Há cerca de oito meses, montei um bar em Porto Alegre. Muitos amigos acharam que eu estava ficando louco, outros me diziam que eu estava realizando o sonho deles. Sem dúvida, era uma experiência completamente nova. E um tanto diferente do que eu esperava.
Sempre gostei da noite. E sempre tive a certeza de que as pessoas mais interessantes, inteligentes, cultas, com opinião também gostassem. Esperava isso porque meus principais ídolos, seja da literatura, do jornalismo, da política ou da música, foram (ou são) grandes boêmios. Não é necessário enumera-los, basta pensar no século ou década que se encontram dúzias de grandes personalidades que gostava de um bar. O que não levava em conta é que, infelizmente, para cada pessoa diferenciada que se encontra na noite, há milhares de outras com um “currículo” não tão bom.
Não que não esperasse não conviver com essas “criaturas”. Meu sócio já havia advertido por conhecer a freguesia (na verdade eu mesmo era cliente do antigo bar dele, que ficava na esquina de casa), que ele chama de “diabedo”. Com o tempo, eu também adotei o termo de forma “carinhosa”. Até porque a quantidade de viciados, traficantes, vigaristas, desocupados e corruptos (sobretudo policiais!) que se conhece não é pequena. E todos têm histórias de vida semelhantes de qualquer conhecido seu.
Nesses meses, perdi mais minha inocência do que quando descobri que não tinha sido a cegonha que me trouxe para esse mundo. Não que tenha me envolvido nas práticas escusas de cada uma dessas pessoas. Mas porque, efetivamente, descobri que essas atividades marginais não escolhem cor, idade, classe social, etc. Para quem convivia mais tempo geralmente com pessoas sem essas práticas, foi um choque. Especialmente por causa das drogas: o que antigamente chamava-se de exceções, já virou regra há muito tempo.
E o pior: as pessoas chegam perto de você sem causar medo algum. São sujeitos “boa praça”, de fala mansa, divertidos, que não botam banca, e que são respeitosos. Na rua em que eu morava, e onde montei o estabelecimento, ninguém assaltava, roubava carros ou praticava qualquer crime. Caso acontecesse, os traficantes mostravam poder de polícia. No meu bar mesmo, a ordem era comportamento, porque os traficantes gostavam do ambiente e não queriam problemas, especialmente porque sabiam que nem eu nem meu sócio éramos do “metiê”. Um sujeito que quase chegou às vias de fato com a própria mulher no meu bar foi impedido, não por mim, mas pelos traficantes de freqüentar o local.
Vocês acham que eu iria impedir eles de freqüentar o bar? Só se eu quisesse perder 90% da freguesia. E não era porque era o meu bar: conversando com outros proprietários, inclusive de bares de classe A, o resultado é o mesmo. O uso de drogas, assim como alarma por atingir tanta gente, é silencioso porque quem deve teme. Não há conflitos. E é assim que o tráfico avança. Na “manha”, de cara limpa e com um sorriso no rosto, ocupando os lugares que menos se espera. Foi dessa maneira que se foram os resquícios da minha idéia de que os traficantes e usuários fossem pessoas do mal, como eu pensava quando tinha 15 anos. E acho que, por pensarem da mesma forma de quando eu tinha uma década e meia de vida, que as autoridades não conseguem acabar com essa doença da nossa sociedade. Mas isso é assunto para outra coluna...
05-08-11
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