejamos nossa política. Dificilmente algum dos nossos representantes eleitos pelo voto escapa ileso de alguma denúncia. Alguns são mais hábeis do que outros na hora de dar a volta nas suspeitas. Ainda hoje, a maioria escapa. Mas nunca sem ter o currículo manchado. O último grande exemplo que prova que Puzo tinha razão, é o já ex-ministro da Casa Civil, Antonio Palocci. Por mais blindado que tenha sido pelos colegas da base aliada, por mais que o procurador-geral da República tenha arquivado os pedidos de investigação, o estranho aumento de patrimônio em 20 vezes em apenas quatro anos derrubou o ministro. Mesmo que a desculpa do próprio para a saída de um dos mais importantes cargos do país tenha sido a de não prejudicar o governo. Talvez, a intenção tenha sido a de não repetir um ex-ocupante da pasta, o senhor José Dirceu. Talvez, tenha é medo de que saia mais esqueletos do armário. Mas, no fim das contas, o resultado é o mesmo da “Lei de Puzo” (eu quero acreditar que essa lei procede), quase um auto (com fim moralizante): mais cedo ou mais tarde, mesmo que metaforicamente, os tolos morrem antes.

09-06-11

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